domingo, 5 de julho de 2009

Umbiguismo


Isto é o que acontece quando o umbigo domina o cérebro.

Afinal, a culpa agora é do Twitter, que não o deixou desenvolver a sua lógica discursiva. Mas o Twitter tem destas coisas, impõe um verter constante de egolalias sob pena de esquecimento, e o insigne autor não resiste a colocar-se debaixo do holofote. Mas como não lhe podemos negar uma certa capacidade de análise, ele explica tudo neste post.

Mas voltando ao que nos traz aqui: é um post longo, mas tem momentos que justificam a sua leitura. Afinal, até um relógio parado acerta duas vezes por dia. Mas torna-se mais interessante se compaginado com este post do Nuno Fonseca, modestamente nascido como comentário aqui no Blade Runner, mas elevado à sua real dignidade no Inner Space. O Nuno levanta algumas questões pertinentes mas que não deixam de perder parte do seu potencial explicativo ao perfilharem do mesmo erro que anima parte do post do Jorge Candeias. A outra parte é animada pela mais pura má-fé e desonestidade, mas a isso já vamos; a saber: um erro na datação da FC Portuguesa e do fandom nacional.

Escreve o Nuno que “O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios.” O exemplo da Saída de Emergência é legítimo, mas não exclusivo. Efectivamente, para quem tem andado atento a estas coisas, quer a Presença, quer a Gailivro, quer mesmo – em casos contados – a Civilização, têm apostado fortemente em marketing e divulgação. E penso não estar a exagerar quando digo que a Gailivro é, até, das editoras com marketing mais agressivo e com um sentido de comunidade de leitores mais forte (embora limitada a um segmento específico de mercado). É certo que o Fórum BANG! da Saída de Emergência foi nesse aspecto pioneiro e inovador, mas é um aspecto que carece de uma potencialidade explicativa total.

Sobretudo porque o problema que ninguém parece querer abordar é precisamente aquele que transparece da referência aos primórdios da FC. É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa.

O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.

Já o Nuno imagina um eterno recomeço da FC em Portugal – que é real – mas que não pode permitir uma eterna infantilização do género, nem pode permitir escamotear a pergunta a que importa responder. E esta não é como chegar aos potenciais leitores, mas sim para onde foram os leitores que durante anos justificaram a existência dos vastos catálogos da Argonauta, da Europa América, da Caminho, da Panorama, da Bolso Noite, etc, etc.. Para onde foi o público leitor adulto de Ficção Científica, que desapareceu sem deixar rasto? Observe-se que mesmo a colecção VIAJANTES DO TEMPO da Presença arrancou com um público adulto em vista, antes de se ir progressivamente encerrando na sua caixinha juvenil, abdicando mesmo da publicação de um título como o Carbono Alterado (2002) de Richard Morgan, que estava já traduzido.

A verdade é que, como quem passa uma esponja, vamos encarando como natural um renascimento cíclico da FC em Portugal, esquecendo que a primeira tentativa de criação de um Clube de Leitores de Ficção Científica entre nós data já de 1965. Que foi feito do público leitor destes últimos 45 anos? Porque não responderam às iniciativas das inúmeras editoras que tentaram nesta última década fazer renascer o género? Falta de publicidade? Não creio. Porque a falta de publicidade também não explica o afastamento de muitos dos autores nacionais que escreviam nessas colecções e que são os primeiros a acusarem o desinteresse do público.

O Jorge também acredita que parte do problema reside na falta de divulgação, mas acrescenta-lhe a actividade sinistra de uma cáfila de indivíduos que tem estado à frente de algumas das iniciativas editoriais de publicação de FC, e que não tem sensibilidade para compreender o público português. Mas será isso verdade? Ele refere o exemplo da Contacto, uma colecção dirigida pelo João Barreiros que revelou estar à frente do seu tempo, pelo menos uns vinte anos. Culpa do director da Colecção, ou culpa do público leitor? Não referiu que a Livros de Areia, por exemplo, encabeçou em 2005 o regresso ao Livro de Bolso que agora parece ser uma nova (e fracassada) revolução editorial. Culpa da Editora ou do Público Leitor? Também não fala do caso paradigmático da Cavalo de Ferro, que se calhar lhe permitiria testar a tese que pretende fazer passar: um editora (profissional ou não?) com selecção criteriosa de títulos, com público alvo definido, excelente visibilidade, e que desapareceu depois de apostar na promoção de livros comerciais e de alto retorno. Culpa dos Editores, do Público Leitor, ou do Jorge?

