terça-feira, 11 de maio de 2010

Dois dias no País dos Livros



João Seixas e Ricardo Pinto

E assim foi que, percorrendo oitocentos quilómetros, fiz uma visita relâmpago à Feira do Livro de Lisboa, no passado fim de semana. Da temível chuvada que obrigou a organização a encerrar a feira às 18:00 de Sábado, pouco testemunhei, já que cheguei ao Parque EduardoVII mesmo em cima da hora para realizar uma breve entrevista para a Os Meus Livros com Ricardo Pinto que, a convite da Editorial Presença e do Fórum Fantástico, visitou Portugal para o lançamento do terceiro e último volume da sua trilogia A Dança de Pedra do Camaleão (1999-2009). Logo de seguida eu e o autor mantivemos uma interessante conversa sobre a sua obra, as suas influências e os seus projectos futuros, perante um pequeno pavilhão a abarrotar de fãs entusiastas do autor. Interessante sobretudo por mérito do Ricardo Pinto, conversador cativante apesar da óbvia dificuldade de expressão em português. Se o pavilhão estava a abarrotar, a fila para os autógrafos tardou praticamente uma hora em dissolver-se. Se tudo correr bem, poderemos voltar a vê-lo no Fórum Fantástico 2010.


Rogério Ribeiro, João Seixas, Madalena Santos e Luís Filipe Silva

Sábado foi oportunidade ainda para conhecer a hiper-activa e não menos simpática Sofia Teixeira (Bran Morrighan), e para pôr a conversa em dia com o Rogério Ribeiro, o Luís Filipe Silva e a Safaa Dib, à qual se juntou a Madalena Santos, também ela acabada de sair de uma concorrida sessão de autógrafos.


Luís Corte Real, Joana Neves, Luís Caetano, Pedro Reisinho e Sofia Teixeira

Já no Domingo, o ponto alto da feira foi o debate sobre Literatura Fantástica que juntou Luís Corte Real, Joana Neves e Pedro Reisinho (respectivamente ediores da Saída de Emergência, Contraponto e Gailivro) à Sofia Teixeira, a quem coube o ingrato papel de representar os leitores do Fantástico. Digo que foi o ponto alto, quando o mais correcto seria dizer que devia ter sido o ponto alto. Infelizmente, cheguei cerca de meia-hora atrasado e, nessa altura, o pouco que houve de debate já tinha terminado e assisti apenas ao deprimente espectáculo de editores em modo de auto-congratulação, publicidade e palmadinhas nas costas: ou seja, tudo aquilo de que o Fantástico nacional não necessita neste momento.

Assim sendo, o debate limitou-se a um momento de grande frontalidade por parte de Luís Corte Real, que sem rodeios ou bochechos, traçou todos os tês e pontilhou todos os ís, recorrendo a exemplos do seu próprio catálogo para demonstrar o quanto de negócio anima as escolhas que alguns editores nos querem fazer crer criteriosas, demarcando-se corajosamente da posição anódina e displicente dos seus colegas de "debate". Por outro lado, verifiquei com agrado que pelo menos um dos editores presentes (Pedro Resinho) segue atentamente a crítica que se vai fazendo na blogosfera, e no Blade Runner em especial, congratulando-me por o ouvir reconhecer - finalmente - aquilo que eu e tantos outros vimos clamando: que Stephenie Meyer integra a categoria do Romance Paranormal (ou seja, literatura romântica com adereços de sobrenatural) e que apenas foi integrada numa colecção de Fantástico por falta de categoria própria (só fiquei sem perceber porque não criou a Gailivro essa categoria...). Do pouco que se falou da literatura de Horror, coube também a Pedro Reisinho pintar o cenário que deve dar pesadelos a qualquer amante do Fantástico, quando disse que gostaria de ter mais dez ou vinte Stephenie Meyers para publicar. Para nossa sorte, não tem, mas talvez por isso teve que se contentar com nada menos que Joe Hill, de quem ainda este ano deverá publicar o livro, Horns. Foi a melhor notícia que ouvi nessa tarde, o que me faz pensar que ainda há uma réstia de esperança...

A Sofia Teixeira, pelo menos na parte em que assisti, procurou puxar a brasa para a sardinha dos autores portugueses, mas misturou de tal forma bons autores com autores execráveis, que ninguém soube (ou quis) prosseguir com o tema. Infelizmente, do muito que tem que se fazer para estabelcer um Fantástico português de qualidade não se falou, e a intervenção da Sofia deixou subentender que esse Fantástico já existe e que apenas precisa de visibilidade. Infelizmente, todos sabemos que não é assim.

