segunda-feira, 4 de abril de 2011

Brincar à literatura



Se a afirmação do Fábio Ventura, no pobre contexto editorial português, não é inteiramente repreensível, o desenvolvimento pelo qual ele optou suscita outras questões que merecem ser apontadas; logo após a reacção do David, o Fábio Ventura adiantou um mea culpa no seu blogue explicitando aquilo que, ao que parece, não teria conseguido dizer na polémica resposta. E o que o Fábio Ventura escreve é o seguinte (ênfase minha): “Não quis, de modo algum, dizer que o género Fantástico é um género menor, para os mais inexperientes ou que não requer rigor ou seriedade. Quando refiro a "experiência de vida" refiro-me a maturidade suficiente para escrever um livro onde as relações entre as personagens adquirem uma profundidade que eu, aos 22-23 anos, não consigo representar. O erro da resposta está na generalização do género Fantástico. Eu referia-me ao tipo de Fantástico presente nos meus dois livros, dirigidos a um público juvenil, com uma escrita leve e, vá lá, mais comercial. Mas é no tratamento da história e das personagens, fortemente baseadas numa imaginação mais surrealista e idealista e cujas relações são de uma certa ingenuidade tipicamente juvenil, que realmente admito que não tenho experiencia de vida suficiente para torná-las mais densas e maduras. (…)

Como é de bom-tom em Portugal, logo que o pecador adianta uma palavra de arrependimento, erguem-se hossanas e ecoam revoadas de palmadinhas nas costas, e como não podia deixar de ser, este caso não foi diferente, tendo a própria Andreia Torres ajudado a sacudir a caspa dos ombros do incipiente autor. No entanto, a leitura atenta da “desculpa” do Fábio Ventura revela antes uma realidade bem distinta: o que Ventura faz é ceder o osso para ficar com o bife. Ninguém – nem o David – apontou ao Fábio Ventura apenas imaturidade no tratamento das personagens. O David chegou mesmo a deixar entender que o díptico Órbias não passa de mera fanfiction da série de animação Sailor Moon, fanfiction essa marcada por uma total falta de originalidade, incompetência na escrita, e ignorância quanto à forma como se estrutura uma narrativa (isto já sou eu a dizer, para que não restem dúvidas). Se o Fábio recorre à desculpa que apresentou, procurando redireccionar as suas palavras do fantástico em geral, para aquilo que ele apelida, com a mesma inconsequência impensada que parece dedicar a tudo o que escreve, “o tipo de Fantástico presente nos meus dois livros”, não muda sequer uma vírgula àquilo que escreveu. É que o Fantástico presente nos seus livros, não é diferente daquele presente nos livros do David. Como o David escreveu no seu post, “O Fantástico é. Ponto.” E não basta tentar ocultar o que se disse por trás de vacuidades sem sentido como a afirmação de que a narrativa e as personagens são “fortemente baseadas numa imaginação mais surrealista e idealista” (seja lá isso o que for).

Tanto mais que isso é, pura e simplesmente, mentira. Uma mentira com que o Fábio procura ocultar uma linha de pensamento que lhe é comum e que deixa transparecer em várias das entrevistas que vai reproduzindo no seu blogue. O que o Fábio vem dizer à laia de desculpa é que não acha que o Fantástico seja um género para autores e leitores em experiência de vida, mas que os seus próprios livros o são. Como ele próprio afirma em resposta a um dos comentários ao seu texto, “Como disse no post, a minha intenção nunca foi denegrir o Fantástico nem sequer tenho essa opinião de que é literatura juvenil. A resposta vinha no seguimento do que estava a falar sobre as minhas obras e os elementos de Fantástico presentes nelas.” Só que, lendo a entrevista, aquilo que ele vinha dizendo sobre as suas obras era precisamente o oposto do que ele agora pretende transmitir; mormente, que, uma das diferenças do segundo volume em relação ao primeiro é precisamente “o enfoque nas personagens e nas suas relações, uma vez que o primeiro volume focou mais a sua apresentação e a do mundo de Orbias. Penso que está mais sombrio e maduro que o primeiro livro, mas foi uma evolução natural”.

