sábado, 17 de abril de 2010

Ficção Científica: Os porquês e os porque nãos (um rascunho)




Este texto nasceu como uma breve resposta ao comentário que a Regina Catarino deixou no meu post anterior, e cresceu até merecer a visibilidade de um post próprio. Por isso, e antes de mais, tenho que agradecer à simpática Regina pelo espicaçar, e pelas palavras amáveis quanto à possibilidade de trocar ideias civilizadamente neste blogue. Sempre procurei que assim fosse, e só num caso - como de habitual, com o(s) suspeito(s) do costume - é que a coisa descambou para a indesejada javardice. Mas adiante.

O comentário da Catarina (cuja leitura na íntegra podem fazer – e recomendo – na caixa de comentários) colocava uma série de questões quanto ao porquê de cada vez de publicar e ler menos FC em Portugal. Ao fim e ao cabo, a pergunta que todos nós, entusiastas do género ouvimos e colocámos com demasiada frequência para que possamos ser optimistas quanto à saúde deste.

Ora, quanto ao porquê de não se publicar mais FC em Portugal, e de as editoras não apostarem na FC, a resposta é simples: a FC não vende. Seja qual for a editora (ou editores) a quem se coloque a questão, todos são unânimes: um bom livro de FC vende, em média 600 a 800 exemplares, o que é muito pouco quando comparado com as vendas de séries de Fantasia, de Romances Históricos ou de Romances Cor-de-Rosa.

No entanto, essa questão pressupõe, obviamente uma outra: porque é que a FC não vende? OU seja, porque razão os leitores portugueses viraram as costas à FC?

E essa é uma questão de difícil resposta por não dispormos de estudos, números e informações suficientes. Mas, seja qual for a explicação para esse fenómeno, penso que ela se há-de sempre buscar na confluência de uma série de factores; a saber:

a) um aumento da iliteracia e da iliteracia funcional. Como todos sabemos, a FC, quando levada a sério, pode ser um dos géneros mais exigentes para o leitor, impondo-lhe um mínimo de conhecimentos básicos de ciência e uma vontade de descobrir novas formas de ver o mundo. Note-se, porém, que não estou a dizer que é preciso saber ciência ou ser-se cientista para apreciar a FC, mas exige-se do leitor uma certa "atitude" intelectual que lhe permita questionar - pelo lado da "realidade" - o mundo em que vive, assumindo a possibilidade de que este é 1) objectivamente cognoscível através da ciência; 2) meramente contingente; e 3) susceptível de permanente e radical mudança.

b) Por outro lado, um aumento da ignorância científica, substituída pelo fascínio por gadgets; o fácil acesso à mais avançada tecnologia leva o leitor a contentar-se com o mero conhecimento na "óptica do utilizador" em deterimento do conhecimento técnico-científico.

c) Em terceiro lugar, a FC evoluiu muitíssimo desde os tempos de Verne e Wells, sofrendo consideráveis mutações e espraiando-se numa filigrana de sub-géneros comunicantes e reciprocamente alimentados de temas, ideias e formas de tratamento. Infelizmente, essa evolução não foi acompanhada pelas nossas colecções - seja a Argonauta, a Caminho ou a EA Bolso - que se foram limitando a repetir quase exclusivamente um mesmo "tipo" de FC, ou subgénero da FC, levando a 1) uma saturação dos leitores, fartos de lerem ao longo de 50 anos a FC de há 50 anos (e mal traduzida); e 2) o afastamento de leitores que conhecendo a FC fizeram transitar as suas aquisições para as lojas internacionais e especializadas, lendo-a na língua original, não mais regressando a casa (por assim dizer).

d) O envelhecimento dos leitores, compaginado com c), e com as características típicas da FC (sobretudo a auto-referenciação) que impedem a entrada de novos leitores desprovidos do conhecimento da longa evolução do género e das suas mais recentes manifestações.

e) O facto inverso de a literatura de Fantasia Épica - a mais predominante entre nós - não sofrer tantas evoluções a nível da estrutura narrativa, mas tão só a nível de formas de tratamento dos temas (técnicas literárias), reforçando a familiaridade e a "segurança" dos leitores (bem como facilitando as estratégias de marketing).

f) O facto de a FC no cinema mais recente assentar exclusivamente no espectáculo visual, praticamente não se distinguindo do thriller, do cinema de aventuras ou de acção (para não dizer Fantasia ou Tecnofantasia), que, ao invés de atrair novos leitores, os afasta logo que pegam num livro de FC.

g) O grande sucesso do cinema de Fantasia (LOTR, Harry Potter, etc..) com o efeito inverso.

h) Apesar de parecer preconceito, é (estatisticamente) verdade que há menos mulheres a ler FC do que homens; ora, a par da evolução dos gadgets (que podem afastar mais homens do que mulheres da leitura - em particular por via dos videojogos), assistiu-se a um maior predomínio de leitoras em geral, com o necessário reflexo nos gostos de leitura e no pequeno campo da FC;

i)A incapacidade de muitos editores compreenderem sequer o que é FC - da qual têm um (pre)conceito e uma imagem derivada da iconografia genérica e não do objectivo último da sua utilização, leva a que estes "fujam" da FC, ou tão só publiquem aquela que se conforma à sua percepção pessoal do género.

j) Por parte de muitos autores ou aspirantes a tal, observa-se, por vezes, um fenómeno curioso, que é escreverem aquilo a que se soe chamar "FC para quem não gosta de FC", ou seja, textos que pretendem apenas utilizar a iconografia e as técnicas da FC a nível meramente metafórico, simbólico ou satírico (a DAGON #0 trás um exemplo claro disso).

h) Some-se a tudo isso o desprezo da crítica em geral (que em Portugal, como se sabe, é de qualidade rasteira e meramente propagandística ou presa a afectos) que contribui para diminuir, não só a exposição do género, como a sua recepção, estigmatizando-a.

i) E há, também, por vezes conexa com a anterior, lamentavelmente, uma razão político-ideológica: a esquerda política (com as suas excrescências feministas e multiculturalistas) sempre equacionou a ciência e a tecnologia com o domínio de princípios conservadores, tudo contribuindo para que uma literatura que é claramente defensora de um domínio do tecnológico e - por vezes mesmo - de uma tecnocracia (quando não propondo mesmo que o processo decisório da res publica passe por um processo científico e não político), seja claramente anátema.

j) Por último, e ainda conexo com os dois pontos anteriores, ambas as condicionantes são reforçadas por uma crescente afirmação das escolas de pensamento pós-modernistas nas faculdades de letras, com a sua daninha proposição de que todas as manifestações culturais são igualmente válidas como instrumentos de conhecimento (nesta perspectiva o conhecimento cientifico ou as crenças religiosas, os mitos ou a história, tudo teria igual valor) – veja-se, por exemplo, Boaventura Sousa Santos e Eduardo Prado Coelho. Obviamente, num tal caldo anóxico é impossível a sobrevivência de um género literário que subsiste de uma clara delimitação entre o possível, o impossível, o provável e o exequível.

