quarta-feira, 22 de julho de 2009

Como lemos é como somos


A leitura é, para além de um acto de prazer, um exercício intelectual. É um jogo de possibilidades em que participam autor e leitor, o primeiro procrando enredar o segundo numa trama, o segundo procurando discernir os pormenores dessa trama. O que torna o jogo particularmente enriquecedor é que o leitor que procura as malhas da trama não as quer encontrar. Sabe que estão lá - afinal este jogo chama-se ficção - mas quanto melhor escondidas estiverem, melhor. Porque a invisibilidade das tramas, dos pontos em que a estrutura foi soldada, permite-lhe ir além da palavra escrita e penetrar naquele segundo grau de leitura que é a imersão na história, no drama, no conflito e desenvolvimento das personagens. Tropeçar nos buracos do enredo, onde a massa não foi bem colocada ou onde são perfeitamente visíveis os acabamentos toscos, detrai necessariamente do prazer do jogo. Pelo menos se queremos levar o jogo a sério, como leitores participantes, e não como meros leitores passivos.

Creio que antes poderíamos fazer a qualificação dos leitores passivos como "leitores escapistas", aqueles que, deslumbrados pela luz não reparam nas arestas cruas, que fascinados pelas cores perdoam a tosca utilização dos pincéis, aqueles que dispensados de pensar, esquecem como isso se faz. Mas não gosto dessa definição, porque não encontro nenhum mal intrínseco na literatura escapista ou na leitura pelo mero prazer imediato.

Poderíamos falar em graus de exigência de leitores, mas isso acaba quase sempre numa contraposição entre a dita "literatura séria" e a "literatura popular". Parece-me que é mais ou menos aceite que esta última - onde nasceram e cresceram os géneros do Fantástico - são literaturas onde a recompensa emocional/intelectual é mais imediata, não carecendo de grandes mediadores culturais a fazerem a ponte entre o texto e o contexto social - mas também isso é enganador, de tal forma sofisticadas se tornaram as literaturas de género e tão vácuas, repititivas e simplistas se tornaram as manifestações do mainstream.

Devemos por isso cingir-nos ainda ao jogo e à forma como é jogado. Sobretudo quando estamos a braços com um debate alargado sobre o futuro do género em Portugal. Várias propostas mais ou menos ambiciosas, mais ou menos batidas, foram lançadas sobre a mesa. Lemos - surpresos - uma tentativa de efectuar clivagens entre uma imaginada velha guarda do fandom e um grupo de jovens supostamente activos que querem criar o seu próprio Fantástico, sem os entraves que parecem perceber oriundos dos que os antecederam. Mas, para além das intenções, pouco mais se vê. Ora, mais do que uma clivagem geracional - afinal, aqueles que agora são referidos como "velho fandom", oscilam entre os vinte e poucos anos da Safaa Dib e os extremamente lúcidos oitenta e tantos do António de Macedo - afigura-se-me haver uma certa clivagem de formas de jogar o jogo da literatura.

Nomeadamente, assistimos ao surgir de uma nova geração de fãs que, sorvendo as referências no imediatismo voraz da internet, parecem prescindir de uma mediação contextual do que se lê. Uma geração não só avessa à necessidade de crítica literária, mas incapaz de proceder a uma crítica literária. Uma geração que lê apenas pelo prazer que lhes confere o mínimo denominador comum da leitura (ou mesmo da própria cultura). Esta é, uma perspectiva demasiado redutora e desde já afirmo que tal não é a situação generalizada desta nova geração. Se calhar não é sequer uma situação maioritária. Mas que é uma tendência muito forte é, porque assenta numa total incompreensão dos protocolos de leitura do Fantástico.

Um dos pontos que foi aflorado no recente debate, foi o do estado da crítica. Disse-o aí, e repito-o aqui: a crítica séria do Fantástico é inexistente em Portugal, apesar dos inúmeros blogues que se dedicam à divulgação do que se vai publicando. É claro que não podemos exigir de bloggers amadores - no sentido de não remunerados profissionalmente - a dedicação que é necessária à análise crítica de uma obra de FC, de Fantasia ou de Horror. Mas também não nos podemos deixar tombar pela ladeira oposta, que é a resvaladiça ladeira da opinião. Sobretudo a de uma opinião assente exclusivamente nos critérios subjectivos do gosto.

O Luís Filipe Silva, como sempre certeiro no momento e na oportunidade, resolveu mostrar, através de um exercício crítico, como é que a coisa se faz. Apesar de ter assinado um dos contos mais interessantes publicados este ano entre nós, resolve desfazê-lo com abandono, suscitando questões que seria normal os leitores colocarem perante o texto. Porque essa é a forma correcta de jogar este jogo: porque a literatura não deve ser recebida acriticamente numa escala de mero prazer emocional/sensorial. Um texto literário é sempre o resultado de uma série de escolhas de quem o escreveu. Essas escolhas nem sempre são as melhores, e por vezes cabe ao leitor encontrar as soluções que teriam enriquecido o texto, reconhecer as escolhas que foram feitas e porquê, e avaliar o resultado final contra os milhares de textos fantasma, de meros potenciais, que lhe passaram pela cabeça ao lê-lo.

Só assim os autores podem melhorar o que escrevem. Borges dizia que "todos julgamos os outros por aquilo que escreveram, mas esperamos ser julgados por aquilo que queríamos ter escrito". É altura que todos sigamos um mesmo critério. É imperativo, para que possamos crescer.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Círculo de Leibowitz: Adiamento


A todos aqueles que aguardavam ansiosamente a apreciação que o CÍRCULO DE LEIBOWITZ prometeu para hoje da obra The Fifth Head of Cerberus (1972) de Gene Wolfe, apresento as minhas desculpas. Com toda a actividade em torno da celebração da alunagem, e a inesperada participação no debate organizado pelo Correio do Fantástico e pelo Stranger in a Strange Land sobre o presente e incerto futuro do Fantástico em Portugal, não me foi possível terminar uma crítica aceitável e capaz de estar à altura do título proposto. A pedido meu, e excepcionalmente, o CÍRCULO aceitou adiar esta etapa para o próximo dia 31 de Julho. Assim, os leitores interessados em participar, poderão aproveitar ainda para ler esta curta mas brilhante novela.

Ainda falando no debate e nos propósitos manifestados por todos os intervenientes, sinto-me obrigado, também a título excepcional, a chamar a atenção para os esforços dos quatro autores que o Blade Runner convidou para assinalar a alunagem da Apollo 11. Dois desses autores, dois dos nomes mais conhecidos do Fantástico nacional, escreveram dois contos propositadamente para assinalar a data. Acho ao mesmo tempo curioso e lamentável, que todos aqueles que tanto afinco manifestaram no debate e que tanto protestaram admirar e defender os géneros do Fantástico, não tenham ainda comentado os contos e discutido o seu conteúdo e qualidade. Honra seja feita ao Roberto Mendes que o fez pessoalmente, por e-mail pessoal, com uma homenagem muito própria e que aqui agradeço publicamente.

Terminando também esta etapa, acho que todos os membros do fandom nacional deveriam ler este pertinente, honesto e sincero post do Rogério Ribeiro. Sendo um dos nomes mais visíveis e activos do Fantástico, editor de um fanzine pioneiro, inspirador do projecto BRIGADAS FC e co-organizador do Fórum Fantástico, soube rapidamente tornar-se indispensável ao Fantástico português e conquistar o respeito de todos os membros do fandom. A sua opinião é sempre importante. Dadas as circunstâncias em que entendeu manifestá-la, é-o ainda mais. Leiam o texto e reflictam sobre ele. Se conseguirem dominar a curiosidade, evitem ler os comentários. Apesar da elegância e postura do Rogério, o espectáculo volta a ser deprimente.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

The Moon is a Dashing Mistress


Para todos aqueles que acompanharam este blogue ao longo do mês de Julho deve ter ficado clara a admiração que nutro pelo Programa Espacial Norte-Americano, pelas missões Apollo em particular, e pelo fascinante período histórico em que decorreram. Foi uma época única, de objectivos ambiciosos, resultados concretos, actos terríveis e promessas generosas. Na década em que a América perdeu a inocência, também a Humanidade atingiu o estado adulto. Foi, tanto quanto possível, para partilhar um pouco desse meu fascínio que propus ao Luís Corte Real e à Saída de Emergência a organização da antologia COM A CABEÇA NA LUA. É-me, por isso, tremendamente gratificante ver o resultado final nas livrarias. Tão gratificante quanto ver que pela primeira vez a infosfera, o panorama televisivo e a internet estão a fervilhar de comentários, documentários, referências e programas alusivos a um evento digno de todo esse hype: a chegada do Homem à Lua. Um momento que me parece tanto mais grandioso quanto o súbito abandono de uma exploração e colonização cadenciada da Lua e do sistema solar o faz parecer quase mítico. Em breve, não o conseguiremos distinguir - ou as gerações futuras não o conseguirão distinguir - da ficção científica de que parece ter saído.

Também por isso é gratificante ler os textos que o António de Macedo, o Luís Filipe Silva, o David Soares e o João Barreiros escreveram para assinalar este evento, indo muito além daquilo que lhes foi proposto. O meu muito obrigado aos quatro por isso. Enquanto houver estes feitos para assinalar, e autores destes para os assinalar, nem o Fantástico, nem a FC correm o risco de desaparecer.

Por último, a Antena 1 passou hoje uma entrevista comigo, conduzida com grande simpatia pela Ana Aranha, a propósito da publicação de COM A CABEÇA NA LUA e com o fito de assinalar o grande salto que a Humanidade conseguiu dar em 20 de Julho de 1969. Quem não tiver tido a oportunidade de a ouvir durante o dia, ela encontra-se já disponível aqui.

Comemorando Apollo 11: João Barreiros


O SÍNDROMA DE ABRAÃO

por João Barreiros

O passado, como dizia o poeta, é de facto uma terra estranha. E tão cruelmente ingénuo que até custa a crer. Nesses tempos ainda pensávamos que era possível sobreviver a um ataque nuclear agachados por detrás de um banco de escola, com uma patética folha de jornal a cobrir-nos a cabeça. Hoje em dia é difícil perceber como foi possível, pobres tontos que nós éramos, imaginar que as estrelas seriam um dia nossas, pelo simples facto de que alguém deu o primeiro passo, (melhor diria um tropeção), e calcou a poeira lunar com a marca indelével de um traseiro? Como se ela (a poeira) não estivesse já marcada, desde há milhares de anos, pelos contornos de outras botas, pinças, trilhos, rodízios, cremalheiras e radículas de cristal? Ainda há poucas horas fomos informados, de uma vez por todas, que os futuros deixaram de cantar. Que as estrelas nunca serão nossas, pois já pertencem a outros, talvez às inteligências frias dessas Singularidades Impassíveis, na opinião de alguns místico-gasosos, ou aos tentáculos desses Monstros de Olhos Esbugalhados que tanto deliciaram a FC pulp da primeira metade do século XX. Se quiserem a minha opinião, a história da espécie humana, tal como nós a conhecemos, terminou quarenta anos atrás, no Verão de 1969. Agora a humanidade não canta, antes grita, pois a nossa espécie vai ser obrigada a pagar com juros aquilo que julgou ser prendas dos deuses. Permitam-me o lugar comum: Quem ignora as lições da história vai ter de repeti-las ad nauseam.

