Mostrar mensagens com a etiqueta Propósitos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Propósitos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de julho de 2015

BLADE RUNNER - ANO 8: O NÃO ANIVERSÁRIO

Há que reconhecer que o Blade Runner, nesta sua intermitência vital, neste perpétuo oscilar entre o abandono e a reanimação, começa a ser uma doentia ilustração daquela que venho apontando como sendo a característica essencial do Fantástico luso: o Eterno Recomeço. Algo que adquire contornos tanto mais preocupantes quando, relendo todos estes propósitos falhados, me apercebo de como poderia hoje escrever o mesmo que escrevi, por exemplo, em 2009: "a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica." E é lamentável constatar como as constantes lamúrias que vão aborrecendo o próprio que as profere, continuam actuais, continuam justificadas, continuam a resistir a todos os protestos dos optimistas que não deixam de repetir, "desta vez é que é".

Mas não é. Nunca é. Os projectos e as intenções, próprias e alheias, sucedem-se, de ano para ano, e são como rolhas à tona de um mar encarpado, ora emergem da espuma prenhes de esperança, ora desaparecem sob as ondas negras para não mais ressurgirem, deixando atrás de si mais lamúrias e mais queixumes e, sobretudo, mais porquês.

Cada vez mais me convenço, contra a minha própria vontade, contra o meu próprio querer, que a FC e os portugueses não têm muito em comum. É a síndroma do Comandante Silva feito carne e osso em cada leitor que vira as costas aos livros de FC nas prateleiras das livrarias (se ao menos eles lá estivessem). O mais curioso e deprimente é que isso acontece numa altura em que, praticamente todos os anos, surgem dois ou três excelentes filmes de ficção científica. É como se, ao contrário da Fantasia ou do Horror (ou do pseudo-horror, no caso de Stephenie Meyer - ainda alguém se lembra dela?), o cinema de FC estivesse separado da literatura num compartimento estanque que impedisse qualquer contágio, para o melhor ou para o pior.

O pior, por sua vez - porque nem tudo pode ser mau - parece ter diminuído um pouco. Com o desaparecimento de Meyer e Paolini (alguém ainda se recorda dele?), e mesmo de Harry Potter, a chusma de imitadores imberbes, incapaz de escrever bem ou de evoluir na sua escrita, desapareceu dos catálogos das editoras, reaparecendo apenas esporadicamente nas vanity presses. As editoras, sem esse poço de baixo custo, começaram a publicar obras que se assemelhassem mais aos grandes fenómenos de sucesso: quis a sorte que o maior de todos fosse a adaptação televisiva de A Game of Thrones de George R.R. Martin.

O fenómeno é interessante de ilustrar. Há exactamente 10 anos, em duas edições da revista "Os Meus Livros" (OML #26, Abril de 2005, e OML #33, Novembro de 2005), noutros tantos dossiers temáticos sobre a FC e a Fantasia que elaborei, redigi duas listas de 10 títulos de cada género que me parecia vergonhoso não terem ainda sido traduzidos e publicados em Portugal. Foram eles, para a FC:
1) O Ciclo Instrumentality of Mankind (1955-1966), de Cordwainer Smith
2) Stand on Zanzibar (1968), de John Brunner
3) Dangerous Visions (1967), editado por Harlan Ellison
4) Bug Jack Barron (1969), de Norman Spinrad
5) The Centauri Device (1974), de M. John Harrison
6) Dahlgren (1975), de Samuel R. Delany
7) Blood Music (1982), de Greg Bear
8) The Anubis Gates (1983), de Tim Powers
9) The Hyperion Cantos (4 Vols, 1991-1999), de Dan Simmons
10) Perdido Street Station (2000), de China Miéville
E, para a Fantasia:
1) A trilogia Ghormenghast (1946-1959), de Mervyn Peake
2) O ciclo Fafhrd & the Grey Mouser (1937-1987), de Fritz Leiber
3) O ciclo Dying Earth (1950-1984), de Joack Vance
4) O ciclo Viriconium (1971-1991), de M. John Harrison
5) O ciclo Dark Tower (1978-2004), de Stephen King
6) The Iron Dragon's Daughter (1995), de Michael Swanwick
7) Heroes Die (1998), de Matthew Woodring Stover
8) Ash (2000), de Mary Gentle
9) O ciclo Kushiel (2001-2005), de Jacqueline Carey
10) A saga A Song of Ice and Fire (1995-2005), de George R.R. Martin
Comparando as duas listas, é impossível deixar de observar que da lista da ficção científica, nenhum dos títulos foi ainda traduzido e publicado em português - apenas os direitos de The Anubis Gates foram adquiridos para Portugal pela Saída de Emergência, não tendo o livro sido publicado por motivos totalmente alheios à vontade da editora. É um resultado paupérrimo, de apenas 10% de recuperação de um atraso de décadas na publicação de clássicos indiscutíveis do género (aos quais facilmente se poderia juntar uma boa centena mais de títulos, incluindo obras de autores que nunca foram publicados, de todo, em Portugal).