Tendo em conta estes elementos, como poderemos conceber um possível futuro para a FC nacional? Correndo o risco de fazer soar novamente as trompetas das habituais lamúrias, diria que o futuro da FC em Portugal (e do fantástico em geral) se mostra hoje mais negro do que há cinco anos atrás. A FC está estrangulada pela proliferação de fantasias juvenis e autores pueris, as primeiras manifestamente lucrativas, os segundos oferecendo uma via aberta ao oportunismo editorial. A falta de qualidade de uns e outros, e o abastardamento do Fantástico às mãos de Stephenie Meyers, Paolinis e companhia, criaram uma tal poluição que serão necessários muitos e muitos anos para se recuperar um mínimo de senso. E isso é pouco provável por duas ordens de razões: 1) Porque são pouco exigentes e fáceis de obter e imitar, enquanto a receita tiver sucesso vai ser explorada até à exaustão. Alguns bons títulos serão publicados, ou por editoras alternativas aos grandes grupos que se constituíram recentemente, ou por estes numa tentativa de defenderem um mínimo de credibilidade e apaziguarem os críticos mais ferozes; 2) quando o filão se esgotar e os lucros caírem a pique (como aconteceu, no cinema, com os grandes Dramas Históricos nos anos 60), o impacto não se fará sentir apenas nestas obras de imitação, mas também nas obras do género stricto sensu, que serão sempre identificadas com aquelas. Afinal, já há muito se observou com alguma pertinência que a FC é um género que é sempre julgado pelos seus piores exemplos.

Recordo, por exemplo, que até Junho de 2009, tinham sido publicados apenas dois livros de Ficção Científica: o WHERE LATE THE SWEET BIRDS SANG da Kate Willhelm pela Gailivro e a antologia COM A CABEÇA NA LUA, pela Saída de Emergância. Daí até ao final do ano, foram publicados mais dois ou três livros também por estas duas editoras cujos editores, Luís Corte-Real e Pedro Reisinho, no debate da SPA organizado pela OML em Outubro, prometeram grandes apostas no campo da FC para 2010. Em meados de Abril deste ano, corrido quase o primeiro terço do ano, foram publicados apenas dois livros de FC, ambos pelas mesmas editoras (o FORÇAS DE MERCADO pela Saída de Emergência , e a antologia do João Barreiros, SE ACORDAR ANTES DE MORRER pela Gailivro). Ora, a publicação de menos de um título por mês é incomportável para o desenvolvimento do género. É certo, tanto quanto sei, que a SdE tem em preparação pelo menos mais três livros de FC e a Gailivro, um, pelo que até ao final do ano o panorama pode alterar-se ligeiramente (e a SdE já publicou a BANG! que promete ter pelo menos mais dois números este ano, possivelmente três – como diz a capa do #7, “daqui para a frente a revista BANG! promete sair de 3 em 3 meses, MESMO!”), mas chegando Novembro e o Fórum Fantástico, já anunciado, logo faremos contas.

No entanto, é confrangedor verificar que pelos dois livros de FC já publicados, surgiram nas livrarias mais de uma vintena de títulos de pseudo-Fantástico ou dedicados exclusivamente a um público juvenil, que necessariamente abafarão a sua visibilidade. O futuro, como dizia o sábio Criswell, é composto de coisas que nos acontecerão no futuro e, daí que, embora tenha a convicção de que a FC e o bom Fantástico estarão praticamente mortos em Portugal durante os próximos vinte anos (se não mais), reservo o meu prognóstico para o fim do jogo, como diria esse Criswell do futebol que é o João Pinto. Porque nunca tanto como neste caso, desejaria estar enganado.

Adenda (às 20:12): Estupidamente, ao referir os títulos de FC publicados este ano, esqueci-me do FLASHFORWARD do Robert J. Sawyer, também da Saída de Emergência. Fica corrigido o lapso que, lamentavelmente, em nada altera o que disse seguidamente.

Adenda II (às 21:47): Esqueci-me também da edição da Antagonista do GOLFINHO DE JÚPITER da Mary Rosenblum, o que aumenta, para já, a média para um livro por mês. Aqui fica a necessária correcção.

22 comentários:

Morrighan disse...

Olá João,

Vejo-me a concordar com tudo o que dizes. Revejo-me mais no facto de as mulheres, sendo um publico alvo enormíssimo, não gostarem de FC, acharem-na chata e complicada.
É um facto que não é preciso ter muitos conhecimentos cientificos para se gostar de um livro de FC, mas dou um pequeno exemplo que só de si mostra muita coisa.
Num fórum em que basicamente há só mulheres, houve muitas queixas do livro A Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos porque elas não estavam a perceber nada daquilo e acharam os pormenores ciêntifcos demasiado chatos. Atenção que A fórmula de Deus é classificado como Romance e não FC... Não sei se compreendem onde quero chegar...

Claro que há excepções, eu adoro FC quase tanto como de fantasia. Mas lá está, a fantasia neste momento monopoliza todo o mercado. A de boa e a de má qualidade.

Realmente ainda não tinha pensado neste aspecto da FC e fizeste-me reflectir bastante...

Bom fim-de-semana*

Roberto Bilro Mendes disse...

Realmente a FC não vende como a fantasia juvenil...ecistem no entanto alguns sinais de aposta no mercado de FC, com a editora Antagonista a assinar com o Silverbeg e a criar a colecção MIR.

No no primeiro número do jornal que sairá em Maio, tudo é FC, contos, entrevista e uma crónica. E até são dois contos de autoria feminina.