Sucede que em entrevista ao blogue O Homem do Fraque, Fábio Ventura tinha isto a dizer quanto à imaturidade do primeiro volume, e ao seu carácter intencional (mais uma vez, a ênfase é acrescentada por mim): “Eu escrevi uma primeira versão do Orbias e tentei a minha sorte com as editoras. Na altura não tive sorte porque percebi mais tarde que aquela versão estava realmente fraca e revelava muita imaturidade de escrita. Dois anos depois, voltei a pegar na história e reescrevi-a totalmente. Diria que houve uma transformação de 200%.” Respondendo à observação de que as críticas apontavam para o facto de que as personagens do primeiro livro eram superficiais, o autor responde: “Realmente, a maior parte das personagens não foi muito bem desenvolvida no primeiro livro. Mas não foi uma "falha" completamente inocente. A minha intenção com este primeiro volume era apresentar as personagens, o mundo de Orbias e o conflito e iniciar um processo e crescimento e evolução das personagens principais que culminarão no final do segundo volume. Daí as personagens poderem parecer mais "superficiais"(…) Desde o início que a minha intenção com este segundo volume era focar o desenvolvimento das personagens e as suas relações.(…) Tomei alguns riscos com algumas personagens, nomeadamente com o Sebastian e Lorelei, mas penso que essa melhoria do tratamento das personagens colaborou da melhor forma numa melhoria generalizada da história de Orbias.

Ou seja, o que o Fábio Ventura faz à laia de “desculpa”, é pegar nas críticas que lhe eram apontadas ao primeiro volume do seu díptico, que o David nem sequer referira e que ele acabara de afirmar (ao mesmo tempo) corrigidas e intencionais, e apontá-las como sendo a (única) falha do seu trabalho, fingindo, porém, responder à questão essencial da sua resposta amaldiçoada: se considera ou não o Fantástico um género “de e para os jovens”, ideal para os escritores que “não têm muita experiência de vida”.

Ora, no mesmo comentário no seu blogue, o Fábio Ventura, traindo um pouco a insinceridade da sua “desculpa”, afirma que já publicou “dezenas de entrevistas aqui no blog e não foi a primeira vez que respondi a esta pergunta. Por isso, achei um pouco injusto todo o debate e acusações que surgiram após uma simples frase mal interpretada.” Na verdade, de todas as entrevistas que publicou no seu blogue, apenas em duas outras lhe foi colocada a mesma pergunta, tendo ele respondido que “O fantástico é o meu género de eleição. Mas gostaria de explorar outros géneros. Não só para não tornar a minha carreira monótona, mas porque queria explorar a minha criatividade e ganhar alguma experiência na escrita.”, coincidindo com uma outra resposta similar ao blogue D’Magia, mas onde desta feita se nota mais a veia calculista que ele procura ocultar. Perguntado se alguma vez pensou escrever outro tipo de livros, respondeu: “Sim, mas a longo prazo. A verdade é que não é boa estratégia mudar repentinamente de género ou de estilo porque dá muito trabalho fidelizar um público, não convêm perde-lo logo a seguir. Espero ir mudando aos poucos. O meu objectivo é tornar a minha carreira o mais versátil possível, mas aos poucos e com sensatez.

Quando falo em veia calculista, não quero acusar o Fábio de um cinismo que sei não ter. O cinismo exige uma inteligência mais sofisticada do que a que deixa transparecer nas suas entrevistas e posts, mas o calculismo de alguém que ainda “não se sente” escritor, e que por isso, vai dando a impressão de brincar à Literatura.

Mas como responder então à questão central da sua polémica resposta? Pois bem, não sei se o Fábio Ventura pensa ou não que o Fantástico é um género (ou um conjunto de géneros) juvenil e desenvolvido por autores jovens e sem experiência de vida. No entanto, acredito que sim, que é essa a sua opinião. Primeiro porque nas suas entrevistas há uma ideia que se repete uma e outra vez: “o meu público-alvo é os jovens” (sic), os leitores de Stephenie Meyer e aqueles que se lembram de Sailor Moon. Mas isso, só por si não basta; de que ele escreve para um público infantil, não restam dúvidas, mas será que o facto de se considerar um autor de juveniles permite, só por si, confirmar a afirmação que ele agora procura invalidar? Talvez não, mas a somar-se à flagrante mentira com que se justifica, encontramos uma outra afirmação sua que permite encerrar o círculo: “Penso que o meu livro trouxe uma nova essência à literatura fantástica portuguesa que fazia falta. E uma vez que o meu livro foi tão bem sucedido, acredito que outras editoras se sintam mais seguras para dar oportunidades a outros jovens autores. Temos tão bons talentos em Portugal! Gostava que o nosso “grupo” crescesse, principalmente porque a literatura só tem a ganhar com as visões originais e refrescantes de autores mais jovens. E quando digo “jovem”, falo da casa dos 20 e não da casa dos 30 como a imprensa refere…

Parece-me, assim, que a visão que o Fábio Ventura tem do Fantástico é aquela a que deu voz na sua resposta amaldiçoada, justificando plenamente tudo o que o David escreveu e mais as sete pragas do Egipto. Mas posto isto, perguntar-se-ão os que habitualmente lêem este blogue porquê perder tanto tempo com uma questão insignificante, sobre o autor de dois livros que mal figurarão como notas de rodapé na história da literatura infanto-juvenil portuguesa?