Já no que respeita à Fantasia, o resultado salda-se por um impressionante 50%, sendo que praticamente apenas ficaram de fora os títulos individuais, tendo sido publicadas todas as séries, compostas de vários volumes (com excepção do pobre Leiber, de quem apenas um volume foi publicado). Um ponto que merece ser salientado, é que com excepção da saga de Stephen King, publicada pela Bertrand, todas as outras foram publicadas por uma única editora, a Saída de Emergência, confirmando também aquilo que tenho vindo a observar, nomeadamente que a aparente proliferação de obras de FC&F um pouco por todas as editoras prende-se meramente com a imitação de epifenómenos de vendas e não com qualquer aposta séria e criteriosa na literatura de género.

Ainda assim, 50% daquela lista é bom, não é? Não sei. Num mercado variado, onde títulos de vários géneros competissem pela atenção do leitor, sim, sem dúvida. Mas na nossa realidade, estes números têm que ser lidos (ou, pelo menos, é essa leitura que faço), num contexto bem menos luminoso. Este crescimento da publicação de Fantasia - dir-se-ia mesmo esta manifesta hegemonia da Fantasia Épica de pendor medieval - parece-me apenas mais uma manifestação de um percebido atavismo cultural. Mais uma manifestação de teconofobia, se não mesmo de futurofobia, expressa de igual forma na febre de feiras medievais higienizadas e idealizadas que pululam um pouco por todo o país. Incapaz de enfrentar o futuro, parece que o país se volta para um passado irreal, um passado de Fantasia. Este saudosismo do passado não deixa incólumes os próprios autores de FC, afadigados em steampunks, winepunks, electropunks, dieselpunks (eu próprio, no pouco que tenho publicado recentemente, me tenho cingido ao passado)... Talvez seja sintoma de saudades de um passado em que ainda era possível sonhar o futuro.

É, porém, esta capacidade de sonhar o futuro que parece ter-se perdido. Ignorância do saber científico - pior, cepticismo face à ciência - contribui imenso para isso. De certa forma, a impressão com que ficamos é a de estarmos prestes a mergulhar novamente numa Idade Média, pelo menos ao nível da imaginação. A magia e a crença no sobrenatural substituem progressiva e paulatinamente a ciência. Não é possível sonhar o futuro, porque a Fantasia nos promete apenas um eterno presente. Um presente que é, curiosamente, apenas o passado idealizado.

É altura de recuperar o Futuro, se ainda formos a tempo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Relatório Sobre Probabilidade Zero


Destroços. A nave que se quis indómita jaz desfeita e abandonada.


Os arquivos mortos e empoeirados, esperando mão caridosa que desenferruje os gavetões; os sistemas off-line, dormitando sob plásticos que pouco protegem como indigentes fugindo do esquecimento.

Regresso ao blogue volvidos que são ano e meio sobre o último post significativo que por aqui publiquei. Desde essa altura, e como diria o velho sabujo de má memória, “o mundo mudou”. Inventaram-se primaveras árabes, depuseram-se ditadores e aliados, e por cá, neste arabesco lateral e periférico, mudou-se finalmente, o governo, a forma de governar, e a forma de ver o país. Não chega, não foi da melhor maneira, mas foi um primeiro passo. Porém, no que aqui nos interessa, nada mudou realmente. O mercado livreiro encolheu-se um pouco, a OS MEUS LIVROS desapareceu mais uma vez, desta feita (aparentemente) sem retorno possível, mas o Fantástico, esse termo que cada vez mais abomino, continua a arrastar-se, sem forma ou substância, rumo à irrelevância final. É verdade que se publicaram mais alguns livros, que se organizaram mais alguns eventos, que se assistiu a incursões da academia na área do Fantástico e do Fantástico na área da academia – mas todas elas tiveram um sabor estranho e amargo. O Fantástico Português ainda não alcançou o País: este viu-se reduzido, da pior e mais violenta forma, à sua verdadeira e irrelevante significância. No Fantástico ainda continuamos convencidos de que as coisas estão… qual será o termo? Fantásticas? Hmmmf.


