quarta-feira, 1 de julho de 2009

Blade Runner Ano 3: A Incógnita



E já lá vão dois anos desde que resolvi criar o Blade Runner. Dois anos que ficaram – há que reconhecê-lo – muito abaixo das expectativas, se não dos leitores, pelo menos das minhas. Ser-me-ia confortável observar que o mal foi generalizado. Alguns dos principais blogues da área do Fantástico, Os Cadernos de Daath, o Efeitos Secundários, o Stranger in a Strange Land, diminuíram, também, acentuadamente, o ritmo de publicação, traduzindo aquilo que penso ser um acréscimo de trabalho profissional que impossibilita os seus autores de dedicarem mais tempo à escrita virtual. Isso é visível também no Lâmpada Mágica, com o Jorge Candeias a dedicar-se em exclusivo à tradução. É um factor importante, mas meramente descritivo. No meu caso, um acumular de compromissos profissionais e pessoais (traduções, críticas, redacção de ensaios, escritas um pouco por todo o lado, a par da minha actividade profissional no foro) impuseram o caos na minha capacidade de manter-me a par com lançamentos, eventos, novidades, quanto mais a actualização regular deste blogue.


Por outro lado, não posso deixar de pensar que este estado de coisas reflecte um outro dado essencial: o mercado do Fantástico, apesar de toda a aparente pujança, não existe para os autores nacionais. Pese embora a falta de números “oficiais” (e muitas vezes, mesmo de números oficiosos), parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita, vendo-se obrigado a complementar – se não mesmo a assegurar – os seus rendimentos, por outros meios. Para os que escrevem habitualmente, como o David Soares e o Luís Filipe Silva, a tradução parece ser o principal refúgio. Aliás, creio que se fizermos um apanhado de TODOS os autores portugueses da área FC&F, chegaremos à conclusão de que todos eles ganham mais a traduzir a escrita de outros do que com a sua própria. Note-se – sempre é uma forma de estarem próximos daquilo que gostam de fazer, ao mesmo tempo que é um meio para aprimorar as suas próprias técnicas de escrita. Mas não deixa de ser, também, um factor de preocupação, num mercado livreiro que, ao que parece, tem feito fortunas com o género (Rowlings na Presença, Paolini na Gailivro, Tolkien na Europa-América e, em grau menor, Martin na Saída de Emergência), encontrando nesses autores uma espécie de apólice de seguros mais ou menos fiável para um eventual período de vacas magras.


Isso leva-me ainda a uma outra e deprimente observação. Empoleirado desde 2000, como Humpty Dumpty, no muro que divide os fatalistas (João Barreiros et al.) dos optimistas (ainda que moderados – Candeias et al.), não mais me é possível equilibrar entre as duas posições. And not all the king’s horses, nor all the king’s men, can put me back up there again. Verdade seja dita, sempre pendi mais para o lado dos fatalistas, mas creio que agora se trata de um facto inegável: a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica.



É certo que o Horror não está melhor. Se descontarmos o surto de publicações comemorativas do bicentenário de Poe, o trabalho cadenciado de David Soares, e a tradução mais ou menos regular dos títulos de Stephen King (pontilhados pela publicação esporádica de um outro tímido título de horror), complementados pelos clássicos em domínio público que a Saída de Emergência e a Presença vão publicando com alguma regularidade, o género está tão desvitalizado como uma múmia privada das folhas de chá de tana. Nota-se-lhe, porém, uma latência que lhe permite algumas esperanças no curto ou médio prazo, mas nada que justifique um grande optimismo, sobretudo quando o género está a ser deturpado no arrasto da irracional febre gerada pelos medíocres pastiches de Stephenie Meyer. Podemos esperar o afloramento de alguns títulos de Laurel K. Hamilton por duas editoras distintas, um punhado de bons títulos que vão surgir na Saída de Emergência (e o irritante que é termos que estar sempre a falar das mesmas editoras, pois são elas que levam aos ombros os géneros do fantástico), mas nada dos milhares de títulos essenciais a qualquer biblioteca do horror publicado após 1950. É um desfasamento inultrapassável.