Por três ordens de razões: a primeira para demonstrar que até aqueles que se mostram mais atentos aos pontapés nas virilhas do Fantástico que estes “jovens” autores vão desferindo a contento, como a Andreia Torres, se podem deixar enganar pelos falsos gestos de boa vontade; em segundo lugar, para deixar bem clara a minha posição nessa polémica, uma vez que à data, por imperativos profissionais, não pude nela participar; mas, sobretudo, porque a “desculpa” do Fábio Ventura, parece ser mais voltada para a qualidade do que escreve, do que propriamente para a sua afirmação. Se antes os elementos do “nosso grupo”, se defendiam contra os ataques dos “invejosos” dizendo “nós escrevemos tão bem como eles”, agora a defesa parece ser “nós havemos de escrever tão bem como eles; se escrevemos maus livros agora é porque ainda não temos suficiente maturidade”.

E os seus livros, os livros do “nosso grupo”, os livros dos Fábios Venturas, dos Victor Frazões, das Carlas Ribeiro, dos Pedros Venturas, dos Rafaéis Loureiro e das Dianas Tavares são de facto muito imaturos, mas não propriamente por causa da idade dos seus autores. Pensemos, por exemplo, que Isaac Asimov escreveu as suas obras mais conhecidas e reconhecidas (Foundation, I, Robot, Nightfall) entre os dezoito e os vinte e um anos de idade; pensemos em Randall Garrett que publicou profissionalmente “Probability Zero”, o seu primeiro conto, aos dezassete anos de idade (o conto teria sido escrito quando tinha apenas dezasseis), ou em Theodore Sturgeon que publicou o seu primeiro conto aos vinte anos, um ano antes de se voltar para a Ficção Científica. A mesma idade com que Ray Bradbury, por exemplo, começou a publicar em fanzines. A sua primeira obra-prima, The Martian Chronicles, reúne contos que escreveu quando ainda estava na casa dos vinte (a sua primeira publicação profissional, foi aos vinte e um). Os exemplos são virtualmente intermináveis.

Que distingue, então, estes autores desta nossa leva nacional de quem brinca à literatura? Essencialmente três factores, por ordem decrescente de influência:

a)Desde logo, o conhecimento profundo do género em que pretendem trabalhar; um conhecimento que só se adquire lendo, lendo e lendo, o mais possível, com o máximo de variedade, mas certamente com exaustão as obras que se inserem no campo em que se pretende singrar.

b)Depois, fazendo o esforço de colmatar a inexperiência (a imaturidade) através do recurso a fontes credíveis e a uma pesquisa aturada; por exemplo, o jovem Asimov, escrevendo a sua Foundation, leu e releu os seis volumes do imperecível Decline and Fall of the Roman Empire de Gibbon. Não é, certamente, jogando videojogos ou vendo animes que se aprende a escrever e se adquire a maturidade necessária à construção de uma narrativa cativante, ainda que com personagens imaturas ou meramente esboçadas.

c) Se os dois primeiros factores são da responsabilidade do aspirante a autor, o terceiro escapa ao seu domínio: a existência de um bom editor, como Campbell foi para os autores da Golden Age, capaz de oferecer ideias, trabalhar os textos, espicaçar a criatividade mas, sobretudo, capaz de atirar imediatamente com um mau manuscrito para o caixote do lixo. E o caixote do lixo de Campbell estava a abarrotar de Orbias. Faltando um editor destes, como certamente faltou ao Fábio (de acordo com ele, teve a resposta da sua editora ao fim de dez minutos e através da leitura de um único capítulo do livro), deve o autor aprender pelo menos a encarar de forma crítica os elogios fáceis de quem claramente não sabe distinguir o Dracula de Stocker do Twilight de Meyer.

É que, como bem escreveu o David no seu post, faz falta que alguém diga basta. É preciso por termo a este brincar à literatura. De brincar ao Fantástico. Porque o que o Fábio acaba por dizer na sua “desculpa” é apenas isto: não sei escrever, ainda, um livro que mereça ser publicado. Fábio, é para isso que existem as gavetas.

15 comentários:

R.B. NorTør disse...