Do Jorge não, certamente, porque o Jorge gosta de atirar a pedra e depois lançar-se para o chão a uivar “aqui d’El Rei que me batem, ai ai ai”. A verdade é que o Jorge resolveu soltar uma flatulenta farpa no twitter porque não se deu ao trabalho de ler o que os outros escreveram. Quando lhe foi chamada a atenção para o facto, fez aquilo que lhe é habitual: vitimização e ataque indiscriminado, ventilando frustrações e ódiozinhos de estimação, desta vez alargando-se a todos aqueles que tenham qualquer ligação comigo. Imagina insultos, ameaça com câmaras de vácuo, porque as de gás não quadram bem com ele, que ele é mais gulags e falsificações da história.

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?

Curiosamente, há coisa de um ano, o mesmo Jorge escrevia, aqui, que: “eu tenho sempre sérias dúvidas de que o mercado realmente "exija" seja o que for, especialmente na indústria cultural. O mercado escolhe entre aquilo que tem para escolher, e geralmente nem isso, geralmente são os publicitários e o marketing quem escolhe”.

Aqui chegados, confrontados com a contradição (ou será, apenas, mera evolução do pensamento?) seria o ponto em que o Jorge poderia acrescentar algo de útil, ajudando-nos, a nós, editores, críticos e leitores, a perceber melhor os padrões culturais que possam permitir melhorar esta situação. Mas quanto a isso, o insigne educador mantêm-se mudo e quedo. Porque essa não era a sua intenção, nem era a intenção do seu post. O seu real objectivo – daí a má-fé e a desonestidade – era chegar à conclusão de que aqueles que manifestam uma opinião contrária à sua, perfurando a confortável bolha do seu solipsismo, querem apenas destruir a FC. E acusa-nos de nada fazermos, ou de nada fazermos bem pelo género e, no que concerne especificamente à minha actividade de editor na Livros de Areia, acusa-me de incompetência.

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

Ou será falta de divulgação? Quer o Jorge quer o Nuno encontram potencialidades mágicas no marketing, na publicidade e na divulgação. Na perspectiva de ambos, seria a divulgação que permitiria a confluência do público leitor potencial (evidentemente desprovido da capacidade de iniciativa que os levasse a procurar on-line, a consultar blogues ou páginas de referência) e as obras. Mas será realmente assim? Será essa a resposta e a solução? Ou será apenas mais um meio de potenciar a aquisição acrítica de títulos badalados? Será que é essa a via que nos interessa?

Mas o Jorge tem ao seu dispor inúmeras e efectivas plataformas de divulgação: ele foi o fundador e moderador da lista FICÇÃO CIENTÍFICA (provavelmente, a par da Bibliowiki, a sua maior contribuição para o Fantástico Luso) – hoje infelizmente moribunda ; ele administra o site E-NIGMA, vegetativo desde 2007; ele assegura um post semanal (quando eu não lhe dou azo a mais) no LÂMPADA MÁGICA; ele arrotou quase 5000 twits no Twitter, para além da sua presença incansável no Fórum da Saída de Emergência, no BBDE, inúmeros blogues e listas de discussão.

E seria de perguntar, com toda esta actividade aparente, que tem feito o Jorge nos últimos anos pelo desenvolvimento do Fantástico em Portugal? A resposta? Nada. Tem olhado pelo umbigo. Tem, como todos nós, feito pela vida. Dele procuraremos debalde uma crítica sobre os últimos livros de autores nacionais, uma apreciação dos esforços das editoras que puseram nas livrarias livros como as FICÇÕESCIENTÍFICAS E FANTÁSTICAS, A SOMBRA SOBRE LISBOA, os CONTOS DE TERROR DO HOMEM-PEIXE, A REPÚBLICA NUNCA EXISTIU, ele que sempre afirmou que era preciso apostar na ficção curta. Mas da parte do Jorge, silêncio.