Da Fantasia mais vale nem falar. Os números traduzem a sua vitalidade, mas escondem a verdade: e a verdade é que também não existe um mercado de Fantasia em Portugal. Existe apenas a exploração exaustiva de um sub-género impuro da Fantasia que, à falta de designação universalmente reconhecida, podemos chamar Imitação Derivativa de Fantasias de Poder Adolescente.


Irónico, por isso, que se cumpram este mês setenta anos sobre o início da chamada Golden Age da Ficção Científica (1938-1946), o período em que a literatura de ficção científica evoluiu ao ritmo da batuta de John W. Campbell ao leme da Astounding Science Fiction. Embora Campbell tenha assumido a direcção da Astounding em Maio de 1938, à falta de uma data “oficial”, e em retrospectiva, o fandom vem reconhecendo como momento fundador o da publicação da edição de Julho de 1939 dessa revista. Nesse número, surgia a noveleta Black Destroyer de Van Vogt, um dos textos mais influentes do cânone da moderna FC (e inspiração directa do filme ALIEN que Ridley Scott realizou em 1979 – lá andamos com os anos terminados em nove), primeira publicação do autor, e também Trends, o primeiro conto que Asimov publicou na revista que o tornaria o mais conhecido autor de FC de sempre. (Nestas coisas das coincidências, Trends foi um dos contos, escrito e publicado 30 anos antes da alunagem da Apollo 11, que escolhi para a antologia comemorativa desse evento que a Saída de Emergência faz chegar às livrarias no próximo dia 10). No número seguinte, o de Agosto, surgiria na mesma revista o conto Life-Line, a estreia literária de Robert A. Heinlein (de que falaremos aqui brevemente), abrindo um período de exclusiva predominância da Astounding de Campbell – período que se estenderia até 1946, data da publicação da célebre antologia de Healy e McComas. A propósito, e de acordo com as memórias do bom doutor (In Memory Yet Green: The Autobiography of Isaac Asimov, 1920-1954, Doubleday, 1979) o número de Julho de 1939 da Astounding chegou aos escaparates no dia 22 de Junho desse ano, permitindo datar de forma ainda mais precisa essa efeméride.

Daí que, por tudo quando acima se deixou dito, para este novo ano de actividade bloguística, não faço planos. Continuarei a falar de pulp fiction, preenchendo a lacuna do que prometi no ano passado, de filmes e de séries de televisão (idem aspas), procurarei levar ritmadamente a série de homenagens ao trabalho de Heinlein, e falar um pouco mais de livros e das suas traduções. Será um ano de incógnitas, de caminhos bifurcados, ao gosto de Borges, com pelo menos dois carreiros a serem explorados no curto/médio prazo.



Por um lado, e à laia de celebração do quadragésimo aniversário da Alunagem, proponho-me explorar, num outro blogue, as várias representações dessa viagem à Lua conforme esta foi imaginada pelo cinema e pela televisão entre 1902 e 1969. Será uma viagem com partida prevista para data incerta, algures entre 16 e 20 de Julho (datas, respectivamente, em que a missão Apollo 11 partiu de Cape Canaveral e chegou à Lua), e que se estenderá, lânguida, ao sabor da disponibilidade de tempo e de material. Será, portanto, uma viagem com final em aberto, mas que pretendo tão exaustiva quanto possível.


Já a partir de hoje (bom, convém dar margem de manobra, uma vez que até ao próximo dia 15 tenho ainda imensos prazos pendentes; daí que este hoje deva ser entendido num sentido mais lato do que o habitual) a minha atenção dividir-se-á entre o Blade Runner e um outro blogue dedicado, em exclusivo, ao cinema de Horror. Podem acompanhá-lo, aqui.

Assim, convido-vos desde já a embarcar comigo neste terceiro ano de actividade, e a descobrir onde – e se – nos levará a algum lado. Neste momento, your bet is as good as mine.

A sátira dedicada a Twilight, foi retirada daqui.

11 comentários:

Correio do disse...

Serei o primeiro, de muitos certamente, a dar os parabéns ao Blade Runner, na pessoa do seu autor! É, a par do Tecnofantasia, o meu blogue favorito, em muito devido à qualidade dos textos de análise, sejam de livros ou de outra forma de arte do fantástico, também devido à atenção especial dada a uma faceta mais histórica da literatura fantástica, como prova a análise de um livro por dia na qual muito aprendi!