Em 2011 publicou-se aquele que será, provavelmente o mais importante livro de literatura de género desta segunda década do século XXI, em Portugal. De sua designação OS ANOS DE OURO DA PULP FICTION PORTUGUESA (Saída de Emergência), parece-me que foram poucos aqueles que alcançaram as cabais implicações daquele magnífico retrato de uma história literária que podia ter sido. Foi um projecto de envergadura e arrojo, desenquadrado do nosso panorama deprimente e, por isso mesmo, serviu também para nos fazer notar o paupérrimo estado de coisas na nossa literatura. Derivativo é o qualificativo que cada vez mais se nos oferece com direitos de cidade. Mostrarem-nos como as coisas poderiam ter sido, ilumina cabalmente as coisas como elas são e, sobretudo, como elas não são.

Mas regressar à actividade bloguística após todos estes meses não pode ser um exercício pautado pela desilusão e pelo desânimo. A verdade é que a miséria reinante apenas permite progredir. Pior é possível, claro que sim, mas pouco desejável. Mas relendo textos pretéritos, varrendo do chão os cacos de todos estes propósitos, que fica por fazer? Gerar mais propósitos e consequentemente, mais cacos? Mais projectos estéreis? Bah, para quê?



No espaço de uma semana são apresentadas ao público duas novas antologias: LISBOA NO ANO 2000 (organizada por João Barreiros para a Saída de Emergência) e MENSAGEIROS DAS ESTRELAS (organizada por Octávio dos Santos para a Fronteira do Caos). São duas colecções de ficção curta com propósitos tão díspares quanto ambiciosos. De ambas participei um pouco, em fases distintas da sua gestação; no resultado final, a minha presença apenas será sentida na de Octávio dos Santos, que generosamente nela incluiu um mal-amanhado conto meu, O Confessor. São duas antologias que não podiam ser mais diferentes, mas, numa e outra, numa ou noutra capacidade, senti uma vez mais aquilo que nunca desaparece: uma paixão pelos meus géneros favoritos. E, se há uma coisa de que me apercebo, é que por muitas voltas que dê, por muitas traições que lhe cometa, pelas muitas vezes que por vezes lhe volte as costas, continuo a ter pela Ficção Científica a mais desvairada das paixões.

Daí que tenha decidido, como propósito de retomar a actividade no BLADE RUNNER, que doravante este se dedicará exclusivamente ao meu género de eleição. Daqui em diante, e salvo raras e honrosas excepções, debruçar-me-ei apenas sobre a Ficção Científica, seja com a objectividade do Crítico que, apesar de tudo, ainda sou, seja com a subjectividade do entusiasta com eternos doze anos que nunca deixei de ser.

Mas porque acima de tudo urge ser realista, sei que não conseguirei manter um ritmo de actualizações que me satisfaça cabalmente, pelo que aponto para uma periodicidade rara – uma vez por semana será o objectivo, mais como meta do que como promessa.

E porque as paixões são voláteis, e porque sei que volta e meia sentirei a tentação de abordar o Horror, resolvi criar uma válvula de escape para as pulsões mais subterrâneas, uma válvula com quatro escoadouros, que podem ser encontrados clicando nas imagens abaixo. 





As actualizações, meramente ocasionais, serão devidamente assinaladas na barra lateral do blogue, sob a epígrafe “Now Playing in a Blog Near You”.


Ora bem, renovados os votos, sumariamente manifestados os propósitos, limpos o pó e as teias de aranha, reparado quanto possível o casco deste foguete de voos baixos, resta colocar os sistemas novamente on-line, desempoeirar os arquivos da memória e da experiência e aguardar que os motores desenvolvam potência.



Como diria o Comandante Picard: warp speed: engage!





sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ano novo, vida...


