Mostrar mensagens com a etiqueta Safaa Dib. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Safaa Dib. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Algo que se perdeu...


A Safaa Dib, assistente editorial na Saída de Emergência, assina no seu estimável blogue mais um texto extremamente pertinente sobre a triste realidade do presente mundo editorial. O fenómeno é mais ou menos transversal ao mundo ocidental, mas não deixa de ganhar particular acuidade no nosso entorno luso, até pela novidade que reveste numa actividade que, até há bem pouco tempo, se mantinha afastada das luzes da ribalta e da atenção pública. Pela experiência que a Safaa adquiriu nas movimentações editoriais que se registam longe do plano com que os leitores mais directamente contactam, e pela actividade que vem mantendo há quase uma década na organização do Fórum Fantástico (juntamente com o Rogério Ribeiro) e no fomento do Fantástico nacional, e na denúncia de situações menos límpidas em torno de algumas vanity presses, o texto em causa reveste-se de uma maior acuidade.

Sobretudo, quando ela aflora - embora, lamentavelmente, não aprofunde - uma questão essencial que poucos se têm ainda dado ao trabalho de denunciar. Quando a Safaa escreve, de forma certeira, que "Homens que normalmente não compreendiam o negócio de livros, mas compreendiam perfeitamente a palavra negócios, foram postos à frente dos destinos de editoras.", está a chamar a atenção para um fenómeno que começou lá fora há coisa de 20 anos e que finalmente se instala em Portugal com o maior despudor: o desaparecimento progressivo dos Editores. A demissão gradual das suas funções, substituídas pelas de meros administradores, pouco mais que contabilistas indiferentes àquilo que vendem.

Já foi observado inúmeras vezes que o campo do Fantástico sempre se desenvolveu graças ao impulso visionário de Editores carismáticos: Hugo Gernsbach, John W. Campbell, Horace Gold, Gardner Dozois, Ellen Dattlow, Michael Moorcock, David Hartwell entre tantos, tantos outros. O Pedro Marques, tanto no seu blogue como no blogue da Livros de Areia, vem prestando homenagem a outros tantos editores do mainstream, como Maurice Girodias, Barney Rosset, ou Giangiacomo Feltrinelli, uns e outros inspiração para aquilo que nós próprios procuramos lograr como Editores na LdA.

E no entanto, numa altura em que se publica como nunca se publicou antes, onde o negócio livreiro se gaba de movimentar 500 milhões de euros por ano, os Editores - daqueles que fazem jus a esse nome - são cada vez menos. E, infelizmente, o Fantástico é um dos responsáveis. Nunca antes de Rowlings, ou Paolini, ou Meyer se tinha assistido ao fenómeno de edições sucessivas na ordem dos milhares de exemplares por dia. Na Gailivro-LeYa, Meyer vendeu qualquer coisa como 600.000 livros, coisa inimaginável há uns anos atrás e ainda impossível para 99% dos demais autores e/ou editores. A abundância gera prodigalidade e a prodigalidade gera hábitos caros. Daí que a grande ambição dos Editores - descobrir o novo grande clássico da literatura, o futuro Pessoa, ou o futuro Sena - transformou-se na descoberta do próximo best-seller, sem qualquer consideração pela qualidade do mesmo.

A literatura desceu ao nível de uma moda, comparando-se a umas meras calças de ganga ou cuecas fio-dental. Só isso explica que editores, um pouco por todo o mundo, tenham deixado de encarar as obras literárias como objectos únicos e originais que darão a conhecer aos leitores, e tenham passado a procurar a próxima moda: há uns anos atrás eram os dragões e os elfos, no ano passado os vampiros, o que é que vai ser a seguir?

Em Portugal a Gailivro aposta nos zombies; lá fora, apostam nos anjos. Justin Chanda, editor da linha de juveniles da Simon & Schuster explica porquê perante a observação de que Bad-boy angels are the new hotties. Like modern vampires, they can be gorgeous, immortal and otherworldly heartthrobs, unlike, say, zombies. "With all that rotting-off, they're not very sexy."