Dir-me-ão que não é obrigado a isso. É certo, mas a lógica que utilizou para justificar o seu refluxo twístico – quem não edita FC não se pode queixar de que não se edite FC – ainda que não corresponda à verdade, é-lhe oponível. Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada. Dir-me-ão que o Jorge pode ter mais o que fazer, que tem que fazer pela vida. Que faça. Mas que não ande, sistematicamente a sabotar o trabalho de quem faz, para satisfazer as suas necessidades de entretenimento no Twitter. É que onde o Jorge se contenta em fazer pela vida – como todos nós – outros que acreditam na FC e na possibilidade de melhorar o panorama, pessoas como eu, o Pedro Marques, o Luís Corte-Real, ou o Miguel Neto, pusemos dinheiro – muito dinheiro – dos nossos bolsos para arriscar publicar autores que ninguém sabia se seriam lidos e que, muitas vezes, sabíamos que não o seriam, mas que deviam ser disponibilizados ao leitor português. E todos nós, através das nossas respectivas editoras, apostamos em vias diferentes e com resultados diferentes. Mas assumimos o risco e estivemos dispostos a arriscar. Quando o Jorge quiser fazer o mesmo, quando quiser arriscar também dinheiro dele, quando estiver disposto a pôr as notas onde tem a língua, então reconheço-lhe o direito de falar, com conhecimento de causa, de uma realidade que vai muito além de receber o chequezinho no fim do mês, e muito além do Twitter. É que o Twitter é como um automóvel: pode ter muitos cavalos debaixo do capot, mas não vai a lado nenhum com um burro ao volante.

E, no fim de tudo isto, Jorge, a boa notícia é que ainda temos lugar para mais um na câmara de vácuo.

Jump in.

16 comentários:

Francisco Norega disse...

Boas tardes

Antes de mais, não quero tomar partido de nenhum de vocês nesta discussão.
Acho, no entanto, que tu (ou foi o Pedro Marques?) não devias ter usado o nome da editora na discussão. Isso, sim, revelou uma profunda falta de profissionalismo. As opiniões são sempre pessoais, e as editoras, organizações ou associações não têm ódios de estimação. Podem ter, sim, as pessoas que delas fazem parte, mas esses ódios não devem ser gritados aos quatros ventos com o nome da editora, organização ou associação - no caso, da Livros de Areia.

Quanto à questão do marketing, acho que o Nuno e o Jorge têm razão.
Dou-te um exemplo, apenas um -
"Jonathan Strange & O Sr. Norrell"
Não é um livro especialmente comercial, apesar de ser MUITO bom (na minha opinião), mas a simples existência de duas capas diferentes para o livro (uma branca e preta, outra preta e branca) chamou a atenção dos leitores portugueses. E bem! Tanto que o livro, não metendo vampiros, não tendo sido alvo de nenhuma adaptação cinematográfica nem havendo uma prevista, foi (pelo menos) até à 3ª edição.


Quanto ao pessimismo, bem, cada maluco com a sua mania (e, admitamos, todos nós que andamos pelo mundo do Fantástico, somos malucos xP).
Eu, no entanto, sou um jovem (15 aninhos feitos há pouco tempo) e não pretendo ficar a ver, passivamente, o género morrer, em Portugal. Nem eu nem mais uma meia dúzia de pessoas que conheço. E, bem, são só das pessoas que conheço. Aposto que na minha geração há muita gente com vontade de escrever, de inovar, de reabilitar o mercado do Fantástico português.

Na minha opinião, não são precisos pessimistas, são, sim, precisas pessoas com vontade de fazer algo pelo género. Com lamentos não se chega a lado nenhum, só com acções.


Como dizia o Che, hasta la victoria, siempre! Mas não há vitória sem luta ;)

João Seixas disse...

Olá Francisco, e obrigado pela tua opinião que, como todas as que procuram contribuir para o crescimento do Fantástico, é valiosa.

