Mostrar mensagens com a etiqueta Robert A. Heinlein. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Robert A. Heinlein. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Blade Runner Ano 3: A Incógnita



E já lá vão dois anos desde que resolvi criar o Blade Runner. Dois anos que ficaram – há que reconhecê-lo – muito abaixo das expectativas, se não dos leitores, pelo menos das minhas. Ser-me-ia confortável observar que o mal foi generalizado. Alguns dos principais blogues da área do Fantástico, Os Cadernos de Daath, o Efeitos Secundários, o Stranger in a Strange Land, diminuíram, também, acentuadamente, o ritmo de publicação, traduzindo aquilo que penso ser um acréscimo de trabalho profissional que impossibilita os seus autores de dedicarem mais tempo à escrita virtual. Isso é visível também no Lâmpada Mágica, com o Jorge Candeias a dedicar-se em exclusivo à tradução. É um factor importante, mas meramente descritivo. No meu caso, um acumular de compromissos profissionais e pessoais (traduções, críticas, redacção de ensaios, escritas um pouco por todo o lado, a par da minha actividade profissional no foro) impuseram o caos na minha capacidade de manter-me a par com lançamentos, eventos, novidades, quanto mais a actualização regular deste blogue.


Por outro lado, não posso deixar de pensar que este estado de coisas reflecte um outro dado essencial: o mercado do Fantástico, apesar de toda a aparente pujança, não existe para os autores nacionais. Pese embora a falta de números “oficiais” (e muitas vezes, mesmo de números oficiosos), parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita, vendo-se obrigado a complementar – se não mesmo a assegurar – os seus rendimentos, por outros meios. Para os que escrevem habitualmente, como o David Soares e o Luís Filipe Silva, a tradução parece ser o principal refúgio. Aliás, creio que se fizermos um apanhado de TODOS os autores portugueses da área FC&F, chegaremos à conclusão de que todos eles ganham mais a traduzir a escrita de outros do que com a sua própria. Note-se – sempre é uma forma de estarem próximos daquilo que gostam de fazer, ao mesmo tempo que é um meio para aprimorar as suas próprias técnicas de escrita. Mas não deixa de ser, também, um factor de preocupação, num mercado livreiro que, ao que parece, tem feito fortunas com o género (Rowlings na Presença, Paolini na Gailivro, Tolkien na Europa-América e, em grau menor, Martin na Saída de Emergência), encontrando nesses autores uma espécie de apólice de seguros mais ou menos fiável para um eventual período de vacas magras.


Isso leva-me ainda a uma outra e deprimente observação. Empoleirado desde 2000, como Humpty Dumpty, no muro que divide os fatalistas (João Barreiros et al.) dos optimistas (ainda que moderados – Candeias et al.), não mais me é possível equilibrar entre as duas posições. And not all the king’s horses, nor all the king’s men, can put me back up there again. Verdade seja dita, sempre pendi mais para o lado dos fatalistas, mas creio que agora se trata de um facto inegável: a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica.



É certo que o Horror não está melhor. Se descontarmos o surto de publicações comemorativas do bicentenário de Poe, o trabalho cadenciado de David Soares, e a tradução mais ou menos regular dos títulos de Stephen King (pontilhados pela publicação esporádica de um outro tímido título de horror), complementados pelos clássicos em domínio público que a Saída de Emergência e a Presença vão publicando com alguma regularidade, o género está tão desvitalizado como uma múmia privada das folhas de chá de tana. Nota-se-lhe, porém, uma latência que lhe permite algumas esperanças no curto ou médio prazo, mas nada que justifique um grande optimismo, sobretudo quando o género está a ser deturpado no arrasto da irracional febre gerada pelos medíocres pastiches de Stephenie Meyer. Podemos esperar o afloramento de alguns títulos de Laurel K. Hamilton por duas editoras distintas, um punhado de bons títulos que vão surgir na Saída de Emergência (e o irritante que é termos que estar sempre a falar das mesmas editoras, pois são elas que levam aos ombros os géneros do fantástico), mas nada dos milhares de títulos essenciais a qualquer biblioteca do horror publicado após 1950. É um desfasamento inultrapassável.