Quando Armstrong deu aquele pequeno trambolhão de que todos os homens se orgulham, activou sem querer aquilo que esperava por nós, em absoluta quietude, há três milhões de anos. Tal qual fazem aqueles os piolhos que aguardam pelo sangue quente de uma vaca, suspensos nos galhos de uma árvore. Os piolhos não estão vivos (pelo menos segundo os padrões humanos) mas também não estão mortos. Apenas em stand-by, tal qual as flores meméticas. Em boa verdade, mal Armstrong se estatelou no solo lunar, abriu caminho a uma sinistra Primavera que logo fez esquecer um Inverno de silêncio que poderia ter durado para sempre. Vá-se lá saber o que activou as flores. Como se isso fosse importante, a la longue. Como se a resposta não estivesse escondida numa das páginas secretas da Enciclopédia, disponível para quem se queira dar ao trabalho de a procurar. Especulou-se que foi a vibração anómala do solo, quando a Eagle alunou, num impacto desta vez tão diferente do choque banal de um meteorito, a acordar as sementes. Quem sabe se não teriam sido as micro partículas de ADN coladas ao revestimento exterior do escafandro, ou uma variação anómala de temperatura a contrastar com o frio ambiente. Há que diga que as radículas detectaram uma lufada química dos jactos de atitude do módulo. Outros afirmaram a pés juntos que o principal responsável foi uma baforada de CO2 expelida pelos circuitos de reciclagem do escafandro.

Que interessa isso? Basta dizer que as flores acordaram. E ao acordar, cravaram as raízes no regolito lunar e estenderam as pétalas rígidas e sedosas na direcção do sol. O Mar da Tranquilidade encheu-se em apenas poucos minutos de um fulgor coruscante. E assim despertas, como se fossem girassóis, viraram-se para o primeiro astronauta, para saudar a sua gloriosa e um tanto ou quanto ridícula chegada. De um momento para o outro, o Mar da Tranquilidade encheu-se de reflexos cromáticos. Em poucos minutos a Eagle ficou rodeada por um jardim de impossível delicadeza. Não havia vento a soprar, claro está, mas as pétalas rodopiavam como caleidoscópios capturando a luz do sol e decompondo-a em milhões de reflexos prismáticos. Este estremecimento frenético provocou uma tempestade de poeira, visível da Terra, tempestade que se estendeu por vários quilómetros até vir de novo a assentar e a servir de adubo ao crescimento de uma pseudo-planta capaz de sobreviver em pleno vácuo. E perante os olhos piscos e miópicos das câmaras de TV, a humanidade inteira viu o jardim a crescer e a multiplicar-se numa progressão exponencial.

Vês como somos belas? Como é maravilhoso o jardim a que pertencemos? Esquece os calhaus que nos rodeiam. Leva-nos de volta para a Terra...

Quem não se recorda da famosa frase de Armstrong (parafraseando uma outra de um filme que a história recente amaldiçoou?): “My God, it’s full of Ships!”. E ao dizer isto, sob os múltiplos reflexos do jardim nascente, as botas falharam o último degrau e o escafandro deslizou, devagar, devagar, numa queda que quase custou a vida ao seu utilizador, até vir bater na poeira ainda há pouco revolvida pelos jactos de atitude do módulo Eagle.

Claro que o astronauta tombado na poeira, com os pés a espadanar como uma barata tonta, esqueceu-se de debitar frases memoráveis imbuídas de um humanismo pegajoso e praguejou em alta voz aquilo que mais tarde as radiodifusões censuraram, mas que todos nós ouvimos perfeitamente (pelo menos aqueles que estavam nesse momento colados aos ecrãs da TV): shit, fuck! I’m done!

A definição das câmaras de TV era, à época, minimalista. A imagem de um pobre Armstrong a tentar levantar-se de uma queda vergonhosa, foi tudo o que conseguíamos ver durante a histórica emissão nocturna. Pedro Moutinho comentava o óbvio, e Eurico da Fonseca procurava explicar que os degraus da escada podiam estar escorregadios devido às partículas de gelo. E que era perigoso, mesmo muito perigoso, descer assim, num passo descuidado, sobre as rochas virginais de um novo mundo. Virgens uma história! Ninguém conseguiu perceber o sentido da exclamação de Armstrong, a não ser os que já tinham visto o filme 2001. Algures, no outro lado do mundo, Clarke, devia estar a esfregar prematuramente as mãos de contente, aguardando pelas primeiras imagens da proverbial Sentinela e um aumento substancial da sua conta bancária. Infelizmente para ele e para todos os optimistas que mais tarde vieram a criar a religião do Saganismo Eufórico, o Mar da Tranquilidade não estava pejado de Monólitos negros, mas sim com as carcaças dos contentores, vindos dos Impérios do Centro da Galáxia, contentores que em tempos deveriam ter instalado e distribuído as sementes por todo o solo lunar. Carcaças cinzentas, reflectoras de radar, invisíveis aos telescópios da distante Terra. Carcaças miméticas de módulos de von Neumman. Agora, poucas horas depois da alunagem, já quase ocultas pelo florescimento dos jardins de cristal, podiam ainda ver-se restos colapsados de distribuidores, tubagens, escavadoras, catapultas, domos ecosféricos (furados pela passagem implacável do tempo), templos subterrâneos cheios das múmias aracnóides dos operadores alienígenas (ou quem sabe, apenas e tão só simples bioconstructos, em nada semelhantes à verdadeira forma de quem os enviou). Quem quiser saber mais, que consulte os ficheiros da Enciclopédia, e isso depressa, antes que os serviços até agora gratuitos ganhem outro rumo.

Ao fim e ao cabo não há pachorra para investigar aquilo que julgávamos estar disponível para sempre... O que se passou foi que, em vez de rochas aborrecidas e monótonas, os contentores do módulo encheram-se das mais belas corolas que lhes foi possível recolher. Algumas foram postas em isolamento, apenas tocadas pelas luvas blindadas dos astronautas. Outras, num daqueles actos de criminosa negligencia, foram levadas para a cabine de pilotagem e acariciadas pelas mão nuas e seborrentas dos dois astronautas. E a Enciclopédia integrada na estrutura cristalina das pétalas das pseudo-flores, contaminou-os, com os memes metagnósticos de uma civilização trans-galática. Uma multitude de Nanócitos exógenos passaram-lhes através da pele, depois para o sangue e finalmente para as zonas vicariantes do cérebro. Os lobo pré-frontais explodiram numa glória de misticismo e de sonhos húmidos de poder. Duas horas de delírio febril foram suficientes para activar os primeiros protocolos de comunicação. Ficheiros inter-activos começaram a explicar-lhes de viva voz as respectivas funcionalidades. E enquanto explicavam como era possível ter acesso a quase tudo o que era possível saber, os astronautas, (que ainda não tinham deixando de recitar estrofes da Bíblia à guisa de vade-retro) desobedeceram às ordens de Houston, que lhes aconselhava um suicídio altruísta a bem de toda a espécie humana, dispararam o módulo até uma órbita cis-lunar, acopolaram-se ao transportador, passaram as viroses meméticas ao piloto solitário e arrancaram na direcção da velha Terra. Durante toda a viagem de regresso, sempre em comunicação com Houston, (mas surdos a qualquer pedido que lhe exigia que fossem razoáveis e que se deixassem morrer) foram reconstruindo, remodelando, reformatando, todos os pequenos bugs e deficiências do módulo lunar, tornando quase impossível um fracasso, um acidente, um erro que poderia degenerar em catástrofe. As vozes amigas da Enciclopédia estavam sempre com eles, sugerindo, alvitrando, recomendando. Quando dormiam num sono dos justos, (sim, porque a Enciclopédia também possuía arquivos de auto-reparação nos organismos dos seus utilizadores), os três astronautas sonhavam com Impérios Galácticos, visões divinas, êxtases místicos e momentos de futuras erecções que nem as primitivas cantáridas poderiam alguma vez superar.

O resto é história. A Enciclopédia chegou à Terra e não houve censura que lhe pudesse pôr cobro. Porque mesmo em isolamento, os astronautas deixaram memes nas águas do oceano, nos assentos do helicóptero que os transportou até ao porta-aviões, nas mãos enluvadas dos médicos que os examinaram. E embora a carga que viajou no interior dos contentores do módulo tivesse sido praticamente destruída, a verdade é que sempre sobrou qualquer coisinha. Técnicos, marinheiros, agentes do FBI levaram para casa, escondida nas solas dos sapatos e nas dobras da roupa, uma informação que deixou de ter segredos seja para quem for.

As flores começaram a aparecer e a reproduzirem-se sem controlo, poucas semanas depois da amaragem, nas praias da Florida, nos jardins públicos de Miami. A tropa meteu-se ao barulho, armada de lança-chamas e (pobres idiotas) toneladas de DDT. Mas não é assim, como chamas e químicos, que se dá cabo de uma invasão alienígena. Todos os contaminados (aqueles a quem a Enciclopédia passou a prestar serviços) passaram-se para o inimigo. Guardas-marinha, os médicos que examinaram a saúde hercúlea dos astronautas, desde logo seduzidos, distribuíram, intencionalmente ou sem querer, as sementes rígidas escondidas nas corolas solúveis de todas as flores.

Houve quem construísse balões de ar quente ligados a uma cestinha de pétalas vivazes, e os soltasse depois ao sabor do vento e da História. Houve quem construísse pequenos barcos impulsionados por placas solares (montadas nas garagens e oficinas de vulgares cidadãos, como manda o figurino) e os deixasse seguir pelo Oceano fora. Houve quem fabricasse pequenos foguetões preparados para explodir e disseminar sementes a quilómetros de altitude. Nesses anos sessenta não havia meios físicos capazes de controlar uma pandemia. No final do Verão de 69 todo o continente Americano passou a ter acesso a uma troca de dados sem limites.

Dois meses depois Nixon demitia-se, pois não havia segredo que pudesse esconder-se de uma troca livre e franca de informação. Escritores, compositores, poetas, comediantes deixaram de receber direitos das suas obras, pois estas, graças à divulgação anárquica da Enciclopédia, entraram em todas as cabeças, mesmo antes de serem editadas em papel ou gravadas em vinil. Milhares de casais divorciaram-se ou chegaram mesmo a degolar-se, no pior dos casos, pois a verdade é que deixou de haver segredos íntimos, logo que as memorias passaram a ser livremente trocadas. Poderia ter sido o fim da civilização, até que alguém descobriu uma sub-pasta no Arquivo Central da Enciclopédia onde era possível activar alguns protocolos de privacidade. Nas escolas, os alunos passaram a saber tudo, mesmo antes do professor abrir a boca. Nenhum teste, nenhum exame, nenhuma prova conseguia escapar ao facto que todos os conhecimentos, já digeridos e integrados em estruturas cognitivas, poderiam ser aplicados à resolução de qualquer tipo de problemas, mesmo os mais complexos.

E a Enciclopédia, compactada nas sementes carregadas de nanócitos mais as respectivas flores contaminantes, atravessaram o Oceano e chegaram à Europa. Há quem diga que os Americanos bombardearam a União Soviética e a China com toneladas de sementes na barriga de bombardeiros stealth, simplesmente para acelerarem o processo da desintegração do Comunismo. Verdade seja dita que o Muro caiu. Que a KGB se auto-destruiu numa única noite de chacina inter-pares capaz de lembrar a outra noite das Facas Longas. Querem saber mais? Procurem os Arquivos correctos.