... atrapalhada como sempre. 2009 já ficou para trás, sem deixar saudades de maior. 2010 surje agora no meu horizonte com o potencial da grandeza ou do desastre. Será um daqueles anos de vai ou racha. Chegando a Dezembro, logo vos digo como correu.

Entretanto, o trabalho continua a empilhar-se graças a drásticas mudanças de vida pessoal. Fica muita coisa por fazer, incluindo terminar a prometida publicação das críticas que assinei na OS MEUS LIVROS. Adiado, também,por mais uns dias, o meu balanço de 2009. Apesar de tudo isto, 2010 trará mudanças ao Blade Runner. Vamos distanciar-nos um pouco da obsessão pela actualidade e revisitar muitas das obras do passado, hoje injustamente (ou, por vezes, justamente) esquecidas e que vêm sendo desprezadas por uma nova geração de autores que se tem afirmando sem referências, citando atabalhoadamente leituras diagonais da Wikipedia e escudando-se por trás de uma falsa sobranceria para esconder a profunda ignorância que anima tudo o que escrevem. Não quer isso dizer que vá abandonar as referências ao que se tem publicado entre nós - continuarei a fazê-lo na OML e, espero, com maior frequência no blogue - mas tenho andado mergulhado na Golden Age da ficção científica escrita e nos períodos de 1950 a 1980 no cinema de FC, para além de estar paulatinamente a redescobrir os saudosos comics de ficção científica que editoras como a Marvel, a DC, a Avon, a Red Circle, a Fiction House ou a Atlas nos proporcionavam durante os anos 50, 60 e 70 do século passado, e gostava de partilhar aqui algumas das minhas impressões sobre todos esses títulos olvidados. 2010 será, assim, um ano intensivamente dedicado à Ficção Científica em todas as suas vertentes.

Isto dito, resta-me agradecer a paciência de todos aqueles que me querem ler e que sucessivamente vão aturando estes propósitos quase nunca cumpridos. Como disse acima, 2010 será um ano de vai ou racha... por isso: feliz 2010 a todos vós.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

HOJE PORTUGAL... AMANHÃ O UNIVERSO 2-4/4


Há textos que se perdem na efemeridade de um momento. Isso é particularmente relevante quando o texto proposto pretende ser uma polémica. Sobretudo se uma polémica cuja intenção era a inserção num debate mais alargado em curso noutros blogues no momento da sua redacção. Daí que, passado o momento, não faça já sentido apresentar a conclusão do texto iniciado aqui nos moldes inicialmente previstos. Não quer isso dizer que o discurso iniciado vá ficar eternamente interrompido. Simplesmente, e por mero critério de oportunidade, verá a sua conclusão adiada para o resumo do ano que pretendo apresentar em 31 de Dezembro - aí as ideias deixadas orfãs encontrarão um ninho seguro onde se acolher e articular.

Depois da interrupção do ano passado, pretendo fazer acompanhar essa breve súmula de final de ano pelo meu top-ten pessoal de livros publicados durante o ano de 2009 em Portugal. Para refrescar a memória dos leitores - e a minha própria - decidi re-publicar aqui no Blade Runner as breves críticas (designação imprópria para o que não passa de meras resenhas, e que aqui tratarei como notas de leitura) que escrevi para a OS MEUS LIVROS durante o ano que está prestes a findar. São 20 textos sobre 20 livros muito desiguais, que poderão acompanhar aqui entre 11 e 30 de Dezembro, à razão de um por dia. Nenhum deles é extenso, mas sempre são uma dúzia de palavras mais longos do que as versões que receberam letra de forma na revista impressa.

E já agora, alguém reconhece o filme de que foi retirada a imagem que ilustra este post?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Breve Antevisão


1. VAMPIROS

Os vampiros estão outra vez na moda. Parece que não se pode abrir um livro sem nos depararmos com umas presas afiadas a gotejar tinta de prosa púrpurina. Mas será realmente assim? Será que o surto de obras que surgiu em catadupa no seguimento da tenebrosa (no pior sentido) tetralogia de Stephenie Meyers trata realmente de vampiros? Será que se inserem no vasto catálogo da literatura fantástica? Estas são algumas questões que podem ser debatidas amanhã, 19 de Setembro, por volta das 23:30 no Largo Luís de Camões, em Lisboa. Trata-se de uma tertúlia subordinada ao tentador tema "A literatura fantástica e o universo vampírico", inserida no amplo Cordão de Leitura organizado pela editora Objectiva. Para além deste vosso escriba, estão confirmadas as presenças de David Soares, Rui Baptista e Pedro Sena Lino. A moderação é de Ricardo Duarte, e o livro The Srain (A Estirpe) de Guillermo del Toro e Chuck Hogan servirá de mote .