Agora, por pontos:

1) Se acompanhaste esta desnecessária questiúncula, ela nasceu de um twit gratuito de uma das pessoas nela envolvidas. Um twit que trazia à baila a Livros de Areia, embora não a identificasse pelo nome.

Só que a Livros de Areia não se circunscreve à minha pessoa, é todo um grupo que vai muito além dos editores, como sendo todos aqueles que nos ajudam a escolher títulos, a contactar autores, que traduzem, muitas vezes por amor à camisola, para que a editora e o género cresça. Todas essas pessoas se sentiram ofendidas. E, ao contrário de outras instituições nacionais, a Livros de Areia não tem medo de dar a cara pelas suas opiniões.

2) Quanto ao marketing, ele é, sem dúvida, importante. Mas onde tu apontas um Jonathan Strange, podias apontar três ou quatro dezenas de Stephenie Meyers, Dan Browns e quejandos. Não é o marketing por si que vai trazer a resposta, porque o marketing é caro e as editoras apenas recorrem a eles para potenciar as vendas de livros que, por si, já venderão bastante. A Saída de Emergência, por exemplo, publicou pelo menos um anúncio na OS MEUS LIVROS a publicitar a Antologia COM A CABEÇA NA LUA, livro que potencialmente será adverso ao mercado. Dará resultado? Veremos. Mas a verdade é que se não se publicarem bons livros e se não houver um público leitor informado e com capacidade de discriminação, o marketing não serve de nada.

3) Quanto ao "pessimismo", podia responder-te que se trata de "realismo", mas abomino esse tipo de resposta. No entanto, tu que tens quinze anos - e fossem todos os que têm 15 anos tão dedicados e aplicados como tu - tens que compreender que quando nós tínhamos quinze anos, o panorama da FC era muito melhor do que é hoje. E isto sem termos internet, nem blogues, nem marketing. Tínhamos inúmeras colecções, séries e filmes todos os dias - ou quase - na televisão (e só havia dois canais), banda desenhada, colecções de cromos, the whole deal.

Se hoje, com todas as maravilhas tecnológicas que temos ao nosso dispor, a situação piorou drasticamente, ao ponto de não haver UMA ÚNICA colecção dedicada à FC adulta, achas que não é caso para pessimismo?

Mas ainda bem que há gente nova com vontade de fazer coisas. Só posso desejar que tenham também a capacidade para as fazer. Ao fim e ao cabo, esse é o cerne escondido da questão.

Por isso, avante, com Che, até à victória... nem que seja de Pirro.

Safaa disse...

Francisco, só um esclarecimento porque em parte envolvi-me na questão, especialmente através do twitter.

Que fique bem claro que quem trouxe o nome da Livros de Areia à baila e de uma forma que não podia passar impune foi o Jorge. Eu sei que é complicado acompanhar a sequência de eventos e discussão no twitter, mas cada macaco no seu galho.

E aliás, se o Jorge se tivesse limitado a criticar a opinião do Seixas neste blogue, a coisa nunca teria chegado ao ponto a que chegou em que tens agora o Candeias a insultar o Seixas no blogue da Lâmpada e a chamá-lo de "escroque" e "troca-tintas desonesto."

O Candeias cometeu o erro de criticar o trabalho de uma entidade sem conhecimento de causa e tratou de denegrir injustamente o trabalho da LdA. Ora eu colaboro com a LdA desde o momento em que ela nasceu e sei pelas coisas que passou e tenho feito traduções para eles com todo o gosto. Não podia deixar as suas palavras sem fazê-lo pagar por elas. Levou resposta dura à letra da parte de várias pessoas, mas ele esperava o quê? Que ficássemos de braços cruzados a dar-lhe razão? Sabendo nós que isto no fundo são os ódios de estimação do Candeias a falar bem alto? Tens 15 anos mas isto são teimas que já vêm desde o tempo em que ainda andavas no infantário, por mais que ele queira negar.

Ele pode mandar as postas que quiser, mas tem que se preparar para levar resposta na cara, sem complexos e falsidades.

