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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um livro por dia: VIAGEM AO INFINITO



Prometi-vos caos. Caos emergente da proliferação de títulos a que começamos a assistir desde meados dos anos sessenta e que se começa a intensificar no início da década de setenta. Abril de 1974 traria consigo a bonança, ainda que maculada pelo desaparecimento súbito de editoras e publicações no final da década, vítima da proibição de saída de divisas e da escassez - e consequente carestia - do papel. Essa súbita e inesperada bonança, que vinha já ganhando ímpeto, permitiu o momento que se estendeu até meados dos anos 80, com o surgimento de novas colecções e uma celebração generalizada da Ficção Científica depois dos sucessos encadeados de 2001: A Space Odyssey (1968), Planet of the Apes (1968), Barbarella (1968), A Clockwork Orange (1971), Silent Running (1971), Phase IV (1974), Star Wars (1977), Close Encounters of the Third Kind (1977), E.T. (1982) e a aproximação de 1984, o ano da FC por excelência.

Para o período em apreço (o breve intervalo 1971-1972, que enquandra este grupo de volumes de que vos quero falar), não há dúvidas de que é o cinema - sobretudo o sucesso estrondoso e inesperado de 2001 - que impulsiona o surto de publicações. Na contra-capa deste VIAGEM AO INFINITO de Poul Anderson, a Ficção Científica chega mesmo a ser referida como um "novo género de literatura que está conquistando cada dia, um maor número de fans" (sic), depois de nos informar que os três primeiros volumes da colecção Cosmonauta "tiveram do público uma aceitação invulgar". O que, além de desnecessário, é falso, pois é este o terceiro volume da colecção.

Daí a publicação oportunista, apressada e atabalhoada de títulos e colecções, antecipando de forma surpreendentemente exacta o mercado actual, onde as editoras correm atrás da "imagem", do "nome", do "tie-in", ao invés da qualidade intrínseca das obras. Parece despiciendo observá-lo, mas corram os olhos pelas edições de que já aqui falei, rebusquem nas vossas próprias colecções, em vossas casas, e depressa se aperceberão de que a maioria dos autores de então anuncia a "qualidade" da obra, o arrojado dos temas, a novidade das ideias ou, cedendo ao orgulho, os prémios arrecadados pelos livros ou pelos autores. Menos frequente, como no caso em apreço, apelo ao sucesso de vendas, à recepção do público, ao estatuto (ainda incipiente) de best-seller.

Esta corrida à moda da FC, não deixou de provocar os seus estragos; estragos que encontramos no aproveitamento célere de traduções brasileiras para o mercado nacional - com o brasileiro por vezes intocado, outras transformado de forma apressada em português; nas traduções de fraca qualidade, na confusão de títulos, na confusão de obras...

Exemplo claro de todos eles, este VIAGEM AO INFINITO de Anderson. Desengane-se o leitor que pensar que se trata do mesmo livro de que falei no post anterior. Apesar da quase simultaneidade de publicação - menos de um ano medeará entre ambos, atendendo ao autocolante colocado na contra-capa deste volume, anunciando "1972 - Ano Internacional da Leitura" - um mesmo título cobre duas obras distintas. Imagino a confusão do leitor que em 1972, desconhecedor das obras originais, procurasse identificar este livro.

A par do título, a Brasília Editora, do Porto, informa-nos que o volume que temos em mãos é a tradução portuguesa (da autoria de J. Ferreira de Almeida) da obra STAR KING'S (sic). Ora, Poul Anderson nunca escreveu um livro com esse título, nem antes de 1972, nem depois dessa data. Os leitores mais atentos, reconhecerão o título THE STAR KINGS, como pertencendo ao primeiro volume do díptico das aventuras de John Gordon que Edmond Hamilton esceveu em 1949. Levados pela informação da contra-capa, que anuncia um quarto-volume da série como sendo GUERRA NA GALÁXIA daquele Hamilton, ficará convencido de que se trata desse livro, traduzindo-se a capa e a lombada num erro gráfico que repetiu a capa do número 3 da colecção, que seria então a VIAGEM AO INFINITO de Anderson. Mas também esse leitor estaria enganado.

