
A propósito deste meu post, recebi o comentário do Miguel Neto, que passo a transcrever:
Olá João. Espero que essa crítica
venha rapidamente para, muito provavelmente, poder contrapor! Desculpe
dizer-lhe, mas, como sabe, escrever uma coisa destas precisamente quando um
livro está em plena venda e com grande visibilidade num jornal nacional sem
qualquer sustentação crítica não me parece muito honroso. Penso também que dar
tal ênfase ao texto da Clara Pinto Correia, (um conto que provavelmente não
mereceria especial referência numa crítica global do livro, a não ser pela
negativa e ainda assim uma referência insignificante) sem referir nenhum ponto
positivo de qualquer outro conto, parece uma linha crítica mais interessada em
denegrir ( advinda, talvez, de algum trauma corporativista instalado no seio de
alguns fãs de FC e Fantástico, compreensível pela necessidade de reacção aos
preconceitos em que estas literaturas estão envoltas, mas que ainda assim gera
reacções maniatadas por alguma raiva infantil) do que em esclarecer os leitores.
Parece-me justo pedir-lhe que essa crítica venha então muito rapidamente!
Colocar um post num blog dizendo mal, sem pexplicar porquê é no mínimo injusto.
Mais valia esperar pela crítica e então publicá-la.
O Miguel Neto, como sabem, é o editor da Chimpanzé Intelectual, facto esse que justifica a presente resposta. E porque entendo que o Miguel levanta algumas questões que, porque arreigadas em "alguns fãs de FC e Fantástico", são por vezes esgrimidas de forma desastrada, com grande prejuízo para os géneros literários que todos gostávamos de ajudar a florescer.
Em primeiro lugar, impõe-se esclarecer um factor que, à primeira vista, me pareceria desnecessário referir: as opiniões são da responsabilidade de quem as emite e avali(z)adas por quem as recebe, consoante o suporte fáctico que as sustentam. No caso particular de um blogue, onde também se procura exercer a crítica literária, sobretudo escrito por alguém que a exerce também numa revista literária, tal opinião trará consigo um lastro de conhecimento e experiência que lhe conferirão maior ou menor autoridade. Traz também uma relação de confiança com os leitores habituais, concordem ou não habitualmente com as opiniões ou críticas proferidas.
Isto porque - e desnecessário seria igualmente dizê-lo - toda a crítica é subjectiva, mesmo quando autorizada por maiores conhecimentos ou experiência. Dizer o contrário, seria afirmar um absoluto estético em que não acredito.
Outra das características essenciais na crítica (literária ou outra) é a isenção de quem a escreve; e só alguém que é por vezes obrigado a "desfazer" o trabalho de alguém que conhece ou por quem nutre amizade sabe quão ingrata é por vezes essa tarefa. Mas Portugal é um palco muito pequeno, cheio de tachos e panelinhas, e a sombra da suspeita pende sempre sobre quem critica. Por isso, quando por vezes tenho que criticar livros de autores que conheço pessoalmente, o penalizado é sempre o autor, pois o escalpelo será mais afiado e fasquia erguida mais alto. Tudo a bem da isenção.
Os editores escolhem por vezes "prostituir-se" ao mercado; os autores " às editoras. É o seu papel, é o que se espera deles se pretendem sobreviver num charco tão pequeno. Mas um crítico que escolha prostituir-se a autores ou editores, não tem futuro. Porque as únicas armas do crítico são a independência e a isenção.
O Miguel não gostou da opinião que expressei no meu blogue. Está no seu direito. Mas o fazê-lo, pôs em causa a minha independência e isenção, e isso fez sem qualquer fundamento ou sustentação, de forma gratuita e interesseira. O que lamento...
A minha opinião, em desabono do livro, fundamenta-se nos mesmos critérios com que tenho recomendado ou avaliado outras obras, em críticas que estão publicadas e acessíveis; emiti a opinião ao referir que o livro em causa tinha voltado a ser publicado e, achando que o livro era merecedor de uma avaliação mais sólida, disse-o. Não por a opinião ser negativa, mas por o livro ser importante.
Nenhum crítico, por muita boa vontade que tenha (nem sequer num género tão marginal) tem tempo para ler e criticar fundamentadamente cada livro que sai, que recomenda ou que rejeita. Nem é obrigado a fazê-lo. Porque a sua opinião conta também para alguma coisa, mesmo quando não está fundamentada. Porque são o critério, a isenção e a coerência que estão por trás dela que a avalizam.
Como editor, o Miguel censura que a minha opinião seja publicitada neste momento em que o livro está à venda. O que o Miguel diz, por outras palavras, é que devia ser obrigação dos críticos calarem as opiniões negativas quando os livros estiverem à venda. Ou seja, que enganem os seus leitores.
É claro, reconheço, podia ter-me calado. Nem sequer referir o surgimento do livro. Pretender que não conheço o género e aquilo que nele se vai fazendo. Mas o problema é que o livro é importante. É um livro que deve ser referido, pelo que significa e representa no panorama literário nacional.
Daí que, forçado a referir-me a um facto - a republicação de um livro importante (ainda que pronunciando-me sobre ele com atraso) - inignorável, me sentisse na obrigação de emitir também a minha opinião sobre ele. Que, infelizmente, foi negativa.
Já o Miguel Neto, vê nisso uma intencionalidade dirigida a denegrir um livro, tomando o todo pela inclassificável ociosidade de umas das partes: o conto de Clara Pinto Correia, que dá pelo título de "Mariquices". Mais, chega mesmo a vestir a capa crítica, considerando que ainda que negativo o conto não devia merecer mais do que uma breve nota em qualquer crítica. Neste aspecto o Miguel acha que os críticos e os leitores são parvos.
Como editor e coordenador do volume, o Miguel não tapou os ouvidos à cantiga melodiosa dos "big names" para promover o livro. Poder colocar nomes como Clara Pinto Correia, Luísa Costa Gomes ou Rui Zink na capa é, de uma perspectiva editorial sã, um isco irresistível. Mas o reverso dessa medalha, é que serão os "big names" a atrair a maior atenção crítica, até pelo exotismo ou ineditismo de os ver a laborar num género que não é, habitualmente, o deles. Quando o resultado dessa estratégia é o desastre imitigável de "Mariquices", não se consegue varrer o facto para debaixo do tapete de uma breve referência negativa. Os altos ficam visíveis. E todos gostam de ver o equilibrista a cair da corda.
Claro que o Miguel atribui esta atenção crítica a "algum trauma corporativista instalado no seio de alguns fãs de FC e Fantástico, compreensível pela necessidade de reacção aos preconceitos em que estas literaturas estão envoltas, mas que ainda assim gera reacções maniatadas por alguma raiva infantil".
E, se calhar, é aqui que o Miguel causa o maior prejuízo à literatura fantástica: é que o Miguel, que apostou meritoriamente num género difícil (e no qual reincidiu, com melhores resultados, pouco depois) e que promete continuar a fazê-lo, ainda encara o género como estando afligido de traumas corporativistas, incapaz de gerar crítica isenta e independente de questiúnculas do fandom, e necessitado de fechar os olhos e calar à boca à passagem de um livro fraco, só porque é do género e há que o ajudar, que ele sozinho não se salva.
É questão de perguntar, onde vai o Miguel buscar as informações que lhe pintaram tal retrato?
Mas o silêncio - especialmente quando se trata de livros do género, de livros importantes e de livros fracos - é intolerável. Porque, como escrevia Damon Knight num dos pontos do seu Credo Crítico (e desculpem-me se o tenho como referência inquebrantável): "a bad book hurts science fiction more than ten bad notices".