Espero que seja uma boa forma de dar um impulso para libertar a FC deste panorama negro que apresentas, e com o qual concordo em parte.

Um abraço

João Seixas disse...

Olá Sofia,

É um prazer ver-te a comentar no Blade Runner. Para compensar essa realidade das leitoras de FC, ainda bem que vão havendo várias escritoras de FC de grande mérito e qualidade, a começar pela Alice Sheldon, que escrevia tão boa FC que levou o Robert Silverberg à certeza de que se tratava de um homem (James Tiptree).

E olá Roberto,

A publicação do Silverberg pela Antagonista é, evidentemente uma boa notícia (havia pelo menos mais uma editora que estava interessada em publicá-lo cá este ano). E, se bem conduzida, a colecção MIR pode ser uma aposta muito interessante, se conseguir responder de forma adequada ao problema que apontei em C) do meu post.

O Silverberg é um dos gigantes do género e um dos meus autores favoritos, mas dificilmente é uma novidade em Portugal. Já cá foi publicado em quatro ou cinco editoras (na Panorama, na Livros do Brasil, na Europa América, na Caminho, na Bertrand) e já viu publicado cá tanto do melhor (NIGHTWINGS, THE MAN IN THE MAZE, etc...), como do indiferente (ROMA ETERNA), como do pior (PLANETA SELVAGEM, FILHOS DAS ESTRELAS) quejá escreveu.

O mesmo é dizer, para a publicação de Silverberg ser pertinente, é importante saber qual o título que vai publicar (alguns dos seus essenciais, THE STOCHASTIC MAN, THE BOOK OF SKULLS ou THE WORLD INSIDE) permanecem inéditos e permitiriam colmatar uma importante lacuna. Já seria diferente se a opção fosse pela saga LORD VALENTINE, que sendo interessante, não é do melhor de Silverberg e iria apenas alimentar mais a fogueira fantasista.

Mas o problema não se resolve com essas publicações, pois ele é mais profundo do que isso. Para revitalizar a FC seria necessário haver um esforço de publicação continuado e coerente, no sentido de dar a conhecer aos leitores as obras chave da evolução do género.

Ora, o Silverberg, apesar da sua grande qualidade, está afastado dos mais recentes movimentos literários no seio da FC e está já bem representado em língua portuguesa.

Agora, se a sua publicação servir para contextualizar outro(s) autor(es) tematicamente seu(s) contemporâneo(s) - como o John Brunner, por exemplo, muito pior representado em português e do qual nunca foram publicadas as obras-chave (THE SHEEP LOOK UP, STAND ON ZANZIBAR e THE SHOCKWAVE RIDER) - então a aposta seria uma aposta ganha.

Agora (e espero estar enganado), mas se a receita for a do primeiro número (utilizar um autor prestigiado para publicitar um autor nacional de menor qualidade) será mais um desbaratar de esforços (a não ser que surjam novos autores portugueses de grande valor - aí, mais uma vez, seria uma excelente estratégia).

Mutatis mutandi para o primeiro número do jornal, dedicado à FC, que aguardo com expectativa, embora com poucas esperanças.

Mas, se de facto um e outro projecto - tal como a DAGON se vier a libertar-se das vanities - conseguirem assegurar o nível de qualidade que até agora lhes tem escapado, seriam um exelente impulso para sair do panorama negro, como bem dizes.

Caso contrário, o nosso panorama do Fantástico está de tal forma fragilizado que a frase de Knight que asteio no blogue adquire aida mais aquidade: um mau livro, de um mau autor, fará muito mais mal à FC portuguesa do que qualquer crítica negativa que possa surgir.

Bom fim de semana a ambos e obrigado pelas vossas opiniões e comentários.

Thanatos disse...

Embora compreenda que o artigo surge como resposta a um comentário, o certo é que, mais uma vez, se assenta na ideia da FC como única e exclusivamente do domínio da matriz literária afastando para o lado todas as suas outras manifestaçãoes.

Como bem aparece na alínea c) a FC evoluiu bastante. Tanto até que, parece-me, transcendeu já as barreiras da palavra escrita para nos rodear em todos os media.

O exemplo estafado da FC nos cinemas como sendo apenas de espetáculo visual e/ou efeitos CGI é uma imagem de todo redutora, escamoteando filmes como por exemplo A Scanner Darkly, Renaissance e outros. Esse exemplo seria igual a eu apresentar exemplos da FC escrita como obras de tie-in de Star Wars, ou Warhammer 40K. Por via da TV séries como BSG ou LOST redefiniram para toda uma geração os tropos da FC duma forma inteligente e, curiosamente, no caso da BSG fizeram-no apropriando-se de material de raíz bastante fraco. Ou seja, o espaço de evolução existe no entanto a literatura teima em fechar ao contrário dos congéneres que se expandem.

Banda desenhada, videojogos, séries de TV, filmes, são todos «formatos» pelo qual se veicula a FC que é muito mais abrangente que a mera palavra escrita. Se em tempos foi na literatura que o campo era fértil em ideias e inovação é com algum pesar que hoje noto a estagnação dum género que não soube cativar novos leitores enveredando antes por um cada vez maior umbiguismo de auto-referências cobertas de protocolos a que apenas alguns iniciados têm a necessária descodificação.

João Seixas disse...

Caro, Ricardo,

O post, naturalmente, referia-se essencialmente à FC escrita. Era essa a questão e, por muito que o ponto possa ser debatido, a vertente escrita ainda é a MATRIZ ESSENCIAL da FC. Por muito que eu aprecie filmes e séries de FC, é inegável que os melhores exemplos do cinema de FC, como o SCANNER DARKLY que referiste (e que nem é assim tão bom, com o rotoscope a distraír do que realmente importa; e é curioso que os dois filmes que referes se caracterizem essencialmente pela técnica visual e não pela coesão e inteligência do plot, ponto no qual o RENESSANCE é literalmente uma peneira) ainda são os baseados em obras literárias. Os argumentos originais de FC são ainda, com frequência, demasiado fracos para servirem de impulso renovador do género (vide AVATAR).

