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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

George R.R. Martin na OS MEUS LIVROS




Já está nas bancas a edição de Setembro de 2008 da revista OS MEUS LIVROS. De epecial interesse para os fãs do fantástico em geral e de Martin em particular, este número da revista traz uma breve entrevista com o autor da Canção do Gelo e do Fogo (publicada entre nós pela Saída de Emergência) realizada por mim durante a sua estadia em Portugal em Julho passado. A entrevista teve uma duração total de cerca de cinquenta e oito minutos e, por imperativos editoriais, muito do que se conversou ficou de fora do texto que agora é publicado. No entanto, os entusiastas e completistas de Martin podem contar com uma nova entrevista com o autor aqui no Blade Runner, provavemente por altura do Fórum Fantástico, em Outubro.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A muralha da indiferença é a muralha mais alta


Há determinados livros que nos fazem repensar todo um género. Que nos obrigam a rever mesmo os nossos hábitos de leitura, o nosso conceito de narrativa e a nossa relação com o texto impresso. São livros que surgem raramente e espaçados no tempo.

Hoje chega às livrarias um desses livros: A Muralha de Gelo (Saída de Emergência), é a segunda parte de A Guerra dos Tronos, ambos formando o primeiro volume da saga As Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin. Mas dizer isto é ficar aquém da realidade, pois as separações são totalmente arbitrárias numa série de volumes que contam uma só história, espartilhada somente por exigências editoriais, quer na edição original, quer nas várias traduções que se vão distribuindo um pouco por todo o mundo.

Digamos então que As Crónicas de Gelo e Fogo são aquilo que todos os épicos de fantasia gostavam de ser: complexas, violentas, intrincadas, com magnífico desenvolvimento de personagens e, acima de tudo, dotadas de uma perfeita coerência interna a nível da essencial irrealidade das suas premissas.

O mérito da obra não é de difícil reconhecimento: abençoados (ou amaldiçoados) com o intervalo de tempo que mediou entre a sua publicação original e a tradução que agora nos chega às mãos, não somos obrigados a um esforço crítico. A obra é já reconhecida como um marco da literatura fantástica – a par de outros como O Senhor dos Anéis, Gormenghast ou Glorianna – cujo lugar definitivo na Grande Biblioteca da Imaginação se mostra apenas dependente da efectiva conclusão da epopeia, e dos precisos termos dessa conclusão.

Por isso o livro desafia os nossos hábitos de leitura, o nosso conceito de narrativa, a expectativa com que sempre enfrentamos um livro novo: a de encontrar um final. As Crónicas de Gelo e Fogo ainda não têm um final; mas deliciem-se os leitores com os vários finais e recomeços que vão marcando o fluxo da acção. Martin é um artesão da escrita, e a ríspida simplicidade da linguagem, em toda a sua aparente simplicidade, é o maior logro dos grandes artesãos.

Quando, na revista OS MEUS LIVROS de Novembro de 2005 – há exactamente 2 anos – me pediram uma lista de obras de Fantasia de referência, considerei uma vergonha que ainda não tivesse sido traduzido entre nós George R.R. Martin: agora que o foi, é uma vergonha se lhe respondermos com indiferença.

Por isso, aproveitem esta semana tão propícia ao Fantástico e a bem conseguida tradução de Jorge Candeias (anos luz à frente da tradução da edição pirata que ainda se pode encontrar no refugo de algumas feiras do livro), para mergulharem no mundo cruel, sombrio e violento de Martin; e acabarão por descobrir quão soberbo e resplandecente pode ser.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Para abrir o apetite...

...deixo-vos com dois estádios de desenvolvimento da capa da novela que o João Barreiros vai apresentar no próximo Fórum Fantástico. O primeiro esboço foi apresentado aquando da ilustre participação do indomável Barreiros no programa Câmara Clara do passado dia 30 de Setembro. A monocromia da capa não deixa transparecer ainda o multicolorido visceral que pinga de cada uma das suas modestas páginas.



O segundo estádio foi publicado pelo João Maio Pinto que, cada vez mais e de forma mais visível, vem enriquecendo sumamente algumas das obras do fantástico de lavra mais recente.