Tive oportunidade de no local e em tempo útil ter respondido ao que acho sobre o enfoque que é colocado sobre o Fábio e as suas afirmaçoes, pelo que nao me vou repetir.

Agora posso é falar um pouco da minha experiência com o Fantástico, porque estou marginalmente fora e reconheço que o "género literário" deveria servir mais para organizar estantes nas lojas e menos para criar tribos estanques onde só entram os meus amigos...

Como fantástico marginal que sou, se me perguntarem que aponte um nome portugês deste género sou incapaz de apontar um que tenha lido.

Essa profunda ignorância deve-se a um medo terrível que tenho, desde que peguei numa obra premiada de "um novo talento do fantástico português". Ora, para quem Fantástico era o Senhor dos Anéis (e vim a saber mais tarde que há quem coloque 1984 na mesma prateleira), ler essa obra foi um atentado ao mau gosto, quanto mais nao fosse porque me lembro vagamente de ter escrito coisas no sexto ano com mais estrutura, português correcto e menos repetiçoes desnecessárias. (Nao vou mencionar a obra, mas nao era do Fábio!)

Serve toda esta longa introduçao para me levar ao cerne da questao, e que vejo muito poucos (nenhuns?) dos Fantástico(s) Defensores a abordar: a única coisa fantástica nas obras é como chegaram às prateleiras!

Penso que se realmente há um sentimento de tribo junto de quem gosta e faz "fantástico" em Portugal, deveria haver um maior apontar de dedos nao aos autores, mas sim a quem nao lhes aponta as falhas e lhes da a ilusao que aquela obra é uma boa obra.

Pessoalmente tenho muita dificuldade em pegar em coisas de autores portugueses, naquele tamanho perto do A5, com capa envernizada e umas ilustraçoes de capa que procuram encher as vistas (quantas e quantas vezes com desenhos a dar para o infatilóide).

O (em alguns locais denominado) círculo fantástico, tinha na minha óptica mais a ganhar em aproveitar o foco nas prateleiras do fantástico para promover boas obras, do que se preocupar em dar destaque ao que considera fraco. Porque nestas coisas de publicidade, a maledicência é boa publicidade.

B. C. disse...

Achei interessante todo este artigo mas, no final, ocorre-me uma questão:

Se o que vende são os escritos que não merecem ser publicados, que por venderem são publicados, qual é a proposta para que tal acabe? Afinal, parece-me, o único custo para a editora (ou editoras) é a sua reputação e esta até pode ser positiva caso atraia ainda mais os leitores que compram esses ditos escritos.

Ou entendi mal e ''É que, como bem escreveu o David no seu post, faz falta que alguém diga basta. É preciso por termo a este brincar à literatura.'' refere-se apenas à associação desta literatura-a-brincar ao Fantástico como género?

Cumprimentos,
B.C.

João Seixas disse...

Boas, caríssimos,e obrigado pelos comentários:

R.B.:

Tem toda a razão no que escreve, e a primeira parte do meu post, visou precisamente referir isso - a responsabilidade de quem publica e de quem divulga - aliás no seguimento de outros posts meus de Abril do ano passado, onde debati esta questão com o Nuno Fonseca.

Que se publica muito lixo é inegável; que o Fantástico e dos géneros mais afectados - se não o mais afectado - é insofismável; que isso se deve a medidas meramente mercantilistas das editoras, decorre do seu próprio decurso editorial; que muito disto assenta na má prepração para a leitura de muitos leitores, não tenho dúvidas.

Aliás, é minha convicção, de que estes jovens autores apenas escrevem nestes gáneros por modas; porque foi assim que se habituaram a ler: por modas; factor que é reforçado pelos mecanismos comunicacionais próprios das redes sociais. Se no nosso tempo éramos fisgados para a FC ou para o Horror porque encontrávamos um dos clássicos do género na biblioteca dos pais, ou na escola, agora o primeiro contacto faz-se através de mega-sucessos como o Harry Potter ou a Meyer, ou através do cinema.

Muitos destes leitores não leram nada mais para além destes exemplos, e por isso não fazem a mínima ideia de como relacionar-se com a literatura de género.

Na verdade, eles apenas escrevem por imitação, e porque isso lhes sai barato. A lteratura ainda é uma actividade barata (um computador, uma resma de papel e um tinteiro, chegam para escrever um livro. Mas aposto que nehum deles tem prazer em escrever. Se lhes dessem os meios, todos apostariam em produzir filmes ou séries de anime.

Que a má publicidade também é publicidade, é verdade; mas não denunciar a mediocridade é hipotecar a nossa honestidade.

