quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A muralha da indiferença é a muralha mais alta


Há determinados livros que nos fazem repensar todo um género. Que nos obrigam a rever mesmo os nossos hábitos de leitura, o nosso conceito de narrativa e a nossa relação com o texto impresso. São livros que surgem raramente e espaçados no tempo.

Hoje chega às livrarias um desses livros: A Muralha de Gelo (Saída de Emergência), é a segunda parte de A Guerra dos Tronos, ambos formando o primeiro volume da saga As Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin. Mas dizer isto é ficar aquém da realidade, pois as separações são totalmente arbitrárias numa série de volumes que contam uma só história, espartilhada somente por exigências editoriais, quer na edição original, quer nas várias traduções que se vão distribuindo um pouco por todo o mundo.

Digamos então que As Crónicas de Gelo e Fogo são aquilo que todos os épicos de fantasia gostavam de ser: complexas, violentas, intrincadas, com magnífico desenvolvimento de personagens e, acima de tudo, dotadas de uma perfeita coerência interna a nível da essencial irrealidade das suas premissas.

O mérito da obra não é de difícil reconhecimento: abençoados (ou amaldiçoados) com o intervalo de tempo que mediou entre a sua publicação original e a tradução que agora nos chega às mãos, não somos obrigados a um esforço crítico. A obra é já reconhecida como um marco da literatura fantástica – a par de outros como O Senhor dos Anéis, Gormenghast ou Glorianna – cujo lugar definitivo na Grande Biblioteca da Imaginação se mostra apenas dependente da efectiva conclusão da epopeia, e dos precisos termos dessa conclusão.

Por isso o livro desafia os nossos hábitos de leitura, o nosso conceito de narrativa, a expectativa com que sempre enfrentamos um livro novo: a de encontrar um final. As Crónicas de Gelo e Fogo ainda não têm um final; mas deliciem-se os leitores com os vários finais e recomeços que vão marcando o fluxo da acção. Martin é um artesão da escrita, e a ríspida simplicidade da linguagem, em toda a sua aparente simplicidade, é o maior logro dos grandes artesãos.

Quando, na revista OS MEUS LIVROS de Novembro de 2005 – há exactamente 2 anos – me pediram uma lista de obras de Fantasia de referência, considerei uma vergonha que ainda não tivesse sido traduzido entre nós George R.R. Martin: agora que o foi, é uma vergonha se lhe respondermos com indiferença.

Por isso, aproveitem esta semana tão propícia ao Fantástico e a bem conseguida tradução de Jorge Candeias (anos luz à frente da tradução da edição pirata que ainda se pode encontrar no refugo de algumas feiras do livro), para mergulharem no mundo cruel, sombrio e violento de Martin; e acabarão por descobrir quão soberbo e resplandecente pode ser.

6 comentários:

Luís Rodrigues disse...

. . . Entre as quais a indiferença dos próprios editores, e aqui lamento o lapso de não haver ninguém para discutir este e outros lançamentos no Fórum Fantástico que se avizinha. Por isso é pena ver livros como _A Game of Thrones_ do Martin, _Titus Groan_ do Mervyn Peake (também da Saída de Emergência) ou _Atlas das Nuvens_ do David Mitchell (pela D. Quixote) darem lugar a apresentações requentadas e ao enésimo debate sobre Lovecraft & Cia. De bom grado teria preparado uma apresentação sobre Mervyn Peake, por exemplo, apesar da minha agenda preenchida e da minha aversão aos discursos em público, mas só descobri tarde demais que algumas das melhores literaturas do ano seriam recebidas com o mais fúnebre dos silêncios. Ironicamente, da parte de quem menos interesse teria num enterro.

Luís Rodrigues disse...

E quem diz os exemplos acima, diz também o romance do Gordon Dahlquist pela Bertrand e o _Argento-Vivo_ do Neal Stephenson pela Tinta da China (pessoalmente, não gosto do livro, mas não deixa de ser uma omissão um tanto conspícua).

Barreiros disse...

...para já não falar do único romance de FC genuina, publicado em Portugal este ano, o gigantesco, apocalíptico, assumidamente pulpesco relato do fim do mundo as we know it, o QUINTO DIA!

Ricardo disse...

Lá venho eu fazer de advogado do Diabo... mas isso já não foi sobejamente "explicado" pelos coordenadores como sendo o FF um evento abrangente que pretende abarcar o máximo de público? Pelo menos foi o que li quando se falou na infame faixa à volta do _O Olho do Mundo_

Se formos a ver bem chama muito mais a enésima discussão de Lovecraft do que falar de Peake, Dahlquist ou Stephenson.

Claro que podia haver espacinho para todos, mas é a vida. O que não impede que durante o ano e à margem dos FFs se possa ir fazendo alguma coisa.

Continuo é lixado com os horários e esses não há advogados que os livrem! Que raios!

Luís Rodrigues disse...

Tanto quanto sei, o FF nunca deixou de estar aberto a todo o tipo de sugestões, e foi-me dado a entender que a própria organização tentou contactar pelo menos um dos editores acima (não vou dizer qual ou quais) no sentido de divulgar as suas obras, não tendo, todavia, obtido qualquer tipo de resposta. Não se tratou portanto de uma questão de espaço nem de aproximação aos gostos populares, haveria sempre lugar para (no mínimo) mais uma ou duas comunicações. Mas ao que parece, quem quer vender livros não quer vender tantos livros quanto isso, pelo que a oportunidade acabou por passar.

Ricardo disse...

Desculpa lá estar lerdo, Luís, mas para fazer uma apresentação sobre o Mervyn Peake é necessário ter a bênção do editor? Que vem ao caso se ele está interessado ou não?

Mal comparado nos fóruns e ezines também aparecem "críticas" aos livros e tanto quanto eu saiba não precisamos do aval de ninguém. É aliás a melhor forma de "atacar" os assuntos com máxima isenção. :-D