Anjos ou Zombies, serão apresentados como uma moda, a ser mastigada e remastigada durante uns tempos (intervalos cada vez mais curtos, tal como sucede com os telemóveis) antes de ser substituída por uma nova moda (talvez os centauros ou sanitas falantes). Estes novos "editores" partem já do princípio de que os leitores (e estes são cada vez mais jovens, cada vez menos críticos, cada vez mais iguais) reagirão automaticamente a este reposicionamento dos temas e dos afectos literários, pois não querem estar "fora de moda". No que não se enganam, pois o gosto de leitura destas novas gerações é formado nas redes sociais electrónicas que tendem a impor uma homogeneidade à escala global.

O acto de ler um livro, um dos raros prazeres individualistas a que alguém se pode dar, passa a ser encarado como uma actividade colectiva sob pena de exclusão dos não-aderentes, que passam a ser os novos nerds, os elitistas e intelectuais, pois a ênfase nesta leitura comunitária é sempre e exclusivamente colocada no prazer sensual da leitura.

Neste quadro, os Editores deixam de lidar com livros - com o texto, o seu conteúdo e a sua relevância - e passam a lidar com gostos, e gostos cada vez menos exigentes. Os nossos editores de Fantástico de leva mais recente, nasceram para a profissão neste caldo, sem nunca terem lido um manuscrito inédito, guiando-se pelos indicadores fáceis dos tops de referência internacionais. Nunca conheceram um mercado livreiro em que os livros tivessem voz própria, ao invés de se imitarem uns aos outros numa conformidade doentia; um mercado onde um livro tivesse valor enquanto tal, e não como potencial primeiro degrau de uma franchise lucrativa. Só isso explica aquele editor que no Verão passado em entrevista à Notícias Magazine, anunciava a descoberta de um novo fenómeno na literatura fantástica: as stand alone novels, como se 99% da literatura fantástica não se compusesse de livros individuais que nunca foram pensados ou quiseram ver-se integrados em séries intermináveis.

Foi algo que se perdeu em tudo isto: a excelência da edição, a individualidade da leitura, a essência do livro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cinco Anos de Estouro


Foi em Novembro de 2005 que a primeira BANG! (#0 - confesso que nunca percebi a lógica disto) surgiu no decurso do Fórum Fantástico, o primeiro organizado sob essa designação pela Safaa Dib e pelo Rogério Ribeiro, com o apoio da Épica - Associação Portuguesa do Fantástico nas Artes. Aqueles que acompanharam de perto o(s) acontecimento(s), terão certamente na sua colecção um exemplar da tiragem da revista que apresentava a capa completamente despida de lettering. Erros e enganos que ajudam a valorizar estas pequenas coisas, a enriquecer colecções do género e a cimentar uma memória colectiva do género em Portugal.

Esse primeiro número, que no segundo dia do Fórum já se apresentava normalmente vestido, anunciando na capa um artigo sobre "Saramago: o Nobel da Ficção-Científica", da autoria de "José" Candeias, e a pré-publicação de Salomão Kane, marcava também a estreia em Portugal de Lavie Tidhar, com o conto Aranhas Temporais, Teias Espaciais, que acompanhava ficção portuguesa de David Soares, Ágata Ramos Simões e João Ventura. Um receita eclética que se revelou de sucesso, apesar de algumas queixas quanto ao arranjo gráfico demasiado próximo do de um "mero" fanzine. Afinal, a BANG!, era a primeira revista séria exclusivamente dedicada ao Fantástico, estatuto que foi consolidando ao longo dos dois números em papel que se seguiram.