Espero que este seja um bom terceiro ano do B.Runner! Será também muito bom acompanhar o teu trabalho no blogue que referes, e, quem sabe um dia, um dos meus sonhos se realizem e possas também dar um "saltinho" ao correio:)

Um abraço

Roberto Mendes

Safaa disse...

Pois, é com pesar que tenho que te dar razão relativamente à diminuição da minha actividade bloguística, em especial desde Maio (mais precisamente desde a Feira do Livro). A minha vida profissional está a tornar-se cada vez mais exigente, mas ainda assim não desisto do blogue e preciso apenas de repensar certas coisas.

Quanto à tua análise do panorama, também tenho que te dar razão, embora eu veja mais sinais positivos do que tu. Tem-se dado o crescimento de uma comunidade de leitores de fantástico, já não limitada à fantasia derivativa e cada vez mais exigente. E os leitores de hoje poderão ser os escritores de amanhã, é o que gosto de pensar...

Possa dizer a favor da minha entidade patronal (Saída de Emergência) que vamos apostar em grande na ficção científica em 2010 com a publicação não só de clássicos, mas obras contemporâneas. Ainda este ano será lançado o "Darwinia" de Robert Charles Wilson.

Mas sim, é um facto que são sempre as mesmas editoras e é um facto que a SdE teria todo o gosto em publicar ainda mais autores e obras de literatura especulativa, mas não existe em Portugal ainda um público de dimensões razoáveis que consuma um grande número de títulos por ano.

João Seixas disse...

Olá Roberto e Safaa:

Muito obrigado aos dois pelos comentários e pelos parabéns.

Roberto: Fico muito satisfeito por ver o Blade Runner ombrear com o Tecnofantasia nas tuas preferências de leitura. É um incentivo a actualizá-lo com mais frequência.

E ainda bem que gostaste dos 30 DIAS/30 LIVROS. Estava a pensar tornar essa experiência numa recorrência anual, em Novembro. Vamos ver... pode ser que este ano se repita.

Quanto a visitar o Correio - presumo que como mais do que leitor - who knows?

Safaa:

Espero que comeces a actualizar o Stranger com mais regularidade (who I'm I to talk, right?), e espero que te decidas por aquela outra ideia que anda a pairar há tanto tempo.

Quanto ao panorama do Fantástico, admito que possa ter uma perspectiva mais negra do que a realidade, mas já há muito aprendi que a realidade se mascara por vezes com cores garridas para nos enganar. É certo - e sabes que eu sei - que a SdE tem na calha alguns livros bastante interessantes, mas também sabes que a maior parte das vezes são publicações que partem mais da teimosia do(s) Editore(s)da SdE do que propriamente de apostas de mercado com venda garantida.

Já no que diz respeito à nova comunidade de leitores, é verdade que se vê alguma actividade alheia ao "grupinho habitual" e que se manifesta em vários blogues e grupos virtuais.

Mas isso não escamoteia que a seminal lista FICÇÃO CIENTÍFICA (criada pelo Candeias em 1999/2000) está completamente morta e inane.

Por outro lado, com exepção dos RASCUNHOS da Cristina Alves, são raríssimos os blogues/sites que se referem à actualidade do Fantástico em língua original. E, por muito optimistas que queiramos ser, uma comunidade, por muito activa e dedicada que seja, que se limite às traduções que são publicadas cá NUNCA será uma comunidade capaz de gerar um sentido crítico e um núcleo de leitores com capacidade de discriminação qualitativa para poderem assegurar uma renovação do pool de autores de língua portuguesa.

Mas é, sem dúvida, uma questão que interessa - diria mais, urge - debater no futuro. Quem sabe, até numa Tertúlia Inter-bloguística.

Abraços,

Octávio dos Santos disse...

Caro João,

Antes de mais, parabéns: pelos dois anos do Blade Runner (que eu visito praticamente todos os dias, tal como o TecnoFantasia e o Cadernos de Daath); pela antologia «Com a Cabeça na Lua»; por todo o esforço e entusiasmo que tens dedicado à «causa» da FC & F em Portugal, enquanto autor, tradutor, crítico, divulgador...