Luís R. disse...

"Dou-te um exemplo, apenas um -
"Jonathan Strange & O Sr. Norrell"
Não é um livro especialmente comercial"

Nada mais falso, caro Francisco. Quando o _Jonathan Strange & Mr Norrell_ foi anunciado, nada mais nada menos do que como um sucessor do Harry Potter, o hype foi tão grande que, antes mesmo de ser publicado --- e, consequentemente, lido pela maioria do público ---, havia ARCs no eBay leiloadas por 250 dólares ou mais. Naturalmente, depois de lançado, vendeu como se fosse cocaína crack.

Luís R. disse...

E acredita, quando os editores pagam 1 milhão de libras pelos direitos, garantem traduções para dezenas de países e depois fazem uma primeira edição de 250 mil exemplares, é porque eles sabem que o livro tem potencial de mercado.

n.fonseca disse...

Quanto à parte que me toca:

No meu comentário não reduzi o problema da desseminação dos géneros fantásticos ao marketing (embora se possa fazê-lo), antes integrando essa vertente fundamental no panorama geral. Tirando isto, as iniciativas de marketing apontadas, tanto da Gailivro como da Presença, são tímidas, nem sempre bem dirigidas e/ou sustentadas. O Ar do Rymann foi, por exemplo, um caso de promoção não sustentada, morta ainda à nascença; um cavalo de corrida, mesmo que só corra uma pista de poucas semanas de vendas, deve ser acompanhado antes, durante e depois da corrida, e nada disso foi feito nesse caso. Os casos de boas vendas, nessas duas editoras foram as que tiveram mais apoio de marketing, e onde ele foi mais bem estruturado. Uma colecção para adultos chamada Viajantes do Tempo, com este mercado? As capas de quase todas a gente citada. Etc. Mas isto vale para quelquer livro em qualquer mercado, e foi a isso que chamei a atenção. E é um facto que se há uma boa campanha, mesmo o mais idiota ou inenarrável dos livros tem boas vendas. Os exemplos abundam. Da Vinci, é uma caca, mas mesmo antes de ser cá publicado, já era cacau garantido. Mais etc. Mas também não há dinheiro a pontapés para isto, o que tambem sei e é obvio. A minha chamada de atenção foi e é para o facto de que se os géneros Fantásticos tivessem as mesmas oportunidades de promoção que outros géneros possuem, os seus números seriam bem mais atractivos, a sua implantação no mercado mais firme.

Na questão da comunidade, nunca me preocupei com o segmento dos mais novos, tanto infantil como juvenil, áreas que não conheço, por opção, e das quais não falarei. Mas não influem no meio adulto, ou de jovens adultos, onde a SdE, tanto quanto vejo, se mantém como única e impar em relação ao que falei no meu post.

Atenção: há 2ª parte desta resposta a seguir.

n.fonseca disse...

Continuando:
Quanto a não vivermos os primórdios da FC, discordo um bocadinho de ti, obviamente. Em certo sentido restricto, não vivemos nos primórdios da FC em Portugal (desde os anos 50 até agora, muitas foram de facto as boas iniciativas), mas ainda não passou muito disso. Iniciativas. Na minha opinião, podemos estar agora na época dos 16 anos (se formos antropomórficos): porrada no recreio, muito sonho, algum cinismo e depressão pós-urbana, angst adolescente misturada com saber precoce, porém com clara noção de que podemos ir para a universidade num futuro próximo, se a coisa correr bem. Até agora, as comunidades formadas, os eventos, as obras, as personalidades, tudo tem funcionado como primeiras tentativas de alcançar a maturidade...e a meu ver chegaremos lá, sem dúvida, mas só não sei em quanto tempo. Como a coisa vai talvez não demorem muitos anos, mas se o ciclo das modas não correr bem, e as comunidades voltarem a morrer, demorará muito, mas muito mais tempo. Claro que isto é um analogia algo parva e limitada. Como todas as analogias, falha em coisas básicas. Mas é indicadora. E é também claro que não me refiro à qualidade das iniciativas históricas, aos autores, ao bom que já foi feito, etc. Sim, penso que estamos, porque nunca ainda conseguimos sair, nos primórdios da FC portuguesa; falta-nos consumar os ritos de passagem à idade adulta. Sem ser exaustivo, eis alguns indicadores para isso: colecções sustentadas, percepção geral da legitimidade da FC de boa qualidade (entre editores, leitores, autores e críticos), obras de excelência, implantação geral (noticias, recensões, críticas, artigos, contos, pré-publicações) nas publicações periódicas. E note-se que isto só pode acontecer COM o mainstream literário, e não longe dele como tem acontecido até agora, ou seja, temos de sair do recreio da escola e ir para a faculdade. Admito, como disse no post, que é o que tem modestamente acontecido nos últimos três anos, e que tem de continuar a ser incrementado. A Meus Livros tem sido impecável nesse aspecto, diria até didáctica. Mas, já alguém reparou que nos últimos meses até a LER (e menos, mas também, o JL) começa a fazer recensões de livros de fantástico? Quem diria. E apesar de normalmente impelidos pelos sucessos de marketing...

