quarta-feira, 22 de julho de 2009

Como lemos é como somos


A leitura é, para além de um acto de prazer, um exercício intelectual. É um jogo de possibilidades em que participam autor e leitor, o primeiro procrando enredar o segundo numa trama, o segundo procurando discernir os pormenores dessa trama. O que torna o jogo particularmente enriquecedor é que o leitor que procura as malhas da trama não as quer encontrar. Sabe que estão lá - afinal este jogo chama-se ficção - mas quanto melhor escondidas estiverem, melhor. Porque a invisibilidade das tramas, dos pontos em que a estrutura foi soldada, permite-lhe ir além da palavra escrita e penetrar naquele segundo grau de leitura que é a imersão na história, no drama, no conflito e desenvolvimento das personagens. Tropeçar nos buracos do enredo, onde a massa não foi bem colocada ou onde são perfeitamente visíveis os acabamentos toscos, detrai necessariamente do prazer do jogo. Pelo menos se queremos levar o jogo a sério, como leitores participantes, e não como meros leitores passivos.

Creio que antes poderíamos fazer a qualificação dos leitores passivos como "leitores escapistas", aqueles que, deslumbrados pela luz não reparam nas arestas cruas, que fascinados pelas cores perdoam a tosca utilização dos pincéis, aqueles que dispensados de pensar, esquecem como isso se faz. Mas não gosto dessa definição, porque não encontro nenhum mal intrínseco na literatura escapista ou na leitura pelo mero prazer imediato.

Poderíamos falar em graus de exigência de leitores, mas isso acaba quase sempre numa contraposição entre a dita "literatura séria" e a "literatura popular". Parece-me que é mais ou menos aceite que esta última - onde nasceram e cresceram os géneros do Fantástico - são literaturas onde a recompensa emocional/intelectual é mais imediata, não carecendo de grandes mediadores culturais a fazerem a ponte entre o texto e o contexto social - mas também isso é enganador, de tal forma sofisticadas se tornaram as literaturas de género e tão vácuas, repititivas e simplistas se tornaram as manifestações do mainstream.

Devemos por isso cingir-nos ainda ao jogo e à forma como é jogado. Sobretudo quando estamos a braços com um debate alargado sobre o futuro do género em Portugal. Várias propostas mais ou menos ambiciosas, mais ou menos batidas, foram lançadas sobre a mesa. Lemos - surpresos - uma tentativa de efectuar clivagens entre uma imaginada velha guarda do fandom e um grupo de jovens supostamente activos que querem criar o seu próprio Fantástico, sem os entraves que parecem perceber oriundos dos que os antecederam. Mas, para além das intenções, pouco mais se vê. Ora, mais do que uma clivagem geracional - afinal, aqueles que agora são referidos como "velho fandom", oscilam entre os vinte e poucos anos da Safaa Dib e os extremamente lúcidos oitenta e tantos do António de Macedo - afigura-se-me haver uma certa clivagem de formas de jogar o jogo da literatura.

Nomeadamente, assistimos ao surgir de uma nova geração de fãs que, sorvendo as referências no imediatismo voraz da internet, parecem prescindir de uma mediação contextual do que se lê. Uma geração não só avessa à necessidade de crítica literária, mas incapaz de proceder a uma crítica literária. Uma geração que lê apenas pelo prazer que lhes confere o mínimo denominador comum da leitura (ou mesmo da própria cultura). Esta é, uma perspectiva demasiado redutora e desde já afirmo que tal não é a situação generalizada desta nova geração. Se calhar não é sequer uma situação maioritária. Mas que é uma tendência muito forte é, porque assenta numa total incompreensão dos protocolos de leitura do Fantástico.

Um dos pontos que foi aflorado no recente debate, foi o do estado da crítica. Disse-o aí, e repito-o aqui: a crítica séria do Fantástico é inexistente em Portugal, apesar dos inúmeros blogues que se dedicam à divulgação do que se vai publicando. É claro que não podemos exigir de bloggers amadores - no sentido de não remunerados profissionalmente - a dedicação que é necessária à análise crítica de uma obra de FC, de Fantasia ou de Horror. Mas também não nos podemos deixar tombar pela ladeira oposta, que é a resvaladiça ladeira da opinião. Sobretudo a de uma opinião assente exclusivamente nos critérios subjectivos do gosto.

O Luís Filipe Silva, como sempre certeiro no momento e na oportunidade, resolveu mostrar, através de um exercício crítico, como é que a coisa se faz. Apesar de ter assinado um dos contos mais interessantes publicados este ano entre nós, resolve desfazê-lo com abandono, suscitando questões que seria normal os leitores colocarem perante o texto. Porque essa é a forma correcta de jogar este jogo: porque a literatura não deve ser recebida acriticamente numa escala de mero prazer emocional/sensorial. Um texto literário é sempre o resultado de uma série de escolhas de quem o escreveu. Essas escolhas nem sempre são as melhores, e por vezes cabe ao leitor encontrar as soluções que teriam enriquecido o texto, reconhecer as escolhas que foram feitas e porquê, e avaliar o resultado final contra os milhares de textos fantasma, de meros potenciais, que lhe passaram pela cabeça ao lê-lo.

Só assim os autores podem melhorar o que escrevem. Borges dizia que "todos julgamos os outros por aquilo que escreveram, mas esperamos ser julgados por aquilo que queríamos ter escrito". É altura que todos sigamos um mesmo critério. É imperativo, para que possamos crescer.

4 comentários:

pedromarquesdg disse...

É o Luiz Pacheco na foto? Vocês deviam ser obirgados a usar o estilo do Pacheco nestas polémicas... ;) Quem em paz esteja!

João Seixas disse...

Olá Pedro.

Não, não é o Pacheco, é o James A. Micheneer.

Com o estilo dele é que estas questiúnculas nunca mais acabavam. O pessoal acirrava-as só pelo prazer de as ler...

Abraç,

Seixas

Francisco Norega disse...

Só para avisar que deixei uns excertos no blog. :)

E achei fantástica a iniciativa do LFS. Louvável ;)

Correio do disse...

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Participem, inscrevam-se já para podermos iniciar juntos mais esta viagem pelo fantástico!


Roberto Mendes