Também a capa não ajuda, sendo completamente alheia ao tema da obra, pese embora o atractivo da ilustração, tão ao gosto da corrente danikeniana tão em voga nessa altura.

É necessário ler o livro - apesar de não todo - para nos apercebermos de que se trata da tradução de STAR WAYS, primeiro volume do ciclo da Psychotechnic League que Poul Anderson publicou em 1956.

E assim se esclarece o mistério. Fica o leitor curioso em saber se o quarto volume foi realmente GUERRA NA GALÁXIA/THE STAR KINGS de Hamilton? Pois terá que aguardar pelo post de amanhã.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um livro por dia: VIAGEM AO INFINITO



Nestes posts mais próximos quero falar-vos de um punhado de volumes de certa forma "estranhos" nalgumas das colecções que foram surgindo (e logo desaparecendo) concorrencialmente com a Argonauta da Livros do Brasil. Na verdade, são simples exemplos que demonstram que apesar do potencial de sistematização e organização oferecidos por uma colecção temática, o público leitor era frequentemente servido pela habitual desorganização - para não dizer caos - que sempre foi grassando neste tipo de esforços na realidade lusa. Na verdade, espero demonstrar, ainda que de forma enviesada, a origem de algumas das referências que foram informando os nossos directores de colecções e, quiçá, alimentando a entropia que paulatinamente vem impedindo o desenvolvimento de um esforço coerente de divulgação do género.

Para isso, e como ponto de partida, peguemos num exemplar normal da Série ANTECIPAÇÃO. VIAGEM AO INFINITO de Poul Anderson é o número 53 dessa colecção dirigida por Lima Rodrigues. A minha escolha não se prende com qualquer anomalia intrínseca deste volume - embora pudéssemos apontar desde já o erro no grafismo do apelido do autor em plena capa (não no interior, que idenifica correctamente o autor como Anderson). O alcance desta escolha tornar-se-á evidente no próximo post.

No entanto, este exemplar permite-nos desde já efectuar algumas observações menores. Começando pelo facto de que desde o número um a editora mudou de nome de Editorial Panorama para Galeria Panorama; em segundo lugar, que a par da goma que unia a face exterior das folhas garantindo ao leitor o carácter pristinal do seu exemplar, encontramos já o papel azulado, bastante agradável, que referi no post anterior. A própria editora informa-nos: "Este livro é impresso em papel especial, anti-reflexo, opaco e de cor, preparado cientificamente para a leitura nocturna", o que parece traduzir a participação numa campanha de incentivo à leitura. Coincidentalmente - ou não - 1972 viria a ser o "ano nacional da leitura".

VIAGEM AO INFINITO (Tau Zero) foi publicado originalmente em 1970, e embora o livro não identifique a sua data de edição nacional, podemos apontar com alguma segurança para finais de 1971 ou inícios de 1972 (o primeiro número da colecção, de acordo com a nem sempre fiável Bibliowiki foi publicado em 1967, e de acordo com o próprio volume, antes de Julho; admitindo que a colecção manteve uma publicação mensal mais ou menos regular, este volume teria sido publicado quatro anos e quatro meses após o primeiro, ou seja, por volta de Outubro de 1971). Sem estar ao nível do melhor de Anderson, é uma novela que joga de forma fascinante com os efeitos temporais relativisticos experimentados por quem se encontre a bordo de uma nave que viaje a velocidade próxima da da luz.

Embora o título da edição nacional não seja de todo descabido, é curioso notar a obsessão que as edições portuguesas votam ao "infinito", como se o momento histórico que se atravessava - uma ditadura em desintegração não inteiramente aparente, já com mais de quarenta anos - impusesse o sonho de um espaço de liberdade sem fronteiras que é simultaneamente significado de uma sentença (da História?) interminável (espaço infinito - tempo infinito).