Sinceramente, e para finalizar, parece-me muito melhor perguntar como podemos chegar aos potenciais leitores do que demorar em saber para onde foram os que existiram. É mais pragmático. Mais uma vez, e exemplarmente, penso que é isso que a SdE anda a fazer. Mas há aqui uma perversãozinha. É que, como eu disse no post, os leitores que existiam andam aí, mas não se apercebem sequer do que existe agora (nem muito bem do que existiu - e a memória do português, como se sabe, é curat e muito selectiva). Quase todas as casas possuem um argonauta ou E-A nas estantes. Quando confrontadas com a existência de boas coisas cá e mesmo lá fora, ficam espantadas e curiosas. Falo de gente entre os 20 e 50 anos. Lido e lidei com isto toda a vida. Parte do que sempre fiz, porque nestas coisas da FC sou às vezes um cromo de marca maior, foi name-dropping, e por vezes, lá se ganha mais um fã. Ou ir às livrarias e fazer terrorismo livresco: pôr livros FC em sítios visiveis; pegar e passear com eles para as pessoas verem e depois ficar a ver como elas acabam por ficar curiosas e pegarem nesses livros (e muitas vezes levam-nos!). Noutros sitios e artigos já falei que há uma certa falta de acessibilidade e visibilidade ao género. E é verdade que acho isto ser um problema muito marketing-iano, mas não só (again), nem que deve só ser por esse ângulo visto ou lidado (para sermos algo tauromáquicos). Podiamos ter interessantes discussões sobre o que de mal ou bom ocorreu com todas as iniciativas antigas neste campo. E os leitores antigos estão lá...então como podemos alcançá-los é a pergunta relevante.

O que não escamoteia a necessidade de manter vivas as chamas anteriores, para que isto não seja um eterno recomeço, mas isso, bom, é tarefa para todos nós, n'est-ce pas?

Francisco Norega disse...

João,
«1) Se acompanhaste esta desnecessária questiúncula, ela nasceu de um twit gratuito de uma das pessoas nela envolvidas. Um twit que trazia à baila a Livros de Areia, embora não a identificasse pelo nome.

Só que a Livros de Areia não se circunscreve à minha pessoa, é todo um grupo que vai muito além dos editores, como sendo todos aqueles que nos ajudam a escolher títulos, a contactar autores, que traduzem, muitas vezes por amor à camisola, para que a editora e o género cresça. Todas essas pessoas se sentiram ofendidas. E, ao contrário de outras instituições nacionais, a Livros de Areia não tem medo de dar a cara pelas suas opiniões.»
Ya, tudo bem que o Jorge Candeias pode ter mandado uma boca suja, mas usar o nome da editora para participar numa troca de insultos muito baixa.
Acho que foi completamente idiota o uso do nome da editora para dizer coisas como «Editoras "profissionais" são... todas a que me pagam as traduções e não me querem publicar os originais» e «Editoras "amadoras" são... todas as que posso atacar porque não me pedem traduções... nem me publicam os originais».
Uma empresa há que manter o nível. Quando se desce a um nível tão baixo como este, perde-se toda a razão.

