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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um livro por dia: O CONSTRUTOR DE UNIVERSOS



Por fim, e da forma mais inesperada, ainda em 1970 surgia nas bancas O CONSTRUTOR DE UNIVERSOS, primeiro volume da série World of Tiers de Philip José Farmer. É impossível dizer qual o efeito de tal publicação. Apesar de a Livros do Brasil vir posteriormente a publicar outras obras de Farmer - incluindo a justamente célebre saga do Mundo do Rio - este O CONSTRUTOR DE UNIVERSOS, nº161 da Colecção Argonauta, é o primeiro livro deste autor a surgir nessa colecção; e, antes do World of Tiers, apenas NOITE DE LUZ (tradução do Night of Light, 1965) tinha sido publicado pela Panorama (Série Antecipação) em 1969.

Para todos os efeitos, a primeira impressão que o leitor português recebe da obra de Farmer, é o coto amputado da saga World of Tiers, um tronco decepado na Antecipação, uma cabeça exangue na Argonauta. Certamente que não é maneira de incentivar a fidelização dos leitores à escolha (desejavelmente) criteriosa dos directores de colecção. Não duvido que muitos leitores terão adquirido os três volumes, tal como não duvido que muitos mais o não fizeram. Nenhuma das duas editoras voltaria ao World of Tiers, apesar de existirem mais quatro volumes publicados (Behind the Walls of Terra, The Lavalite World, Red Orc's Rage e More Than Fire).


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Um livro por dia: O COSMOS DE KICKAHA



Depois do último post, não tinha intenção de falar individualmente de O COSMOS DE KICKAHA, terceiro volume da série WORLD OF TIERS de Philip José Farmer, e segundo (e último) publicado pela Galeria Panorama na sua Série Antecipação. No entanto, é impossível resistir à tentação de expor um exemplo tão claro do que ali tinha deixado escrito quanto ao desrespeito pela continuidade dentro de uma mesma série.

Publicado escassos seis meses depois de ARMADILHA CÓSMICA, O COSMOS DE KICKAHA conta agora com tradução de Pires de Carvalho, o que é o suficiente para lançar o caos na continuidade. Assim, e respondendo à infeliz escolha de "deuses" como tradução de "Lords", Carvalho opta por "Senhores", o que sendo mais fiel à intenção original, em nada contribui para uma tradução elegante. No entanto, e de forma perfeitamente arbitrária, o mesmo Carvalho opta por converter o nome de uma das personagens principais - Chryseis - que Tereza Curvelo mantivera intocado do original, em Cheyseis, rompendo desnecessariamente a continuidade patronímica (e permitindo-nos supor que o tradutor não leu o volume anterior).

Sendo Farmer um dos meus autores de eleição - ou seja, daqueles a que volto uma e outra vez a intervalos regulares - é-me pessoalmente penalizador ver uma das suas séries mais curiosas (se bem que longe de ser a melhor, a mais intrincada ou a mais literária) ser assim (mal)tratada por uma colecção que poderia ter feito concorrência à Argonauta durante muitos e longos anos.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Um livro por dia: ARMADILHA CÓSMICA



Sem passado, sem futuro, e com o presente a esvair-se-lhe por entre os dedos, o leitor português de ficção científica não tem que enfrentar apenas a fraca qualidade das traduções, a frequentemente pobre escolha dos títulos, a escassez de exemplares ou a distribuição incerta, a duplicação de edições sob títulos distintos ou o mesmo título para obras diferentes, mas também o carácter fragmentário do que se vai traduzindo. Nomeadamente séries interrompidas, publicadas sem respeito pela ordem dos diferentes volumes, multiplicados em três ou mais tomos por cada entrega do original, muitas vezes entregues a uma multiplicidade de tradutores que não respeitam a continuidade dos termos, topónimos ou expressões.

O fenómeno não é recente e não deixa incólume nenhuma das editoras nacionais, do passado ou do presente. Por um lado, a aposta numa série nem sempre é acompanhada da necessária fidelização do público leitor; por outro, esse mesmo público leitor volta as costas aos esforços editoriais.

Consideremos Philip José Farmer. O autor de Terre Haute, Indiana, que cumpriu este ano o seu nonagésimo aniversário, é um dos poucos escritores que consegue escrever primorosamente na FC, na Fantasia, na Science Fantasy, no Scientific Romance, no Policial, na Pornografia, no Horror, no ensaio e na falsa biografia (de que escreveu duas excepcionais: a de Tarzan e a de Doc Savage). É, além do mais, um dos poucos autores ainda vivos que consegue escrever ao estilo do genuíno pulp, sem necessitar de reproduzir os seus defeitos, indubitavelmente fruto de um amor e de um entusiasmo quase juvenil pela literatura de género, que o isenta de nela escrever com sobranceria ou consciência do carácter menor que muitas vezes lhe é atribuído. Vejam-se os contos pretensiosamente pulps escritos por Michael Chabon, Michael Moorcock, Jeff Vandermeer, Mike Resnick et al. para compreender a diferença. Talvez apenas Ron Goulart e Joe R. Landsdale (ou mesmo Kim Newman) consigam ombrear com Farmer.

ARMADILHA CÓSMICA, número 26 da Série Antcipação da Galeria Panorama foi publicado em 1969 em pleno vazio referencial. O leitor que então o encontrasse na livraria provavelmente não saberia que acabava de adquirir uma das obras incluídas na série The World of Tiers (7 volumes entre 1965 e 1993, dos quais apenas 3 foram publicados em Portugal). Nada no texto da contracapa o informaria da verdadeira natureza do livro, pois este é apenas a transcrição do primeiro parágrafo da obra. E, certamente, ninguém lhe diria que esta tradução de THE GATES OF CREATION (1966) é na verdade o segundo volume dessa série, dando continuidade às aventuras de Wolff/Jadawin no universo de múltiplos universos de que o World of Tiers é apenas um.