O dito "debate" foi moderado de forma profissional e competente por Luís Caetano; diria mesmo que de forma demasiado profissional e competente, para poder transcender os lugares-comuns habituais e entrar por caminhos que permitissem verdadeiramente questionar o estado do Fantástico em Portugal. Para isso era preciso um debate que não temesse o confronto, que sacudisse um pouco as águas. Ao invés, tivemos um debate à imagem do que a maioria das editoras intervenientes nos vêm oferecendo. Requentado, sem gosto e pouco original.

As fotos pertencem a Sofia Teixeira e a Ricardo Lourenço, a quem desde já agradeço pela utilização. O Ricardo Lourenço disponibilizou igualmente uma gravação do debate, que pode ser acedida a partir do link fornecido.

9 comentários:

Ricardo Lourenço disse...

Parece que concordamos no que diz respeito ao ponto mais interessante do debate. E após ter referido diversas vezes que teria sido positivo a presença de um escritor, confesso que apesar da moderação bastante profissional do Luís Caetano, este contribuiu também, em grande parte, para o desinteressante rumo da discussão.

Também o tema me pareceu limitador, tentando aproveitar as tendências predominantes actualmente, deixando de parte questões bem mais interessantes, pelo menos para os apreciadores do horror e do fantástico.

Morrighan disse...

Olá João,

Cá está a hiper-activa!!

Deixa-me pedir-te a tua opinião sincera sobre os autores do fantástico em Portugal. Achas mesmo que são assim tão maus? Ao ponto de serem execráveis?

Porque não termos uma atitude mais pro-activa e tentarmos ajudar, criticando construtivamente, falando com eles e sobre as suas obras?
É que se não há mesmo qualidade, achas que devemos ficar de braços cruzados só a criticar negativamente?
Apenas custa-me acreditar que somos um país a viver de literatura estrangeira. Claro que, tal como na literatura estrangeira, vamos ter algumas obras melhores e outras piores, mas isso é como tudo na vida.

Eu não acho que precisem apenas de mais visibilidade, mas de mais apoios.

Em relação ao debate no geral, achei-o fraco. Nem sequer achei que devesse ter sido convidada, mas nem correu demasiado mal. Quando me disseram que era um debate sobre o fantástico e tendências de publicação não estava à espera que se falasse sempre da mesma autora ou depois de ver os editores discutirem volumes de vendas e a relação qualidade/quantidade das vendas.
Se era um debate de tendências literárias, acho que foi um pouco despropositado.
Mas quem sou eu?

Espero que tenhas gostado de vir a Lisboa.

Sofia

João Seixas disse...

Ricardo,

Sim, parece-me que estamos em perfeita sintonia quanto a estas questões. Compreendo que no âmbito de um evento "pacífico" e "festivo" como a Feira do Livro, este tipo de debate serve apenas para reforçar as tendências vigentes e levar à compra de livros, mas penso que é uma perspectiva que em nada ajuda quem realmente gosta dos géneros do Fabtástico. Daí saudar especialmente a contribuição contundente e honesta do Luís Corte Real.

Sofia (caríssima hiper-activa),

Tentando responder, ainda que por alto, a algumas das tuas questões:

Eu não acho que os autores do Fantástico em Portugal são "assim tão maus". Temos excelentes autores e temos bons autores. Infelizmente também temos muito maus autores, alguns, infelizmente, verdadeiramente execráveis. Execráveis no sentido de não conseguirem dotar o que escrevem de um mínimo de originalidade, de não saberem escrever um português minimamente correcto, de não fazerem a mínima ideia de como se estrutura e escreve uma obra de ficção.

Perguntas "Porque não termos uma atitude mais pro-activa e tentarmos ajudar, criticando construtivamente, falando com eles e sobre as suas obras?" e a primeira coisa que tenho que observar - porque é um lugar comum tão recorrente e enjoativo por parte de muitos desses autores execráveis, que já não há paciência para eles - é que não existem críticas positivas e críticas negativas. Existem apenas críticas. E essas têm que ser objectivas.