«3) Quanto ao "pessimismo", podia responder-te que se trata de "realismo", mas abomino esse tipo de resposta. No entanto, tu que tens quinze anos - e fossem todos os que têm 15 anos tão dedicados e aplicados como tu - tens que compreender que quando nós tínhamos quinze anos, o panorama da FC era muito melhor do que é hoje. E isto sem termos internet, nem blogues, nem marketing. Tínhamos inúmeras colecções, séries e filmes todos os dias - ou quase - na televisão (e só havia dois canais), banda desenhada, colecções de cromos, the whole deal.

Se hoje, com todas as maravilhas tecnológicas que temos ao nosso dispor, a situação piorou drasticamente, ao ponto de não haver UMA ÚNICA colecção dedicada à FC adulta, achas que não é caso para pessimismo?

Mas ainda bem que há gente nova com vontade de fazer coisas. Só posso desejar que tenham também a capacidade para as fazer. Ao fim e ao cabo, esse é o cerne escondido da questão.

Por isso, avante, com Che, até à victória... nem que seja de Pirro.»
Sim, a FC está pior do que estava (pelo menos em termos de números), mas o que é facto é que, na generalidade, a FC editada hoje tem muito melhores edições (pleonasmo xD) e traduções. É um avanço.
E a FC, mesmo assim, podia estar muito pior. Há que ver SEMPRE o lado positivo.

Safaa,
Eu também não conheço o suficiente da LdA para me pronunciar relativamente ao que o Jorge disse. No entanto acho que a LdA desceu baixo demais. Duas pessoas descerem tão baixo como desceram numa discussão é lamentável, mas compreensível, ainda mais tratando-se do Jorge e do João (que toda a gente sabe que não morrem de amores um pelo outro). De qualquer forma, uma entidade destas não devia descer tão baixo. Na minha humilde opinião ;)

Luís,
«Nada mais falso, caro Francisco. Quando o _Jonathan Strange & Mr Norrell_ foi anunciado, nada mais nada menos do que como um sucessor do Harry Potter, o hype foi tão grande que, antes mesmo de ser publicado --- e, consequentemente, lido pela maioria do público ---, havia ARCs no eBay leiloadas por 250 dólares ou mais. Naturalmente, depois de lançado, vendeu como se fosse cocaína crack.»
Bem, disso não sabia. Mas aposto que isso também tem a ver com o marketing.
Claro que a obra também tem de ter em si a potencialidade para ser um sucesso, mas o que eu quis dizer é que, com o marketing que a rodeava, vendeu que nem castanhas no Outono (yay, metáfora! xD), apesar de não ter vampiros nem ser o típico best-seller (com uma escrita muito ligeira e uma história pouco profunda), bem pelo contrário.


Quanto a este post, nem digo nada. Acho que vocês os dois desceram baixo mas conseguem descer ainda mais. Enfim.

Livros de Areia Editores Lda. disse...

"Ya, tudo bem que o Jorge Candeias pode ter mandado uma boca suja..." Ya? Ai sim? "Tudo bem"?

Francisco Norega disse...

Ya. Era culpa dele, um erro de uma pessoa. Depois a Livros de Areia desceu tão baixo quanto ele (ou até mais) e, aí, perdeu a razão toda.

Livros de Areia Editores Lda. disse...

"Depois a Livros de Areia desceu tão baixo quanto ele"
Pois, Francisco, era mesmo isso que tínhamos de fazer dado o alto valor da "boca suja": ir bem baixo para a entender e responder-lhe. Normalmente, esta é a triste consequência da emissão de "bocas sujas" na internet.

João Seixas disse...

Francisco,

Acho que esta discussão já vai bastante alongada, e eu ainda quero responder ao Nuno, que levantou algumas questões interessantes.