Porém, e precisamente, eu (e também outros admiradores teus, suponho) gostaria muito de ver mais do João Seixas enquanto autor. Tens um grande talento, e, por exemplo, o teu conto «A noite das marionetas» d’«A República Nunca Existiu!» é uma das pequenas (em tamanho...) narrativas em língua portuguesa (e não só...) mais espectaculares que já alguma vez li. E eu quero acreditar que se entretanto tivesses conseguido reservar mais tempo para continuares a construir a tua própria obra... talvez não te sentisses tão pessimista, tão «fatalista».

Como decerto compreenderás, eu neste momento não posso pertencer a esse «clube». A edição, em Abril último, do «Espíritos das Luzes» constituiu para mim um «marco» muito importante... e estou esperançado que tenha igualmente um significado especial para mais algumas pessoas. Este meu livro não pode ser considerado, admito, «um livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género». No entanto, quero crer que também não é um «nado morto» e que talvez contribua (um bocadinho...) para tentar «ressuscitar» o «cadáver» (que, no fundo, até nem está morto, provavelmente só em «hibernação»...) Não sei se a expressão correcta neste meu caso é «escamotear à socapa no catálogo», mas admito que o «Espíritos...» pode estar a beneficiar do facto de estar inserido na mesma colecção dos livros da Stephenie Meyer (a «1001 Mundos», da Gailivro). Enfim, temos de ser pragmáticos e utilizar o que está à nossa disposição...

A Safaa recordou que «os leitores de hoje poderão ser os escritores de amanhã», e eu concordo. O talento (nacional) já existe, e poderá aumentar em quantidade e em qualidade.

Um grande abraço, e continuação do bom trabalho.

Rui Baptista disse...

Olá João,

Abordas muitos temas no mesmo tema. A ver se consigo organizar a ideias convenientemente…

“…parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita…”

Nem da área do fantástico e muito possivelmente de outra área qualquer… E este não um problema exclusivo dos escritores. Os músicos, os artistas plásticos, os actores, os realizadores e sabe-se lá quem mais. Em Portugal, lá fora não sei, é muitíssimo difícil viver da sua arte.

É muito comum falar-se do estado da Ficção Científica ou Fantasia portuguesa. Mas pelo menos fala-se dela. Da literatura de horror, essa nem sequer chega a ter um “estado”.

E aqui, tenho de concordar contigo. Além de um ou outro romance que lá vai surgindo timidamente, também muito timidamente lá vão surgindo alguns romances que são de domínio público. Serão mais baratos…

Quanto ao panorama, aqui tenho de concordar com a Safaa: “Tem-se dado o crescimento de uma comunidade de leitores de fantástico, já não limitada à fantasia derivativa e cada vez mais exigente. E os leitores de hoje poderão ser os escritores de amanhã, é o que gosto de pensar...”

Falaste da Saída de Emergência e Presença. E a Gailivro? Que tem vindo a editar algumas coisas? Poucas ainda, eu sei.

A terminar, falta-me falar da minha experiencia como “bloguista”. Sou editor do blog Bela Lugosi is Dead (http://belalugosiisdead.blogspot.com/), há dois anos e meio. Sei bem que nem sempre a nossa vida profissional, permite trabalhar no blog tanto quanto gostaríamos, mas com algum esforço, um grande esforço como bem deves saber, lá vamos conseguindo…

Não é nada fácil conseguimos acompanhar o que está a ser publicado cá, quanto mais o que vem de fora. Daí que isso esteja muito ausente. No entanto, quero tentar acompanhar ao máximo a nova colecção da Viz Media, Haikajouru. É apenas uma gota no oceano.

Cumprimentos e espero que o (excelente) trabalho que tens vindo a desenvolver, continue por muito anos,

Rui Baptista

João Seixas disse...

Olá Octávio!

Nem sei como agradecer as exageradas palavras de reconhecimento pela qualidade do que escrevo, embora façam claramente bem ao ego.

E, claro, gostava de poder escrever um pouco mais e publicar um pouco mais, mormente os títulos prometidos e atrasados para além de qualquer tolerância que possa esperar dos meus (eventuais) leitores e dedicados editores, quanto mais, por vezes, co-autores (falo, claro, da ALMA DO LOUVA-A-DEUS e dos ZEPPELINS SOBRE LISBOA). Se tudo correr bem, o que resta de ano servirá para pôr termo aos atrasos que se vêm acumulando e iniciar novos projectos. Knock on wood.