***

Quanto a mim, acedi pela primeira vez à Enciclopédia numa tarde de Agosto, estendido na praia, a secar as gotas de água sobre uma toalha. Estava nesse momento sozinho, (pois quem quer saber de um puto magricelas e míope), apenas na companhia do Homem Demolido do Bester. Qualquer coisa picou-me o rabo. E eu, julgando tratar-se de uma concha ou a tampa de uma lata, ergui a toalha, enfiei a mão na areia grossa e peguei na flor por uma das pétalas. A principio, apesar de tanta fotografia, não cheguei a perceber do que se tratava. Estávamos em Portugal, sob o peso da bota, e os resultados dos testes de exame apenas nos chegavam através da Rádio Marrocos Livre. A pétala parecia-se com um fragmento de bolo de açúcar caramelizado. A luz da tarde penetrava-a de um lado ao outro em delicadas cintilações. A superfície, a princípio elástica e resistente ao toque, começou a amolecer-me entre os dedos. Uma sensação de frescura colou-se-me à mão e foi-me crescendo pelo braço. Pisquei os olhos., engoli em seco, mas a sensação não foi de agonia mas sim de um vago prazer, quase sexual. Pisquei os olhos porque os óculos começaram a incomodar-me. Tirei-os para os limpar, com um fragmento de pétala semi-dissolvido ainda agarrado aos dedos, e descobri, para meu espanto, que agora via melhor sem eles, que a miopia tinha deixado de me atormentar. Olhei para o mar e de súbito veio-me à memória todos os contaminantes químicos das gotículas de água que ainda me cobriam o corpo. Soube que a praia estava contaminada pelas salmonelas provenientes dos eflúvios de um matadouro próximo e que deveria ser enviada uma reclamação contundente à Junta de Freguesia. Percebi a natureza tóxica de todos os contaminantes de um oceano aparentemente límpido. Calculei a velocidade das correntes da baixa-mar, e a velocidade em nós dos navios que passavam ao longe, para lá da barra. Soube que horas eram sem sequer deitar uma olhadela ao relógio ainda guardado no saco. Lembrei-me do final do romance do Bester apesar de ainda não ter chegado a meio. Vieram-me à memória todos os estúpidos erros que cometi, há semanas atrás no meu Exame de Matemática. Agora conseguia, sem o menor esforço, recitar toda a tábua de logaritmos. Conclui então que a Enciclopédia estava agora comigo, para sempre. Na cova da mão, entre os resquícios das pétalas dissolvidas, repousava apenas o esferóide de uma nova semente, semente essa que seria o meu dever plantar em qualquer outro lado, longe dali. Levantei-me a tremer de entusiasmo. Toda a gente na praia devia estar a dormir apoiada num conjunto subterrâneo de radículas. Até ao final da tarde, as primeiras pétalas haveriam de despontar entre os grãos de areia, beatas de cigarro e restos de sandes abandonadas.

O governo caiu semanas depois, como é costume caírem as ditaduras que controlam a informação perante a Mente Colectiva em que a Enciclopédia nos transformou. Imagino os segredos da DGS a correrem pelas bocas do mundo. Marcelo Caetano a tremer à beira da catástrofe. Lembro-me do único discurso coerente feito pelo Presidente Américo Tomaz, gramaticalmente bem construído, a pedir desculpas e a despedir-se do poder.

***

A Utopia resultante desta Felicidade Compulsiva durou 40 anos.

No final da tarde, 20 de Julho de 2009, hora local, a Enciclopédia abriu uma nova mensagem à escala planetária. Quer isto dizer que todos nós, a espécie humana, recebemos a mesma informação, precisamente ao mesmo tempo.

As vozes delicodoces da Enciclopédia (para quem gosta de a ouvir em circuito áudio) explicaram-nos que o período de assinatura gratuita estava prestes a terminar. Que a partir do dia 30 de Julho os serviços seriam cancelados, os aplicativos dissolvidos, os jardins de flores meméticas reabsorvidos a não ser que a assinatura fosse renovada, mas que desta vez era preciso pagar.

Seguiram-se os protocolos da renovação do contrato. E porque a Enciclopédia funciona segundo princípios democráticos, a opção deveria partir da escolha consensual de sessenta por cento da população mundial. Às dezoito horas do dia 30 de Julho, todos nós deveríamos dizer se sim ou se não. E que o preço era meramente simbólico, apenas uma questão de respeito perante as inteligências que tanto tinham feito pela espécie humana.

***

Quem quer que tenha enviado as flores conhecia a história da humanidade. Sabia o que os Gregos fizeram aos Troianos com a oferta irrecusável de um certo cavalinho de madeira. Sabiam o que aconteceu aos índios americanos quando receberam cobertores dos colonos contaminados com malária. Oferecemos de mão beijada arados de ferro às tribos do Norte de África com os conhecidos resultados de desertificação. De facto, a Enciclopédia poderia ser considerada uma arma à escala trans-galáctica construída para sufocar as civilizações da Periferia. A verdade é que, desde há 40 anos nunca mais produzimos, inventámos ou criámos nada que não estivesse já incluído nos protocolos da Enciclopédia. Tornámo-nos dependentes de uma droga. E ninguém vai conseguir fazer a ressacagem a tempo de nos salvar do colapso final.

***

Afinal quem é que vos disse que as civilizações do Centro, lá pelo facto de serem tecnologicamente mais avançadas, possuem valores éticos de natureza quase divina?

São sádicos, são voyeurs, deleitam-se, tal como nós, com os combates até à morte dos cães e dos grilos em arenas. Nós, humanos, não passamos de um mero espectáculo que essas inteligências frias contemplam de muito, muito longe. A salivar perante futuros prazeres.

A Enciclopédia deve ter meios de lhes fazer chegar toda a informação do que se passa no nosso planeta em apenas poucos minutos. Algures, no sistema operativo das flores meméticas, deve estar incluído um ansible.

Quem querem eles como paga da renovação da assinatura?

Muito simplesmente o sacrifício anual (e quanto mais sangrento melhor) de 5.000 crianças no topo das pirâmides de Chichen Itza. E tudo isto filmado e representado a preceito. Se as criancinhas forem executadas pelos pais, tanto melhor, mais bela e delicada será a estética do evento. É importante que seja escolhidas a dedo entre as mais belas e saudáveis. É recomendável que se lhe arranque o coração ainda em vida. E depois as tripas. E que os parentes bebam uma taça do sangue derramado à guisa de respeito por quem manda.

***

Temos poucos dias para decidir mas, conhecendo como conheço a espécie humana, já sei qual será a resposta. Cínico que sou, concluo que antes do advento da Enciclopédia, morriam mais crianças no mundo de doenças e acidentes do que estas cinco mil. No dia 30 vou cerrar os olhos e dar a minha escolha. (Não são permitidos votos em branco). Resta-nos optar entre a extinção global da nossa espécie e a simples perda de algumas células não essenciais. Estou habituado ao meu conforto, à minha felicidade sintética, não tenho filhos para criar, o problema é dos outros, não meu. Opto pela morte do Mandarim e pelo afluxo de uma gigantesca fortuna. E no próximo ano conto estar no México, a aplaudir, como tantos outros, a renovação da assinatura da Enciclopédia que afinal é o fundamento das nossas vidas.


“Os monstros existem, mas são demasiado numerosos para constituírem um
perigo. Quem é perigoso são os homens vulgares, preparados para acreditar e
obedecer sem discutir.”


Primo Levi

Comemorando Apollo 11: David Soares


A Lua ainda é um lugar misterioso…
por David Soares
A Lua ainda é um lugar misterioso…
Quarenta anos depois da primeira alunagem – depois daquela tímida tentativa de despir Selene – parece que o mundo ainda não entrou na épica era espacial que projectámos durante os anos cinquenta e sessenta do século passado: o futuro, para mal dos nossos pecados, assemelha-se, demasiado, ao presente. Ou, pior!, ao passado. A deusa ainda está vestida e adormeceu-nos, pobres pastores, de modo a conservar o pudor.
A conquista do espaço foi a última grande meta-narrativa que marcou, com um cunho distintivo, a cultura ocidental, mas, inversamente às meta-narrativas religiosas, que, infelizmente, ainda subsistem, esta, que é científica, parece ter sincopado. Não se assiste a um grande entusiasmo público diante dos progressos astrofísicos que vão sendo divulgados pela comunicação social e nos veículos da especialidade. Acho até que o espaço nunca esteve tão distante de nós, como hoje – e isso é uma pena. Talvez a Lua seja, com efeito, uma amante cruel.
Ou talvez nos falte uma comunicação social que conheça a linguagem científica e saiba transmiti-la sem a associar a imagens e conceitos, ditos divertidos, pensados para a tornar degustável pelos espectadores. Talvez nos falte uma nova grande meta-narrativa científica que sirva de contrapeso aos absurdos da fé. (O burburinho criado em volta do novo super acelerador de partículas do CERN quase serviu, mas os meandros da física quântica são demasiado insondáveis para serem compreendidos, e amados, pelo grande público.)
Em suma, falta-nos olhar outra vez para a Lua – de modo simbólico, também, pois trata-se de um local onde já estivemos e pode ser um lugar que sirva de modelo a viagens mais arrojadas.
A Lua ainda é um lugar misterioso… Na verdade, ainda é virgem. Apenas a acariciámos – falta cumprir-se a sua conquista.
Quarenta anos depois da primeira alunagem, ainda não despertámos para essa conquista. Talvez devêssemos aproveitar o facto de ainda estarmos a dormir… para sonhar!
Como está expresso no título da antologia de contos de ficção científica organizada pelo João, e publicada pela Saída de Emergência, precisamos de pôr a cabeça na Lua. Já lá pusemos o pé, mas isso não é suficiente, porque o pé não sonha.
A cabeça é que sonha.
E atrevo-me a dizer que os assuntos relacionados com a conquista do espaço são a única área da ciência capaz de fazer o público sonhar. Acredito que o futuro do discurso científico, junto da opinião pública, terá de passar por um novo sonho espacial.
Sonhar com o espaço faz da Terra um lugar melhor: mais pacífico, mais sábio e maior.
Mais sensual, até.

Comemorando Apollo 11: Luís Filipe Silva



A Verdade Sobre a Ida à Lua


por Luís Filipe Silva


1.º Exercício de escrita: três astronautas embarcam na primeira viagem à Lua da espécie humana. Descreva a viagem sem se referir aos astronautas, à Lua nem às circunstâncias do evento.

Nunca o iriam deixar em paz.

Passos nervosos no asfalto que conhecia tão bem. Ele a apressar o movimento da chave entre bolso e porta, a atirar os livros para o assento do lado, a bater com os joelhos na dureza do encaixe do volante.

Sr. Collins, sr. Collins!

A forçar o pequeno Fiat a um acordar doloroso.

Sr. Collins, queremos falar consigo!

Subitamente a mão contra a janela subida, a bater, a implorar.

(Ocorre-lhe fugazmente a mão desesperada de Gus contra uma outra janela, reproduzida em ficções televisivas.)

Apenas duas palavras, sr. Collins, é só o que lhe peço.

O velho Quattrocento a reagir no último momento e ele a pisar com força o pedal, quase derrubando a mulher contra o cameraman.

Sair daquele sítio, fugir daquele instante, regressar ao universo que edificara em torno da vida.

Ficar na Terra.

***

Conspiraram para o cercar. Percorre os telejornais da televisão por cabo. São dezenas e ainda assim, quase em uníssono, apresentam as mesmas, antigas imagens. Desliga o aparelho, nem lhe apetece ver um outro canal. Os apresentadores e os jornalistas são jovens de mais para terem presenciado em directo – o que os move é, sabe-o bem, uma natural curiosidade mórbida acerca de um grande mistério esquecido.

Isto não é o mesmo que entrar no túmulo de um faraó morto há milhares de anos, diria às câmaras, há que respeitar a memória das famílias.

Mas não vai dizer nada. O que disser apenas lhe trará problemas. Tem uma vida calma, um emprego seguro. Não se encontra na idade dos heroísmos. Ficará sentado a aguardar que a ventania passe. Como um rochedo. Um rochedo humilde, que não se desprende da Terra. Um rochedo sem pretenções aos Céus.