Efectivamente, quando a BANG! surgiu, sob direcção de Rogério Ribeiro, os fanzines nacionais apresentavam ainda alguma agitação. O Rogério assumia as rédeas da revista após ter assegurado a edição de cinco números do Dragão Quântico, onde também colaborou Ricardo Loureiro, editor do Hyperdrivezine, do Câmara Obscura e do Nova. Com o número 3, a BANG!, afectada por vendas escassas, transita para o formato digital, ganhando número de páginas, maior variedade de conteúdos e mais maturidade crítica e literária, até se tornar a revista de referência no Fantástico e sobrevivendo ao progressivo e paulativo desaparecimento de todos os fanzines e e-zines que durante alguns anos, e graças aos esforços do Rogério Ribeiro, do Ricardo Loureiro, do Telmo Pinto e do Tiago Gama contribuiram para o aparecimento de novos autores e para o enriquecimento do género.

Com o seu número 7, oitavo número da revista, e com mais uma gralha de colecção na capa (datada de Fevereiro de 2009), a BANG! retoma a edição em papel, desta feita sob direcção de Luís Corte-Real e Nuno Fonseca e com um grafismo profissional e praticamente irrepreensível. Nuno Fonseca, no seu editorial, promete "renovar constantemente, pisar novos territórios e abraçar novas ideias", e fiel a esta determinação a revista diversifica ainda mais os seus conteúdos, estendo a cobertura ao cinema e à banda desenhada (duas lacunas que era importante preencher) e deixando de fora apenas a música - e creio que a revista ficaria perfeita com uma secção semelhante à que Douglas E. Winter assina na VideoWatchdog.

A par da ficção de Vasco Curado (presença habitual da BANG!), Valéria Rizzi (uma surpresa para quem não "a" conhece), Gerson Lodi-Ribeiro, Renato Carreira e Richard Matheson, os ensaios de David Soares (uma magnífica análise do Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago e do superior The Day of the Triffids de John Whyndham), António de Macedo (sobre uma fabulosa biblioteca digna dos sonhos de Borges) e José Carlos Gil (conclusão do seu ensaio sobre Lovecraft iniciado no número anterior) ajudam a tornar este número da revista numa peça de qualidade invejável. É, sem dúvida, um dos melhores números da BANG!, confirmando a curva ascendente de qualidade que vinha prometendo desde a edição inicial há quase cinco anos.

Infelizmente, o editorial de Luís Corte-Real agourava já tempos menos bons. Quando o editor diz, "Mesmo que vendamos todos os exemplares impressos, a editora não vai ganhar um cêntimo", é sempre de temer o pior. O que é pena, pois a BANG! é uma revista imprescindível para qualquer pessoa que leve a sério o Fantástico em Portugal. Mais do que isso, é assumidamente a única revista portuguesa dedicada ao Fantástico, sobretudo depois de a esperança prometida pela Dagon se ter desvanecido com um número experimental verdadeiramente medíocre e o subsequente desaparecimento nos esconsos de uma vanity press. É por isso dever de todos nós fazer saber à Saída de Emergência e aos editores da BANG! que não prescindimos da revista e que não prescindimos da revista em papel. Afinal, é a única que temos.

Numa tentativa de minorar as despesas, a Saída de Emergência resolveu voltar a organizar a revista com a "prata da casa"; sai, por isso Nuno Fonseca, a quem devemos agradecer a co-organização de um número da revista verdadeiramente memorável. A substituí-lo, Safaa Dib assume a direcção da revista, representando uma garantia de qualidade e de continuidade no trabalho de excelência que a BANG! vem desenvolvendo em prol do Fantástico.

Espero, por isso, com ansiedade pelo próximo número.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Hoje


Apenas uma breve interrupção, nesta breve interrupção, para chamar a vossa atenção para o facto de que é já hoje que tem início o FÓRUM FANTÁSTICO 2008, o único evento nacional inteiramente dedicado a todas as vertentes da literatura e da arte fantásticas.