Aliás, penso até ser perfeitamente discernível uma involuçao do género filmado a partir de finais dos anos 70. Um olhar retrospectivo quase que nos permite contar pelos dedos os melhores filmes de Fc (cito de memória: nos anos 80 quase exclusivamente o ALIENS, a série PREDATOR, o remake do INVADERS FROM MARS, o ROBOCOP, o THE FLY, e algumas preciosidades série B e, nos 90, o THE ARRIVAL, o TERMINATOR II, o TWELVE MONKEYS, o TIME BOMB e mais umas quantas pérolas da série B). Tudo provavelmente motivado pela imitação da receita Lucas/Spielberg.

Idem aspas para a BD, embora aí surjam com mais frequência ideias originais de grande qualidade.

Citas, a nível televisivo, o LOST, que considero uma série excelente, mas que só muito dificilmente poderá ser considerada FC pura, assentando melhor numa definição de Weird Fiction televisual. Já quanto à BSG, discordo completamente - aliás, tenciono escrever um ensaio sobre isso em breve (estou apenas a obrigar-me a ver a série até ao final) - e considero que a BSG foi das piores séries de FC dos últimos tempos, chegando a raiar a anti-FC do C.S. Lewis (a trilogia Perelandra).

Melhores do que a BSG, e que poderias ter utilizado como exemplo, são as subapreciadas LEXX e FARSCAPE, que de certa forma ainda recuperam os modelos mais ousados e agressivos dos anos 70. Mas também delas espero falar este ano no blogue.

O que creio que fazes, irreflectidamente, é repetir o erro de que a abundância de tropos de FC equivale a uma vitalidade qualitativa da FC. Mas isso não é verdade. Simplesmente, a FC, as suas imagens e a sua iconografia tornou-se tão invasiva da paisagem cultural, que tendemos por vezes a encarar isso como sinal de vitalidade, quando, por vezes, representa precisamente o inverso (como, apenas para traçar o paralelo, sucedeu no ano passado com os Vampiros - era vampiros por todo o lado: livros, séries de TV, telenovelas, bandas desenhadas, e, tudo espremido, fica apenas o LET THE RIGHT ONE IN, livro e filme, e a adaptação da HBO da série da Charlaine Harris, como portadores de um mínimo de qualidade.).

Não é a abundância que faz a qualidade, nem é a multiplicação de formas que afasta o núcleo da FC da literatura. É que estejamos a falar de filmes, de séries, de videojogos ou de banda desenhada, todos eles começam pela palavra escrita, por um argumento. E se o argumento é fraco, não são as potenciais legiões de fãs que farão o milagre da transmutação.

João Seixas disse...

Ricardo,

Afastada a questão das várias manifestações genérica, há um ponto do teu comentário em que te dou razão: a "estagnação dum género que não soube cativar novos leitores enveredando antes por um cada vez maior umbiguismo de auto-referências cobertas de protocolos a que apenas alguns iniciados têm a necessária descodificação."

Há, de facto, uma certa estagnação neste período de pós-Space Opera Gótica. E seria importante descobrir a causa dessa estagnação, que é transversal a todas as manifestações do Fantástico e não apenas da FC. A estagnação que encontramos na FC também existe no Horror, na Fantasia, no Policial, etc... Para não falar no mainstream que estagnou nos anos 60 e pouco mais se moveu a partir daí.

O surto de re-makes no cinema e de saudosismo na palavra escrita é manifestação dessa estagnação. É certo que os temas tendem a repetir-se ciclicamente: cada geração tem a tendência a reproduzir, actualizando, as influências que marcaram a sua infância. Aí importa reparar que se os anos 80 foram marcados por um saudosismo dos anos 50 (bem patente em filmes como o BACK TO THE FUTURE), os anos 90 foram marcados por uma recuperação dos 70(PULP FICTION), a primeira década dos 00 voltou-se para os 80 (BSG, KNIGHT RIDER, et. al.), isso não deixa de traduzir três fenómenos interessantes:

1) Que o intervalo é cada vez menor, pois os criadores (vamos chamar assim, para abranger a literatura, cinema, a televisão e a BD) entram no mercado cada vez mais novos; e

2) Que as gerações pós II Guerra Mundial foram educadas num ambiente cultural anacrónico (a televisão permite a recepção simultânea de programas de vários períodos históricos, a internet permite adquirir livros de qualquer época e qualquer país do mundo), levando a que essa recuperação do imaginário seja mais ampla; e

3) Assiste-se, apesar de tudo aquilo, a uma normalização do consumo: com excepção dos canais de cabo e das pequenas editoras, as televisões ditas generalistas e as principais editoras debitam apenas um produto mole e uniforme, que busca satisfazer o mínimo denomnador comum de que Baudrillard falava.

Tudo isso contribui, necessariamente para uma estagnação e um afundar em fórmulas de recuperação nostálgica que impedem (ou atrazam) um necessário salto em frente em termos de ideias.

E isso não acontece apenas nas áreas do Fantástico. A literatura em geral não apresenta grande criatividade e inovação; o cinema maisnstream tem sido de uma pobreza constrangedora desde meados dos anos 90. A conformação social e cultural em torno de ideias multiculturalistas, feministas e etc... (o dito "politicamente correcto) tem imposto uma culturescape opressiva.

Daí que seja de louvar a grande e surpreendente qualidade de séries de televisão como o LOST, os SOPRANOS, o DEADWOOD, CARNIVALE, TRUE BLOOD, ROME, WEEDS, etc... e, em geral, muita da BD de lavra mais recente. É de facto nesses campos - na TV por cabo americana e na BD - americana e japonesa - que se têm experimentado os exemplos de maior qualidade. Mas, de facto, nem sempre nos campos do Fantástico (apesar de excepções como o já referido LOST, a 1ª season dos HEROES, SMALLVILE, e talvez a FRINGE).

Pelo que não será essa estagnação que explica o fraco sucesso da FC escrita. Como não será uma descaracterização da FC, eliminando os seus protocolos próprios de leitura ou a sua intrínseca característica auto-referenciadora, que permitirá a sua recuperação.

n.fonseca disse...