Quanto ao ESPÍRITOS DAS LUZES não é, obviamente um livro de FC pura e dura, mas não é também um dos livros escamoteados à socapa nos catálogos - com essa expressão, queria referir-me sobretudo aos Valerio Evangelisti que a Asa publica como se surgidos num vazio genérico, ou o Joe Hill que a Civilização atira assim sem mais para os escaparates, etc...

O teu ESPÍRITOS DAS LUZES afigura-se-me uma aposta muito interessante (que, infelizmente, não tive ainda tempo de ler) e que saiu numa fase de total inactividade aqui no Blade Runner. Mas a verdade é que - embora um dos exemplos meritórios de apostas em livros mais ousados em termos do que se publica normalmente do género - a par de outros títulos como o BRASIL e o AR - não são suficientes para inverter o declínio da frequência e qualidade das publicações de FC, Fantasia e Horror.

Quanto ao surgimento de novos autores no futuro próximo, e pelas experiências que tenho tido a nível de participação como jurado nos concursos do CTLX/CHIMPANZÉ INTELECTUAL e PRÉMIO BANG!, reservo-me o direito de permanecer céptico... mas, obviamente, esperançoso. Dizem-me de fonte segura que a antologia PULP FICTION À PORTUGUESA que a SdE vai publicar este ano inclui alguns contos muito interessantes. Esperemos que sim e que as coisas comecem a melhorar.

João Seixas disse...

Olá Rui, e obrigado também pelos teus comentários.

Uma vez que procedeste a uma certa escalonagem dos teus comentários, vou acompanhar de perto a estrutura.

E dizes tu: "Em Portugal, lá fora não sei, é muitíssimo difícil viver da sua arte."

Sim, eu sei disso, e tal como adiantas também, isso acontece em todo o lado - se exceptuarmos os casos extraordinários da Música, do Futebol, do Cinema e dos Videojogos. Diz-se que mesmos nos Estados Unidos, são muito raros os autores de FC&F (ou mesmo de autores em geral) capazes de viver exclusivamente da sua escrita. Mas o que distingue esses casos do caso nacional, é a existência de um mercado editorial que, pelo menos, vai permitindo "algum" rendimento. Um dos sintomas de reconhecimento desse problema é a falta de profissionalização da escrita. Ou seja, não é tanto a impossibilidade de sobreviver da escrita, mas a própria "impossibilidade" de obter um rendimento´, por mínimo que seja, da escrita. E se é certo que a situação vem mudando progressivamente - casos da Presença, da Saída de Emergência e, presumo, que da Gailivro, que vão pagando aos seus autores - a verdade é que ainda existe, num grau demasiado excessivo, uma cultura de amadorismo.

Um dos exemplos disso é o facto de inexistir qualquer publicação periódica que pague aos seus colaboradores pela execução de um trabalho. Revistas como a BANG! ou a nova DAGON são publicações que nascem do entusiasmo dos seus editores e sobrevivem do entusiasmo dos seus colaboradores. Há aqui uma lógica perversa, que leva a que a BANG! seja objecto de milhares de downloads (que certamente não serão todos lidos, mas enfim) mas não se consiga aguentar em formato impresso, ainda que por um preço módico. A mensagem é clara. Ninguém quer saber do que se publica na BANG! a não ser que seja pago, e somos nós (incluo neste nós, aqueles que para ela contribuem pro bono, e aqueles que a editam com trabalho e sacrifício sem obterem qualquer retorno) que assegurams a sua existência porque achamos que deve existir uma revista assim (palavras extensíveis ipsis verbis à DAGON, como o são aos extintos DRAGÃO QUÂNTICO e FANTASTES, entre outros). E seja referida a honrosa excepção da NOVA que é o único caso que conheço de uma publicação semelhante que paga(va) aos seus colaboradores.

