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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A prenda que o Black Peter vos devia trazer




Parece que foi ontem, mas passaram já quatro anos desde que as Edições Chimpanzé Intelectual se apresentaram ao mercado com um livro de contos de Ficção Científica e Fantástico. Foi um passo ousado para uma pequena editora recém-nascida, e cambaleante como costumam ser as primeiras incursões no inclemente mundo exterior. Mas os pés firmaram-se e foram ganhando força, os projectos foram-se acumulando e ganhando cada vez mais ousadia, interesse e qualidade.

Em 2009, a Chimpanzé Intelectual metamorfoseia-se em Escrit'orio Editora, um projecto mais ambicioso, e a designação que todos fomos aprendendo a apreciar serve agora de chancela a uma colecção de literatura fantástica que estreia sob o melhor dos auspícios com este BRINCA COMIGO E OUTRAS ESTÓRIAS FANTÁSTICAS COM BRINQUEDOS, uma breve antologia de contos temáticos que reune sob a mesma capa os melhores autores nacionais do género. João Barreiros, David Soares, Luís Filipe Silva e João Ventura assinam as quatro narrativas que nos propõem uma exploração em tons negros e cáusticos do mundo encantado dos brinquedos.

A antologia foi cuidadosamente pensada por Miguel Neto em torno da soberba narrativa titular (a única não inédita do volume), e todos os autores foram convidados a trocar ideias entre si para que não ocorressem repetições ou sobreposições temáticas acidentais. Chega-nos, assim, às mãos um precioso mosaico de contos perfeitamente apropriados a este período natalício, sempre enxameado de delicodoces brinquedos que não se comparam aos formidáveis companheiros de brincadeiras que estes quatro autores nos apresentam com inigualável mestria.

Certamente um dos livros do ano, e a prenda ideal para pedir ao Black Peter.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Comemorando Apollo 11: João Barreiros


O SÍNDROMA DE ABRAÃO

por João Barreiros

O passado, como dizia o poeta, é de facto uma terra estranha. E tão cruelmente ingénuo que até custa a crer. Nesses tempos ainda pensávamos que era possível sobreviver a um ataque nuclear agachados por detrás de um banco de escola, com uma patética folha de jornal a cobrir-nos a cabeça. Hoje em dia é difícil perceber como foi possível, pobres tontos que nós éramos, imaginar que as estrelas seriam um dia nossas, pelo simples facto de que alguém deu o primeiro passo, (melhor diria um tropeção), e calcou a poeira lunar com a marca indelével de um traseiro? Como se ela (a poeira) não estivesse já marcada, desde há milhares de anos, pelos contornos de outras botas, pinças, trilhos, rodízios, cremalheiras e radículas de cristal? Ainda há poucas horas fomos informados, de uma vez por todas, que os futuros deixaram de cantar. Que as estrelas nunca serão nossas, pois já pertencem a outros, talvez às inteligências frias dessas Singularidades Impassíveis, na opinião de alguns místico-gasosos, ou aos tentáculos desses Monstros de Olhos Esbugalhados que tanto deliciaram a FC pulp da primeira metade do século XX. Se quiserem a minha opinião, a história da espécie humana, tal como nós a conhecemos, terminou quarenta anos atrás, no Verão de 1969. Agora a humanidade não canta, antes grita, pois a nossa espécie vai ser obrigada a pagar com juros aquilo que julgou ser prendas dos deuses. Permitam-me o lugar comum: Quem ignora as lições da história vai ter de repeti-las ad nauseam.