Olá João. Sobre o post, escrevi no meu blog uns apontamentos e questões pertinentes, onde discordo de algumas das tuas conclusões. Fica aqui o link, pois é artigo extenso:
http://innerspace22.spaces.live.com/blog/cns!C501FF0073089D1C!1215.entry

Quanto à FC na televisão, também discordo um bocadito. Embora tenhamos de ser honestos e dizer que em termos visuais aqui a análise de FC ceda muito mais ao gosto pessoal que aos elementos de pura análise. Isto acaba por ser necessariamente algo idiossincrático.

Começando pelo Lost, um remake manhoso da Ilha Extraórdinária do Verne, que se limita a fazer render o peixe do suspense até à medula, e onde os elementos da FC foram introduzidos para arrastar e reavivar o fraco enredo de telenovela inicial. Não vou dizer que não é giro de ver, se se aguentar a xaropada do suspense insatisfatório ao longo de 7 excruciantes temporadas, e sou tudo menos pelo prazer imediatista, mas é série que vai com 3 temporadas a mais, no mínino.

Já a BSG, começou e foi durante 3 temporadas, extremamente refrescante. Não só se tratou de um re-make inteligente quando já toda a industria se acomodara aos maus exemplos do género, como teve algumas virtudes óbvias, como a de conter um enredo sem medo onde as personagens repetidas vezes eram levadas a tomar as opções dificéis e nunca a saída fácil como de costume. E com a vantagem vista em muito poucas de um fim certo e determinado à vista. Claro que chegada a 4ª temporada e o fim, borrou-se a pintura, mas não invalida a importância das 3 primeiras. Outra série, essa sim um remake idiota, acéfalo e irritante está a ser a V, que enferma dos defeitos que apontas quanto à BSG.
Chegaste a referir a Lexx e a Farscape, que exemplificam uma atitude startrekiana no mau sentido (assim como a tenebrosa Cleopatra 2 mil e qq coisa,). Cumpriram a função dos maus Star Trek e da Red Dwarf. Deverias ter mencionado a Firefly, muito mais relevante, boa e acima da ´média, precursora do bom que houve na BSG e que escapava ao modelo de enredo televisivo dos anos 80 que quase matou a FC televisiva.

A Heroes, outra série cuja primeira temporada foi excelente, e que ainda mantém alguma qualidade embora o tempo e arrastar das temporadas andem a colocá-la ao nivel da BD Marvel no fim dos anos 80, quando teve o seu último extertor de qualidade mas com um pezinho na novela a querer descambar, oscila entre o bom e o mau, o que acaba por não ser bom sinal, claro.

Já o Fringe, quase no fim da 2ª temporada, e continua a ser uma versão mais ou menos fraquita, em modo série B dos Ficheiros Secretos. Nada contra, mas também é verdade que os elementos da narrativa que seriam mais interessantes e de pura FC, não conseguiram ainda tomar conta do arco principal da história convenientemente. Ou seja, anda a sofrer do mesmo problema de muitas séries, que já referi quanto ao Lost: o render do peixe. Mas como nos aproximamos da 2ª temporada, a ver vamos.

(continua)

n.fonseca disse...

Outras séries de FC. Flashforward revelou-se um policial sem "huevos" e a Caprica ainda é um bicho demasiado estranho e de pinceladas adolescentes para afirmar seja o que for, apesar que uma afirmação recente de um dos produtores da série quanto a ela ser uma espécie de "Dallas" não augures do melhor. Não concebo onde haverá a semelhança (há mais de dois campos/familias em oposição clara, não há simplificação monoteísta das escolhas morais das personagens, todos os personagens estão em constante busca/viagem com objectivos específicos, etc.etc.) mas a afirmação poderá ser reveladora do tal problema do peixe e nada mais. Mas por enquanto até está a ser engraçada.

A Enterprise, apesar de velhita e com o defeito de arrastar o mais longo franchise da história, mesmo no mau, anda a passar agora entre nós e até tem revelado uma saudável volta ao espírito de FC anos 50 (o que nunca é mau). De vez em quando dá agradáveis surpresas. Assim como a Stargate Universe (a ver se consegue manter o tom negro inicial, o que duvido). A Defying Gravity, que me cheira a caminho de ser descontinuada, eleva o espirito da FC mas tem mais buracos lógicos que um queixo suiço, mais ideias politicamente correctas que um yuppy dos anos 90, o que é extremamente exasperante.

E etc.

No geral, a televisão meteu-se finalmente com unhas e garras em FC, de forma a apanhar o público generalista e com sucesso. Mas para isso, em termos de FC, mantem-se algo artifialmente ao nível dos princípios do pulp: enredos a atirar para o acéfalo onde o que importa é fazer render o peixe para apanhar telespectadores. O que não será nada mau quanto a mim: é apenas o que é, um género `a procura de um espaço e registo próprios.

Noutro registo, a FC em cinema, está como que quase a sair do puro pulp (influenciado por StarWars) e a querer entrar no modo Golden Age. É que vão surgindo filmes bons, e os maus já não são tão maus assim. Moon e District 9 provam-no cabalmente. Embora o advento do 3D esteja a ameaçar retroceder o processo, penso que não voltaremos à estaca zero.

Entretanto, parabéns pelos posts e pela conversa elevada. Andávamos com falta disto, de as pessoas poderem discordar sem ter de necessariamente descambar :)

n.fonseca disse...

Num apontamento final, não concordo que haja uma estagnação propriamente dita da FC lá fora como é a tese do Ricardo. Haverá um cansaço derivado do facto de lá a FC ser mais ubiqua e com uma comunidade alargada que já leva com vários anos de praia, pelo que é natural que as novidades já não sejam tão fáceis de surgir e que a exigência geral dos leitores se tenha tornado mais elevada, empurrando a qualidade para valores médios. Há boa FC por aí, mas não prima pela genialidade, visto já não ser tão fácil produzi-la. Não podemos estar sempre a inventar a roda. Coisas da velhice.

acrisalves disse...

Engraçado. Talvez por vir de uma área de ciências, em que o curso tinha principalmente mulheres, conheço mais mulheres a ler FC do que homens. Não desconsiderar aqueles (as) que lêem o género não por ser FC, mas por ter uma boa história. E esses não aparecem em apresentações, nem adoram autores.

Já agora, acho que um dos grandes problemas da FC em Portugal é a tradução, que torna muitas vezes o texto mais denso do que na realidade é, com expressões e termos técnicos mal traduzidos.