2. DAGON

Já está nessa enorme banca virtual que é a Internet desde 31 de Agosto. Surge em pleno clima de crispação com uma agenda muito concreta e é a mais recente revista on-line da área do fantástico. Infelizmente o resultado fica muito aquém das expectativas criadas, prometendo reavivar um certo abespinhamento por parte de um grupo de jovens autores cujo potencial permanece ainda latente...



3. SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Cumprem-se setenta anos desde o início da mais mortífera guerra do Século XX. As suas especiais caracteísticas ideológicas, técnicas, militares e estéticas fizeram dela um cenário priveligiado para a imaginação. Ao horror sucedeu-se o fascínio e ao fascínio a estilização de uma era. Aqui, no Blade Runner, vamos explorar algumas das obras onde a Segunda Grande Guerra serve de palco para o Fantástico, aproveitando a chegada do Outono para tentar arrancar de vez com as há muito prometidas Midnight Sessions.


4. O CÍRCULO DE LEIBOWITZ

Circunstâncias adversas têm-me mantido afastado da actividade do CÍRCULO, cujo peso tem recaído sobre os ombros mais do que capazes do Nuno Fonseca e da Cristina Alves. Este mês o círculo regressa à actividade plena, a 30 de Setembro, e com um livro incontornável no praticamente incipiente cânone da FC nacional: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994) de João Barreiros. Oportunidade para dissecar um pouco a essência da ficção científica nacional, marcando também um primeiro passo no olhar mais atento sobre a actividade dos autores portugueses. Uma das fontes da crispação de que falava acima assenta na inexistência de um corpus crítico que permita definir um padrão de qualidade para a recepção das obras da área do fantástico. Procurei dar aqui a minha modesta contribuição para a criação desse corpus.

Tudo isto, no Blade Runner, a partir de 21 de Setembro.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Blade Runner Ano 3: A Incógnita



E já lá vão dois anos desde que resolvi criar o Blade Runner. Dois anos que ficaram – há que reconhecê-lo – muito abaixo das expectativas, se não dos leitores, pelo menos das minhas. Ser-me-ia confortável observar que o mal foi generalizado. Alguns dos principais blogues da área do Fantástico, Os Cadernos de Daath, o Efeitos Secundários, o Stranger in a Strange Land, diminuíram, também, acentuadamente, o ritmo de publicação, traduzindo aquilo que penso ser um acréscimo de trabalho profissional que impossibilita os seus autores de dedicarem mais tempo à escrita virtual. Isso é visível também no Lâmpada Mágica, com o Jorge Candeias a dedicar-se em exclusivo à tradução. É um factor importante, mas meramente descritivo. No meu caso, um acumular de compromissos profissionais e pessoais (traduções, críticas, redacção de ensaios, escritas um pouco por todo o lado, a par da minha actividade profissional no foro) impuseram o caos na minha capacidade de manter-me a par com lançamentos, eventos, novidades, quanto mais a actualização regular deste blogue.


Por outro lado, não posso deixar de pensar que este estado de coisas reflecte um outro dado essencial: o mercado do Fantástico, apesar de toda a aparente pujança, não existe para os autores nacionais. Pese embora a falta de números “oficiais” (e muitas vezes, mesmo de números oficiosos), parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita, vendo-se obrigado a complementar – se não mesmo a assegurar – os seus rendimentos, por outros meios. Para os que escrevem habitualmente, como o David Soares e o Luís Filipe Silva, a tradução parece ser o principal refúgio. Aliás, creio que se fizermos um apanhado de TODOS os autores portugueses da área FC&F, chegaremos à conclusão de que todos eles ganham mais a traduzir a escrita de outros do que com a sua própria. Note-se – sempre é uma forma de estarem próximos daquilo que gostam de fazer, ao mesmo tempo que é um meio para aprimorar as suas próprias técnicas de escrita. Mas não deixa de ser, também, um factor de preocupação, num mercado livreiro que, ao que parece, tem feito fortunas com o género (Rowlings na Presença, Paolini na Gailivro, Tolkien na Europa-América e, em grau menor, Martin na Saída de Emergência), encontrando nesses autores uma espécie de apólice de seguros mais ou menos fiável para um eventual período de vacas magras.