***

As caras espantadas. Os olhos arregalados. Pousa a pasta com cuidado sobre a mesa. O coração bate apressado.

Bom dia, turma.

Eles entreolham-se. Uma mensagem invisível passa entre as mentes quase adultas.

Aquele Collins de que falam na TV é seu pai, avança a provocadora Susy.

Ele sente o ressurgir de uma dor muito antiga.

Isso não tem interesse. Vamos começar a aula?

São apanhados de surpresa pela veemência. Bem, ele também, na verdade. Começa a rabiscar no quadro branco. Assim, de costas para a audiência, recuperando o controlo. Ou tentando. Pede-lhes que leiam os trabalhos de casa. Ficar calado, sentado na cadeira, deixando a hora passar. A ventania passar.

O tema não ajuda. Homero e heróis e nobres feitos.

Ainda quando um soldado luta duramente, tal dureza é sentida pelo que ficou para trás, e igual honra cobre o cobarde e o bravo; o homem que nada fez e aquele que tudo cumpriu acolhem a mesma morte.

É como se tivessem apontado um holofote contra o seu assento de professor. Quente e incómodo e que lhe fere a vista.

Ouve murmurinho ao fundo da sala. Alguns olhares desconfiados, acusadores.

Só mais trinta minutos.

Entre os homens imbuídos de honra são em maior número os que sobrevivem que os que tombam em batalha, mas os que fogem não são dignos, nem de glória nem da minha ajuda.

E em que contexto é que Homero faz essa afirmação, John?

Vê a lança antes da a sentir. Vê-a no semblante do rapaz.

Os troianos eram heróis, professor, que não se deixavam assustar pela dureza da missão nem condenavam os companheiros a uma morte certa.

Eram outros o rosto e a voz, mas poderiam ser as mesmas palavras. Era Bruce, novamente.

Fica atordoado durante alguns segundos, a turma a aguardar a explosão. Mas limita-se a levantar e ir-se embora.

***

Sr Collins?

Não foge, desta vez. Não tem forças para tal.

Ela refreia-se um pouco ao notar as lágrimas.

Podemos falar? Só nós os dois?

Não é ninguém que conheça. Ninguém que lhe tenha aparecido anteriormente. Pelo menos não trouxe câmaras consigo. Isso baixa-lhe a guarda.

O que é que vocês querem? Porque é que não me deixam em paz? Não tenho nada de novo para dizer. Esqueçam de uma vez por todas o assunto. Não faço ideia do que lhe ia pela cabeça, tinha apenas oito anos.

Sr. Collins...

Imagina o que tem sido para mim viver com esta história? Ser o filho de alguém que estragou o precioso sonho americano?

Sr. Collins...

Tinha oito anos. Não pude voltar à escola. Passei todo o liceu com professores particulares. Tive de inscrever-me na faculdade com o apelido da minha mãe. Consegue imaginar como foi a minha infância?

Ela pousa uma mão sobre o braço dele. É bastante meiga e fala docemente. Ele pára de berrar.

Ninguém consegue imaginar, sr. Collins. É por isso que quero falar consigo. É a sua história que quero contar, não a do seu pai.

Ele não esperava esta resposta. Fica ali, a soluçar de pingo no nariz sobre as rugas, qual criança centenária.

Estou a fazer uma reportagem sobre vocês. Sobre os descendentes. Vou falar com Bruce e Chuck mas queria começar por si. Jerry. O que nunca deu a cara. O que ninguém conhece.

Nunca um membro da imprensa lhe tinha dirigido outro olhar que não o do desprezo e acusação, mas ela sorri.

Aceita?


2.º Exercício de Escrita: um homem revisita o passado doloroso perante uma estranha. Descreva a situação do ponto de vista do observador que está do outro lado do vidro, desconhecedor deste passado, da identidade dos intervenientes e impossibilitado de escutar a conversa.

A mulher chega sozinha. Enverga um casaco de algodão sobre uma t-shirt branca que ostenta o pregão de uma cimeira internacional sobre a fome, uma saia de folhos de cor azulada e umas sandálias pretas. Tem as unhas das mãos e dos pés pintadas de roxo quase negro, um ligeiro toque de base nas faces e o cabelo curto e encaracolado. Sob o braço direito transporta uma pasta. Quando se sentar na cozinha junto do homem, retirará desta um bloco de apontamentos, um lápis e um gravador áudio digital. Mais tarde, no decorrer da entrevista, irá descobrindo aos poucos fotografias, recortes de imprensa, revistas. O homem tomará cada um dos objectos para os apreciar, como se fossem chaves para despertar memórias. Irá demorar-se mais a cada um deles, e no fim não será capaz de os manusear sem expor comoção. A última imagem é de um rosto de jornal integralmente preenchido por uma fotografia a preto e branco. Ilustra um possível centro de engenharia, pois vêem-se paredes brancas com sinalização orientadora e avisos; vários homens de meia idade, com camisas brancas de meia manga e gravatas escuras, observam a cena: dois seguranças contêm uma senhora, de boa aparência, que, assolada por uma raiva incontida, tenta pontapear uma outra mulher, de joelhos no chão e mãos a tapar o rosto; um rapazinho tenta interpôr-se entre as duas mulheres, em nítida protecção da que está caída.

O homem detém-se bastante tempo neste último item. Não fala. Começa silenciosamente a chorar.

Por sua vez, o homem, durante a conversa, apresenta as suas evidências. Vai buscar livros e gravações. Senta-se com ela a ver vídeos – em que homens vestidos de astronautas mergulham em piscinas, volteiam em câmaras centrífugas, falam para as câmaras. Um homem destaca-se sempre nestas imagens, de aspecto já não jovem mas ainda não chegado à meia-idade. Mostra-se reservado quando o filmam, talvez vítima de desconforto perante o escrutínio público. Os companheiros são mais descontraídos e parecem incitá-lo por arrastamento. O homem gesticula bastante e fala de forma animada enquanto os vídeos passam.

Numa outra tarde, pois a conversa não finaliza no primeiro encontro, serão outros os vídeos. O homem não estará tão efusivo, e vai tragando vagarosamente vários copos de bourbon enquanto fala, prostrado de forma muito quieta no seu canto do sofá. A mulher mostra-se desconfortável a partir de certo ponto e acaba por sair apressadamente antes de os vídeos terminarem. O homem mal a nota partir. Mantém-se sentado, a encarar o ecrã, no qual passam cenas atrás de cenas de momentos familiares entre um casal e três crianças de distintas idades – cenas em praias, em montanhas, em parques temáticos, no quintal, em casa. O homem acaba por adormecer com a televisão ligada e o copo tombado, o líquido a manchar o tapete.

As outras tardes foram melhores. Tinha tirado fotografias da parede, aberto baús empoeirados. Medalhas e cartas de mérito empoeiradas foram expostas, brinquedos com o formato de cápsulas espaciais, conjuntos de montar com imagens da superfície da Lua. Um gráfico detalhando as etapas da viagem. Mas estas tinham sido as primeiras tardes. Quando a mulher regressou, trazia uma câmara e um técnico. Montaram um pequeno estúdio, o homem penteou o seu próprio cabelo. Conversaram durante duas horas e meia, com duas interrupções durante as quais o técnico ajeitou o holofote e o homem esvaziou cinco garrafas pequenas de água à vista da mulher.

Depois tinha terminado. Ela despediu-se com um aperto de mão profissional, mas no fim pareceu ter mudado de ideias e cobriu este aperto com a mão livre. Disse-lhe algo muito suavemente, olhando-o nos olhos.

Ele anuiu, sem proferir palavra. Parecia muito cansado.


3.º Exercício de Escrita: uma conversa telefónica entre duas pessoas, que abordam um tema doloroso do passado. Deverá tornar-se evidente, durante a conversa, que os motivos aparentes escondem outros mais profundos, e que a redenção não se alcança sem custo. Contudo, não devemos ter acesso às reacções emocionais, aos pensamentos nem a outra informação que não seja expressa, unicamente, pelos diálogos trocados.

- Jerry? Jerry Collins?

- O próprio. Quem fala?

- Bruce Armstrong.

- ...

- Alô? Estás aí?

- Bruce?

- Sim.

- Como é que descobriste o número?

- Deu-mo a produtora. Da tua entrevista.

- O que se passa?

- Como vão as coisas?

- Como assim?

- Como vai a tua vida?

- Não falamos há quarenta anos e ligaste-me para me perguntar sobre a minha vida?

- Porque não? O que é que tu perguntarias?

- Fui suspenso da escola. Os pais ameaçaram retirar os miudos da minha aula e o reitor assustou-se. Eis a minha vida.

- Esta porra de cobertura noticiosa... Mas vai tudo mudar.

- Mudar como?

- Tens razão, não liguei para saber da tua vida. Jerry, hás-de ser contactado por uns gajos da Verdade Sobre a Lua.

- Tu e o Chuck sempre gostaram destes maluquinhos de circo. Não estou interessado.

- Estes são diferentes. São jornalistas e têm provas concretas.

- Todos eles tinham. Mas nunca se provou nada. Não estou interessado, Bruce.

- Mas vais estar. Só ainda não sabes. Não sabes que havia material ultra-secreto. Da CIA. Que só ficou disponível agora, passado o número de anos obrigatório. Eles descobriram os arquivos e têm estado a analisá-los. É um escândalo.

- Que tipo de arquivos?

- A última transmissão da Lua. Dos nossos pais. Antes de... bem, antes de morrerem.

- Todos conhecem a última transmissão dos que pousaram...

- Não, não é essa. A última transmissão de todos eles. Inclusive do teu. Depois de ter disparado o módulo de comando.

- Ele nunca...

- Foi o que nos fizeram crer. Mas na verdade interromperam a transmissão televisiva. Eles continuaram a emitir. E nunca nos disseram.

- ...

- Estás aí?

- ... Isto é mesmo legítimo, Bruce? Não é mais uma daquelas ideias...

- Os jornalistas são tipo Woodward e Bernstein. Enviaram os filmes para laboratórios do outro lado do mundo. Já lhes garantiram a autenticidade. Foram emitidos naquela noite, e nunca ninguém os viu. Quero dizer, o mundo não os viu. Apenas um punhado de autoridades no governo e na CIA estavam por dentro do segredo.

- E o que foi que disseram?

- Querem ajudar-nos a processar o Governo. Vai ser em grande, Jerry, muito em grande.

- Não: os nossos pais?

- Foi um pacto.

- Sim?

- Um pacto suicida. Combinaram durante a viagem. Combinaram não voltar à Terra. Neil e Buzz desceriam à Lua, como combinado, mas ficariam por lá, expondo a cápsula ao vácuo. Quanto ao teu pai, bem, aparentemente era suposto despenhar-se contra a superfície mas preferiu lançar-se pelo espaço. Pelo menos é o que ele diz.

- ...

- Jerry? Jerry?

- ... P-p-porquê?

- Qualquer treta sobre bombas atómicas no Vietname. Um plano maluco do Nixon. Queriam expor o caso e acabar com a guerra. Antes que houvesse uma catástrofe nuclear. Coisas da Guerra Fria, não faz qualquer sentido agora. Que grande cabrão, aquele Nixon, hein?

- Porquê? Porquê eles?

- Não sei. Mas não resultou. Conseguiram bloquear a transmissão assim que o módulo de comando do teu pai não emergiu do lado obscuro da Lua, daquela vez. E depois, claro, mancharam o nome dele. Que tinha disparado os foguetes propositadamente. Que tinha condenado os companheiros e a exploração do espaço. Afinal, era bem diferente.