Por outro lado, em relação à falta de novidade... relaciono isso com a crescente falta de interesse na ciência. Se para ler FC nem sempre é necessário ter algum conhecimento científico, para a escrever é bom que haja, ou então torna-se mais num livro de fantasia.

João Seixas disse...

Nuno,

Ponto por ponto, parq que isto se não complique demasiado:

Quanto ao teu post, já respondi em post próprio.

Quanto às séries televisivas, já vi que estamos de acordo em quase tudo, mas são as excepções que mais nos afastam: a saber, acho que FIREFLY era uma boa série e que de facto antecipava o que BSG veio fazer, mas pela negativa; Cleopatra 2525 era, de facto uma série execrável, tal como é o novo remake do V (que partilha muitos defeitos com a BSG).

Discordamos quanto a FARSCAPE e LEXX que tendo efectivamente muitos pontos de contacto com STAR TREK, encontra esses pontos no melhor que STAR TREK tinha e não no pior. Mas sobre essas séries falarei em post(s) próprio(s) num futuro muito próximo.

Já quanto a BSG estou em total desacordo. Total e irredimível. Vi a mini-série com entusiasmo mas algum receio; vi esse receio confirmado na primeira season; arrastei-me penosamente pela segunda season, engolindo imprecações a cada parvoíce seguida (a menor das quais a estupidez pegada da Lança de Athena e da "fuga" de Starbuck em busca dela) e é com náuseas que mergulho na terceira.

Dizes que na série as personagens são levadas a tomar atitudes difíceis. Sim, isso é verdade, e foram alguns dos melhores momentos da série. Que não fujam a muitos outros é mentira, como o comprova o anti-climax após o interregno entre os dois episódios da PEGASUS (uma armadilha em que por exemplo a ST-THE NEXT GENERATION, em Best of Both Worlds, não caiu).

Mas não é isso que faz a boa FC. Isso faz o bom drama televisivo, seja ele FC ou não. Isso faz o 24, por exemplo, que é quase o complemento mainstream da BSG. Mas não encontras na BSG um único ponto de originalidade, um único novum que a transforme em boa FC.

Pelo contrário, o arco narrativo cola-se de tal forma à nossa realidade, que é inevitável a associação USA-IRAQUE/CYLONS-HUMANS ou USA-IRAQUE/HUMANS-CYLONS. A tal ponto que o espectador está constantemente a furar a quarta barreira e a embater no subtexto que devia ser subtil. BSG recorda-me o que seria a série OVER THERE se as situações dramáticas não fossem sempre justificadas. Mas aquilo que BSG faz, qualquer série como o 24, ou a THE WIRE, ou THE SHIELD faz, e faz melhor do que BSG. Nada ali faz com que a narrativa de BSG precise dos elementos científico-ficcionais para poder ser contada.

E, portanto, voltamos ao início: fica o visual e os efeitos CGI. Abomino ambos em BSG (e também isso, será objecto de outro post).

(Continua)

João Seixas disse...

Quanto ao cinema de FC, concordo cabalmente com os dois exemplos de qualidade que apontas, mas por cada DISTRICT NINE e MOON, surgem quatro AVATARES e dezasseis STAR TREK à la Abrams, o que mantém o mesmo desiquilíbrio de sempre. Assim sendo, continuo sem ver sinais de optimismo, sobretudo quando os bons exemplos continuam a vir de produtores independentes e de baixo orçamento, e s exemplos de mediocridade, das majors e dos orçamentos milionários.

Recorde-se que nos anos 60, 70 e até 80 eram os grandes estúdios que produziam (ou distribuiam) os bons filmes de FC e lhes atribuiam orçamentos generosos.

O que nos leva ao último tema, o da estagnação da FC: e parece-me que ela é evidente. Note-se que essa estagnação não significa necessariamente a ausência de bons livros - estes continuam a ser abundantes (lá fora) - mas não há, há já muito tempo, um livro que faça o género dar um novo salto qualitativo. Falta um Neuromancer, ou um Perdido Street Station, ou um Night's Dawn para o novo milénio. Tudo o mais, mesmo se muito imaginativo e bastante bem escrito, limita-se a reciclar os mesmos temas e a jogar com a fusão dos géneros (muitas vezes com inspiração ou objectivos e adaptação no/ao cinema ou nos/aos videojogos).

É muito pouco para o nosso género favorito.

Agradeço e retribuo o cumprimento que dedicaste aos meus posts e ao interesse do debate. Efectivamente, há já algum tempo quer vinha sendo necessário um debate sereno e tanto quanto possível objectivo sobre o estado do género. Obrigado, também por isso, por teres participado e contribuído para o enriquecer, tal como o Octávio, o Rogério, a Safaa, a Cristina, a Regina, o Roberto e a Sofia. Esperemos que as coisas possam continuar assim (já por isso mantenho a caixa de comentários aberta à participação de anónimos; descobri que era uma medida altamente higiénica ;)).

João Seixas disse...

Cristina,

Começando pelo final:

"Por outro lado, em relação à falta de novidade... relaciono isso com a crescente falta de interesse na ciência. Se para ler FC nem sempre é necessário ter algum conhecimento científico, para a escrever é bom que haja, ou então torna-se mais num livro de fantasia."

Não posso estar mais de acordo.

E, retomando o ponto central que levantas quando dizes "acho que um dos grandes problemas da FC em Portugal é a tradução, que torna muitas vezes o texto mais denso do que na realidade é, com expressões e termos técnicos mal traduzidos." também não podia estar mais de acordo.

Aliás, e essa é uma grande dificuldade para a própria escrita de FC em português,o facto de a nossa língua não se prestar tão bem à gramática da FC como o inglês. Sei que esta é uma questão polémica, mas a verdade é que há traduções quase ilegíveis quando respeitam às partes mais "técnicas" das obras de FC, e poucos são os autores portugueses que conseguem adequar a língua à necessidade de introdução de tecnologias imaginárias credíveis (e nenhum deles tão bom quanto o Barreiros).

Já em brasileiro a coisa parece funcionar melhor, mas o português sempre funcionou melhor em brasileiro do que na agrura linguística a que a nossa literatura em geral o tem votado.

Obrigado, também, pela contribuição para o debate.

XR disse...