Se um livro que se expõe à crítica se mostra escrito de forma semi-analfabeta, sem que o autor revele um módico de domínio da técnica narrativa, sem que disponha de um mínimo de estilo literário, se as suas personagens são apenas descrições do físico da última personagem que jogou num jogo de computador ou RPG, ou que viu num filme, isso tem que ser dito.

E não adianta estar com paninhos quentes por causa do esforço do autor e do tempo que ele perdeu ou, como esteve na moda há um ano atrás, porque ele pode ter potencial. Um livro é um livro. E tem que ser analisado e escrutinado. E se o livro for uma m***a, o crítico tem que o dizer com todas as letras. E isso não é uma crítica negativa.

Uma crítica ou o é, ou não o é. Mas nunca é positiva nem negativa.

(continua)

João Seixas disse...

Um outro aspecto com que nunca te deves ter deparado, é que esses autores execráveis não querem opiniões, nem as ditas "críticas construtivas" (vide supra). Querem apenas louvores, e quanto mais entusiásticos melhor.

Não acompanhaste as reacções à excelente crítica que o David Soares fez recentemente a um livro de vampiros? Não acompanhaste as reacções ao facto de o juri do primeiro Prémio BANG ter considerado o concurso deserto por falta de qualidade das obras submetidas?

Desengana-te, não é isso que os autores querem.

Consideras também que esses autores precisam de mais apoios. Em quê? Chegamos a um ponto em que até as Editoras sérias (Presença e Guerra & Paz, por exemplo) vão repescar livros que não tinham sequer qualidade para as edições de autor em que se estrearam, e ainda lhes é permitido escrever segundos e terceiros volumes. Vê-los serem publicados aos dezasseis e aos dezassete anos, ainda puros de gramática e outras inutilidades como domínio do discurso e do efeito literário. De que mais apoios precisam?

É claro que há muitas coisas erradas no nosso meio literário, a começar pela ausência de crítica frequente e de qualidade (e isso é tão verdadeiro no mainstream como aqui no Fantástico). É verdade que é necessário permitir a profissionalização dos nossos autores (que é uma das questões que considero prioritárias). Infelizmente, o apoio cego aos autores da treta e a recepção acrítica das suas obras, vão totalmente contra esses fins. Para quê pagar a bons autores, se temos tantos maus autores a escrever e borla e que vendem muito mais?

De resto, gostei imenso de regressar a Lisboa (como sempre), e sobretudo de ter tido a oportunidade de te conhecer pessoalmente. É sempre mais enriquecedor quando estamos a trocar ideias com alguém que conhecemos do que com pixeis anónimos no ecrã do computador.

Seixas

XR disse...

João,

Tenho pena que uma questão de saúde me tenha impedido de estar presente na Feira do Livro este ano na mesma altura que vocês. Creio que teria sido um bom "debate", talvez mais interessante para nós do que aquele que foi aqui focado.

No que toca aos novos autores de que a Sofia fala: não será a crítica objectiva/construtiva desejável principalmente por parte de um editor? (Isto relembra-me a nossa discussão alguns posts atrás) IMVHO, um editor verdadeiramente preocupado com a qualidade do que publica seria/deveria ser o primeiro a fazer essas críticas, não permitindo que "obras execráveis" vissem a luz do dia com o seu aval.

Voltamos à tal discussão... há editores e "editores". Ou pelo menos é isso que me parece quando deparo com uma obra que me faz pensar "quem raio terá dado ok para publicar isto, com uma escrita tão pobrezinha?"
Acredito que alguns editores tenham toneladas de trabalho que os impeçam de dar um feedback personalizado aos pretendentes a autor. Mas será que entre os milhentos manuscritos que chegam às mãos de um editor não existirão alguns que, mesmo com uma escrita carente de (grandes) melhorias, revelem uma ideia original e bem estruturada? A mim parece-me que seria esta uma das "preocupações" da Sofia - não rejeitar liminarmente o manuscrito mas dar sugestões.
Só que o que focaste, João, também é verdade - há "autores", com um ego maior do que a casa onde vivem, que não aceitam de forma alguma que a sua escrita necessite de algumas melhorias. Não lhes passa pela cabeça que o que escreveram só seja inteligível para eles próprios e tomam como insulto pessoal ou falta de capacidade do "crítico" qualquer opinião que não os coloque nos píncaros onde pensam estar sentados.