João Seixas disse...

B.C.:

Proposta para acabar com o círculo vicioso? Devolver ao sistema de ensino um grau de exigência que há muito não tem; voltar a contratar editores para dirigirem as linhas editoriais; criar um círculo crítico exigente e prosélito.

A degradação da literatura portuguesa é geral; a fasquia crítica está muito baixa. Isso acontece porque a qualidade dos leitores em geral é também fraca. Há obviamente leitores exigentes, mas esses não são em número bastante para influenciar o mercado.

Que a situação no fantástico é mais grave é; primeiro porque é um género que, à partida, já padece de estigmas de menoridade; segundo porque é um dos géneros priveligiados para exploração pelo cinema, regra geral em adapatações bastante fracas mas visualmene estimulantes; mas que por isso mesmo, obtêm mais repercussão, graças também à impreparação e cabotinismo dos nossos jornalistas (desde que começaram a ser formados em cursos de comunicação, parece que imbecilizaram de todo).

Uma adaptação de um livro de Hemingway ou de qualquer outro grande autor mimético nunca vai gerar um fenómeno do género do Potter ou do LOTR ou de Dick porque lhe falta a dimensão visual extravagante. E, como tal, os consumidores desses produtos, vêm parar ao grande caixote do Fantástico.

Como costumo dizer, os palermas vêm todos parar à FC. No campo do romance histórico ou do policial não se encontram estes fenómenos. E são géneros tão exigentes como os do Fantástico em termos de conhecimento das tradições literárias e de conhecimentos extra-literários.

Tirando o fenómeno Luis Miguel Rocha (e talvez José Rodrigues dos Santos) que só o Viegas acha que é um grande escritor, não se vê nos demais géneros (a não ser no mainstream, por natureza da própria literatura) estas vagas de autores derivativos e imitativos.

No mais, é evidente que o que a mim me preocupa é a FC, o Horror e a Fantasia ( e os seus sub-géneros), pelo que é principalmente a eles que a minha reflexão de aplica.

Um grande abraço,

João Seixas

João Seixas disse...

Não sei como é que deixei passar esta:

«Essa profunda ignorância deve-se a um medo terrível que tenho, desde que peguei numa obra premiada de "um novo talento do fantástico português". (...)ler essa obra foi um atentado ao mau gosto, quanto mais nao fosse porque me lembro vagamente de ter escrito coisas no sexto ano com mais estrutura, português correcto e menos repetiçoes desnecessárias. (Nao vou mencionar a obra, mas nao era do Fábio!)»

Pela descrição, parece-me que reconheço o autor... Para não ferir susceptibilidades, refiro só as iniciais: F.I.I.L.I.P.E. F.A.R.I.A. Acertei?

R.B. NorTør disse...

Nao o posso confirmar, mas apenas vou adiantando que a Presença nao marca muita presença nas minhas estantes...

O fenómeno da cópia pode até nem ser mau em si, se servir como processo de aprendizagem. Bernard Cornwell numa mensagem na sua página pessoal (aqui há uns anos) dizia mesmo que adquiriu algumas competências ao escrever ideias suas com personagens de autores que admirava e vice-versa.

Nao sei se este autor é considerado autor de Fantástico, mas as Warlord Chronicles sao um pedaço fantástico de literatura!

Neste ponto convém referir que ainda bem que a literatura é barata. Aliás, com editores a sério ainda fica mais barata, porque um autor sabe que quando submete um manuscrito nao vai ser enganado com palmadinhas de "isto é muito bom" e no final do dia sentir necessidade de tirar cursos de escrita criativa ou algo mais, pago principescamente e nao necessariamente eficaz. (Tais cursos no mercado anglófono até aparecem nas páginas de classificados!)

Agora quanto ao denunciar a mediocridade: toda a questiúncula que se gerou em torno das afirmaçoes do Fábio parecem-me muito pouco relacionadas com a qualidade da obra do mesmo. Aliás, os modos como o David Soares o fez (podendo ser catalogados como o David a ser o David), acabam por dar mais razao a quem quer ver o Fantástico como um clube de meninos, do que a quem o quer defender como um viveiro para obras literárias.

A uma afirmaçao como a que o Fábio fez, se calhar valia a pena responder com exemplos concretos, quiçá alguma ironia mas nao chegando ao sarcasmo com laivos de petulância.

Ou será que coisas como O Silmarillion, Dune ou I Am Legend sao pedaços de literatura infantilizada? Porque nem o próprio Harry Potter pode em abono da verdade ser descrito como uma má obra, muito menos infantilmente escrita! Dizê-lo seria como considerar os contos infantis da Sophia como obras menores no panorama da literatura infantil...