Quando Armstrong deu aquele pequeno trambolhão de que todos os homens se orgulham, activou sem querer aquilo que esperava por nós, em absoluta quietude, há três milhões de anos. Tal qual fazem aqueles os piolhos que aguardam pelo sangue quente de uma vaca, suspensos nos galhos de uma árvore. Os piolhos não estão vivos (pelo menos segundo os padrões humanos) mas também não estão mortos. Apenas em stand-by, tal qual as flores meméticas. Em boa verdade, mal Armstrong se estatelou no solo lunar, abriu caminho a uma sinistra Primavera que logo fez esquecer um Inverno de silêncio que poderia ter durado para sempre. Vá-se lá saber o que activou as flores. Como se isso fosse importante, a la longue. Como se a resposta não estivesse escondida numa das páginas secretas da Enciclopédia, disponível para quem se queira dar ao trabalho de a procurar. Especulou-se que foi a vibração anómala do solo, quando a Eagle alunou, num impacto desta vez tão diferente do choque banal de um meteorito, a acordar as sementes. Quem sabe se não teriam sido as micro partículas de ADN coladas ao revestimento exterior do escafandro, ou uma variação anómala de temperatura a contrastar com o frio ambiente. Há que diga que as radículas detectaram uma lufada química dos jactos de atitude do módulo. Outros afirmaram a pés juntos que o principal responsável foi uma baforada de CO2 expelida pelos circuitos de reciclagem do escafandro.

Que interessa isso? Basta dizer que as flores acordaram. E ao acordar, cravaram as raízes no regolito lunar e estenderam as pétalas rígidas e sedosas na direcção do sol. O Mar da Tranquilidade encheu-se em apenas poucos minutos de um fulgor coruscante. E assim despertas, como se fossem girassóis, viraram-se para o primeiro astronauta, para saudar a sua gloriosa e um tanto ou quanto ridícula chegada. De um momento para o outro, o Mar da Tranquilidade encheu-se de reflexos cromáticos. Em poucos minutos a Eagle ficou rodeada por um jardim de impossível delicadeza. Não havia vento a soprar, claro está, mas as pétalas rodopiavam como caleidoscópios capturando a luz do sol e decompondo-a em milhões de reflexos prismáticos. Este estremecimento frenético provocou uma tempestade de poeira, visível da Terra, tempestade que se estendeu por vários quilómetros até vir de novo a assentar e a servir de adubo ao crescimento de uma pseudo-planta capaz de sobreviver em pleno vácuo. E perante os olhos piscos e miópicos das câmaras de TV, a humanidade inteira viu o jardim a crescer e a multiplicar-se numa progressão exponencial.

Vês como somos belas? Como é maravilhoso o jardim a que pertencemos? Esquece os calhaus que nos rodeiam. Leva-nos de volta para a Terra...

Quem não se recorda da famosa frase de Armstrong (parafraseando uma outra de um filme que a história recente amaldiçoou?): “My God, it’s full of Ships!”. E ao dizer isto, sob os múltiplos reflexos do jardim nascente, as botas falharam o último degrau e o escafandro deslizou, devagar, devagar, numa queda que quase custou a vida ao seu utilizador, até vir bater na poeira ainda há pouco revolvida pelos jactos de atitude do módulo Eagle.

Claro que o astronauta tombado na poeira, com os pés a espadanar como uma barata tonta, esqueceu-se de debitar frases memoráveis imbuídas de um humanismo pegajoso e praguejou em alta voz aquilo que mais tarde as radiodifusões censuraram, mas que todos nós ouvimos perfeitamente (pelo menos aqueles que estavam nesse momento colados aos ecrãs da TV): shit, fuck! I’m done!