No caso da publicação em formato "livro" (romances, colectâneas de contos, etc...), o pagamento é geralmente feito através de uma percentagem de royalties sobre o apuro das vendas. Só em casos muito contados as nossas editoras recorrem a um advanced payment pela escrita do livro. O que quer dizer que - refiro mais uma vez, salvo casos contados - o autor tem que trabalhar durante meses na escrita de uma obra, e depois aguardar entre seis meses e um ano após a publicação, antes de receber um tostão pelo que escreveu. O que o obriga a ter uma actividade paralela, para poder pagar as contas, o que implica ou uma maior demora da escrita da obra, ou uma menor qualidade de escrita. Em qualquer dos casos, sempre uma diminuição da frequência da publicação.

No entanto, esses mesmos editores que pagam um preço bastante aceitável por uma tradução, não pagam, por exemplo, esse mesmo preço pela escrita de um original (o que seria uma forma de aumentar a frequência e a qualidade do que se escreve).

É evidente que a culpa não assenta exclusivamente nas editoras, sendo atribuível - quiçá em maior parte -à existência de um público leitor sem capacidade de descriminação porque não está "educado" para a literatura genérica. Um público que apenas compra o "mais do mesmo".



(Continua no próximo comentário)

João Seixas disse...

(cont.)

O que nos leva mais uma vez à esperança de que os leitores de hoje sejam os escritores de amanhã. É possível que sim, como já o disse; mas acreditaria muito mais nisso se houvesse uma profissionalização do mercado, e que essa profissionalização fosse levada a cabo por editores capazes. Seria, claro, um processo de décadas (entre uma e meia e duas, numa perspectiva optimista), mas alcançável desde que tivéssemos pelo menos um Campbell.

Porque, sem isso, o que assistimos é a uma multiplicação estagnada: leitores que escrevem igual àquilo que lêm, porque tudo o que lêm é igual. Exemplo claro do que sucede nas CRÓNICAS DE ALLARYA das quais foi publicado agora o sétimo volume e que continua a apresentar os mesmos problemas e os mesmos defeitos a nível da estruturação e da escrita que marcavam o primeiro volume há sete anos atrás.

Dizes ainda: "Falaste da Saída de Emergência e Presença. E a Gailivro? Que tem vindo a editar algumas coisas? Poucas ainda, eu sei."

Como diria esse grande filósofo do século XX, Sylvester Stalone, a Gailivro é parte da doença, e não da cura. Desde que encontro o pote do ouro no Cristopher Paolini, radicou o seu catálogo numa sucessão quase ininterrupta de imitações a-literárias, das quais o expoente máximo é a Stephenie Meyer, interrompidas apenas por algumas anomalias como o BRASIL, o AR, ou o John Scalziq que o Luis Filipe Silva está a traduzir, e algumas apostas nacionais honestas como o ESPÍRITOS DAS LUZES ou o ciclo do CEPTRO da Inês Botelho.

É evidente que eu não posso censurar a Gailivro por querer maximizar o seu lucro - afinal, essa é a sua função e objectivo. Mas quando um catálogo se resume quase exclusivamente à imitação derivativa dirigida a um mercado de leitores adolescentes, sem qualquer tentativa de melhorar esse mercado, não merece que eu a coloque no rol das editoras mais entusiastas do género.

E note-se que a própria Presença está também a homogeneizar demasiado por baixo o seu catálogo.

Mas, tudo pode mudar de um dia para o outro no panorama editorial, e o ano que passou foi bem exemplo disso.

"A terminar, falta-me falar da minha experiencia como “bloguista”."

Conheço muito bem o BELA LUGOSI IS DEAD, que leio diariamente e que é o blogue com o título que mais invejo na blogosfera nacional. E, claro, reconheço o esforço de divulgação que leva a cabo, mesmo sem ter tempo de abordar extensivamente a actualidade do fantástico intra e extra-muros. Mas, e espero que encares isto como uma crítica "construtiva", a falta de uma perspectiva crítica estruturante do blogue diminui um bocado o seu papel, e impede-o de se tornar o blogue de referência do Horror nacional por excelência.

Mas acho que vai no bom caminho e saberá conquistar essa posição mais cedo ou mais tarde. A vontade, pelo menos, está lá.

Um grande abraço a ti e ao Octávio, e continuem ambos com o trabalho e o entusiasmo que também dedicam ao género. Fazemos todos falta, como dizem os cartazes da Manuela.

n.fonseca disse...

Parabéns a ti João pela actividade do Blade Runner, e já agora também por tudo o resto.

