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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Um livro por dia: O COSMOS DE KICKAHA



Depois do último post, não tinha intenção de falar individualmente de O COSMOS DE KICKAHA, terceiro volume da série WORLD OF TIERS de Philip José Farmer, e segundo (e último) publicado pela Galeria Panorama na sua Série Antecipação. No entanto, é impossível resistir à tentação de expor um exemplo tão claro do que ali tinha deixado escrito quanto ao desrespeito pela continuidade dentro de uma mesma série.

Publicado escassos seis meses depois de ARMADILHA CÓSMICA, O COSMOS DE KICKAHA conta agora com tradução de Pires de Carvalho, o que é o suficiente para lançar o caos na continuidade. Assim, e respondendo à infeliz escolha de "deuses" como tradução de "Lords", Carvalho opta por "Senhores", o que sendo mais fiel à intenção original, em nada contribui para uma tradução elegante. No entanto, e de forma perfeitamente arbitrária, o mesmo Carvalho opta por converter o nome de uma das personagens principais - Chryseis - que Tereza Curvelo mantivera intocado do original, em Cheyseis, rompendo desnecessariamente a continuidade patronímica (e permitindo-nos supor que o tradutor não leu o volume anterior).

Sendo Farmer um dos meus autores de eleição - ou seja, daqueles a que volto uma e outra vez a intervalos regulares - é-me pessoalmente penalizador ver uma das suas séries mais curiosas (se bem que longe de ser a melhor, a mais intrincada ou a mais literária) ser assim (mal)tratada por uma colecção que poderia ter feito concorrência à Argonauta durante muitos e longos anos.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Um livro por dia: ARMADILHA CÓSMICA



Sem passado, sem futuro, e com o presente a esvair-se-lhe por entre os dedos, o leitor português de ficção científica não tem que enfrentar apenas a fraca qualidade das traduções, a frequentemente pobre escolha dos títulos, a escassez de exemplares ou a distribuição incerta, a duplicação de edições sob títulos distintos ou o mesmo título para obras diferentes, mas também o carácter fragmentário do que se vai traduzindo. Nomeadamente séries interrompidas, publicadas sem respeito pela ordem dos diferentes volumes, multiplicados em três ou mais tomos por cada entrega do original, muitas vezes entregues a uma multiplicidade de tradutores que não respeitam a continuidade dos termos, topónimos ou expressões.

O fenómeno não é recente e não deixa incólume nenhuma das editoras nacionais, do passado ou do presente. Por um lado, a aposta numa série nem sempre é acompanhada da necessária fidelização do público leitor; por outro, esse mesmo público leitor volta as costas aos esforços editoriais.

Consideremos Philip José Farmer. O autor de Terre Haute, Indiana, que cumpriu este ano o seu nonagésimo aniversário, é um dos poucos escritores que consegue escrever primorosamente na FC, na Fantasia, na Science Fantasy, no Scientific Romance, no Policial, na Pornografia, no Horror, no ensaio e na falsa biografia (de que escreveu duas excepcionais: a de Tarzan e a de Doc Savage). É, além do mais, um dos poucos autores ainda vivos que consegue escrever ao estilo do genuíno pulp, sem necessitar de reproduzir os seus defeitos, indubitavelmente fruto de um amor e de um entusiasmo quase juvenil pela literatura de género, que o isenta de nela escrever com sobranceria ou consciência do carácter menor que muitas vezes lhe é atribuído. Vejam-se os contos pretensiosamente pulps escritos por Michael Chabon, Michael Moorcock, Jeff Vandermeer, Mike Resnick et al. para compreender a diferença. Talvez apenas Ron Goulart e Joe R. Landsdale (ou mesmo Kim Newman) consigam ombrear com Farmer.

ARMADILHA CÓSMICA, número 26 da Série Antcipação da Galeria Panorama foi publicado em 1969 em pleno vazio referencial. O leitor que então o encontrasse na livraria provavelmente não saberia que acabava de adquirir uma das obras incluídas na série The World of Tiers (7 volumes entre 1965 e 1993, dos quais apenas 3 foram publicados em Portugal). Nada no texto da contracapa o informaria da verdadeira natureza do livro, pois este é apenas a transcrição do primeiro parágrafo da obra. E, certamente, ninguém lhe diria que esta tradução de THE GATES OF CREATION (1966) é na verdade o segundo volume dessa série, dando continuidade às aventuras de Wolff/Jadawin no universo de múltiplos universos de que o World of Tiers é apenas um.

Jadawin é apenas um dos vários Lords que são senhores da criação destes vários universos de bolso, cada um deles governando o seu próprio planeta - construções artificiais que acompanham o gosto pessoal dos seus criadores (em A PRIVATE COSMOS, 3º volume da série, aprendemos que Jadawin, a pedido de Kickaha - herói por excelência do 3º e 4º volumes, embora intervenha também no primeiro - tentou reproduzir na Lua do World of Tiers o Marte de Burroughs que incendiava a imaginação daquele Kickaha quando vivia ainda na Terra). Ora, Tereza Curvelo, tradutora deste volume, escolheu traduzir aquele Lords por Deuses, dando azo, logo na 1ª página, a uma frase como: "Foi então que os Deuses descobriram que até eles, criadores de universos, possuidores de uma ciência que os colocava apenas um degrau abaixo dos deuses, necessitavam sonhar".