O Projecto Candyman, novela de ritmo intenso e extremamente divertida, forma a primeira parte (independente) do já tão anunciado "tríptico" A Bondade dos Estranhos (a publicar pela Chimpanzé Intelectual), que retalha, com todos os utensílios que a ficção científica pôs ao nosso dispor, a nossa boa e velha Terra, partilhada por três espécies alienígenas "invasoras". Preparem-se para rir, chorar e conter vómitos agoniantes.

Pensada para ser a mais ambiciosa obra da FC nacional desde a publicação de Terrarium (1995), sofreu altos e baixos na sua execução, sujeitando-se às mutações e trepanações que a realidade do nosso mercado lhe impôs. A segunda parte, A Alma do Louva-a-Deus (título provisório), é da autoria deste vosso humilde escriba, e se tudo correr bem verá a luz do dia para começos de 2008, logo seguida do grand finale assinado por Luís Filipe Silva.

Entretanto, podem ler um excerto do Projecto Candyman na página do Fórum. Divirtam-se.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Que leitores?


Estava eu a dispor alguns livros na minha modesta biblioteca pessoal (não, não é a da fotografia... negligentemente, não tinha a câmara comigo) quando me deparei com uma dúvida aflitiva que deve tocar a qualquer pessoa que tenha por hábito acumular livros e DVDs como se a sua vida dependesse disso (yeap, sou um desses...): onde arrumar determinado livro, de determinado autor, quando ele está inserido numa colecção? Junto com as outras obras desse autor, deixando uma brecha na colecção? Ou colocá-lo na colecção, deixando uma brecha na bibliografia de lombadas?

É uma questão ociosa, dirão os leitores mais pragmáticos. Mas para quem tem frequente necessidade de citar obras e autores, uma fácil e imediata localização de um dado título é um imperativo de sobrevivência. Pois bem, enquanto estava ali perdido com o livro na mão, hesitando entre uma estante e outra, com os olhos a dilatar e a respiração a alterar-se perceptivelmente (a perda de tempo é outra grande ameaça), dei comigo a procurar padrões adoptados em situações anteriores. E como acontece sempre nestes casos, a vertigem de lombadas obriga-nos a retirar um e outro livro, saboreando velhas experiências de leitura, procurando lembretes esquecidos entre as páginas, frases ou cenas favoritas, anotações de que nos arrependemos ou excertos que devíamos ter anotado.
E no meio de tudo isso, apercebi-me de que, com excepção das prateleiras com o alinhamento uniforme das lombadas amarelas da DAW, e de uns quantos títulos da SF Masterworks, tenho sempre arrumado os livros por autor, por tema ou por período. Nunca por colecção.

A razão é óbvia. Basta olhar para a distribuição dos livros e a constatação é evidente: o conceito de colecção de ficção científica tem desaparecido progressivamente. Esfumou-se o prazer juvenil de esperar pelo dia em que surgia nas livrarias o "número X" de determinada colecção. O prazer de o ler, na certeza de que no mês seguinte surgiria um outro, uma surpresa, um título aleatório. Retrospectivamente, é curioso que recordo essa sensação, com particular intensidade, em relação à colecção "Guerra & Espionagem" da Europa-América, que comprei religiosamente desde os meus 11 anos, quando foi publicado o primeiro título, A Sul de Java de Alistair MacLean (a tradução de South by Java Head), autor que se batia com Robert Heinlein pela minha preferência.

Creio que todos nós, entusiastas da literatura de género, o somos, em parte, por causa do conceito de colecção. Sob determinada égide, sabíamos que íamos encontrar um cardápio variado de obras que, umas vezes mais, outras vezes menos ao nosso gosto, nos proporcionava a expectativa e a experiência de uma similaridade temática que nos fixava o gosto e nos educava os sentidos. E não eram poucas as colecções que competiam pela nossa atenção: a Argonauta, a DH Ciência, a Panorama, a Bolso Noite, a Europa-América de bolso, a Nébula da mesma EA, a colecção azul da Caminho, todas elas nos apresentavam títulos e autores variados, unidos sob o signo (quase escrevia "estigma") de um género prenhe de aventuras, descobertas, cientistas loucos, naves espaciais e monstros de olhos esbugalhados.