E agora minha nota pessoal:

Sempre pensei, e continuo firme nessa opiniao, de que há um bom público leitor de FC potencial, mas que o principal problema é de imagem, ou seja de as editoras investirem no marketing dos seus autores e obras. Na minha experiencia, há anos e anos que encontro pessoas que já leram FC, que gostariam de ler mais, e que se sentem na situação dos 3 macaquinhos - não ouvem, não vêem...e não falam porque não sabem do que falar mesmo. Pouca gente sequer vê que há livros de FC publicados cá (e ainda hoje quase toda a gente só se lembra da argonauta e da E-A), e quanto a existirem autores nacionais...a resposta costuma ser de espanto ("ai ah?! a sério? nunca vi!" etc.) O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios. E a promoção de qualquer livro, então hoje, seja FC ou não, é absolutamente indispensável para que ele singre nas vendas. De nada vale publicar um bom livro como o "Brasil" (ai o Y...)e deixá-lo morrer nas estantes sem promoção nenhuma. A ideia de lançar um livro para o mercado a ver o que dá, só na Terra do Nunca (e na do Bambúrrio) é que ainda dá dinheiro...se as vampiragens vendem é porque são promovidas, porque a imagem é vendida por todo o lado, e o mesmo se aplica a ovnis Da Vincianos. O exemplo referido de a Bang! não se ter aguentado como publicação impressa é linearmente explicada em termos de marketing (más escolhas quanto ao "pacote" do produto, sua comercialização e sustentação, etc.) e falar de não existirem leitores não o explica nada a montante do problema, sendo apenas um corolário falsamente extraído - há leitores, apenas não se conseguiu chegar a eles com aquele produto.

Para mim o mal é essencialmente este. Depois os acessórios: a não existência de um mercado de periódicos e a não-profissionalização da escrita, como bem referiste. Porém, este é um mal demasiado geral a todo o mercado literário português, e de modo nenhum se limita à FC ou ao Fantástico; já perdi a conta às editoras, prémios e publicações periódicas, impressas ou electrónicas, que "aceitam", "pedem", ou que mesmo "impõem", contribuições de borla. Depois admiram-se que não há grande qualidade no output, ou poucas submissões; depois admiram-se de morrerem quase todas de morte macaca. Em todos os mercados a qualidade paga-se, nem que seja modestamente, nem que seja de início. No pain, no gain: há que investir para ganhar, promover para ganhar e sustentar, etc. etc. O certo é que o nosso mercado editorial é um velhinho de mão estendida, à espera que lhe caia uma bomba curvilinea de 20 anos. E como a vida nos ensina, para ter alguma coisa só indo à luta...ou bem se pode ficar sentado há espera pela única ou duas que o acaso há-de mesmo fazer cair ao colo. Não é por acaso que a FC, bem como quase todo o mainstream português também anda pelas ruas da amargura a nivel de qualidade: isto é um sistema gangrenado. É urgente ouvir bem o mercado e ir-mo-nos a eles com a espada em riste e gritos de Santiago e S. Jorge, para usar uma bonita imagem à moda.
Concluindo, penso que há lugar para algum optimismo. Nem que seja porque tudo é cíclico. Mas penso ser evidente que estes três últimos anos assistiram a um modesto mas importante crescendo no Fantástico e na FC em particular. Aos tropeções mas vai. E o que é muito importante, vai-se formando cada vez mais a noção de comunidade alargada, e por aí, só coisas boas poderão vir no futuro.

Rui Baptista disse...

Muito rapidamente, quero dizer só que não me esqueci da nossa "discussão" aqui. Infelizmente tenho andado com mil e uma coisa para fazer e não tenho tido tempo para mais nada...

Até breve

Rui Baptista disse...

Olá João Seixas, vou saltar por cima de toda a discussão para pedir apenas que expliques a tua opinião em relação ao meu blog, "a falta de uma perspectiva crítica".

Não estou de forma alguma chateado com o teu comentário. Tomara eu que houvessem assim mais críticas ao meu trabalho e não apenas elogios - que reparto com os colaboradores.

Também gostava de colocar-te outras questões, mas essas terão que ser por email. Assim deixo o meu ruipedrobaptista@gmail.com

Rum abraço,

Rui