Jadawin é apenas um dos vários Lords que são senhores da criação destes vários universos de bolso, cada um deles governando o seu próprio planeta - construções artificiais que acompanham o gosto pessoal dos seus criadores (em A PRIVATE COSMOS, 3º volume da série, aprendemos que Jadawin, a pedido de Kickaha - herói por excelência do 3º e 4º volumes, embora intervenha também no primeiro - tentou reproduzir na Lua do World of Tiers o Marte de Burroughs que incendiava a imaginação daquele Kickaha quando vivia ainda na Terra). Ora, Tereza Curvelo, tradutora deste volume, escolheu traduzir aquele Lords por Deuses, dando azo, logo na 1ª página, a uma frase como: "Foi então que os Deuses descobriram que até eles, criadores de universos, possuidores de uma ciência que os colocava apenas um degrau abaixo dos deuses, necessitavam sonhar".

A Galeria Panorama viria a publicar A PRIVATE COSMOS, sob o título O COSMOS DE KICKAHA em 1970. A colecção não chegaria a publicar o quarto volume da série, BEHIND THE WALLS OF TERRA surgido em língua inglesa nesse mesmo ano. ARMADILHA CÓSMICA e o COSMOS DE KICKAHA contam duas narrativas independentes - a de Jadawin e a de Kickaha - que decorrem em simultâneo, unindo-se no final de ambos os volumes para darem origem à narrativa subsequente, passada na Terra, na Califórnia de 1970. Os laços estreitos que unem Jadawin e Kickaha, e que justificam esta última aventura, são estabelecidos no primeiro volume, que os leitores da Série Antecipação nunca puderam ler...

domingo, 9 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS AMANTES



Um olhar, ainda que breve, sobre a realidade cultural portuguesa de hoje, revela um panorama de anódina igualdade. Se Beaudrillard necessita ver vingado o seu conceito de "mínimo denominador comum da cultura", bastemo-nos com exibir o triste panorama das livrarias e do cinema para o confirmar. É certo que o fenómeno não é exclusivo de Portugal. Nem sequer originário de Portugal. No entanto, aquela malfadada ausência de massa crítica de leitores com que sempre vamos justificando o eterno adiar do futuro, faz com que a nossa mesmedidade seja ainda mais igual a si própria, do que as outras.

E, perante tal panorama, parece difícil acreditar que há pouco menos de 30 anos, numa outra geração, as coisas foram - por um efémero período de tempo - diferentes. Neste fantástico período que vimos visitando em pequenos mergulhos nostálgicos, a realidade apresentave-se-nos numa policromia ofuscante. A falta de critério ou de método de selecção que referi já por várias vezes foi uma das suas maiores virtudes. É como se necessitássemos de um certo caos não esquematizado, não estruturado, para nos permitirmos uns afloramentos de criatividade.

Nos anos setenta, ao mesmo tempo que se operava a mudança de regime, ao mesmo tempo que perdíamos as aspirações de império, Portugal recebia o mundo de braços abertos... descobria-o, imitava-o, processava-o. Foi também nos anos setenta que Portugal descobriu o sexo. Descobriu que havia outras saias mais interessantes do que a sotaina do sr. vigário. Os cinemas abriram-se à pornografia. Contam-me que na zona de Caminha e Cerveira, em 1974-1975, quando o Espanhóis tinham ainda a sua ditadura, nuestros hermanos afluíam como moscas às sessões porno do cinema dos bombeiros, ajudando a corporação ao mesmo tempo que assistiam ao impensável.

Não sei se foi nesse período de 74/75 que a GALERIA PANORAMA, dirigida por Lima Rodrigues publicava OS AMANTES de Philip José Farmer como primeiro número (e único) da série Antecipação-Extra. Afinal, The Lovers, é o texto canónico que reputadamente introduziu o sexo na moderna ficção científica. Originalmente publicado como uma noveleta na Startling Stories de Agosto de 1952, valeu a Farmer o Hugo de 1953 para o autor mais promissor, tornando-se num clássico instantâneo. Em 1961, Farmer transformá-la-ia numa novela que, apesar de unanimemente considerada como título obrigatório em qualquer colecção de FC que se preze, não encontraria grande circulação até a Ballantine a reeditar em 1972. Creio que essa reedição, comemorativa dos 20 anos da publicação original da história, serviu de catapulta para a sua tradução nacional (que ainda me não foi possível localizar com precisão, mas que encaixa nesta cronologia).

Uma coisa, porém, pode ser dita em abono de Lima Rodrigues: a edição é sóbria, não fazendo o menor apelo à polémica que o livro (ou melhor, a história) causou aquando da sua primeira publicação. Ao invés de sexo, o texto do verso de capa fála-nos de Amor (assim, com mauúsculas). É certo que no período em que (penso que) o livro foi publicado, dificilmente chocaria alguém (já em 1952, logrou chocar apenas os leitores de FC, que encaravam ainda o género como uma divisão da literatura infanto-juvenil); mas a verdade é que o livro não trata de sexo: trata do confronto com a alteridade, com as imposições religiosas, e com as ligações carnais entre fisiologias aparentemente incompatíveis. Quem o ler procurando descrições gráficas de actos sexuais, melhor fará em ler FLESH, BLOWN ou IMAGE OF THE BEAST do mesmo Farmer. O que encontrará em OS AMANTES é um excelente livro de FC que Lima Rodrigues soube reconhecer como um clássico intemporal.

E que necessitados estamos de recordar os clássicos, confrontados com um mercado que parece pensar que a FC nasceu com MATRIX (1999).