Mas, uma a uma, elas foram desaparecendo. Provavelmente, faço parte da última geração a experimentar o fenómeno "Colecção de FC". O que podemos observar agora, é uma dispersão de títulos capaz de despistar os leitores mais atentos. Subitamente, publica-se literatura fantástica com uma frequência quase frenética, mas sem tino aparente: surge Neal Stephenson na Tinta da China, Gordon Dahlquist na Bertrand, Susanna Clarke na Casa das Letras, Valerio Evangelisti na Asa, Preston & Childe partidos entre a Ulisseia e a Saída de Emergência, de uma forma que - espera-se - alcança um número mais alargado de leitores, sem perder muitos dos que normalmente comprariam já esses livros. Enquanto isso as colecções que nos formaram enquanto leitores do fantástico vão desaparecendo paulatinamente (a Argonauta vai vegetando estupidamente rumo ao oblívio, seguindo quer o Dodó, quer a colecção da EA, que parece ter morto deliberadamente a Nébula com a publicação de A Era das Brumas).

Importa, porém saber, se isso reflecte uma preferência do público, ou é uma opção editorial que se vai reflectir no público leitor. É uma consequência da crise do fantástico (não só em Portugal, embora o conceito de colecção, sobretudo numerada, nunca tenha sido normal na cultura de língua inglesa, onde os livros se distinguem claramente das revistas - essas sim numeradas - que competem com eles; mas em França as colecções prosseguem, e numeradas), ou é uma das causas dessa crise? Reflecte um abandono por parte do público, ou é uma imposição editorial? É uma afirmação da morte do fantástico (o conceito de género morreu, e as obras que se "aproveitam" são integradas no mainstream) ou uma tentativa de afirmar o seu predomínio fora do nicho das colecções?

Não há, para já, muito onde procurar respostas. Os poucos exemplos que temos não são concludentes. A Editorial Presença tem duas colecções dedicadas ao fantástico (a Via Láctea e a Viajantes do Tempo), ambas numeradas e com publicação regular; no entanto, depois de um começo promissor, parecem ter-se concentrado num público-alvo young-adult, o que pode explicar a sobrevivência do conceito de colecção numerada; a Saída de Emergência assumiu o conceito de colecção temática, não numerada e com abrangência mais vasta, cobrindo todas as áreas do fantástico (a colecção BANG!, com predomínio da fantasia, e rareando a FC). Mas é uma colecção atípica (pela variedade temática, pela irregularidade de publicação, que pode ir de um ou nenhum, a vários títulos no mesmo mês), tradutora de uma estratégia interessante de identificação do leitor com a literatura do fantástico e de separação do remanescente do (abundante) catálogo.

Outras editoras mais recentes, que surgiram com fortes apostas no fantástico (a Livros de Areia, de que sou suspeito para falar com total isenção, e a Chimpanzé Intelectual, parecem ter resolvido - para já - não apostar no conceito de colecção num ou noutro sentido.

Certo é que, como resposta ou causa, a "colecção" pode estar intimamente ligada à crise do fantástico como género literário. A aposta numa colecção de Ficção Científica à antiga parece ser encarada como um risco pelos editores nacionais, a não ser que destinada a um publico-alvo específico como no caso da Presença.

Há, porém, uma vertente que se pode explorar: face às novas tecnologias, com claro destaque para a Internet, não é necessário grande esforço para se organizar uma boa colecção de ficção científica. Nem é preciso grande génio. O trabalho está todo feito pelos editores internacionais. Procuram uma colecção que apresente uma montra da variedade, riqueza e vitalidade do género? É só copiar o catálogo da SF Masterworks. Querem uma colecção moderna e actual? Basta ler a Locus todos os meses. Querem uma colecção mais arrojada e não muito cara de produzir? É só copiar o catálogo da PS Publishing. Qualquer editor pode facilmente criar uma excelente colecção.