- E vocês acreditaram.

- Quem?

- Tu e o Chuck. E as vossas famílias. Que o meu pai fosse capaz de fazer uma coisa dessas.

- Bolas, Jerry, não queríamos acreditar, mas que alternativas tínhamos? Éramos putos, perderamos os pais e a televisão dizia-nos que o teu tinha sido o culpado... Sabíamos lá o que devíamos pensar?

- Vão-se foder os dois. Eu também perdi um pai. Nunca vos ocorreu isso?

- Bolas, Jerry, eu entendo que...

- Não entendes porra nenhuma, Bruce. Eu perdi um pai e os amigos e o respeito público. A minha mãe perdeu o marido e ainda teve de aguentar o vexame de ver o nome dele enxovalhado por toda a gente. E a tua, a tua, Bruce. Nunca me hei-de esquecer daquele dia...

- A velhota perdeu as estribeiras, é natural...

- Vai-te foder. A tua mãe não morreu de desgosto. Andou a pavonear-se em tudo o que era talk-show, como sendo a grande viúva americana que sacrifica a família em prol da nação. Que grande farsa! Que grande farsa que tu és.

- Jerry, não te admito isto. Telefono-te para te dar estas boas notícias sobre o teu pai...

- Boas notícias? Durante anos acalentei a esperança que tivesse sido uma avaria nos foguetes, que aquilo tivesse disparado por acidente. Que os filhos da puta da NASA estivessem borrados de medo de ter feito porcaria e culpassem o meu pobre pai. Mas afinal foi um idiota com um pacto qualquer sobre uma guerra estúpida. Isso era mais importante que a família?

- Mas agora toda a gente vai vê-lo como um grande pacifista...

- Estou-me a borrifar para o que os outros pensam. Experimenta seres tu o mau da fita, desta vez, e não o grande heroi. A ver se encontras alguma justiça e perdão.

- Eu não fui heroi nenhum. Apenas não queria que esquecessem o meu pai. Não queria que terminassem o programa espacial. Jerry, se voltamos à Lua foi graças ao que eu e Chuck fizemos, ao que as nossas mães conseguiram.

- Foi mesmo? Ou era inveja, Bruce? Inveja de o meu pai ter roubado o momento de glória ao teu? Estavas tão contentinho por seres o filho do primeiro homem a andar na Lua, e eis que o meu pai, o pobre coitado relegado a ficar em órbita enquanto os outros entravam na História, se torna afinal no tipo que rouba o espectáculo e estraga a festa a toda a gente.

- Vai-te lixar, Jerry.

- Pois, finge que não te lembras de como vocês os dois gozavam comigo. O filhinho do astronauta que ia à Lua mas ficava de castigo.

- Tínhamos dez anos, Jerry! É o tipo de coisas que os putos fazem. Esquece de uma vez por todas.

- Estou-me a borrifar para a merda das gravações. Apresentem ou não apresentem, não me interessa. O que revelarem chega tarde de mais. Só interessa a reacção das pessoas. Condenaram uma pobre viuva e três crianças orfãs de pai, como se elas tivessem culpa do que ele tinha feito. O ser humano é uma besta, Bruce. Vocês são grandes bestas. E eles sacrificaram-se por isso? Que desperdício! Deixassem a merda o planeta arder. Não mereceis melhor. E certamente que não mereceis a Lua!

4.º Exercício de Escrita: um homem encontra finalmente uma paz interior e o perdão face a um ente querido, num cenário de Ficção Científica. Descreva a transformação interior sem aludir directamente a ela.

Numa abafada tarde de Novembro, em pleno Indian Summer, um homem senta-se no alpendre da sua casa com um computador portátil. Duas crianças que praticam basebol no meio da rua cumprimentam-no com alegria e respeito. Ele diz-lhes que tenham cuidado com os carros. Abre o computador e começa a fazer contas.

De vez em quando ergue a cabeça e descobre pessoas a olhar para ele do outro lado da estrada. Por vezes acena, na maioria ignora-as. Mães a passear os filhos de carrinho. Casais jovens. Turistas. Os curiosos não param.

Os mais velhos, da sua idade, ainda o olham com desconfiança, confusos com o desenrolar dos acontecimentos. É natural, e não esperaria nada de diferente.

O dinheiro chega à justa.

Todas as suas poupanças. O que a mãe lhe tinha deixado. A indemnização do processo ao Estado. O empréstimo das manas.

Mas vai finalmente lá. Ver o que o pai viu. Ver o que o fez decidir.

A mãe teria aprovado.

Quando voltar vai estar na penúria. Mas quem sabe se volta? Diz-se dos Collins que não aguentam ficar neste planeta toda a vida.

Todas as fronteiras precisam de professores para ensinar as novas gerações.

A Lua não será diferente.

Comemorando Apollo 11: António de Macedo


«…com uma rapariga, numa noite quente de Verão…»

por António de Macedo


Esta frase foi surripiada de Heinlein, tem a ver com a Lua e com o luar e deixo ao arguto leitor a empreitada de descobrir a que conto pertence!

A Lua, deusa inspiradora e romântico luminar dos namorados, foi profanamente espezinhada pela primeira vez, há quarenta anos, por grossas botas humanas fabricadas no planeta Terra — numa noite quente de Verão.

Milhões de pessoas vibraram com o tal «gigantesco passo da humanidade». Nesse mês de Julho de 1969 eu tinha acabado de completar 38 anos, e trabalhava então a cem por cento como profissional de cinema e televisão, realizando todo o tipo de filmes de forma quase imparável, quer filmes de ficção de longa-metragem quer documentários industriais, culturais, turísticos, etc., já para não falar nos incontáveis spots publicitários de 30 segundos a 1 minuto (sempre filmados, nessa época, em formato profissional de 35mm) para passar nos cinemas e na TV.

No ano anterior tinha-me sido atribuído o Prémio Paz dos Reis pela minha curta-metragem Crónica do Esforço Perdido, sobre as vantagens de uma ginástica descontractiva chamada «ginástica de pausa», praticada durante 10 a 15 minutos no próprio ambiente da empresa ou do serviço público — coisa que parece estar de moda outra vez e chamam-lhe agora «ginástica laboral». (Entre parênteses, vi há poucos dias uma reportagem televisiva onde se dizia que era inovação recente vinda do Japão e da América, quando na verdade existe há mais de 40 anos e veio da Suécia e da Rússia…) A conquista da Lua — a verdadeira, tecnológica, e não apenas ficcional — passou por várias fases; uma das mais curiosas, talvez produto da «guerra fria», fez alguma carreira nos finais dos anos ’40 e nos anos ’50: conceituadas revistas científicas publicaram artigos onde se demonstrava que «quem conquistasse a Lua dominaria a Terra», porque ainda se pensava que uma bateria de mísseis na Lua estaria em posição ideal para fazer pontaria e disparar sobre qualquer nação na Terra! (Eu sei porque li artigos desses). Hoje, claro, podemos dar-nos ao luxo de rir um pouco de tamanha ingenuidade.

Em 1969, enquanto os Americanos ultimavam afanosamente a viagem à Lua na conhecida competição com os Soviéticos, estava eu a acabar um documentário turístico sobre Albufeira e a iniciar um outro, industrial, sobre a extinta Sociedade Nacional de Sabões, que entre muitas coisas, e além de sabões, fabricava margarinas… Ao mesmo tempo, de permeio com as minhas idas e vindas entre Madrid e Lisboa para negociar com o produtor espanhol Montana Films S.A. a futura coprodução da minha longa-metragem A Promessa, escrevi o guião da minha longa-metragem contestatária Nojo aos Cães que filmei nos princípios do ano seguinte, e ia mantendo um estimulante convívio com David Mourão-Ferreira, Natália Correia e Almada-Negreiros para a preparação dum filme sobre este último, que comecei a realizar nesse mesmo ano de 1969 e concluí em 1970, com o título Almada-Negreiros Vivo Hoje.

Claro que a anunciada e iminente viagem à Lua me excitou como a qualquer mortal que se preze, finalmente ia-se concretizar a profecia de H. G. Wells em The First Men in the Moon (1901), mais do que a defensiva aventura de Júlio Verne que pôs os três exploradores do espaço a dar umas voltinhas em torno da Lua sem se atrever a pousar nela, e logo se escapuliram de regresso à Terra. O produtor de cinema com quem eu então trabalhava era o Francisco de Castro, e no dia previsto para a chegada à Lua pedi-lhe emprestada uma câmara profissional de 35mm e película, ele cedeu-me uma e outra, fui para casa e liguei o aparelho de televisão (ainda a P-&-B), e fui vendo as empolgantes notícias à medida que o grande evento se aproximava, enquanto preparava o tripé, a câmara, focava a lente, e ajustava o enquadramento para apanhar todo o ecrã do televisor — tinha de ser muito preciso, só dispunha de um rolo de 120 metros de película 35mm, o que daria para quatro minutos de captação de imagem! Em suma, eu dispunha apenas de 240 segundos para filmar os momentos cruciais. A certa altura da noite os meus filhos António e Susana (que tinham então nove e sete anos respectivamente) foram para a cama, e só fiquei eu com a minha mulher, a pé firme, sem despregar olho do pequeno ecrã.

De vez em quando filmava alguns segundos, para ir localizando a aproximação, até que por volta das quatro da manhã surge a famosa imagem de Armstrong saltando para o solo lunar! Claro que filmei tudo e ainda sobejou alguma película para filmar mais uns saltos na Lua, incluindo Buzz Aldrin que se reuniu a Armstrong 15 minutos depois. Segundo os dados oficiais, o módulo pousou na superfície lunar em 20 de Julho às 20h 17m do tempo universal (UTC), e os primeiros passos na Lua, por Armstrong, foram dados às 3h 56m da madrugada do dia 21 de Julho, de acordo com a hora legal portuguesa.

Eu nessa época morava perto da Tóbis (estúdio e laboratório cinematográfico), de modo que fui a correr às seis da manhã, logo que a Tóbis abriu, pôr a película a revelar, e às dez horas desse mesmo dia já pude ver em projecção, e mostrar no estúdio do Francisco de Castro à entusiasmada equipa, as históricas e inolvidáveis imagens.

Já agora permita-se-me um desabafo, para concluir: tenho para mim que o grande feito desse dia não foi tanto a viagem à Lua, antevisionada, prevista e sonhada por inúmeros autores, quer de séculos antigos quer da era da ficção científica; o que me deixou mais boquiaberto, porém, foi aquilo que nenhum autor de FC alguma vez previu ou imaginou sequer: no próprio instante em que um astronauta chega pela primeira vez à Lua, as imagens do histórico evento são transmitidas em directo para o planeta Terra, e, mais, captadas por vulgares televisores domésticos, podendo ser observadas simultaneamente por 600 milhões de terráqueos!!!

Mais do que um grande passo da era espacial — foi sobretudo o grande passo da era da comunicação.

NOTA APARTE — As estranhas palavras «alunar» e «alunagem» (que devem ter surgido por influência jornalística do francês alunir e alunissage: até aos anos ’60 o francês ainda era a língua cultural de referência por estas bandas) suspeito que resultem de uma confusão derivada do facto de a palavra «terra», em português, não só designar o nome do nosso planeta, mas também significar o solo, o terreno, de quaquer planeta (ou satélite) minimamente sólido, incluindo o solo da Lua, da Terra, de Marte, do Ganímedes de Júpiter, do Titan de Saturno… e de muitos outros. «Aterrar» não significa «pousar no planeta Terra», mas simplesmente «pousar na terra, no terreno» seja de que planeta (ou satélite) for. Em inglês tal confusão não acontece, porque os anglófonos distinguém entre land e Earth. Em inglês, «aterrar na Lua» diz-se naturalmente to land on the Moon, e a tal «alunagem» é moonlanding (= landing on the Moon, aterragem na Lua). Se insistirmos em neologismos como «alunar» e «alunagem», então temos de ser coerentes e passar a dizer «amartar» e «amartagem»; «avenusar» e «avenusagem»; «amercuriar» e «amercuriagem», etc., etc., e nem quero pensar nos incontáveis planetas extra-solares que talvez um dia recebam a nossa visita — os nossos dicionários vão ficar gigantescos com milhões de palavras novas… e completamente inúteis.