Isso leva-me ainda a uma outra e deprimente observação. Empoleirado desde 2000, como Humpty Dumpty, no muro que divide os fatalistas (João Barreiros et al.) dos optimistas (ainda que moderados – Candeias et al.), não mais me é possível equilibrar entre as duas posições. And not all the king’s horses, nor all the king’s men, can put me back up there again. Verdade seja dita, sempre pendi mais para o lado dos fatalistas, mas creio que agora se trata de um facto inegável: a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica.



É certo que o Horror não está melhor. Se descontarmos o surto de publicações comemorativas do bicentenário de Poe, o trabalho cadenciado de David Soares, e a tradução mais ou menos regular dos títulos de Stephen King (pontilhados pela publicação esporádica de um outro tímido título de horror), complementados pelos clássicos em domínio público que a Saída de Emergência e a Presença vão publicando com alguma regularidade, o género está tão desvitalizado como uma múmia privada das folhas de chá de tana. Nota-se-lhe, porém, uma latência que lhe permite algumas esperanças no curto ou médio prazo, mas nada que justifique um grande optimismo, sobretudo quando o género está a ser deturpado no arrasto da irracional febre gerada pelos medíocres pastiches de Stephenie Meyer. Podemos esperar o afloramento de alguns títulos de Laurel K. Hamilton por duas editoras distintas, um punhado de bons títulos que vão surgir na Saída de Emergência (e o irritante que é termos que estar sempre a falar das mesmas editoras, pois são elas que levam aos ombros os géneros do fantástico), mas nada dos milhares de títulos essenciais a qualquer biblioteca do horror publicado após 1950. É um desfasamento inultrapassável.


Da Fantasia mais vale nem falar. Os números traduzem a sua vitalidade, mas escondem a verdade: e a verdade é que também não existe um mercado de Fantasia em Portugal. Existe apenas a exploração exaustiva de um sub-género impuro da Fantasia que, à falta de designação universalmente reconhecida, podemos chamar Imitação Derivativa de Fantasias de Poder Adolescente.


Irónico, por isso, que se cumpram este mês setenta anos sobre o início da chamada Golden Age da Ficção Científica (1938-1946), o período em que a literatura de ficção científica evoluiu ao ritmo da batuta de John W. Campbell ao leme da Astounding Science Fiction. Embora Campbell tenha assumido a direcção da Astounding em Maio de 1938, à falta de uma data “oficial”, e em retrospectiva, o fandom vem reconhecendo como momento fundador o da publicação da edição de Julho de 1939 dessa revista. Nesse número, surgia a noveleta Black Destroyer de Van Vogt, um dos textos mais influentes do cânone da moderna FC (e inspiração directa do filme ALIEN que Ridley Scott realizou em 1979 – lá andamos com os anos terminados em nove), primeira publicação do autor, e também Trends, o primeiro conto que Asimov publicou na revista que o tornaria o mais conhecido autor de FC de sempre. (Nestas coisas das coincidências, Trends foi um dos contos, escrito e publicado 30 anos antes da alunagem da Apollo 11, que escolhi para a antologia comemorativa desse evento que a Saída de Emergência faz chegar às livrarias no próximo dia 10). No número seguinte, o de Agosto, surgiria na mesma revista o conto Life-Line, a estreia literária de Robert A. Heinlein (de que falaremos aqui brevemente), abrindo um período de exclusiva predominância da Astounding de Campbell – período que se estenderia até 1946, data da publicação da célebre antologia de Healy e McComas. A propósito, e de acordo com as memórias do bom doutor (In Memory Yet Green: The Autobiography of Isaac Asimov, 1920-1954, Doubleday, 1979) o número de Julho de 1939 da Astounding chegou aos escaparates no dia 22 de Junho desse ano, permitindo datar de forma ainda mais precisa essa efeméride.

Daí que, por tudo quando acima se deixou dito, para este novo ano de actividade bloguística, não faço planos. Continuarei a falar de pulp fiction, preenchendo a lacuna do que prometi no ano passado, de filmes e de séries de televisão (idem aspas), procurarei levar ritmadamente a série de homenagens ao trabalho de Heinlein, e falar um pouco mais de livros e das suas traduções. Será um ano de incógnitas, de caminhos bifurcados, ao gosto de Borges, com pelo menos dois carreiros a serem explorados no curto/médio prazo.