Ora, e precisamente no dia de estreia do Fórum, a revista OS MEUS LIVROS presenteia os seus leitores com um generoso dossier sobre o estado do fantástico em Portugal. São 10 páginas (de um total de 82 da revista, ou seja, mais de 10% do conteúdo deste mês) inteiramente dedicadas ao Fórum e ao que (bem ou mal) se tem feito nestes últimos anos nesta nossa lusa periferia. Os textos são da autoria de João Morales e deste vosso modesto escriba.

Uma chamada de atenção também para a anunciada renovação da imagem do serviço MB. Dir-me-ão que não tem nada a ver com o tema deste blogue (ou deste post), e de facto não tem. Mas é - como seria de esperar - mais um passo na crescente infantilização da nossa sociedade. Um visual leve, com cartõezinhos animados que piscam os olhos e acenam os bracinhos... Será curioso verificar se os actos de violência contra as caixas ATM não aumentarão depois desta renovação. Eu próprio mal resisto aos meus instintos mais violentos.

A ciência e a tecnologia (com especial destaque para a Medicina) têm-nos proporcionado uma longevidade cada vez maior, dando-nos oportunidade de perpetuar a nossa memória através de obras e legados. Infelizmente, a tendência tem sido para perpetuar apenas a infância. Sinais dos tempos.

São, no entanto, sinais preocupantes. E, se têm acompanhado também as sucessivas actualizações ao programa do Fórum Fantástico, e as várias declarações públicas dos organizadores (com especial destaque para os incansáveis Rogério Ribeiro e Safaa Dib, que por isso merecem o agradecimento e aplauso de todos os fãs da fantasia, do horror e da ficção científica) saberão que uma marcada diminuição de apoios condicionou de certa forma o cartaz deste ano.

Gostava de repetir aquilo que já disse acima, e recordar-vos de que o FÓRUM FANTÁSTICO é o ÚNICO evento anual nacional dedicado à arte e literatura fantásticas. É também a única oportunidade de o fandom se encontrar para pôr a conversa em dia, comentar os últimos livros e filmes, discutir ideias sobre o que estão a ler ou a a escrever, em suma, de conviver num ambiente inteiramente dedicado aos géneros de que tanto desfrutamos e a que dedicamos tanto do nosso tempo. Isso é duplamente importante para aqueles que, como eu, residem longe de Lisboa. Pela primeira vez desde os ENCONTROS LITERÁRIO de 2004, não estarei presente desde o primeiro dia, de mãos coladas ao teclado por prazos já longamente ultrapassados, o que me tem mergulhado em negras considerações.

Num país como este, onde o que de melhor se faz na área do Fantástico é constantemente espezinhado e desprezado, usufruindo de uma longevidade efémera, nunca é garantido que exista o Fórum do próximo ano, o encontro do próximo ano ou a Convenção do próximo ano. Os Encontros organizados pela Simetria em Cascais, não sobreviveram a mais do que quatro edições. Este é o 4º Fórum Fantástico. A organização de um evento desta natureza, sempre feita contra ventos, marés, velhos do Restelo e politiquices críticas e editoriais, apenas é possível de lograr com o esforço e a dedicação de uns poucos, que sacrificando a sua vida pessoal (e dinheiro do seu próprio bolso) nos proporcionam a todos estes quatro dias de imersão nos universos alternativos da cultura popular. E nada é mais frustrante do que o esforço que não é devidamente recompensado.

Por isso, a não ser que tenham algo REALMENTE muito importante que vos impeça de ir até Lisboa, ou se residem em Lisboa, de dar um salto à Faculdade de Belas-Artes, ao Chiado, não faltem a este evento, quanto mais não seja para demonstrarem aos organizadores a vossa gratidão e o vosso apoio ao esforço deles.

É que ninguém os pode obrigar a organizar o Fórum do próximo ano. E se eles resolverem desistir do evento, se resolverem que o esforço deles não é reconhecido e não é recompensado, quem perde são os fãs da Literatura Fantástica...

Quanto a mim, vê-mo-nos por lá Sábado e Domingo.

E desde já, parabéns Safaa e Rogério.