The Eagle Has Landed



De todos os soundbytes que o Programa Apollo nos legou, das célebres frases de Kennedy às imortais palavras de Armstrong ao pousar o primeiro pé na superfície lunar, passando pela brincadeira de Charles "Pete" Conrad para provar que as palavras de Armstrong foram improvisadas pelo primeiro moonwalker a caminho da Lua, nenhuma é mais rica em significado do que a primeira comunicação do módulo lunar após pousar na superfície da Lua: "Houston, Tranquility Base, here. The Eagle has landed".





Talvez seja do protocolo quasi-militar das comunicações, mas não consigo deixar de sentir a garganta embargada de cada vez que ouço essa frase, pronunciada com enganadora tranquilidade no pico da emoção de uma alunagem bem sucedida que quase terminara mal. O módulo lunar Eagle deixa de ser um veículo de ligação entre o módulo de comando e a Lua, e passa a ser parte de uma base lunar: Tranquility Base. É, para mim, muito mais importante e significativa do que a small step for man.











Há quarenta anos atrás, cumpridos hoje, numa data que nos deixa imagens inesquecíveis, momentos memoráveis e, para aqueles que a experimentaram (não é o meu caso) em directo, memórias que o tempo não consegue apagar, o Homem teve uma primeira base, um primeiro posto avançado num outro corpo celeste que não a Terra. Foi, como não me canso de repetir, o momento mais alto da Humanidade, um instante irrepetível que, provavelmente pela primeira vez - mais ainda do que aquando do V-Day na II Guerra Mundial - uniu a espécie humana num feito comum. Uma das imagens que melhor captura a essência desse concreto momento da história é o sincero suspiro de alívio que Walter Cronkite solta nos estúdios de televisão antes de o seu rosto se romper num sorriso, tornado hoje amargo pela inesperada morte do apresentador dias antes do aniversário desse instante:







Para me juntar às celebrações desse feito único, convidei alguns nomes importantes do nosso pequeno mundo da Literatura Fantástica - dessa Literatura marginal que soube antes que nenhuma outra, prever e antecipar esse momento - paa que escrevessem um pequeno texto sobre o evento, fosse uma memória pessoal, uma nota, uma vinheta ou uma simples frase... Os resultados foram - para mim - surpreendentes e acima das expectativas... Espero que o sejam também para os leitores do Blade Runner. Um muito obrigado a todos que me lêm e, sobretudo, um muito obrigado aos nossos convidados especiais de hoje, cujos textos irei publicando nas próximas horas.

Estes são os rostos...






... que há quarenta anos atrás oficiaram aos ritos de passagem de uma Humanidade que deixava para trás a infância, como muito bem disse o Luís Filipe Silva. São os rostos públicos de uma massa anónima de mais de 400.000 pessoas que directa ou indirectamente estiveram envolvidas em todos os passos do Programa Apollo. São os rostos que todos aprendemos a reconhecer como os heróis do programa espacial Norte Americano. Rostos que não perderam, com o passar do tempo, aquele ar deslumbrante dos heróis da juventude.





Mas que ganharam uma pátina de melancolia que marca o eterno sorriso voltado para um momento único da história colectiva da nossa espécie e das quais foram os protagonistas privilegiados. São rostos de uma felicidade extrema, de uma tristeza incomensurável. Náufragos, como nós, de um Futuro que passou ao largo. Mais do que nós, sentem a bofetada da História que não soube agarrar a mão que lhe estenderam.







Ao longo deste ano que passou, enquanto estive mergulhado na preparação da antologia COM A CABEÇA NA LUA (Saída de Emergência) que este mês chegou às livrarias, sinto que vivi de perto com estes rostos que ocuparam grande parte do meu tempo; que vivi as suas vidas, objecto de tantos e tantos volumes, artigos, reportagens, livros de História. Mas nunca nada me disse tanto sobre eles como ver-lhes os olhos onde ainda brilham as estrelas que as câmaras fotográficas não conseguiram captar, onde para sempre se ergue, luminoso, aquele earthrise que apenas eles, esses doze magníficos, conseguiram ver por sobre a superfície velha e encovada da Lua. São as últimas testemunhas de uma promessa de amanhã que nunca chegou.

domingo, 19 de julho de 2009

Uma Estranha Forma de Vida: o Fandom (2)




3. A SIMETRIA

Para compreender a situação actual da FC em Portugal é necessário descobrir porque motivo a Simetria - Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, não conseguiu agregar o fandom em torno de um projecto comum.

A verdade, como Jorge Candeias observa noutras páginas desta edição, é que o surgimento da Simetria no panorama nacional marcou o progressivo declinar da FC em Portugal. Ao invés de unir os fans em torno de um objectivo comum, a Simetria entrou numa dinâmica de desagregação patológica, provocando, um atrás do outro, os diversos incidentes que, no fandom ficaram conhecidos como Barreirosgate, Candeiasgate e Goblingate.

E, se este processo autofágico, se encontra sobejamente documentado nessa acta virtual que é a mailing list da Simetria (agora FICÇÃO-CIENTÍFICA) (10), estão ainda por esclarecer as causas mais profundas que lhe deram o suficiente momentum para que se tornasse um processo imparável e - aparentemente - irreversível.

E essas causas, independentemente dos protagonistas envolvidos, devem buscar-se na conjuntura estruturante – quer a nível de mercado, quer a nível de fandom - em que se move a FC portuguesa. Esta, apesar dos picos fulgurantes a que, de quando em quando, se eleva, continua a ser um género literário pouco mais que clandestino.

Por falta, sobretudo, de um fandom activo, capaz de constituir uma força de pressão sobre o mercado, quer a nível de produção nacional, quer a nível de importação, quer ainda a nível de força selectiva do núcleo de obras a perdurar enquanto referentes da evolução do género.

E é aqui que, até prova em contrário, se encontra a razão do monumental falhanço da primeira associação de fans de nível nacional: o incipiente fandom português que em torno dela se reuniu, surgiu de um processo evolutivo anómalo, atípico e, do ponto de vista histórico, patológico.

Com efeito, a Simetria surgiu, não de forma expontânea, mas por imposição exterior, como forma de criar um organismo passível de obter apoios do Estado e dos Municípios para prosseguir com a sua actividade ou, pelo menos, de prosseguir com a organização dos Encontros Anuais de Cascais(11)(12).

Surgida assim como forma de garantir apoios financeiros, a Simetria tornou-se numa associação mais preocupada em garantir o afluxo desses apoios do que em produzir trabalho capaz de criar um mercado capaz de os tornar supérfluos. A máquina começou a trabalhar apenas para alimentar a máquina e, nesse processo, alheou os próprios fans.

Ademais, parecendo ignorar o carácter essencialmente entusiasta e “fechado” do fandom, procurou namorar a Academia antes ainda de ter um corpus de trabalho capaz de suportar as suas pretensões.

O resultado, foi a atracção para a Associação de elementos alheios ao fandom, desconhecedores da produção (escrita ou cinematográfica) da literatura de género e, consequentemente, pouco interessados no seu desenvolvimento.

Assim, inicialmente agregada em torno de um grupo de fans - no sentido puro do termo – conhecedores do género, entusiastas, e quase todos eles igualmente autores, a Simetria tinha naqueles os seus alicerces de sustentação; assim que estes se afastaram, todo o edifício colapsou, mergulhando desde então numa inércia contra-pruducente.

Inércia esta que apenas de compreende se atentarmos na sua causa mais profunda: o fandom, em Portugal é quase nulo.



4. ... AO MENOS LEITORES?

Isaac Asimov chegou a escrever que apenas no período em que a FC se encontrava totalmente concentrada nas pulps foi possível o desenvolvimento do fandom(13). Nesse período, como não voltaria a ocorrer desde então, era possível aos leitores conhecer toda a ficção científica publicada. E foi este conhecimento – esta possibilidade de conhecimento - aliado ao espaço de cartas dos leitores que enchia várias páginas das revistas, que permitiu o surgimento do fandom(14).

De certa forma, este ímpeto era impresso ao fandom pelas próprias casas editoriais, interessadas em consolidar um mercado para o novo género literário. Tal não era, por si só, suficiente, como o atesta o desaparecimento de todas as demais pulps que não sobreviveram ao advento da banda-desenhada e da televisão; era necessário que os próprios fans tivessem características particulares, capazes de os tornar uma elite.

Tais características, aliás confirmadas por vários estudos realizados desde então (com o valor que lhes queiramos atribuir), demarcam o leitor de FC como sendo jovem, de cultura elevada, inteligência superior à média, e uma insaciável necessidade de conhecimento.

Recentemente discutia-se na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, quantos leitores de FC existiriam em Portugal. Jogava-se com os dados (supostamente) conhecidos das tiragens das publicações nacionais e do número de vendas médio, para além de inferidos hábitos de leitura, chegando um dos intervenientes a avançar o número surpreendente de que um fan português, leria em média 2,5 livros de Ficção Científica por ano.

Se é certo que estes números foram avançados sem a sustentação de um estudo credível, não é menos certa a sua potencialidade explicativa do flagrante insucesso da Simetria e da concreta situação do fandom em Portugal. Porque estes números deixam adivinhar a inexistência de uma massa crítica de leitores que permita a consolidação quer de uma Associação de Fans de âmbito nacional, quer ainda de uma Ficção Científica Portuguesa ou da Ficção Científica em Portugal.

Simplesmente, em Portugal, não existem leitores de Ficção Científica! (15)

Mas, para avançar esta hipótese explicativa, será antes de mais necessário identificar em que consiste essa figura do leitor de FC. E, sobretudo, porque motivo não podemos considerar alguém que lê uma média de 2-3 livros anuais como tal.

Ora, uma excelente definição do leitor de FC é-nos adiantada por Isaac Asimov, no editorial do nº2 da revista ASIMOV'S SCIENCE FICTION MAGAZINE, publicada no Verão de 1977(16). Nele, o bom doutor define o leitor de FC como sendo "someone for whom science fiction is a more or less steady diet, who subscribes to magazines, who combs the book and magazine racks, to whom the various authors are household names".

Esta definição, pese embora não contemple os casos especiais do media-fandom, é ainda perfeitamente válida para os propósitos deste breve ensaio, já que a principal manifestação da FC continua a ser a literária.

Assim, do leitor de FC, exige-se, antes de mais, que possua um conhecimento do género muito mais profundo do que aquele que deve ser exigido de um leitor do mainstream.

Isto porque, como já se referiu supra, o fandom(17), mais do que um simples agrupamento de leitores, é uma autêntica sub-cultura, activa, comunicante, manifestando-se através de correspondência, fanzines, mailing lists e associações amadoras de imprensa (amateur press associations - apas) (18).

Ora, os fans portugueses não conhecem a ficção científica. Como tal, passou-lhes completamente desapercebido o cyberpunk dos anos 80 (ao qual apenas foram introduzidos pelas suas manifestações fílmicas, (Jonny Mnemonic (1995), Strange Days(1996) e Matrix (1999), já na segunda metade da década de 90), o Steampunk, o Ribofunk, todo o renascimento da FC britânica e até aquilo que poderíamos chamar como nanotech-lit ou nanoclit.