Por um lado, e à laia de celebração do quadragésimo aniversário da Alunagem, proponho-me explorar, num outro blogue, as várias representações dessa viagem à Lua conforme esta foi imaginada pelo cinema e pela televisão entre 1902 e 1969. Será uma viagem com partida prevista para data incerta, algures entre 16 e 20 de Julho (datas, respectivamente, em que a missão Apollo 11 partiu de Cape Canaveral e chegou à Lua), e que se estenderá, lânguida, ao sabor da disponibilidade de tempo e de material. Será, portanto, uma viagem com final em aberto, mas que pretendo tão exaustiva quanto possível.


Já a partir de hoje (bom, convém dar margem de manobra, uma vez que até ao próximo dia 15 tenho ainda imensos prazos pendentes; daí que este hoje deva ser entendido num sentido mais lato do que o habitual) a minha atenção dividir-se-á entre o Blade Runner e um outro blogue dedicado, em exclusivo, ao cinema de Horror. Podem acompanhá-lo, aqui.

Assim, convido-vos desde já a embarcar comigo neste terceiro ano de actividade, e a descobrir onde – e se – nos levará a algum lado. Neste momento, your bet is as good as mine.

A sátira dedicada a Twilight, foi retirada daqui.

domingo, 1 de março de 2009

I'm Back


Exactamente três meses sem um único post...

E o mais estranho de tudo... gostei. Gostei de não ter mais uma obrigação para cumprir, de não ter uma vozinha a murmurar-me atrás da orelha que era preciso actualizar o blogue... E depois a necessidade de voltar a escrever nele. Acho que foi saudável este interregno. Ajudou-me a reperspectivar as coisas, permitiu-me pôr em ordem assuntos por terminar, concluir as minhas décima e décima primeira traduções... sobretudo, a perceber o que quero deste blogue, sobretudo ao pegar nele numa altura em que o que está na berra é esse execrável fenómeno do Twitter, com todos os "twatters" a fazerem-me lembrar uma multidão de pintainhos, cada um a tentar gritar mais alto do que os outros, em busca da minhoquinha de uma efémera fama. Tentaram-se seduzir para isso, tentei obrigar-me a aderir... mas é demasiado vácuo, fátuo e flátuo para me conseguir fisgar...

Ainda sou dos que gostam de ler informação com sumo, ideias que vão para além do dichote com mais piada do que substância, espaço para elaborar um discurso com tronco, cabeça e membros.

Que esperar, então, do Blade Runner para os próximos tempos?

Antes de mais, uma maior variedade temática: falar de séries de TV, filmes e livros, maioritariamente mas não exclusivamente pertencentes aos géneros do fantástico. Tentar manter uma maior constância de críticas, e retomar as midnight sessions. Sobretudo, tentar trazer mais e mais variada informação, se, porém permitir que o blogue se transforme na minha actividade principal. Estes quatro meses de trabalho quase exclusivo na tradução e na advocacia, não me permitira escrever uma única linha: A ALMA DO LOUVA-A-DEUS continua por terminar, tal como os ZEPPELINS SOBRE LISBOA. Em contrapartida, outros projectos descolaram e consolidaram-se neste interregno, e um deles, ainda surpresa, chegará às bancas em Junho deste ano (knock on wood).

Portanto, caros leitores - e desde já quero agradecer a todos aqueles que ao longo deste período me incentivaram a regressar ao blogue, e manifestaram por ele um entusiasmo que eu próprio por vezes senti fraquejar, pessoalmente e por mail - podem esperar a partir de agora actualização mais frequentes, menos abundantes, mas todas elas merecedoras de trabalho, pesquisa e dedicação. Num ano como 2009 - que como todos os anos que precedem o terminar de uma década, são cheios de efemérides, como se os acontecimentos se atropelassem em busca do centro do palco, de um espaço na memória colectiva - muito haverá de que falar. 40 anos volvidos sobre a alunagem da Apollo XI, 50 sobre a revolução Cubana, 200 sobre o nascimento de Darwin e 15o sobre a publicação da Origem das Espécies; 20 sobre a queda do Muro de Berlim, 80 sobre o crash bolsista, trinta sobre a revolução no Irão, duzentos sobre o nascimento de Poe e 160 sobre a sua morte, 70 sobre o início da Segunda Guerra Mundial e muitos outros de menor memória mas não menos importância...