A definição das câmaras de TV era, à época, minimalista. A imagem de um pobre Armstrong a tentar levantar-se de uma queda vergonhosa, foi tudo o que conseguíamos ver durante a histórica emissão nocturna. Pedro Moutinho comentava o óbvio, e Eurico da Fonseca procurava explicar que os degraus da escada podiam estar escorregadios devido às partículas de gelo. E que era perigoso, mesmo muito perigoso, descer assim, num passo descuidado, sobre as rochas virginais de um novo mundo. Virgens uma história! Ninguém conseguiu perceber o sentido da exclamação de Armstrong, a não ser os que já tinham visto o filme 2001. Algures, no outro lado do mundo, Clarke, devia estar a esfregar prematuramente as mãos de contente, aguardando pelas primeiras imagens da proverbial Sentinela e um aumento substancial da sua conta bancária. Infelizmente para ele e para todos os optimistas que mais tarde vieram a criar a religião do Saganismo Eufórico, o Mar da Tranquilidade não estava pejado de Monólitos negros, mas sim com as carcaças dos contentores, vindos dos Impérios do Centro da Galáxia, contentores que em tempos deveriam ter instalado e distribuído as sementes por todo o solo lunar. Carcaças cinzentas, reflectoras de radar, invisíveis aos telescópios da distante Terra. Carcaças miméticas de módulos de von Neumman. Agora, poucas horas depois da alunagem, já quase ocultas pelo florescimento dos jardins de cristal, podiam ainda ver-se restos colapsados de distribuidores, tubagens, escavadoras, catapultas, domos ecosféricos (furados pela passagem implacável do tempo), templos subterrâneos cheios das múmias aracnóides dos operadores alienígenas (ou quem sabe, apenas e tão só simples bioconstructos, em nada semelhantes à verdadeira forma de quem os enviou). Quem quiser saber mais, que consulte os ficheiros da Enciclopédia, e isso depressa, antes que os serviços até agora gratuitos ganhem outro rumo.

Ao fim e ao cabo não há pachorra para investigar aquilo que julgávamos estar disponível para sempre... O que se passou foi que, em vez de rochas aborrecidas e monótonas, os contentores do módulo encheram-se das mais belas corolas que lhes foi possível recolher. Algumas foram postas em isolamento, apenas tocadas pelas luvas blindadas dos astronautas. Outras, num daqueles actos de criminosa negligencia, foram levadas para a cabine de pilotagem e acariciadas pelas mão nuas e seborrentas dos dois astronautas. E a Enciclopédia integrada na estrutura cristalina das pétalas das pseudo-flores, contaminou-os, com os memes metagnósticos de uma civilização trans-galática. Uma multitude de Nanócitos exógenos passaram-lhes através da pele, depois para o sangue e finalmente para as zonas vicariantes do cérebro. Os lobo pré-frontais explodiram numa glória de misticismo e de sonhos húmidos de poder. Duas horas de delírio febril foram suficientes para activar os primeiros protocolos de comunicação. Ficheiros inter-activos começaram a explicar-lhes de viva voz as respectivas funcionalidades. E enquanto explicavam como era possível ter acesso a quase tudo o que era possível saber, os astronautas, (que ainda não tinham deixando de recitar estrofes da Bíblia à guisa de vade-retro) desobedeceram às ordens de Houston, que lhes aconselhava um suicídio altruísta a bem de toda a espécie humana, dispararam o módulo até uma órbita cis-lunar, acopolaram-se ao transportador, passaram as viroses meméticas ao piloto solitário e arrancaram na direcção da velha Terra. Durante toda a viagem de regresso, sempre em comunicação com Houston, (mas surdos a qualquer pedido que lhe exigia que fossem razoáveis e que se deixassem morrer) foram reconstruindo, remodelando, reformatando, todos os pequenos bugs e deficiências do módulo lunar, tornando quase impossível um fracasso, um acidente, um erro que poderia degenerar em catástrofe. As vozes amigas da Enciclopédia estavam sempre com eles, sugerindo, alvitrando, recomendando. Quando dormiam num sono dos justos, (sim, porque a Enciclopédia também possuía arquivos de auto-reparação nos organismos dos seus utilizadores), os três astronautas sonhavam com Impérios Galácticos, visões divinas, êxtases místicos e momentos de futuras erecções que nem as primitivas cantáridas poderiam alguma vez superar.