Mas há dois pontos que importa abordar naquilo que agora escreveste:

1) Quanto à intervenção da Livros de Areia numa questiúncula que nasceu da ociosidade twítica de um indivíduo - o Jorge Candeias: Se te deres ao trabalho de acompanhar toda esta questão desde o início, terás que concluir que foi o Jorge Candeias - e só o Jorge Candeias - quem insultou. Achas que a resposta da LdA constituiu uma provocação ao Jorge? Concedo, e considero legítimo. Mas dizeres que a LdA andou a trocar insultos não me parece que encontre reflexo na realidade.

É certo que o Candeias tem o dom de Midas: tudo o que toca, transforma no preparado alquímico do velhote no "Casarão", e isso possa fazer parecer que houve trocas de insultos, mas mede as palavras e as expressões que cada um utilizou, e verás quem insulta quem.

2) Idem aspas para a minha última troca de ideias com o Candeias. Lê o meu post e diz-me onde utilizo um único insulto cujo uso o Jorge não tenha considerado legítimo (apenas utilizei o burro, por referência o post que ele colocou a chamar burro a um desgraçado qualquer). Mas ele atira-se para o chão, rebola-se como um futebolista a segundos do fim do jogo a ver se gama um "penálti" e começa a atacar da forma mais inqualificável que há. Ou havia. No antigo fandom, chamava-se a isso a "lampoilização da conversa". Hoje já não interessa.

Mas quando já não tiveres quinze anos, volta a ler toda esta troca de epítetos - se tiveres paciência para tanto - e vais ver como tudo isto te parece estúpido, inútil, desnecessário e gratuito.

Luís R. disse...

"Bem, disso não sabia. Mas aposto que isso também tem a ver com o marketing."

Mas não se o público não estivesse minimamente receptivo para isso. Felizmente, a combinação de magia e romance histórico, tópicos mais do que populares na altura do lançamento do _Jonathan Strange_, contribuiram para uma adesão quase automática dos leitores que vieram (por exemplo) no arrasto do Harry Potter.

E que dizer dos milhões de dólares enterrados no marketing de produtos que se revelaram um fiasco? Basta uma vista de olhos pelas listas de 'box office busts' para teres noção daquilo que, bom e mau, nem o marketing é capaz de salvar. Lembro-me que a Atari quase faliu quando, confiante no sucesso da adaptação para videojogo do filme _ET_, acabou com 500 milhões de dólares de prejuízo.

Claro que o marketing é importante, mas não é uma fonte dos desejos onde vais despejar básculas de dinheiro à espera de sucesso imediato. Acima de tudo, não é garantia de que vais fidelizar leitores para outras obras, ou para um género inteiro.

"vendeu que nem castanhas no Outono (yay, metáfora! xD)"

Em rigor, é uma comparação. Metáfora é um professor de português dizer que os seus alunos são burros.

"apesar de não ter vampiros nem ser o típico best-seller (com uma escrita muito ligeira e uma história pouco profunda), bem pelo contrário."

Primeiro, ver acima o que disse sobre o livro no contexto do Harry Potter e do romance histórico.

Segundo, não percebo o espanto de ver uma obra inteligente e complexa ter aceitação comercial. E o Cormac McCarthy, o Stieg Larsson, o Roberto Bolaño, e outros que partilham os tops actuais com a famigerada Stephenie Meyer?

Luís R. disse...

"Ya. Era culpa dele, um erro de uma pessoa. Depois a Livros de Areia desceu tão baixo quanto ele (ou até mais) e, aí, perdeu a razão toda."

Com que então é a Livros de Areia, pela pessoa do Pedro Marques (que tem feito um trabalho hercúleo e verdadeiramente excepcional na editora), que perde a razão quando tenta defender o bom nome da empresa? Eu teria dispensado as provocações, porque conhecendo o interlocutor, sei que só iriam contribuir para uma escalada desta situação desagradável, mas dizeres que a LdA desceu ao patamar do Jorge Candeias (que, por exemplo, não hesitou em acusar outros de amadorismo) é pura fantasia.

Francisco Norega disse...

Quanto à questão do amadorismo, ele esclareceu isso. Há músicos amadores muito melhores do que músicos profissionais. É tudo uma questão de capital.

João Seixas disse...

Ya. Há quem ache que é isso, Francisco. Que tudo se resume ao capital.