A Galeria Panorama viria a publicar A PRIVATE COSMOS, sob o título O COSMOS DE KICKAHA em 1970. A colecção não chegaria a publicar o quarto volume da série, BEHIND THE WALLS OF TERRA surgido em língua inglesa nesse mesmo ano. ARMADILHA CÓSMICA e o COSMOS DE KICKAHA contam duas narrativas independentes - a de Jadawin e a de Kickaha - que decorrem em simultâneo, unindo-se no final de ambos os volumes para darem origem à narrativa subsequente, passada na Terra, na Califórnia de 1970. Os laços estreitos que unem Jadawin e Kickaha, e que justificam esta última aventura, são estabelecidos no primeiro volume, que os leitores da Série Antecipação nunca puderam ler...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um livro por dia: A AMEAÇA DO INFINITO



As colecções de literatura de género agregam em si a promessa de uma uniformidade de conteúdos e temáticas que permitirão simultaneamente fidelizar um grupo alargado de leitores e oferecer (idealmente) uma selecção do que melhor esse género tem para oferecer. Até meados da década de sessenta do século passado, a única colecção de literatura de ficção científica - e para lá dela, só o policial encontrou semelhante acolhimento, sendo todas as demais experiências efémeras - digna desse nome era a Colecção Argonauta da Livros do Brasil. Colecção que manteve a supremacia durante quase quatro décadas, até terem surgido primeiro a FC de Bolso da Europa América (1978) e depois a Colecção Azul da Caminho (1984). Pese embora a repetição de alguns títulos e autores entre a Argonauta e a Europa-América, as três colecções complementavam-se de uma forma impossível de repetir hoje em dia quando todas as editoras competem pelo mesmo e a ideia de colecção parece definitivamente posta de parte.

Nesse período que antecedeu o nascimento das principais concorrentes/companheiras da Argonauta, e pese embora várias tentativas de criar colecções temáticas de ficção científica (e já aqui falamos das Colecções Órbita e Galáxia), apenas a mítica Série ANTECIPAÇÃO (1967) da Editorial Panorama, dirigida por Lima Rodrigues, chegou a ameaçar consolidar-se como concorrente directa. Com uma selecção criteriosa de autores e títulos, pecava por uma tradução desastrosa (frequentemente a cargo do não menos mítico Eduardo Saló) e uma distribuição deficiente (provavelmente aliada a uma tiragem limitada) que faz com que os 69 volumes editados sejam encontrados com menor frequência nos alfarrabistas.

A AMEAÇA DO INFINITO, de Fredric Brown, foi o primeiro título desta colecção que viria a integrar alguns clássicos incontornáveis (e que fica a palavra, mesmo para quem não gosta dela) como The Left Hand of Darkness de Ursula LeGuin, a série World of Tiers de Philip José Farmer, Night Wings de Silverberg e uma generosa selecção de títulos de John Brunner, um dos mais injustiçados autores de FC de todos os tempos.

Um pouco também como Fredric Brown, um autor que viu uma série de títulos seus publicados entre nós, sem nunca ter obtido o reconhecimento que lhe é indubitavelmente devido. Dotado de um verdadeiro estatuto de autor de culto em França e nos Estados Unidos (mais ou menos como Dick), é sobretudo reconhecido pelo humor cortante e cruel das suas histórias curtas, verdadeiras pérolas de concisão e impacto narrativo. Embora as suas novelas não atinjam o mesmo nível de exelência das narrativas mais curtas, não são desprovidas de motivos de interesse, dentre os quais sobressai uma imaginação transbordante, capaz de alegorizar e literalizar as fabulações mais inesperadas. Se existe um equivalente literário de Tim Burton, esse é certamente Brown.

AMEAÇA DO INFINITO é a tradução portuguesa (sim, acometida das mesmas falhas de todas as traduçoes de Saló: "Tinham-se apaixonado há um ano, e seis meses depois decidiram casar. Avistaram-se com as respectivas famílias...) de The Mind Thing, a história de um alienígena incorpóreo que se vê "encalhado" no nosso planeta e que pretende regressar ao seu, ocupando sucessivos corpos humanos numa possessão fatal.

Oportunidade também para louvar a excelente capa de Richard Powers, um dos expoentes da ilustração de FC, com motivos que invocam as célebres ilustrações de capa que executou para os 14 volumes de J.G. Ballard publicados pela Berkley Books entre 1962 e 1977.

Um toque distintivo do livro, é a presença de uma gota de goma a unir a face exterior das páginas, garantindo a sua inviolabilidade ao potencial comprador. A Série ANTECIPAÇÃO, que revisitaremos mais vezes, ofereceu aos seus leitores algumas particularidade semelhantes, das quais é de destacar o recurso a um papel azulado, alegadamente para facilitar o esforço de leitura à noite (papel ainda não presente neste volume inicial).