O resto é história. A Enciclopédia chegou à Terra e não houve censura que lhe pudesse pôr cobro. Porque mesmo em isolamento, os astronautas deixaram memes nas águas do oceano, nos assentos do helicóptero que os transportou até ao porta-aviões, nas mãos enluvadas dos médicos que os examinaram. E embora a carga que viajou no interior dos contentores do módulo tivesse sido praticamente destruída, a verdade é que sempre sobrou qualquer coisinha. Técnicos, marinheiros, agentes do FBI levaram para casa, escondida nas solas dos sapatos e nas dobras da roupa, uma informação que deixou de ter segredos seja para quem for.

As flores começaram a aparecer e a reproduzirem-se sem controlo, poucas semanas depois da amaragem, nas praias da Florida, nos jardins públicos de Miami. A tropa meteu-se ao barulho, armada de lança-chamas e (pobres idiotas) toneladas de DDT. Mas não é assim, como chamas e químicos, que se dá cabo de uma invasão alienígena. Todos os contaminados (aqueles a quem a Enciclopédia passou a prestar serviços) passaram-se para o inimigo. Guardas-marinha, os médicos que examinaram a saúde hercúlea dos astronautas, desde logo seduzidos, distribuíram, intencionalmente ou sem querer, as sementes rígidas escondidas nas corolas solúveis de todas as flores.

Houve quem construísse balões de ar quente ligados a uma cestinha de pétalas vivazes, e os soltasse depois ao sabor do vento e da História. Houve quem construísse pequenos barcos impulsionados por placas solares (montadas nas garagens e oficinas de vulgares cidadãos, como manda o figurino) e os deixasse seguir pelo Oceano fora. Houve quem fabricasse pequenos foguetões preparados para explodir e disseminar sementes a quilómetros de altitude. Nesses anos sessenta não havia meios físicos capazes de controlar uma pandemia. No final do Verão de 69 todo o continente Americano passou a ter acesso a uma troca de dados sem limites.

Dois meses depois Nixon demitia-se, pois não havia segredo que pudesse esconder-se de uma troca livre e franca de informação. Escritores, compositores, poetas, comediantes deixaram de receber direitos das suas obras, pois estas, graças à divulgação anárquica da Enciclopédia, entraram em todas as cabeças, mesmo antes de serem editadas em papel ou gravadas em vinil. Milhares de casais divorciaram-se ou chegaram mesmo a degolar-se, no pior dos casos, pois a verdade é que deixou de haver segredos íntimos, logo que as memorias passaram a ser livremente trocadas. Poderia ter sido o fim da civilização, até que alguém descobriu uma sub-pasta no Arquivo Central da Enciclopédia onde era possível activar alguns protocolos de privacidade. Nas escolas, os alunos passaram a saber tudo, mesmo antes do professor abrir a boca. Nenhum teste, nenhum exame, nenhuma prova conseguia escapar ao facto que todos os conhecimentos, já digeridos e integrados em estruturas cognitivas, poderiam ser aplicados à resolução de qualquer tipo de problemas, mesmo os mais complexos.

E a Enciclopédia, compactada nas sementes carregadas de nanócitos mais as respectivas flores contaminantes, atravessaram o Oceano e chegaram à Europa. Há quem diga que os Americanos bombardearam a União Soviética e a China com toneladas de sementes na barriga de bombardeiros stealth, simplesmente para acelerarem o processo da desintegração do Comunismo. Verdade seja dita que o Muro caiu. Que a KGB se auto-destruiu numa única noite de chacina inter-pares capaz de lembrar a outra noite das Facas Longas. Querem saber mais? Procurem os Arquivos correctos.