E esse facto marca de forma indelével a FC portuguesa (ou escrita em português), já que esta é precisamente um espelho – ainda que involuntário – do fandom (ou, mais propriamente, do público leitor). É assim, com excepção de João Barreiros e Luís Filipe Silva, que encontramos uma ficção científica portuguesa dominada por obras datadas, escritas em resposta à FC americana de há quatro ou cinco décadas atrás, aquela que (moldada pelo fandom, e moldando o fandom, num processo de retro-alimentação recíproco) ainda hoje preenche as principais colecções publicadas em Portugal.

O mesmo é dizer, o leitor português, é um leitor errante, que toca a FC apenas de forma tangencial, em busca de receituários ou entretenimento. É um leitor escapista, que ignora as características próprias e distintivas do género, rectius, que nem sequer as reconhece.

Nestas circunstâncias, não deve surpreender que a Direcção da Simetria não tenha sabido compreender a mecânica própria em que assenta a credibilização em Portugal - um país culturalmente atrasado, tecnologicamente debilitado, antagónico ao conhecimento científico - de um género literário que é essencialmente alienígena à nossa cultura popular e académica.

Assim, alheada do diminuto fandom existente em Portugal - aquele que emergiu dos tubos de ensaio da OMNIA e da Caminho - e retendo junto a si apenas um par de autores (Daniel Tércio, António de Macedo e Luís Miguel Sequeira), curiosamente antagónicos ao espírito de fandom (19), a Simetria transformou-se num estranho objecto à deriva, incerto nos seus objectivos, incapaz de atrair quer o fandom quer os Trekkies a quem fez a corte em 2000 (20).

Sem publicações, sem concursos, sem iniciativa, a Simetria procurou reunir o fandom para discutir, mais do que o Estado da FC em Portugal, o Estado da Associação na FC. Os anunciados ESTADOS GERAIS DA FC&F redundaram num constrangedor non-event, assim marcando, tristemente, o desaparecimento da Simetria do mapa stefnal português(21).

5. QUE FUTURO?

Na ausência de um fandom activo, e sem uma base ampla de leitores capaz de lhe dar origem, que futuro resta à FC em Portugal? Ou não passa esse futuro de um lento agonizar?

O fandom português, curiosamente, uma vez falhado o projecto simétrico encontrou um caldo de cultura extremamente rico em nutrientes na Internet. Centrando-se na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, os poucos fans sistematicamente activos vêm desenvolvendo uma actividade proporcionalmente significativa quando comparada com o seu número reduzido.

Com um número de inscrições superior a 100, abriga uma dezena de fans que mantêm uma actividade constante e visível e que, não obstante o seu parco número, consegue obter alguma repercussão fora das fronteiras do próprio fandom.

No futuro, não parece arriscado prognosticar, será do núcleo de fans em actividade nesta lista que virá a surgir a próxima geração da FC portuguesa e, quem sabe, a primeira escola literária da Ficção Científica em Portugal.

Agregando-se em torno daqueles que originalmente desbravaram o caminho para a FC e Portugal - João Barreiros e Luís Filipe Silva à cabeça - surgiu uma nova geração (nova que não em idade) de fans entusiastas, Jorge Candeias, Luis Rodrigues, João Seixas e António Martins-Tuválkin, entre outros que, de uma forma ou outra, tem estado ligada aos mais relevantes eventos relacionados com a FC em Portugal.

Este pequeno grupo está na origem de alguns dos mais arrojados projectos, desde a primeira Enciclopédia On-Line da FC&F(22), um E-Zine (E-NIGMA, que já mereceu críticas elogiosas no jornal PÚBLICO), o site luso-americano FANTASTIC METROPOLIS (presentemente sob direcção de Moorcock, VanderMeer e Zivkovic), a colecção de FC da Editora Portal Devir e o esperada primeira revista profissional de FC em Portugal (a ser publicada, brevemente, pela mesma Editora).

Se é certo que Hugo Gernsback foi o pai da moderna FC ao criar a primeira revista do género, não é menos importante o facto de ter sabido criar, em torno dela, um grupo de fieis entusiastas que viriam a consolidar o género tal como hoje o conhecemos.

Se um papel semelhante puder vir a ser desenvolvido pelo fandom agrupado em torno da mailing list de FICÇÃO CIENTÍFICA então, quem sabe, talvez ainda haja um futuro...


AGRADECIMENTOS:

A João Barreiros pela preciosa ajuda prestada no preenchimento das abundantes lacunas nos meus parcos conhecimentos. A sua ajuda foi preciosa, mas os erros - inevitáveis - são de minha exclusiva autoria.

A Jorge Candeias por, amavelmente, me ter facultado uma cópia do seu artigo que surge nesta mesma edição, e que constituiu um interessante ponto de referência e comparação na elaboração do presente ensaio.

Notas:


(1) Algis Budrys, “Paradise charted”, in Triquarterly 49 “Science Fiction”, Northwestern University, Evanston, Illinois, Fall 1980, pags, 5-75

(2) É importante referir, a bem do rigor histórico, que Gernsback, para além de possuir a paternidade da moderna ficção científica, foi também o criador do fandom, ao fundar a Science Fiction League, em 1927.

(3) Damon Knight, THE FUTURIANS, 1977

(4) José Manuel Morais, “O Estado da Arte”, in Já, Ano 1, nº 27 (1996)

(5) Idem

(6) Para além destes requisitos, Morais exigia ainda - e com razão - a existência de um “corpus de temas e preocupações comuns que definissem a ficção científica assim produzida como ‘portuguesa'".

(7) Terrarium – Um Romance em Mosaico, de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Caminho, Lisboa, 1996.

(8) Podemos aqui considerar de igual importância os Encontros de 1997 – Efeitos Secundários – já que estes ainda foram organizados na curva ascendente da sinóide da FC portuguesa. Para um relato bastante detalhado dos primeiros três Encontros de Cascais vide Gerson Lodi-Ribeiro, “Primeiros Encontros de Ficção Científica em Cascais”, “Efeitos Secundários: Segundos Encontros da FC&F Portuguesa” e “Fronteiras: Terceiros Encontros da FC&F Portuguesa”.

(9) Ainda assim não deixa de ser sintomático que João Barreiros tivesse que assinar dois dos textos portugueses ("A Verdadeira Invasão dos Marcianos" e "Os Mininos da Noite", este último como José de Barros), de forma a equilibrar a participação das duas margens do Atlântico.

(10) Em www.groups.yahoo.com/group/Ficção-Científica

(11) Esta informação foi prestada por António de Macedo, na sua participação no Painel de Editores, realizado em 06 de Outubro de 2001, no âmbito dos ESTADOS GERAIS DA FC&F, organizados pela Simetria.

(12) As primeiras associações de fans foram criadas por editoras profissionais, com o intuito de criar e consolidar um mercado exclusivo para o género então recém-nascido em termos comerciais.

(13) Isaac Asimov, ASIMOV ON SCIENCE FICTION, Doubleday, New York, 1981.

(14) Curiosamente, essa é a situação do trek-fandom (os trekkers ou trekkies) ainda hoje. Limitando-se ao Universo Roddenberiano (ou outro análogo – o fandom da Galáctica, dos X-Files, ou dos seus spin-offs mais recentes), ou seja, a um episódio semanal de 45 minutos, uma dúzia de novelizações ou tie-ins por ano, e um imparável fluxo de re-runs, têm todas as possibilidades de conhecer não só tudo o que se produz nesse universo, mas de o conhecer com uma profundidade que dificilmente se encontrará nos próprios fans de FC. Consequentemente, são os trekkies e afins quem mais actividade fannish desenvolve em Portugal (ou pelo menos os mais organizados) estendendo os seus pseudópodes pelas mailing lists SCIFIEMPORTUGAL, GALÁCTICA e inclusivamente editando um fanzine (WARP FANZINE). Paradoxalmente, a mesma característica que permitiu o desenvolvimento do fandom stefnal, é que atrofia o próprio fandom trekkie, condenando-o a uma actividade fannish absolutamente inócua. Com efeito, o objecto do seu fandom é o diverso material promocional da série televisiva – mercadoria – sujeito de tal forma a regras restritivas da creatividade emanadas dos detentores do copyright da franchise, que os próprios fans não podem aspirar a escrever nada mais do que meras fanfiction.

(15) Que isto é verdade, ficou patente nos ESTADOS GERAIS DA FICÇÃO CIENTÍFICA E DO FANTÁSTICO, realizados pela Simetria de 1 a 7 de Outubro, em Cascais, onde três painéis de conferencistas (um quarto, agendado, não se realizou porque ninguém compareceu) falaram para uma parca dezena de pessoas sobre o Estado (calamitoso) da FC em Portugal.

(16) Isaac Asimov, “Try to Write”, in Asimov’s Science Fiction Magazine # 2, Summer 1977. Republicado em Asimov on Science Fiction, 1981.

(17) Neste sentido, podemos falar, com Algis Budrys de fans (a person active in a large subculture loosely based on science fiction and fantasy reading), trufans (a secure member of fandom) e sercon fans (serious, constructive fans). Jorge Candeias, curiosamente, cunhou o termo "especialistas" para o tipo de fan que busca conhecer tudo o que existe no âmbito da literatura de género, constituindo as "enciclopédias vivas da FC".

(18) O advento da Internet, veio potenciar exponencialmente a actividade fannish. Aquilo que antes ocupava os letterhacks durante horas todas as noites é facilmente executável num quinto desse tempo através do e-mail. De igual forma, as mailing-lists, com o seu serviço central de distribuição dos vários posts é uma manifestação moderna daquilo que é uma apa, embora ainda não tenha sido utilizada exclusivamente para a finalidade original daquela.

(19) Tércio já manifestou por várias vezes a sua "aversão" a participar em grupos de discussão na Internet, e as participações de Macedo e Sequeira são negligenciáveis, assim como a sua produção em termos de publicações dirigidas exclusivamente aos fans.

(20) Curiosamente, os Trekkies foram o centro dos V Encontros de FC&F de Cascais que, sintomaticamente, foram os últimos, tornando nítido o cansaço que já há anos imobilizava a Associação. Aparentemente, a corte descarada ao trek-fandom (que chegou a ser anunciada como a salvação da Simetria e dos Encontros) logrou o afastamento definitivo de grande parte do fandom que ainda se mantinha com a Simetria. Infelizmente, os próprios Trekkies não estiveram à altura das expectativas, tendo desertado imediatamente o projecto associativo, o que legitima a posição da facção que se questiona sobre o papel que uma Associação de âmbito nacional pode desempenhar em prol da FC em Portugal.

(21) Sintoma disso foi o silêncio que se gerou na Simetria após estes esses encontros. Com um resultado que exigia uma reacção, não houve um único post na mailing list da Simetria a dar conhecimento aos associados, nem dos temas tratados, nem das conclusões alcançadas. Pelo contrário, o único debate entre organizadores e críticos teve lugar na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, que cada vez se assume mais como o centro nevrálgico do fandom português. E é de certa forma sintomático que a lista da Simetria apenas pareça ter um membro activo que, incansável, lá divulga o que passa na TV, num epitáfio tão efémero quanto a própria programação.