Mas haverá público para uma colecção? Ou será apenas um custo capaz de arrastar uma editora para o charco? João Barreiros, que tem um gosto irrepreensível e um conhecimento inexcedível do género tentou duas vezes com resultados históricos, honrosos mas estéreis. O Luís Filipe Silva, que não lhe fica atrás, tentou e tombou ao fim de apenas um número. Em ambos os casos, não há defeito que se possa apontar às escolhas efectuadas. Eram títulos incontornáveis, obras marcantes, autores exímios e livros representativos. Num dos casos, a colecção era ainda enriquecida por uma apresentação em hardback com dusk jacket.

Por isso, a pergunta que abre o cofre, que transfere a herança, que dá acesso ao budoir é: poderia o regresso à colecção resolver a crise do fantástico? Confesso que é uma experiência que hesito em tentar. Mas que gostaria de ver tentada. Gostaria de ter de voltar a esperar religiosamente por um título todos os meses, ou cada dois meses, ou cada três meses, aguardando para ver que surpresa me reservou o editor. Mas isso é a voz da nostalgia a ecoar pelas estantes.

E ainda não sei onde guardar o livro....

domingo, 30 de setembro de 2007

What's Up?



Final de mais um mês atarefado com a papelada que vai ajudando a pagar as contas, onerando porém este blogue com actualizações mais esporádicas. Que se passou entretanto, desde o final do MOTELx?

Desde logo, e num único dia (21 de Setembro) tive o prazer de apresentar na FNAC do Colombo o primeiro romance de David Soares, A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência). A sala esteve composta e a audiência foi-se fixando, captiva do livro e do autor, senão das modestas palavras do apresentador. O Luís Rodrigues captou o momento para a posteridade, de forma que aqueles que não estiveram lá, ou que ainda não tiveram oportunidade de visionar o filme no blogue do David, podem fazê-lo agora.




Foi também uma oportunidade de rever o fandom nacional (esteve lá quase todo), e apenas o prólogo para um fim-de-semana irrepreensível que incluiu uma visita à Quinta da Regaleira (um dos cenários da Conspiração) guiada de forma fascinante pelo David Soares; também a oportunidade de provar um delicioso jantar preparado pela Gisela em casa do David, e beber café preprado numa engenhoca que aparece também no livro (fotos da experiência em breve).

Oportunidade ainda para pôr a conversa em dia com o Luis Corte-Real (em casa de quem eu a a Carla passamos o fim-de-semana) e ultimar detalhes quanto a duas novelas minhas que a Saida de Emergência vai publicar a partir de 2008.

Também no dia 21, o Público distribuiu uma nova edição da colectânea Ficções Científicas e Fantásticas (da Chimpanzé Intelectual), ao preço modesto de € 7.50. Refiro-o com certa ambiguidade, pois a colecção de contos de diversos autores (desde os inevitáveis João Barreiros, Luís Filipe Silva e David Soares aos inesperados Rui Zink, Clara Pinto Correia e Luísa Costa Gomes) não brilha pela qualidade, servindo antes e uma vez mais para demolir as teses daqueles que defendem a inexistência, quer de géneros literários, quer de protocolos de leitura próprios desses géneros. De referir, porém, que o conto de Clara Pinto Correia, por si só, justifica a compra do volume, pois é tão inacreditavelmente mau e negligente que, fosse eu o editor do volume, teria que o encarar como um insulto pessoal (se não queria escrever na área do fantástico, só tinha que o dizer). Posto isto, é uma boa prenda para quem não gosta de FC&F: confirma todos os seus preconceitos, e apresenta poucos pontos favoráveis. Uma vez que afirmações destas exigem sustentação fáctica, esperem por uma crítica mais detalhada num dos próximos domingos.



Ainda no dia 21, terminou finalmente o Verão. Como o Outono é estação de Halloween e folhas moribundas, granito húmido e névoas vagabundas, resolvi dedicar as noites de sexta-feira no Blade Runner a revisitar alguns dos Midnight Movies que fizeram do fantástico, do excesso e da violência marcas indeléveis no nosso crescimento. Arrancaremos estas midnight sessions no próximo dia 5 com The Wild Angels (1966), o clássico de Roger Corman que fez de Peter Fonda um ícone da estrada muito antes de Easy Rider (1969).