***

Quanto a mim, acedi pela primeira vez à Enciclopédia numa tarde de Agosto, estendido na praia, a secar as gotas de água sobre uma toalha. Estava nesse momento sozinho, (pois quem quer saber de um puto magricelas e míope), apenas na companhia do Homem Demolido do Bester. Qualquer coisa picou-me o rabo. E eu, julgando tratar-se de uma concha ou a tampa de uma lata, ergui a toalha, enfiei a mão na areia grossa e peguei na flor por uma das pétalas. A principio, apesar de tanta fotografia, não cheguei a perceber do que se tratava. Estávamos em Portugal, sob o peso da bota, e os resultados dos testes de exame apenas nos chegavam através da Rádio Marrocos Livre. A pétala parecia-se com um fragmento de bolo de açúcar caramelizado. A luz da tarde penetrava-a de um lado ao outro em delicadas cintilações. A superfície, a princípio elástica e resistente ao toque, começou a amolecer-me entre os dedos. Uma sensação de frescura colou-se-me à mão e foi-me crescendo pelo braço. Pisquei os olhos., engoli em seco, mas a sensação não foi de agonia mas sim de um vago prazer, quase sexual. Pisquei os olhos porque os óculos começaram a incomodar-me. Tirei-os para os limpar, com um fragmento de pétala semi-dissolvido ainda agarrado aos dedos, e descobri, para meu espanto, que agora via melhor sem eles, que a miopia tinha deixado de me atormentar. Olhei para o mar e de súbito veio-me à memória todos os contaminantes químicos das gotículas de água que ainda me cobriam o corpo. Soube que a praia estava contaminada pelas salmonelas provenientes dos eflúvios de um matadouro próximo e que deveria ser enviada uma reclamação contundente à Junta de Freguesia. Percebi a natureza tóxica de todos os contaminantes de um oceano aparentemente límpido. Calculei a velocidade das correntes da baixa-mar, e a velocidade em nós dos navios que passavam ao longe, para lá da barra. Soube que horas eram sem sequer deitar uma olhadela ao relógio ainda guardado no saco. Lembrei-me do final do romance do Bester apesar de ainda não ter chegado a meio. Vieram-me à memória todos os estúpidos erros que cometi, há semanas atrás no meu Exame de Matemática. Agora conseguia, sem o menor esforço, recitar toda a tábua de logaritmos. Conclui então que a Enciclopédia estava agora comigo, para sempre. Na cova da mão, entre os resquícios das pétalas dissolvidas, repousava apenas o esferóide de uma nova semente, semente essa que seria o meu dever plantar em qualquer outro lado, longe dali. Levantei-me a tremer de entusiasmo. Toda a gente na praia devia estar a dormir apoiada num conjunto subterrâneo de radículas. Até ao final da tarde, as primeiras pétalas haveriam de despontar entre os grãos de areia, beatas de cigarro e restos de sandes abandonadas.

O governo caiu semanas depois, como é costume caírem as ditaduras que controlam a informação perante a Mente Colectiva em que a Enciclopédia nos transformou. Imagino os segredos da DGS a correrem pelas bocas do mundo. Marcelo Caetano a tremer à beira da catástrofe. Lembro-me do único discurso coerente feito pelo Presidente Américo Tomaz, gramaticalmente bem construído, a pedir desculpas e a despedir-se do poder.

***

A Utopia resultante desta Felicidade Compulsiva durou 40 anos.

No final da tarde, 20 de Julho de 2009, hora local, a Enciclopédia abriu uma nova mensagem à escala planetária. Quer isto dizer que todos nós, a espécie humana, recebemos a mesma informação, precisamente ao mesmo tempo.

As vozes delicodoces da Enciclopédia (para quem gosta de a ouvir em circuito áudio) explicaram-nos que o período de assinatura gratuita estava prestes a terminar. Que a partir do dia 30 de Julho os serviços seriam cancelados, os aplicativos dissolvidos, os jardins de flores meméticas reabsorvidos a não ser que a assinatura fosse renovada, mas que desta vez era preciso pagar.

Seguiram-se os protocolos da renovação do contrato. E porque a Enciclopédia funciona segundo princípios democráticos, a opção deveria partir da escolha consensual de sessenta por cento da população mundial. Às dezoito horas do dia 30 de Julho, todos nós deveríamos dizer se sim ou se não. E que o preço era meramente simbólico, apenas uma questão de respeito perante as inteligências que tanto tinham feito pela espécie humana.

