sábado, 21 de maio de 2011

Sintomatologia do Eterno Recomeço (1)



Há já vários anos que venho chamando a atenção para o fenómeno cíclico do Fantástico nacional, entre cujos sintomas se conta o muito curto prazo da memória editorial. Como escrevi no meu post anterior, é como se a cada nova moda que surgisse, a cada novo filão a explorar, tudo o que está para trás fosse apagado. Uma das decorrências de tal situação é a total falência das estratégias de fidelização de um público leitor.

Embora durante anos os leitores de FC tivessem conseguido manter três colecções duradouras, para além de umas quantas mais de menor permanência, a verdade é que nunca produziram um fenómeno de vendas equivalente a um Harry Potter ou a uma Stephenie Meyer. Pelo contrário, autores com esse estatuto universalmente garantido como Stephen King ou Isaac Asimov, não apresentavam entre nós resultados de vendas muito distintos dos de autores mais discretos como Poul Anderson ou Gordon Dickson. O que esses leitores ofereciam às editoras que publicavam essas colecções era uma constância estagnante que viria a ditar o seu fim à medida que os editores (como o caso de Belmiro Guimarães na Caminho) ou os leitores (nas restantes) iam desaparecendo, por acção do envelhecimento, do desinteresse, ou por terem sido atraídos por outros modos ou géneros de entretenimento (videojogos, RPGs, cinema, BD, etc…).

Daí que não seja de todo impertinente observar que nenhuma das editoras que agora apostam (praticamente em regime de exclusividade) no Fantástico – Presença, Saída de Emergência, e Gailivro – nunca antes de 2000 tivessem publicado o que quer que fosse nesses campos (com a ressalva de que a SdE apenas foi criada em 2003).

O que motivou o seu súbito interesse foi o inesperado sucesso da saga de Rowling, convertido num fluxo imparável de chorudos cheques. Se até esse momento a Ficção Científica, o Horror e a Fantasia eram completamente ignorados, com um ou outro título repescado apenas por ocasião de uma adaptação cinematográfica de maior repercussão comercial, depois de Harry Potter um determinado tipo de fantasia, com um determinado tipo de público-alvo, passou a significar rendimento garantido. O interesse pelo Fantástico não sofreu qualquer alteração, nem foram desenvolvidos esforços para explorar esse tipo de sucesso na captação da demografia de leitores seus destinatários para outras obras de maior valor. O que podia e devia ter sido feito, sobretudo quando ficou claro que Rowling estava a desenvolver a inteligente estratégia de fazer os seus protagonistas envelhecer a par com os leitores, até à maioridade.



Ao não ter sido desenvolvida qualquer estratégia nesse sentido, uma vez terminada essa série, observou-se uma total desorientação editorial quando as vendas dos outros volumes do Fantástico não descolaram da mesma constância de outrora, ou ficaram mesmo abaixo dela, o que decretou o fim de algumas colecções, como a Viajantes no Tempo e, aparentemente, a T.E.E.N. Dois outros casos semelhantes de inesperado sucesso repetiram-se na Gailivro com Paolini e Meyer, editora que partilha com a Presença o facto de não possuir uma tradição de publicação de Fantástico anterior ao fenómeno Potter, agravada pelo facto de os seus dois casos de sucesso, ao contrário de Rowling, serem totalmente aliterários (o que não é irrelevante para o que se vai dizer de seguida). Consequência directa dessa impreparação dos leitores (reflexo da impreparação dos editores), é claramente a concentração em imitações desses casos de sucesso e a busca desesperada de criação/descoberta de uma nova moda. Para estas editoras, a história do Fantástico em Portugal começou efectivamente em 2000.



Sintomático disso foi o desastroso press kit distribuído pelos publicitários Booktailors no pretérito 29 de Abril, promovendo a autora Lian Hearn como a “herdeira natural dos livros de J.K. Rowling” (parece-me que quereriam dizer dos leitores, mas isso é secundário para o argumento a desenvolver) e afirmando que “Samurais são os herdeiros de Harry Potter”. Esta estratégia é interessante de analisar pelo facto de tentar colar uma série de livros que já se encontra publicada em Portugal desde 2003 sem grande espectacularidade de vendas, a um fenómeno esgotado há já dois ou três anos, revelando um tremendo artificialismo no tratamento do fantástico. Mas, ainda mais interessante, é compreender como essa estratégia é extremamente redutora, pugnando pelo afecto dos leitores na identificação com um único modelo de tratamento do Fantástico: a literatura infanto-juvenil, do tipo Rowling, que foi aquele que estas editoras conheceram pela primeira vez (mutatis mutandi para o caso Gailivro, que começou por procurar duplicar o fenómeno Paolini e, através do romance paranormal, o fenómeno Meyer).

O que move actualmente o mercado é, obviamente, a pergunta que Luís Corte-Real formula no espaço Colecção Bang! da mais recente edição da revista BANG! (#9, Fevereiro de 2011): “Onde andam todas aquelas dezenas de milhares de jovens que leram e adoraram os livros de Harry Potter?” Ao contrário dos outros casos que venho discutindo, LCR compreendeu que eles (ou parte deles) “cresceram, e com eles cresceu o grau de complexidade que apreciam nos enredos e personagens dos livros que lêem.” Alguns, certamente, procuram mais e melhor literatura fantástica, e é imprescindível compreender que, crescendo, amadurecendo, o público que lia Harry Potter desapareceu de forma tão irremediável como desapareceu o público das colecções de FC de outrora. Tal como desaparecerá em breve o público que lê Stephenie Meyer. E que é inútil continuar a tentar recriar um fenómeno que já ultrapassou o seu momento histórico. Sob pena de continuarmos a viver num eterno recomeço, num presente sem passado ou promessa de futuro. Um eterno recomeço que nunca mais acaba.

1 comentário:

Marco disse...

Caro João Seixas, mais um magnifico texto que volta a por o “dedo na ferida”.

Eu sou um desses leitores que cresceram literariamente, e que em parte, agora sou um “orfão”.
Infelizmente, não vivi essa idade de ouro da FC e a sua morte, pois só começei a ler de modo consistente em 2001, mas sei bem do que fala.
A minha primeira grande referencia foi a colecção da Presença, a Via Lactea, mas não demorou muito para ela se tornar, salvo raras excepações, algo que não saciava a minha sede por algo que correspondesse ao minha evolução enquanto leitor que cresce e quer mais e melhor, ao invés de muitos que querem é mais do mesmo.
No meu caso tive a sorte de ter aparecido a colecção Bang, que veio preencher essa ansia de algo mais adulto que eu já começava a sentir e que a colecção da Presença, a Via Lactea, já não saciava, demasiados titulos para “jovens adultos”, saiba-se que não tenho nada contra, mas a verdade é que já os começava a achar, e acho na sua maioria, pouco estimulantes.
A verdade, novamente nua e crua, é que ainda hoje em dia esse nicho de mercado, o do Fantastico (FC&F) para adultos, é praticamente incipido e é editado por uma “casmurrice” de um ou outro editor, e apenas porque as vendas de outro titulos, mais rentaveis o permite.
Gostava de saber a resposta à pergunta do Luís Corte Real, a não ser que o David Soares já tenha dado a resposta, quando se referia a FC.

Bem continuação de um bom trabalho, está é uma “cruzada” que vale bem a pena, e quando digo cruzada como deve entender, quer o João, quer os outros visitantes, é apenas uma forma de expressão, para que não existam mal entendidos.

Um abraço

Marco Lopes