Oportunidade para falarmos de história alternativa da Segunda Guerra Mundial, das célebres adaptações das obras de Poe assinadas por Roger Corman nos tempos áureos da sua AIP, para além de visitarmos filmes e livros, dos mais recentes aos mais clássicos, dos mais celebrados aos mais desconhecidos.

E, nada melhor para recomeçar esta nova fase de actividade do que falar-vos e convidar-vos a participar no CÍRCULO DE LEIBOWITZ.

Mas isso, é uma história para amanhã...
Nota: A imagem que ilustra este post foi encontrada em http://stencilrevolution.com/photopost/data/501/

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Tempus Fugit 00: Bem Vindos a 2008


Depois de muitas reticências, resolvi, em 2007, lançar-me sem rede na blogosfera. As reticências deviam-se, não só à opinião que tinha dos blogues - efémeros grafitti com que o ego de alguns bloguistas ia sarapintando o cyberespaço - como à incapacidade que tenho de encarar s coisas de ânimo leve.

Se a minha opinião original dos blogues e dos bloguistas não se alterou muito, alguns autores houve que, por uma razão ou outra, positiva ou negativa, me convenceram a experimentar: o Sonho de Newton do David Soares, o Tecnofantasia do Luís Filipe Silva, o Stranger in a Strange Land da Safaa Dib entre os primeiros; os blogues de Pedro Mexia, Francisco José Viegas e Eduardo Pitta entre os segundos, foram determinantes para a minha decisão.

Um blogue, porém, vive apenas da relação que consiga estabelecer com os seus leitores. E essa relação, como qualquer outra - intelectual ou afectiva - vive da memória constante e presente um do outro: do que escreve e do que lê.

Há uns meses atrás, circulou pela blogosfera um post do Pedro Mexia, em que este, com a habitual vacuidade bem humorada, definia os três tipos de bloggers e a relação de cada um com a necessidade de conversa. Não sei em que categoria encaixava a sua própria escrita, nem tão pouco me interessa. O eco que a sua inanidade encontrou surpreendeu-me, mas não muito. Na realidade, e na minha modesta opinião, conheço apenas dois tipos de blogues: aqueles que se levam a sério, onde os posts são pensados, onde o autor procura expor, mais do que uma opinião, uma opinião fundamentada e especializada sobre alguma coisa, e os outros.
Desde o início pretendi que o Blade Runner fosse um dos que se levam a sério: isso impõe-me responsabilidade, disciplina e muito, muito trabalho de sapa. Tal como Will Cuppy, autor do divertidíssimo The Decline and Fall of Practically Everybody (1950), não acho exagerado ter que ler cinco calhamaços para escrever um ensaio de página e meia. Isso tornou-me proverbialmente incapaz de cumprir um prazo.

Felizmente para mim, o último ano foi pródigo em solicitações na área da escrita crítica, ensaística e de ficção, o que fez que as actualizações do blogue se fossem tornando cada vez mais esparsas. Ficaram por fazer meia dúzia de críticas de volumes publicados em Portugal em 2007 e que considero de relevo, outras tantas de volumes que as editoras ou os autores tiveram a amabilidade de me enviar e outras prometidas. Ficaram por estrear as Midnight Sessions e atrasou-se a redacção da Breve História da Ficção Científica.

Os próximos meses afiguram-se pródigos em trabalho, o que imporá novas limitações à minha capacidade de actualização do blogue. Perante tal panorama, só me restavam duas opções: pôr termo definitivo ao Blade Runner, ou continuar com um ritmo incerto de actualização.

Confesso que ainda não desesperei das potencialidades do blogue como instrumento de contribuição para o Fantástico nacional, e optei por isso continuar a mantê-lo, com limitações. Assim, e pelo menos até finais de Julho, as actualizações do Blade Runner limitar-se-ão às Midnight Sessions à sexta-feira e à crítica de livros ao Domingo. Um ou outro tema actual e de relevo serão oportunamente mencionados. No mais, peço apenas aos meus eventuais leitores que não desesperem quando falhe uma das actualizações.
Um óptimo 2008 para todos vós.