(22) http://come.to/fc-e-f

Uma Estranha Forma de Vida: o Fandom (1)



O Fandom nacional no lançamento da antologia com a CABEÇA NA LUA (2009)
O breve ensaio que a seguir reproduzo foi escrito em 2001 para um número especial do magazine brasileiro MEGALON dedicado à Ficção Científica em Portugal. Nessa data, tanto quanto me recordo, fui convidado juntamente com o Jorge Candeias a escrever algo sobre o estado da FC entre nós, daí as referências feitas ao trabalho do Candeias que, mais tarde, serviria de base ao ensaio que escreveu também para o dossier Ficção Científica que eu, ele e o João Barreiros organizamos para a revista LER, sob orientação deste último. Se agora o reproduzo aqui - a par do facto de ele nunca ter sido directamente disponibilizado ao público português - prende-se com o debate que está a ser travado no CORREIO DO FANTÁSTICO.

O ensaio já não representa totalmente a minha opinião sobre a matéria, e contém algumas passagens que já não reconheço como reflectindo a realidade (por exemplo, o António de Macedo, tem sido um dos mais incansáveis divulgadores do género e das pessoas que mais apoiam os novos valores), mas no essencial, ainda lhe encontro vários elementos com capacidade explicativa e interpretativa da situação actual do fandom nacional. Como sempre, apresento o texto sem quaisquer modificações, daí que utilize fan em vez de fã, sftional, em vez de científico-ficcional, e outros anglicismos.

Devido à extensão do ensaio, que pode dificultar a sua leitura on-line, optei por dividi-lo em duas partes (as notas acompanham a segunda parte).

Posto isto, cá vai:


Os Futurians em 1938
UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA

Breves Notas Para a Historiografia do Fandom em Portugal (1965-2001)



1. QUESTÕES INICIAIS


O presente ensaio não pretende ser uma História da recente Ficção Científica Portuguesa. No entanto, procura aventar uma explicação para o estado do género literário Ficção Científica em Portugal, e as causas prováveis desse estado e, para isso, terei forçosamente que me referir a alguns aspectos da história da FC em Portugal..

Isto porque não é possível falar do fandom, sem falar de Ficção Científica. Um e outro estão de tal forma indissociáveis e interligados que o primeiro é, acima de tudo, uma manifestação do segundo.

Ou será o contrário?

Se abrirmos o extenso ensaio “Paradise charted” de Algis Budrys (1) deparamo-nos de imediato com um curioso mapa desenhado à mão e intitulado ‘the shape of things it came from’. Confrontado com o emaranhado de setas rabiscadas que interligam os vários actores da História da FC, é impossível não nos apercebermos de um que sobressai imediatamente do centro da página, parecendo concentrar em si o emaranhado de sarrabiscos: THE FUTURIANS, o mítico grupo de fans (The Futurian Society of New York) que trouxe para a FC nomes como Frederik Pohl, Damon Knight, Donald Wollheim, Judith Merril, Cyrill Kornbluth e por onde passaram nomes como Asimov, Lowndes e James Blish.

Embora a centralidade dos Futurians possa ser discutida por outros pesos pesados como Gernsback (2) ou Campbell, ela é demonstrativa da importância determinante do Fandom para o amadurecimento do género.

Com efeito, os Futurians, nos finais de 1942, tinham nas suas mãos (enquanto editores, ou enquanto autores) a totalidade das revistas de Ficção Científica publicadas no Estados Unidos, o que, à época, equivalia a dizer no mundo(3).

E se, no espaço de um ano, perderam esse domínio, a verdade é que dos Futurians nasceram os autores, editores, críticos e ensaístas que iriam dominar a Ficção Científica entre 1945 e 1965, estendendo a sua importância até aos dias de hoje. Se muitos dos autores que surgiram das pulps estão hoje esquecidos, os títulos dos Futurians, de Asimov, Pohl, Kornbluth, Merril, ou Blish ainda hoje são objecto de reedição atrás de reedição.

Bastaria o exemplo – historicamente irrepetível – deste grupo de fans para demonstrar a inultrapassável importância do fandom para a Ficção Científica. Sem ele inexiste um elemento de agregação dos vários actores da subcultura sftional, sem o qual, como sabemos, o centro não se consegue aguentar.

Daí que a principal questão a que se impõe responder é: pode a situação do fandom em Portugal, explicar a situação da Ficção Científica Portuguesa?

A inexistência de tal figura - uma ficção científica portuguesa - é um dado indesmentível no presente contexto literário português. Existe, de forma incipiente, uma “ficção científica escrita por portugueses, em português(4), que dificilmente conseguirá dar origem à massa crítica de trabalhos necessária para consolidar uma Ficção Científica Portuguesa enquanto tal, ainda que tão só abarcando os temas da modernidade através de uma perspectiva caracteristicamente nacional.

Isto porque, como escrevia José Manuel Morais(5), para que fosse possível a criação, desenvolvimento e consolidação de uma FC lusa, seria necessário que existisse “um número razoável (...) de autores que publicassem regularmente as suas obras, uma constelação de outros autores menos prolíficos mas que igualmente publicassem” ainda que esporadicamente, “uma ou mais revistas especializadas, (...) editoras com colecções onde os autores portugueses fossem bem acolhidos” e “um número elevado de leitores que, organizados ou não, viabilizassem, consumindo, tudo o que antecede(6)

Sintomaticamente, o texto de J.M. Morais que venho citando, foi publicado em 1996, inserido num caderno temático do jornal , editado a propósito da organização dos Primeiros Encontros de Ficção Científica e Fantástico – Na Periferia do Império; ou seja, no auge - esperemos que não o apogeu – da FC portuguesa.

Esses Encontros, que reuniram em massa o Fandom português, que trouxeram a Portugal pela primeira vez autores da craveira de Brian Aldiss, Joan D. Vinge, Joe Haldeman, Charles N. Brown ou David Pringle, e nos quais foi apresentada ao público a obra máxima da FC lusa – TERRARIUM, Um Romance em Mosaicos (7) – constituíram - e constituem até hoje - um marco irrepetível na evolução do género.

E se há vários factores de entre aqueles indicados por Morais que podem só por si – ou pela sua inexistência – explicar de forma satisfatória o porquê da estagnação em que a Ficção Científica em Portugal se encontra mergulhada desde 1996 e da qual só agora lentamente se começa a recuperar, parece-me claro que o fandom sobressai de entre eles como dotado de uma força explicativa plena.

2. UMA BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA

O comportamento do Fandom em Portugal é errático, desafiando a própria definição daquilo que se soe entender como tal. Fenómeno originário da ficção científica, o fandom caracteriza-se acima de tudo pelo seu caracter de actividade (mais do que de passividade) em relação ao género. Usando a Ficção Científica como núcleo referencial, constitui uma verdadeira sub-cultura, com linguagem, usos e costumes próprios e com uma produção literária de volume (se não de qualidade) muito superior ao do próprio mercado.

Em Portugal, pelo contrário, os fans movem-se como traças, irresistivelmente atraídas para uma lâmpada, apenas para se afastarem subitamente quando a chama das resistências eléctricas lhes queima a ponta das asas. E mantêm-se à distância, desconfiados, ensaiando aproximações amedrontadas.

Este comportamento atípico (como veremos infra revelador de um antagonismo do fandom ao próprio género) só muito raramente dá azo a que surjam eventos de uma magnitude capaz de sinalizar a vitalidade do género.

Em Portugal apenas existiram dois desses eventos de aproximação maciça das pequenas traças à lâmpada incandescente: o Ciclo de Cinema de Ficção Científica organizado em 1984 pela Cinemateca Portuguesa e os Encontros de Cascais de 1996(8).

Ambos são fulcrais no desenvolvimento posterior da FC, funcionando como súbitos saltos na maturação do género que, uma vez dissipadas as suas ondas de choque, volta a mergulhar num êxtase suporífico, apático, de uma letargia constrangedora.

E são de tal forma fulcrais, que não é ilegítimo falar-se de um antes-e-depois de 1984 e de um antes-e-depois de 1996.

Antes de 1984 existiu o CLUBE DE LEITORES DE FC (CLFC), a primeira tentativa falhada de organizar o fandom em Portugal. Presidido por Isabel Meyrelles, fan activa nos anos 60, que subitamente desapareceu da cena sftional, deixando atrás de si a promessa nunca concretizada de um fanzine e uma antologia de contos da moderna Ficção Cientifica francesa, surgiu tarde demais num mercado ainda inexistente. Ia a meio a década de 60.

De certa forma, a experiência do CLFC marcou uma passagem de testemunho de uma velha guarda, que incluía nas suas hostes Natália Correia e Romeu de Melo entre os mais representativos, e que deixou atrás de si uma obra dispersa, de pouco relevo, e algumas tímidas antologias, para um grupo de jovens autores, alimentados pelo bolo anglo-saxónico, que dominariam a cena entre 1984 e 1996.

Em meados da década de 80, quase que simultaneamente, surge a colecção Mamute da Editorial Caminho, que publicava pela primeira vez João Aniceto e Daniel Tércio, lançando as raízes da futura colecção de FC da Caminho com as suas inconfundíveis lombadas azuis e o Prémio Caminho de FC; e era organizado o Ciclo de Cinema de Ficção Científica (1984) que dava a conhecer ao público o autor, fan e crítico implacável João Barreiros.

Às salas da Cinemateca acorreram centenas de fans que encheram cada lugar para assistir a cerca de duas centenas de filmes e que rapidamente esgotaram o volume editado em paralelo com o evento, dirigido por João Barreiros e João Benard da Costa, tornando-o numa preciosidade entre os coleccionadores.

Deste evento nasceria para a FC a segunda tentativa de organizar o fandom que se consolidaria em 1990 em torno da revista OMNIA (1988-1991), a qual viria a publicar trabalhos de José Manuel Morais (depois editor do suplemento Ficções da revista), João Barreiros, João Paulo Cotrim, Álvaro de Sousa Holstein (este editor do incipiente fanzine NEBULOSA, publicado artesanalmente no Porto e com uma tiragem diminuta) e Daniel Tércio. Também Luís Filipe Silva, que em 1991 viria a obter o primeiro lugar no Prémio Caminho de Ficção Científica, orbitava este núcleo criativo da ficção científica.

Não é de surpreender, portanto, que os elementos da OMNIA se começassem a relacionar com os autores da Caminho que, nessa altura, entregara já 3 prémios de Ficção Científica e publicava autores portugueses com uma regularidade que não conseguiu manter na segunda metade da década de 90.

O núcleo de actividade que se começava a agregar em torno de uma paixão comum pela Ficção Científica e que se desmultiplicava em jantares e tertúlias atraiu autores dispersos que até então se mantinham à margem do fenómeno fannish, como foi o caso de João de Mancelos, tudo culminando na publicação da antologia O Atlântico tem duas margens (1993), que reuniu trabalhos dos principais autores portugueses e brasileiros (9).

A dinâmica gerada impulsionou a realização dos Encontros de Ficção Científica e Fantástico, um evento que há muito se mostrava necessário, emulando o modelo das Convenções de FC que todos os anos se realizam em todo o mundo.

Era uma oportunidade para tirar o pulso ao fandom, para medir os níveis de glucose das editoras, para auscultar o que os autores tinham para dizer.

Mais uma vez os resultados foram surpreendentes; os fans acudiram em massa, os Encontros foram noticiados em jornais, rádios e televisões.

Apesar do desaparecimento prematuro da OMNIA, a FC em Portugal parecia gozar de uma vitalidade invejável. Pela primeira vez pensava-se em organizar uma Convenção Anual em Cascais, que possibilitasse reunir a totalidade do fandom, permitindo o diálogo entre autores, leitores, críticos, ensaístas, editores e que, simultaneamente, publicasse uma antologia que servisse como mostruário daquilo que de melhor se fazia no género.

Pensou-se, pela primeira vez, assistir a uma Idade de Ouro da FC Portuguesa.

Criou-se, pela primeira vez em Portugal, com quase 70 anos de atraso, uma Associação de Fans.