***

Quem quer que tenha enviado as flores conhecia a história da humanidade. Sabia o que os Gregos fizeram aos Troianos com a oferta irrecusável de um certo cavalinho de madeira. Sabiam o que aconteceu aos índios americanos quando receberam cobertores dos colonos contaminados com malária. Oferecemos de mão beijada arados de ferro às tribos do Norte de África com os conhecidos resultados de desertificação. De facto, a Enciclopédia poderia ser considerada uma arma à escala trans-galáctica construída para sufocar as civilizações da Periferia. A verdade é que, desde há 40 anos nunca mais produzimos, inventámos ou criámos nada que não estivesse já incluído nos protocolos da Enciclopédia. Tornámo-nos dependentes de uma droga. E ninguém vai conseguir fazer a ressacagem a tempo de nos salvar do colapso final.

***

Afinal quem é que vos disse que as civilizações do Centro, lá pelo facto de serem tecnologicamente mais avançadas, possuem valores éticos de natureza quase divina?

São sádicos, são voyeurs, deleitam-se, tal como nós, com os combates até à morte dos cães e dos grilos em arenas. Nós, humanos, não passamos de um mero espectáculo que essas inteligências frias contemplam de muito, muito longe. A salivar perante futuros prazeres.

A Enciclopédia deve ter meios de lhes fazer chegar toda a informação do que se passa no nosso planeta em apenas poucos minutos. Algures, no sistema operativo das flores meméticas, deve estar incluído um ansible.

Quem querem eles como paga da renovação da assinatura?

Muito simplesmente o sacrifício anual (e quanto mais sangrento melhor) de 5.000 crianças no topo das pirâmides de Chichen Itza. E tudo isto filmado e representado a preceito. Se as criancinhas forem executadas pelos pais, tanto melhor, mais bela e delicada será a estética do evento. É importante que seja escolhidas a dedo entre as mais belas e saudáveis. É recomendável que se lhe arranque o coração ainda em vida. E depois as tripas. E que os parentes bebam uma taça do sangue derramado à guisa de respeito por quem manda.

***

Temos poucos dias para decidir mas, conhecendo como conheço a espécie humana, já sei qual será a resposta. Cínico que sou, concluo que antes do advento da Enciclopédia, morriam mais crianças no mundo de doenças e acidentes do que estas cinco mil. No dia 30 vou cerrar os olhos e dar a minha escolha. (Não são permitidos votos em branco). Resta-nos optar entre a extinção global da nossa espécie e a simples perda de algumas células não essenciais. Estou habituado ao meu conforto, à minha felicidade sintética, não tenho filhos para criar, o problema é dos outros, não meu. Opto pela morte do Mandarim e pelo afluxo de uma gigantesca fortuna. E no próximo ano conto estar no México, a aplaudir, como tantos outros, a renovação da assinatura da Enciclopédia que afinal é o fundamento das nossas vidas.


“Os monstros existem, mas são demasiado numerosos para constituírem um
perigo. Quem é perigoso são os homens vulgares, preparados para acreditar e
obedecer sem discutir.”


Primo Levi

quinta-feira, 19 de março de 2009

Uma nova canção


A CANÇÃO DE KALI, primeiro romance de Dan Simmons, é um livro ímpar no género do fantástico. É um daqueles títulos que integra inevitavelmente qualquer lista das obras de referência, e fá-lo de pleno direito. E é um livro que não é desconhecido do público português, tendo já merecido uma primeira edição pela Clássica em 1993 , e voltando a ser reeditado pela Saída de Emergência em 2005, em ambos os casos com tradução de João Barreiros.

Pois bem, chega amanhã, dia 20, às bancas uma nova edição da Saída de Emergência, comemorativa dos 25 anos da edição original da obra, surgida pela primeira vez em 1985. Esta nova edição, que apresenta um grafismo bastante apelativo (e ao qual a digitalização que ilustra este post não faz a devida justiça) inclui um prefácio de minha autoria e um posfácio de João Barreiros.