Da Fantasia mais vale nem falar. Os números traduzem a sua vitalidade, mas escondem a verdade: e a verdade é que também não existe um mercado de Fantasia em Portugal. Existe apenas a exploração exaustiva de um sub-género impuro da Fantasia que, à falta de designação universalmente reconhecida, podemos chamar Imitação Derivativa de Fantasias de Poder Adolescente.


Irónico, por isso, que se cumpram este mês setenta anos sobre o início da chamada Golden Age da Ficção Científica (1938-1946), o período em que a literatura de ficção científica evoluiu ao ritmo da batuta de John W. Campbell ao leme da Astounding Science Fiction. Embora Campbell tenha assumido a direcção da Astounding em Maio de 1938, à falta de uma data “oficial”, e em retrospectiva, o fandom vem reconhecendo como momento fundador o da publicação da edição de Julho de 1939 dessa revista. Nesse número, surgia a noveleta Black Destroyer de Van Vogt, um dos textos mais influentes do cânone da moderna FC (e inspiração directa do filme ALIEN que Ridley Scott realizou em 1979 – lá andamos com os anos terminados em nove), primeira publicação do autor, e também Trends, o primeiro conto que Asimov publicou na revista que o tornaria o mais conhecido autor de FC de sempre. (Nestas coisas das coincidências, Trends foi um dos contos, escrito e publicado 30 anos antes da alunagem da Apollo 11, que escolhi para a antologia comemorativa desse evento que a Saída de Emergência faz chegar às livrarias no próximo dia 10). No número seguinte, o de Agosto, surgiria na mesma revista o conto Life-Line, a estreia literária de Robert A. Heinlein (de que falaremos aqui brevemente), abrindo um período de exclusiva predominância da Astounding de Campbell – período que se estenderia até 1946, data da publicação da célebre antologia de Healy e McComas. A propósito, e de acordo com as memórias do bom doutor (In Memory Yet Green: The Autobiography of Isaac Asimov, 1920-1954, Doubleday, 1979) o número de Julho de 1939 da Astounding chegou aos escaparates no dia 22 de Junho desse ano, permitindo datar de forma ainda mais precisa essa efeméride.

Daí que, por tudo quando acima se deixou dito, para este novo ano de actividade bloguística, não faço planos. Continuarei a falar de pulp fiction, preenchendo a lacuna do que prometi no ano passado, de filmes e de séries de televisão (idem aspas), procurarei levar ritmadamente a série de homenagens ao trabalho de Heinlein, e falar um pouco mais de livros e das suas traduções. Será um ano de incógnitas, de caminhos bifurcados, ao gosto de Borges, com pelo menos dois carreiros a serem explorados no curto/médio prazo.



Por um lado, e à laia de celebração do quadragésimo aniversário da Alunagem, proponho-me explorar, num outro blogue, as várias representações dessa viagem à Lua conforme esta foi imaginada pelo cinema e pela televisão entre 1902 e 1969. Será uma viagem com partida prevista para data incerta, algures entre 16 e 20 de Julho (datas, respectivamente, em que a missão Apollo 11 partiu de Cape Canaveral e chegou à Lua), e que se estenderá, lânguida, ao sabor da disponibilidade de tempo e de material. Será, portanto, uma viagem com final em aberto, mas que pretendo tão exaustiva quanto possível.


Já a partir de hoje (bom, convém dar margem de manobra, uma vez que até ao próximo dia 15 tenho ainda imensos prazos pendentes; daí que este hoje deva ser entendido num sentido mais lato do que o habitual) a minha atenção dividir-se-á entre o Blade Runner e um outro blogue dedicado, em exclusivo, ao cinema de Horror. Podem acompanhá-lo, aqui.

Assim, convido-vos desde já a embarcar comigo neste terceiro ano de actividade, e a descobrir onde – e se – nos levará a algum lado. Neste momento, your bet is as good as mine.