As modas vao e vêm, mas isso nao as torna necessariamente más. Se o facto de estar na moda servir para captar leitores, porque devemos desprezá-las? É uma consequência que com maior atençao acaba por haver mais volume de escrita. Parecendo que nao, isso serve para destacar, aos olhos de quem gosta, o que realmente conta do que é acessório.

João Seixas disse...

Caro R.B.,

Acho que praticamente todos os autores começam a escrever por imitação dos seus modelos. O problema apenas surge quando deixam que as imitações cheguem ao prelo antes de moldadas pela sua voz própria. Aliás, grandes autores - e penso, por exemplo, em Farmer e Moorcock - enriqueceram imenso a literatura fantástica por explorarem exaustivamente os seus modelos, até os tornarem verdadeiramente seus.

A questão Fábio Ventura/David Soares foi rapidamente descontextualizada pelos "defensores" do Fábio Ventura. O David não escreveu sobre o autor nem sobre a obra. O David insurgiu-se, e bem, contra a afirmação de que o Fantástico é uma literatura para jovens, onde apenas pontificam autores que não são capazes de fazer melhor.

(E quero vincar desde já, que não tenho qualquer reparo ao tom utilizado pelo David, a não ser para dizer que, atenta a sua intenção, se calhar até foi demasiado meigo. O paninhos quentes têm amolecido a carapaçaa destes jovens aspirantes e qualquer encontrão deita-os logo ao chão a espernear e aos guinchos.)

A questão empolou-se porque ninguém parece querer entender aquele ponto que eu referi na primeira parte do meu post: é que quase não se publica Literatura Fantástica em Portugal. Apenas literatura infanto-juvenil que assenta em elementos de fantástico já em segunda ou terceira mão. A referência aos contos da Sophia é interesssante por isso. O Potter era claramente uma obra destinada ao público infanto-juvenil. O seu sucesso, e adopção por leitores adultos que praticamente nunca leram um livro na vida, divulgou a ideia de que a literatura fantástica se resumia àquele tipo de literatura, com aquele público alvo específico.

O problema é que as editoras, que enchem os bolsos com esse filão recém-descoberto, não publicam outra coisa, reforçando essa ideia. De que o Fantástico se resume a obras para leitores pouco maduros e, pós-Meyer, pós-Paolini, escritas por criancinhas que ainda mal acabaram o liceu, assim desfazendo, em menos de uma década, um trabalho de credibilização do género que se vinha tentando fazer desde 1965.

Ou seja, confunde-se literatura infanto-juvenil com literatura fantástica. Isso independentemente do mérito das obras.

O problema das modas é que apenas geram imitação, e não obras originais. E logo que as modas terminam, desaparecem aqueles que as seguiram, deixando para trás um rasto de maus livros, derivativos, que afastarão quaisquer novos leitores das obras mais sérias.

Pode, optimisticamente, acreditar-se que isso permitirá aos seus autores amadurecerem a escrita, mas eu sou demasiado céptico quanto a isso: veja-se o caso do Filipe Faria. Ao fim de 10 anos e sete livros, continua a escrever as mesmas frases com os mesmo erros, com a mesma construção...

O último livro dele começa "O Pilar do Tempo rebentou numa explosão...." Pois deve ter sido, tal como um homem comum cai numa queda...

Triste é constatar que tal como os juros da dívida, a taxa de Sturgeon está demasiado alta para Portugal. E lá se vai o rating do nosso Fantástico.

Abraço,

Seixas

R.B. NorTør disse...

O Pilar do Tempo explodiu rebentando fora de tempo tarde demais a meu ver achando, dá-me vontade de acrescentar!

Taxa Sturgeon... O facto de ter tido de ir à procura revela o quanto por dentro estou ou nao, mas do conceito dificilmente me esquecerei. De resto, a referida 'lei' acaba por explicar o que já dissemos sobre 'modas', portanto vou focar-me mesmo mais nos comentários de ambas as partes.


Mais de metade da literatura infanto-juvenil pode ser categorizada como literatura fantástica, sem desprimor para qualquer delas e até enaltecendo-a.

Há nas estantes um leque de autores que sao enfiados nas duas mas que sao essencialmente maus em ambas (ou maus numa e péssimos na outra), de acordo com todos os critérios exepto o de volume vendido.