Simmons, estranhamente, não tem mais nenhum dos seus livros traduzido para português (embora a Saída de Emergência vá também publicar muito brevemente o CLUBE DE PATIFES, tradução do excelente THE CROOK FACTORY), daí que no meu texto introdutório tenha procurado contextualizar a obra na carreira do autor e na evolução do género em geral. Já o João Barreiros, recorrendo mais uma vez à sua quase sobrenatural capacidade de interpretação do fantástico, demonstra como A CANÇÃO DE KALI continua a ser um texto determinante e actual volvido quase um quarto de século desde a sua publicação.

Para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de ler um livro de horror que o é abertamente ao mesmo tempo que transcende os limites do próprio género, esta é uma excelente ocasião para o fazer. E aqueles que já adquiriram uma ou outra as edições anteriores, podem agora, se assim o quizerem, fazer o hat trick das edições nacionais e, ao mesmo tempo, desfrutar (ou não) dos novos textos que abrem e fecham o volume.

domingo, 30 de novembro de 2008

Um livro por dia: 2 FÁBULAS TECNOCRÁTICAS



Quando nos propomos explorar uma série contada de títulos, é sempre difícil escolher com qual terminar. Por um qualquer motivo que se prende com a tentação inata de colocarmos uma ordem onde esta é apenas ilusão, o último é a apoteose... o grand finale. Mas como escolher um entre centenas e dizer que este é de facto superior a todos os outros? É intuito a que me não atrevo. Mas como é preciso escolher um título para terminar, nenhum me parece mais oportuno do que este 2 FÁBULAS TECNOCRÁTICAS de João Barreiros.

Publicado em 1977, em edição de autor, este pequeno volume (apenas 34 páginas) marca de certa forma a estreia pública de João Barreiros enquanto autor de Ficção Científica. Só isso já justificaria a sua inclusão neste carrossel da nostalgia. Mas o mais interessante são as circunstâncias da sua publicação, no ano em que a Ficção Científica tomou de assalto o mundo através das fantasias tecnológicas de George Lucas: vendido na rua, à entrada do metro, por um amigo entusiasta em cadeira de rodas - que teve a iniciativa da publicação - não podia encontrar raízes mais simbólicas para aquela que viria a ser uma das obras mais fascinantes da literatura fantástica portuguesa, espalhada por títulos como O CAÇADOR DE BRINQUEDOS E OUTRAS HISTÓRIAS (1994), TERRARIUM (1995, com Luís Filipe Silva), A VERDADEIRA INVASÃO DOS MARCIANOS (2002), DISNEY NO CÉU ENTRE OS DUMBOS (2006), O PROJECTO CANDYMAN (2007) e uma série de textos avulsos, dos quais me merecem especial destaque os dois artigos que integram o grande volume que acompanhou o CICLO DE CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA da Cinemateca/Gulbenkian (1984).

Autor de fractura, visto por uns como o melhor autor nacional de FC, por outros como alguém que conta sempre a mesma história (bom, não era isso que Goddard dizia que distinguia os grandes génios?), é pelo menos o único autor actualmente no activo que podemos considerar que escreve uma ficção científica genuinamente portuguesa - esperem, não desembainhem já as facas, vou explorar esta ideia num post a publicar nos próximos dias, à laia de ensaio para posterior desenvolvimento.

Há muitas razões que levam alguém a optar pela edição de autor: tornar público um texto de interesse limitado mas que não queremos deixar na gaveta, escoar algo que ninguém considera digno de publicação, ou simplesmente querer fugir dos sistemas tradicionais de edição e distribuição. O advento de serviços como o que são prestados pela Lulu.com vieram facilitar a tarefa de auto-publicação, removendo algumas das dificuldades que as gráficas tradicionais implicavam (não só custos, como estudos prévios de capa, etc.). No entanto, há ainda algo de pioneiro, de aventureiro no método de auto-publicação em stencil, ou por fotocópia, uma magia amadora que fala bem lá do fundo da vontade individual.