Desabafo completamente off-topic:
13 comentários???
My God... I've created a monster!
---§§§---
Estamos então condenados a livros-pipoca para leitores pouco exigentes?!?! Ou pior do que pouco exigentes - portadores da tal iliteracia funcional que foi mencionada, já que cada vez se lê menos e que entre quem ainda lê existe bastante gente que prefere jornais desportivos.

Tudo isto interligado a um decrescer de nível cultural geral (veja-se quer os concursos televisivos como os Supermiúdos quer as cacetadas na ortografia das notas de rodapé dos telejornais) faz-me temer pelo desenvolvimento futuro. Não se estima quem se destaca pela qualidade. Desce-se a bitola para que todos tenham resultados melhores independentemente das capacidades. O pouco tempo de lazer que sobra depois de um dia de trabalho e tarefas caseiras é gasto com actividades de "consumo imediato" que não obriguem a pensar.

Cada vez mais parece que "pensar dá muito trabalho". E a FC é um género literário que obriga a pensar, muitas vezes out of the box para se abarcar melhor a narrativa. Alguém que leve um livro de FC para ler no comboio levará decerto algumas miradas, nem todas disfarçadas, com expressões faciais revelando um pensamento de "xii, deve ser maluquinho para ler coisas daquelas!". O que, atendendo às traduções "manhosas" que já foram mencionadas (além dos termos técnicos de que fala a acrisalves, o desconhecimento/alheamento do contexto por parte do/a tradutor/a é por vezes notório) talvez fique mais perto da verdade do que parece.

Valha-nos São Asimov...

n.fonseca disse...

XR, penso que essa é mais uma impressão que uma realidade. Todas as gerações se pronunciam desfavoravelmente em relação às mais novas. Todas. É um fenómeno velho de barbas. Mas o certo é que cada vez há mais leitores, cada vez há mais gente, cada vez há mais livros e cada vez mais o mercado se alarga. Recordo-me de niguém ler nos transportes e hoje já se lê. Recordo que só os cromos iam a livrarias e hoje os putos até lá vão passear e comprar, sem os pais. Há que manter alguma água na fervura dos maus tempos de hoje.

XR disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
XR disse...

Caro Nuno,

O meu comentário sobre as reacções à leitura no comboio não é ao facto de se ler - é "ao que se lê".
Sim, há muita gente a ler; mas o que lêem? Revistas cor-de-rosa; jornais; de livros, os produtos de "consumo imediato" já tão mencionados (Brown, Meyer, Rowling, Harris e afins).
Quem seja portador de um livro mais volumoso obtém as reacções faciais de "que grande calhamaço, eu é que não lia aquilo". E atenção, este tipo de reacção não vem dos mais velhos, antes pelo contrário! Os mais jovens compram mais e vão a livrarias/Fnac/afins, sim - compram o quê? Mais do mesmo... BD e livros-pipoca. Muitos vão comprar livros para oferecer a amigos/as e, não tendo a certeza de acertar com os gostos pessoais, vão optar pelo que está nos tops de vendas.

Portanto, por aquilo que vejo do que me rodeia e do meu contacto com adolescentes, vendem-se bastantes livros. Mas (praticamente) nenhuns de FC...

Cumprimentos,
Regina Catarino

n.fonseca disse...

Olá outra vez XR.

O certo é que a perspectivação que referi necessária também se mantém para o que refere. Sempre se leu mais do mau ou do generalista do que obras de qualidade seja em que género for. É uma simples realidade de todos os tempos e em todas as áreas do consumo. Daí que as grandes vendas obdeçam quase sempre a critérios completamente alheios à qualidade. Por outro lado, é também verdade que a grande disseminação de um produto, e mais ainda dos culturais e em específico dos livros e dos livros de género, beneficiam do efeito de arrasto: quanto mais se lê no geral mais se lê de determinados géneros, por exemplo (o mesmo se aplicamndo às outras áreas referidas).
É pena que se leia pouca FC. Mesmo pena. Mas também não há muito "lastro" a puxar para a sua visibilidade.
Quanto à experiência dos calhamaços, que não me agradam muito, confesso, a verdade é que os próprios leitores que muitas vezes os carregam, fazem-no por falta de alternativa e não por gosto. Apesar que até podem ser úteis em certas situações extra-literárias, nem que seja como tijolo de arremesso :D

João:

desculpa ainda não ter respondido aos teus comentários aqui de cinema e tv. Mas também não há muito que eu queira dizer. Apenas que penso que as áreas visuais se prestam a análises mais subjectivas, mais direccionados pelo gosto próprio de cada um. Encontraremos sempre justificação para o que nos agrada e desagrada. Daí que no esmiuçar dos conteúdos acabemos com opiniões ligeiramente diferentes. Todas legítimas obviamente.

João Seixas disse...

Regina,

Há monstros que vêm por bem... ;)

Nuno,

Dizes, e com razão, que "Todas as gerações se pronunciam desfavoravelmente em relação às mais novas. Todas." Mas nem sempre o fazem sem razão.

Em parte essa crítica inter-geracional prende-se com costumes e princípios morais (na massa populacional em geral) ou com movimentos específicos dentro da área cultural.

No entanto, as críticas que a Regina vem lançando sobre esta nova geração de leitores/autores, e de que partilho a 100%, prendem-se com dados diferentes. e objectivos: a incapacidade de leitura e de entendimento são mensuráveis e objectivos.

E ateenção, que este tipo de afirmações não e "judgemental", como melhor dizem os ingleses do que nós. Mas é resultado das políticas educativas que vêm sendo adoptadas no seguimento da escola francesa e belga, do eduquês de que falava Nuno Crato, do ensino que encara os alunos como agentes da aprendizagem em pé de igualdade com os professores.

Se antes, com maior ou menor sucesso, ninguém saía da escola sem pelo menos saber o mínimo essencial, agora termiam-se licenciaturas com base no esforço pessoal, sem ser preciso saber ler nem escrever, quanto mais dominar a matéria do curso: para quê, se lhes ensinam que toda a vida é uma aprendizagem e que o que eles aprendem ali nem sempre foi assim e em breve deixará de o ser?