O facto de haver volume vendido no género quer dizer que há espaço para se vender, quer dizer que há todo um mercado que se dispoe a consumir desde que o mercado o alimente, e eis que surge o Sturgeon. O mercado (e as suas agencias de rating) precisa de mais, sempre mais e vai procurar ter os melhores activos. (Por melhores activos, lembro que os activos que em 2008 nos empurraram do abismo, em 2007 eram altamente recomendados por Moody's e Fitch's...)

Sejamos realistas: as declaraçoes do Fábio num obscuro jornal regional iriam mesmo deitar por terra um esforço de credibilizaçao de um certo tipo de temática? Será que os incomodados nao conseguiriam entrar em contacto com o afirmante e evitar que as coisas tomassem a proporçao que tomaram? Será que permitir-se que obras de mau português sejam premiadas ou recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura nao faz bem pior (ou ambas no caso do Filipe)?

Caro Joao, numa pesquisa rápida o teu nome surge muito associado ao esforço de credibilizaçao da FC como literatura séria. O que faz realmente mais mal ao Fantástico: afirmaçoes como as do Fábio ou o facto de essa obra incontornável que se chama 'A Manopla de Karastan' fazer parte do plano nacional de leitura (logo recomendada a criancinhas)?

Marco disse...

O Fábio Ventura e as suas declarações acabaram por ser a gota de água que fez transbordar o copo de todos aqueles que já à muito estão descontentes com o rumo do que é editado, ou será que devo dizer publicado, em Portugal. Deste ponto de vista o Fábio, e quem diz o Fábio diz outros, é apenas umas vítima, quer dos seus sonhos, quer da sua falta de experiencia, e pior, a meu ver, da falta de escrúpulos de quem se diz editor. Ele e os outros como ele, na ilusão de quem escreve algo e é publicado acabam por pensar que tem valor, arruinando assim a qualidade e a imagem que tem o Fantástico, mas os verdadeiros culpados são esses pseudo-editores que numa ânsia de não perder o comboio das vendas, porque a moda pode passar, não hesitam em publicar, e não editar, tudo o que lhes é posto à frente, um (outro) exemplo disso foi a publicação, por ser moda claro, da saga de livros de Vampiros, Nocturnus, do Rafael Loureiro, inicialmente publicado em edição de autor (por que será?) foi depois repescado pela editora Presença, palavras para quê?
E assim se chega ao que eu considero o cerne da questão: as editoras e os (pseudo) editores, pois são eles a primeira linha de defesa dos leitores.
Compreendo que a editoras sendo empresas tenham de apresentar lucros para assim poderem continuar a laborar, mas deveriam estar conscientes de que são um elemento cultural muito importante, e, claro, com responsabilidades acrescidas. Ao vergarem-se assim à parte financeira ao invés da cultural estão a deturpar a sua missão inicial: a de promover a cultura, tornando-se assim meros agentes económicos que ao sabor da relação procura e oferta vão publicando, independentemente do valor do que publicam, um pouco como as lojas dos trezentos e chinesa vieram preencher um mercado que quer é barato, e onde a qualidade não interessa. Assim vemo-nos na situação em que nunca se publicou, e já agora se falou, tanto de literatura Fantástica, mas em que o número de obras de qualidade se conta pelos dedos de uma mão. E depois ficamos surpreendidos quando tantos leitores saltam em defesa dos Fábios Venturas que todos os dias são publicados! Ora nada mais natural, nunca conheceram outra coisa e claro acham aqueles livros obras primas, ai não existem surpresas. Chegamos então à questão do leitores e de como os formar.
Está é uma questão complicada, e para responder à questão do R. B. Nortor, a verdade é que nem fazem mal nem fazem bem, depende da situação, eu por exemplo e apesar de já antes ler foi com “A Manoplo de Karastan” que me inicie na literatura Fantastica e dai segui para me tornar um “viciado” em livros e claro tenho com os anos adquirido mais experiencia e maturidade e digo que se fosse hoje esse mesmo livro passava-me ao lado, mas naqueles dias em tudo era novidade e original e claro a ingenuidade e inocencia era mais que muita para mim foi uma descoberta. Portanto e para responder à sua pergunta não vejo (grande) mal nesses livros desde que isso leve a novos horizontes e com o tempo e a experiencia esses leitores vão descobrir que existem livros bons e maus, originais e copias, etc, já as declarações do Fábio Ventura, essa serão sempre infelizes.

Marco disse...

Ao reler a minhas palavras reparei que passo a ideia que estou a culpar as Editoras pelos males do Mundo, e não é isso que pretendo, embora elas tenham a sua cota parte de culpa, a verdade é que eu sei que muitas vezes elas lançam estes livros da moda, não porque gostem, mas porque sabem que vão vender e claro assim podem muitas vezes continuar a editar aqueles que não vendem assim tão bem, mas que são verdadeiras perolas e que esses sim é que mereciam ser os best-sellers, mas enfim este não é um Mundo perfeito.