A sátira dedicada a Twilight, foi retirada daqui.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

21 sem Heinlein


Robert A. Heinlein faleceu há precisamente 21 anos, a oito de Maio de 1988. A efeméride em si, não é digna de especial destaque; afinal, não estamos a falar dos redondos 20 anos que se cumpriram no ano transacto, ou do centenário do seu nascimento que se celebrou em 07 de Julho de 2007. Mas este 21 não deixa de ter o seu significado peculiar, no sentido em que praticamente nenhum país do mundo estabelece a maioridade para lá dos 21 anos (apenas me ocorre El Salvador que a fixa nos 25). O que significa que qualquer pessoa que não tenha ainda entrado na maioridade, nunca experimentou o prazer de ter um livro novo de Henlein para ler.

Ainda me recordo das circunstâncias em que pela primeira vez li algo do primeiro Grand Master da ficção científica, mais concretamente a tradução portuguesa de I Will Fear No Evil (1970) no escaldante Verão de 1986. Lembro-me de o ter comprado por não conseguir encontrar um livro do Alistair MacLean de que ia à procura e queria ler algo nesse fim-de-semana. E li-o - todo - sem sair de casa apesar do calor... a não ser para ir procurar mais livros do Heinlein. E que maravilha foram os anos 80, pois ainda era possível encontrar quiosques onde comprar livros aos Domingos, com enormes reservas de velhos Argonautas, em Viana do Castelo (hoje já não existem). Que I Will Fear No Evil não fosse um dos melhores de Heinlein foi apenas mais uma fascinante surpresa... mais um sintoma de que me estava a viciar em Heinlein e, através dele, em FC.

Não voltei a ler esse livro - e ainda não li toda a sua obra, apesar de a ter em casa, devidamente alinhada cronologicamente e complementada por alguns volumes críticos e biografias. Ultimamente, por via do trabalho numa antologia que vai incluir três dos seus contos, voltei a contactar de perto com alguns dos meus títulos favoritos. Alguns, é certo, já não se lêem com o prazer de antes, mas é impossível deixar de reconhecer a presença nas suas páginas do código genético da ficção científica actual.

Visitando hoje as livrarias, já não se encontram frequentemente os seus livros, essencialmente traduzidos para as colecções Argonauta e FC de Bolso da Europa-América, mas com passagem também pela Azul da Caminho. Poucos dos jovens leitores de hoje saberão que durante quase cinquenta anos, de 1939 a 1987, Heinlein foi a força dominante da FC, um género que fez seu e que moldou de forma indelével.

Por isso, e porque 21 anos é demasiado tempo sem Heinlein, aqui no Blade Runner vamos reconstruir, conto a conto, novela a novela, o percurso literário do Homem que nos Vendeu a Lua.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Espaço para mexer os braços


Aprecio especialmente esta ilustração. Transmite uma sensação de silêncio, de insuperável isolamento. Nenhuma abertura fende o casco da nave, não se esvai o mais económico fio luminoso. A falta de janelas indica claramente tratar-se de uma nave de longo curso: só nelas o cenário permanecerá imutável, fixo nas vigias como uma pintura jocosa. A nave tem asas, promessa de uma aterragem com manobrabilidade atmosférica. Tal como não se vêm aberturas, não se vê também qualquer insignia, slogan publicitário emblema corporativo. Ou o aparelho está no espaço interplanetário há tempo bastante para que o bombardeamento de partículas tenha queimado qualquer tinta aplicada, ou trata-se de um empreendimento de olhos postos apenas no futuro, livre dos constrandimentos contemporâneos.

E imaginar as pessoas que viajem no seu interior; sim, porque não é possível acreditar numa nave robot, onde os mecanismos substituíram completamente o espírito de descoberta e exploração. Não são ainda os anos do comodismo, os anos 90 do século XX, ou os primeiros desta década.

Recordo-me das palavras de Heinlein, a abrir um dos seus contos mais improváveis, Gentlemen, Be Seated (quem o leu, não pode deixar de sorrir com este título): "It takes both agoraphobes and claustrophobes to colonize the Moon. Or make it agoraphiles and claustrophiles, for the men who go out into space had better not have phobias. If anything on a planet, in a planet, or in the empty reaches around the planets can frighten a man, he should stick to Mother Earth. A man who would make his living away from terra firma must be willing to be shut up in a cramped space-ship, knowing that it may become his coffin, and yet he must be undismayed by the wide-open spaces of space itself. Spacemen - men who work in space, pilots and jetmen and astrogators and such - are men who like a few million miles of elbow room".

E são cada vez menos...