O facto de se ter eliminado uma noção de história das mentalidades, que devia ser cadeira obrigatória em todos os graus de ensino e em todos os cursos, ajuda a que tudo se esgote no imediatismo do momento. O passado deixou de existir, e o futuro há-de ser o que nós quisermos. E, quando não temos habilidade para fazer as coisas bem, a solução é simples: queixamo-nos. De que os outros, os que criticam, têm é inveja porque lhes estamos a tirar o lugar. Eles falam mal de nós, mas isso é sempre assim. Todas as gerações falam mal da seguinte.

Mas esquecemos aqui um dado essencial. Quando, até há duas ou três gerações, uma geração se queixava da anterior, era num processo de substituição geracional. Uma geração que vivia pouco mais de 65-70 anos e era activa pouco mais de 50, saía de cena quando a nova geração assumia os cargos de decisão (por volta dos 30 anos).

Agora vive-se mais e trabalha-se até mais tarde. Neste momento, os cargos de decisão são ocupados simultaneamente por elementos de várias gerações que concorrem directamente num "mesmo mercado" ou colaboram numa mesma equipa. E o julgamento deixa tanto de ser geracional, e passa a ser a nível de competências. E aí, a subjectividade é menor. A experiência ainda conta muito e é mais fácil ver quem realmente borra as paredes.

E, no no que toca ao nosso pequeno burgo, o da literatura de FC&F, parece-me inquestionável que nunca antes (por culpa, decerto, da nossa geração e da que nos antecedeu e com a qual ainda convivemos na actividade profissional)tivemos um grupo de autores/leitores tão incapaz e inculto. Com as devidas excepções, que convém, sem dúvida salvaguardar, e com reserva do grande potencial de maturação que ainda podem vir a demonstrar com o tempo.

n.fonseca disse...

João, téns razão em alguns aspectos do que dizes, mas em relação a outros há que recordar dois aspectos muito importantes:

a instrução em geral (e a sua universalização em particular) e o acesso à informação que hoje existe em Portugal é completamente diverso do que era à 100, 50, 20 ou mesmo 10 anos.

Isto poderá condicionar algumas das tuas conclusões.

XR disse...

Voltei aqui para me deparar com esta última entrada do Nuno que me fez reflectir um bocadinho (mais).

Há de facto um acesso à informação milhares de vezes mais facilitado do que há 20 anos. Isso condicionará muita coisa - uma delas, o ensino.
Como disse o João, os alunos saem da escola com menos bagagem de conhecimento adquirido. Não são obrigados a memorizar dados, teorias, fórmulas ou datas. Ensina-se menos nas salas de aula, incentivando os alunos a procurarem por si mesmos na internet.
Ora se isto por um lado tem a vantagem de lhes colocar à disposição um reportório gigantesco para consulta, por outro coloca-os em contacto com muita informação errónea em paralelo com a válida. Mas não só. Hoje não se "tem que saber": pesquisa-se. Apreendem-se coisas desnecessárias, contraditórias ou erradas misturadas com as que realmente interessam.

Ao não ter o mesmo tipo ou nível de "bagagem cultural" que a geração em que me incluo foi obrigada a absorver, os membros da geração que agora povoa liceus e universidades (salvo casos "raros" de carolice pessoal dos próprios, dos pais ou de níveis de exigência superiores em alguns estabelecimentos de ensino) ou que tenham concluído os estudos há pouco tempo são menos exigentes no que diz respeito à leitura. Os clássicos da literatura são considerados maçudos, chatos ou desinteressantes. A hard SF, para eles, é ou roça o incompreensível.

Com políticas educacionais que não consideram sequer essencial um bom domínio da língua-mãe (e nota-se isto tremendamente nas tais notícias de rodapé nos telejornais onde pululam casos de Síndroma do Hífen Flutuante*) não me parece que tenhamos muitos futuros escritores de qualidade em termos gerais, quanto mais na FC...

Sim, sempre existiu o desagrado de uma geração face à seguinte; mas na minha opinião tal deveu-se à rejeição dos mais novos aos modelos dos mais velhos. Se neste momento exigimos cada vez menos da próxima geração, que moral teremos para falar da sua incapacidade generalizada (novamente com honrosas excepções) em coisas que exijam "pensar um bocadinho mais do que a média"?
Entramos num ciclo vicioso... não lhes proporcionando "bagagem", não estão/vão estar preparados para leituras que exigem essa bagagem. Portanto, forneçamos-lhes sucedâneos que possam ler/apreender sem esforço! Eles agradecem e compram, livro-pipoca atrás de livro-pipoca.
Os que tiverem a curiosidade e capacidade de obter essa bagagem por si só e queiram ler livros como os que nos deleitaram, ficam, tal como nós, reduzidos a esses mesmos livros.

Estima-se que as vendas de títulos de FC em Portugal nunca tenham sido muito expressivas. Novos leitores do género? Face ao que expus acima, não surgirão muitos. Para quê então editar boa (ou sequer mediana) FC se a pool dos seus leitores dificilmente sofrerá um aumento significativo nos próximos anos que justifique o investimento na publicação?

Quer-me parecer que é isto que se pensa nos centros de decisão da maioria das editoras nacionais... ao fim e ao cabo, o give the majority what they want and screw the rest, puro e duro.
:(


* nota - Síndroma do Hífen Flutuante ou SHF: patologia de utilizadores da língua portuguesa que impede que se coloque o hífen no devido lugar. Exemplos: disses-te, roubas-te, imprimis-te.

João Seixas disse...

Cara Regina,

Ao que diz, acrescentaria ainda o facto de ter-se aprofundado (não digo já "criado", pois o fenómeno não é novo) drasticamente uma cultura do orgulho na ignorância: como se o facto de sermos portadores de conhecimentos sem um aspecto de imediatismo prático, seja algo anormal. É vê-los nos concursos televisivos, a falharem as perguntas mais simples com aqueles sorrisos basbaques de "mas quem é que quer saber disto?". O simples facto de acharem que o saber a resposta é que faria deles nerds ou atrasados. E depois a surpresa, quando alguém lhes chama burros com todas as letras; uma surpresa que advém do choque, como um branco de outrora que levasse um bofetão de um negro.

Creio que uma troca de palavras entre uma concorrente e um apresentador num concurso televisivo resume tudo isto:

O apresentador:
"Não quer pensar mais um bocadinho...?"

A concorrente:
"Sozinha!?"