Falta muita coisa! Aos pretendentes a autor, vontade de melhorar (alguns) aspectos que necessitem de ser revistos, capacidade de encaixe, humildade;
aos editores, não tenho a certeza se o que lhes faz mais falta é o tempo, a vontade ou um misto dos dois.
Deixo portanto, se me permitem, uma questão a ambos:
Sofia - quando falas de "mais apoios" aos autores nacionais, o que tens especificamente na ideia?
João - tendo um contacto privilegiado com o mundo editorial, o que falta então aos editores nacionais para poderem contribuir para uma melhoria da qualidade do "catálogo" nacional? Tempo, vontade ou mais qualquer coisa?

[E isto em relação ao Fantástico, onde ainda se vai publicando alguma coisita... se formos para a FC eternizamos a discussão! ;) ]

Regina

Ricardo Lourenço disse...

Acho que o facto de se publicar cada vez mais e de, por vezes, se admitir que livros sem qualidade vejam a luz do dia acaba por contribuir para a situação. Digo isto porque a publicação desses livros vai passar uma imagem de pouca exigência editorial e, por outro lado, a qualidade do que é publicado serve de referencia para quem aspira a ser escritor (apesar de este aspecto se ter vindo a perder, o que não deixa de ser curioso...), pelo que a quantidade de manuscritos recebidos pelos editores (especialmente de manuscritos sem qualidade ou passível de publicação) não deve dar espaço para um tratamento personalizado, incluindo opiniões e comentários.

João Seixas disse...

Boa noite, cara Regina e caro Ricardo,

Acho que a maioria dos nossos editores de Fantástico não está minimamente preparado para isso. Foram muitas e muitas décadas em que a tarefa da publicar livros de FC&F se reduzia a escolher aqueles que livros que deviam ser traduzidos. Ou seja, o principal trabalho de sapa, já vinha feito. Por algum motivo as principais colecções - Argonauta e Europa-América - nunca publicaram autores nacionais ou lusófonos. E quando o fizeram (a Livros do Brasil com a Márcia Guimarães e a EA com a Cátia Palha) o resultado foi desastroso.

Hoje em dia a coisa agrava-se porque já nem têm que decidir o que traduzir: simplesmente têm que correr atrás do último best-seller.

Porém, como publicar autores nacionais é mais barato - não pagam direitos, não pagam traduções, não pagam "advances" - valem-se da febre de imitação dos jovens "autores" que se querem afirmar e cá vai disto.

Claro que nisso são ajudados pela grande massa de leitores que foram criados nesta última década, sem quaisquer referências ou critérios de qualidade, e que por isso não se queixam das obras de segunda e trceira categoria que lhes impingem a preço inacreditáveis.

Some-se a isso o facto de que a grande maioria dos editores do Fantástico não tem qualquer preparação ou formação literária (é predominante a transição das áreas do marketing ou da publicidade para a edição, porque para eles, qualquer porcaria se vende com uma boa capa) e por isso não sabem ver o que está bem ou mal num livro. E se o livro vende, quem é que quer saber da qualidade?

Quero sublinhar, que nem sempre é assim. Há editoras com as quais colaboro e com as quais colaborei que ainda prestam atenção aos manuscritos originais e à sua correcção. Outras, quando não têm essa competência, sabem munir-se de conselhos editoriais competentes, ou solicitam pareceres a terceiros.

Infelizmente, são uma raridade.

Ricardo Lourenço disse...

Obrigada pela esclarecedora resposta. E um dos aspectos que apontas, esteve bem patente no debate da feira do livro. Refiro-me ao facto de os editores se tornarem, cada vez mais, em caçadores de best-sellers, navegando nas principais tendências actuais, assim como procurando identificar quais as tendências futuras.

Algo que, de certa forma, me parece criar uma barreira considerável para quem se quiser iniciar no mundo da escrita. Isto porque se o que escreve não se inserir nos parâmetros que os editores procuram no momento, o potencial escritor vê as possibilidades de ser editado serem reduzidas.

Por outro lado, tentar afirmar-se dentro de uma tendência actual, totalmente sobrecarregada, torna-se também uma tarefa ingrata (para além de que, nestes casos, o marketing se torna tão ou mais importante que a própria qualidade da obra, de modo a assegurar visibilidade e, consequentemente, vendas).

VoTsyrk disse...

Caro João Seixas,

Em primeiro lugar, gostaria de o felicitar pelo blog que mantém e pelo esforço de divulgação do fantástico.

Em relação ao presente tópico em discussão, gostaria de saber como seria possível promover a profissionalização dos autores portugueses de fantástico.