Gosto de pensar que estas duas fábulas, compostas na Tipografia Monarca, na Amadora, contendo ainda em bruto o inconfundível estilo Barreiros, são uma manifestação da vontade de começar sem empurrões de ninguém. Cotoveladas desferidas para abrir lugar, marcar presença e apontar o futuro.

O futuro é, afinal, o nosso domínio...


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro por dia: A LONGA TARDE DA TERRA



A última grande tentativa de criar uma colecção de FC capaz de aliar primorosos critérios de selecção dos títulos com uma soberba apresentação de livro-objecto de prazer, foi sem dúvida a malograda Colecção Contacto da Gradiva (1986-1988), que se ficaria pelos quatro volumes [3 publicados em 1986 e o quarto, a primeira tradução a nível mundial de Neuromancer (1984) de William Gibson, em 1988]. Mas que volumes: uma arrojada história alternativa de Harry Harrison, uma magnífica e distópica sátira política de Frederik Pohl, e um olhar glauco sobre uma terra futura e tropical, num sistema solar em fim de vida, assinada por Brian Aldiss. Não é, portanto, de surpreender encontrarmos o bem conhecido nome de João Barreiros ao leme da empreitada.

Aliando a escolha exemplar de títulos correspondentes a pontos altos da carreira dos seus respectivos autores a um cuidado aspecto gráfico, ao qual não falta mesmo um raro (e à data ainda mais do que hoje) recurso à "capa dura", a Contacto devia ter sido o culminar de um percurso incerto na evolução do conceito de "colecção de FC" em Portugal e, a partir daí, o parâmetro a seguir. Claro que não foi assim, e a colecção desapareceu ao fim de pouco tempo, para experimentar uma efémera sobrevivência no circuito das feiras do livro, que foi onde adquiri os meus exemplares, a um preço mais aceitável do que a exorbitância que então era cobrada em livraria, entre os quais se conta este A LONGA TARDE DA TERRA.

Lembro-me de o comprar num fim de tarde de verão, em plena época de exames, depois de o mesmo me ter sido recomendado, uma e outra vez, pelo Pedro Marques que o devorou com verdadeiro deleite de leitura. Comecei a lê-lo no MacDonald's que substituiu o velho Café Imperial na baixa do Porto, eu próprio deliciado por encontrar, para além do prometido livro, um excelente ensaio introdutório de Joseph Milicia, da Universidade do Wisconsin, que me despertaria o interesse e o entusiasmo pelo ensaísmo e pela crítica literária.

A LONGA TARDE DA TERRA, ficaria para sempre associado na minha memória a essa longa tarde de Verão no Porto, a umas horas de abstracção das minúcias do Direito Administrativo e das Finanças Públicas, e ao prazer da descoberta de um autor que então era para mim desconhecido, e que hoje é um dos meus predilectos.

A Contacto foi o último fôlego no esforço de estabelecer uma tradição de leitura de FC através de uma colecção de volumes de luxo, dignos de figurar em qualquer biblioteca e capazes de ultrapassar o preconceito adverso que parece marcar o género como anátema; foi, também, a última das colecções "extravagantes", das colecções que vicejaram brevemente, procurando demarcar-se do (ou suplantar o) padrão Argonauta, antes de caírem no esquecimento e na morte prematura. Enquanto tal, foi sem dúvida um dos esforços mais dignos e meritórios, que não logrou o apoio da própria editora e do público leitor. O seu desaparecimento poderia ter sido dramático, de tal forma as duas principais colecções de FC (Argonauta e FC Bolso da Europa-América) se estavam a tornar complementares, sem abrirem espaço a autores alternativos, não fora o ter deixado espaço à terceira das colecções de referência do panorama nacional: a Colecção Azul da Caminho.

O resto, como costuma dizer-se, é história, e estes quatro volumes têm o seu lugar obrigatório em qualquer biblioteca do fantástico que se preze, perfilando-se como exemplo e memória de uma época que não mais se repetirá.