João Seixas disse...

Caríssimo R.B.,

Concordo que a desproporção entre a ofensa e a reacção é manifesta. Mas acho que o Marco, no comentário anterior ao meu (o qual desde já agradeço), intuiu perfeitamente aquilo que esteve certamente na génese do post do David: provavelmente a sensação de que já é de mais. E acredito que a reacção não foi só contra as palavras do Fábio, mas também contra a manifesta incultura dos jornalistas, a passividade dos leitores, a complacência dos editores, e generalizada pobreza do nosso meio literário, enfim...

Muito mais grave será o facto de livros como a Manopla estarem no Plano Nacional de Leitura, embora ache que seja necessário estudar o real impacto disso. Que facilitará as vendas, não tenho dúvidas.

Como é que foi lá parar? Alguém mais dado às teorias de conspiração diria desde logo que é um caso de corrupção, mas a única corrupção que patente é do bom-gosto e da inteligência. Deve ser mero reflexo da indigência do nosso sistema de ensino, do primado do facilitismo e da substituição dos professores por licenciados em pedagogia (da escola francesa).

É preocupante? É, sem dúvida, sobretudo porque, a crer nos blogues de Fábios e Farias, estes são chamados a percorrer as escolas do país todo, alheios ao ridículo e expondo a medicridade do ensino a bem da edificaçãoi nacional. Há um deles que, em certas ocasiões, se faz acompanhar da senhora sua mãe, também ela aspirante às letras, com efeitos inesquecíveis nas expressões faciais de alguns dos poucos professores ainda não convertidos em modernos pod-people da Sra. Alçada.

Como diz o João Barreiros, tristes tristezas.

Um grande abraço,

Seixas

João Seixas disse...

Marco,

Não se deixe enganar pelas lágrimas das editoras. Há de facto aquelas que adoptam uma estratégia de subsidiar a qualidade através da publicação de lixo, mas essas são facilmente identificáveis pelos catálogos e pela aposta corajosa em autores de qualidade, nacionais e estrangeiros, novos e velhos.

Outros servem-se apenas dessa desculpa para justificar a ganância de vendas, mas logo que um título ou um autor descem abaixo de um certo limiar de vendas, este rapidamente deixa de ser publicado, por muitos prémios que ganhe, por muito bom que seja.

Note-se que, como tenho dito, não censuro uma editora por procurar o lucro, mas prefiro que o façam abertamente, sem desculpas nem aldrabices.

Quando se olha para o catálogo de uma editora, e se medem os ratios de custo de produção/vendas/tipo de livro/tipo de autor, aprende-se imenso sobre os seus intuitos editoriais.

Um grande abraço,

Seixas

R.B. NorTør disse...
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R.B. NorTør disse...

Marco bem-vindo aos comentários!

Pois eu ia seguir o que o João Seixas já disse: cuidado com as editoras!

A questão da Manopla e dos contos do Rafael Loureiro (que até já vão a caminho de filme/série) prende-se com dois dos principais problemas que se podem apontar... aos editores:

1º) a fome de publicar "o novo talento" leva a que se publique um talento tão novo que ainda não deve sequer falar português. Porque o problema da Manopla não passa sequer por ser Fantástico (no género), mas antes por ser fantástico algo tão mal escrito ser premiado e recomendado;

2º) a ignorância dos editores em relação ao que publicam. Jamais em tempo algum se pode publicar uma destilação para livro de um jogo e chamar-lhe uma obra original. Haverá certamente um espaço para isso, basta verificar os livro de Warcraft ou de Magic the Gathering (deste último recomendo o Brothers' War, porque mesmo para quem não conhece as cartas é leitura agradável) publicados, no caso da última, pela Wizards of the Coast.

Caro João, se já é uma tristeza serem chamados a percorrer escolas porque publicaram um livro (e com as ferramentas ao dispôr hoje em dia quase que apetece perguntar: e quem não publica?!) pior será ainda constatar que, pelo menos um deles, ainda cobra pela presença...

João Seixas disse...

"pior será ainda constatar que, pelo menos um deles, ainda cobra pela presença...
"

Shhh, isso não se diz a ninguém, se não os outros também querem.

Se ao menos o moço aplicasse os 100 euros para contratar alguém que lhe servisse de ghost writer...

Um grande abraço,

Seixas