sexta-feira, 3 de julho de 2015

BLADE RUNNER - ANO 8: O NÃO ANIVERSÁRIO

Há que reconhecer que o Blade Runner, nesta sua intermitência vital, neste perpétuo oscilar entre o abandono e a reanimação, começa a ser uma doentia ilustração daquela que venho apontando como sendo a característica essencial do Fantástico luso: o Eterno Recomeço. Algo que adquire contornos tanto mais preocupantes quando, relendo todos estes propósitos falhados, me apercebo de como poderia hoje escrever o mesmo que escrevi, por exemplo, em 2009: "a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica." E é lamentável constatar como as constantes lamúrias que vão aborrecendo o próprio que as profere, continuam actuais, continuam justificadas, continuam a resistir a todos os protestos dos optimistas que não deixam de repetir, "desta vez é que é".

Mas não é. Nunca é. Os projectos e as intenções, próprias e alheias, sucedem-se, de ano para ano, e são como rolhas à tona de um mar encarpado, ora emergem da espuma prenhes de esperança, ora desaparecem sob as ondas negras para não mais ressurgirem, deixando atrás de si mais lamúrias e mais queixumes e, sobretudo, mais porquês.

Cada vez mais me convenço, contra a minha própria vontade, contra o meu próprio querer, que a FC e os portugueses não têm muito em comum. É a síndroma do Comandante Silva feito carne e osso em cada leitor que vira as costas aos livros de FC nas prateleiras das livrarias (se ao menos eles lá estivessem). O mais curioso e deprimente é que isso acontece numa altura em que, praticamente todos os anos, surgem dois ou três excelentes filmes de ficção científica. É como se, ao contrário da Fantasia ou do Horror (ou do pseudo-horror, no caso de Stephenie Meyer - ainda alguém se lembra dela?), o cinema de FC estivesse separado da literatura num compartimento estanque que impedisse qualquer contágio, para o melhor ou para o pior.

O pior, por sua vez - porque nem tudo pode ser mau - parece ter diminuído um pouco. Com o desaparecimento de Meyer e Paolini (alguém ainda se recorda dele?), e mesmo de Harry Potter, a chusma de imitadores imberbes, incapaz de escrever bem ou de evoluir na sua escrita, desapareceu dos catálogos das editoras, reaparecendo apenas esporadicamente nas vanity presses. As editoras, sem esse poço de baixo custo, começaram a publicar obras que se assemelhassem mais aos grandes fenómenos de sucesso: quis a sorte que o maior de todos fosse a adaptação televisiva de A Game of Thrones de George R.R. Martin.

O fenómeno é interessante de ilustrar. Há exactamente 10 anos, em duas edições da revista "Os Meus Livros" (OML #26, Abril de 2005, e OML #33, Novembro de 2005), noutros tantos dossiers temáticos sobre a FC e a Fantasia que elaborei, redigi duas listas de 10 títulos de cada género que me parecia vergonhoso não terem ainda sido traduzidos e publicados em Portugal. Foram eles, para a FC:
1) O Ciclo Instrumentality of Mankind (1955-1966), de Cordwainer Smith
2) Stand on Zanzibar (1968), de John Brunner
3) Dangerous Visions (1967), editado por Harlan Ellison
4) Bug Jack Barron (1969), de Norman Spinrad
5) The Centauri Device (1974), de M. John Harrison
6) Dahlgren (1975), de Samuel R. Delany
7) Blood Music (1982), de Greg Bear
8) The Anubis Gates (1983), de Tim Powers
9) The Hyperion Cantos (4 Vols, 1991-1999), de Dan Simmons
10) Perdido Street Station (2000), de China Miéville
E, para a Fantasia:
1) A trilogia Ghormenghast (1946-1959), de Mervyn Peake
2) O ciclo Fafhrd & the Grey Mouser (1937-1987), de Fritz Leiber
3) O ciclo Dying Earth (1950-1984), de Joack Vance
4) O ciclo Viriconium (1971-1991), de M. John Harrison
5) O ciclo Dark Tower (1978-2004), de Stephen King
6) The Iron Dragon's Daughter (1995), de Michael Swanwick
7) Heroes Die (1998), de Matthew Woodring Stover
8) Ash (2000), de Mary Gentle
9) O ciclo Kushiel (2001-2005), de Jacqueline Carey
10) A saga A Song of Ice and Fire (1995-2005), de George R.R. Martin
Comparando as duas listas, é impossível deixar de observar que da lista da ficção científica, nenhum dos títulos foi ainda traduzido e publicado em português - apenas os direitos de The Anubis Gates foram adquiridos para Portugal pela Saída de Emergência, não tendo o livro sido publicado por motivos totalmente alheios à vontade da editora. É um resultado paupérrimo, de apenas 10% de recuperação de um atraso de décadas na publicação de clássicos indiscutíveis do género (aos quais facilmente se poderia juntar uma boa centena mais de títulos, incluindo obras de autores que nunca foram publicados, de todo, em Portugal).

Já no que respeita à Fantasia, o resultado salda-se por um impressionante 50%, sendo que praticamente apenas ficaram de fora os títulos individuais, tendo sido publicadas todas as séries, compostas de vários volumes (com excepção do pobre Leiber, de quem apenas um volume foi publicado). Um ponto que merece ser salientado, é que com excepção da saga de Stephen King, publicada pela Bertrand, todas as outras foram publicadas por uma única editora, a Saída de Emergência, confirmando também aquilo que tenho vindo a observar, nomeadamente que a aparente proliferação de obras de FC&F um pouco por todas as editoras prende-se meramente com a imitação de epifenómenos de vendas e não com qualquer aposta séria e criteriosa na literatura de género.

Ainda assim, 50% daquela lista é bom, não é? Não sei. Num mercado variado, onde títulos de vários géneros competissem pela atenção do leitor, sim, sem dúvida. Mas na nossa realidade, estes números têm que ser lidos (ou, pelo menos, é essa leitura que faço), num contexto bem menos luminoso. Este crescimento da publicação de Fantasia - dir-se-ia mesmo esta manifesta hegemonia da Fantasia Épica de pendor medieval - parece-me apenas mais uma manifestação de um percebido atavismo cultural. Mais uma manifestação de teconofobia, se não mesmo de futurofobia, expressa de igual forma na febre de feiras medievais higienizadas e idealizadas que pululam um pouco por todo o país. Incapaz de enfrentar o futuro, parece que o país se volta para um passado irreal, um passado de Fantasia. Este saudosismo do passado não deixa incólumes os próprios autores de FC, afadigados em steampunks, winepunks, electropunks, dieselpunks (eu próprio, no pouco que tenho publicado recentemente, me tenho cingido ao passado)... Talvez seja sintoma de saudades de um passado em que ainda era possível sonhar o futuro.

É, porém, esta capacidade de sonhar o futuro que parece ter-se perdido. Ignorância do saber científico - pior, cepticismo face à ciência - contribui imenso para isso. De certa forma, a impressão com que ficamos é a de estarmos prestes a mergulhar novamente numa Idade Média, pelo menos ao nível da imaginação. A magia e a crença no sobrenatural substituem progressiva e paulatinamente a ciência. Não é possível sonhar o futuro, porque a Fantasia nos promete apenas um eterno presente. Um presente que é, curiosamente, apenas o passado idealizado.

É altura de recuperar o Futuro, se ainda formos a tempo.