quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS FILHOS DO DIABO



Os anos setenta - a geração do "eu" - foram ao mesmo tempo o culminar e a antítese das convulsões sociais dos anos do flower power. Estreada com o sangue de Altamont (1969), a década de 70 foi um misto estranhíssimo de (neo)realismo, cinismo, racionalismo científico, sobrenatural, satanismo, catastrofismo e a afirmação do indivíduo. Se isso foi assim em quase todo o mundo ocidental (pelo menos no hemisfério norte e América Latina), que dizer de Portugal, que sensivelmente a meio da década experimentou a última "revolução" militar do século XX na Europa? Como temos vindo a constatar ao longo desta série de posts, a ânsia de descoberta da cultura ocidental (e alguma oriental) - fosse ao nível da produção cinematográfica de Hollywood, da Cinecittá, de Hong Kong, do Japão, fosse ao nível da literatura de género, sobretudo europeia e americana - traduzia-se na tradução, sem qualquer critério ou linha orientadora, de tudo aquilo que estava na moda ou na berra além-fronteiras.

E, se houve um filme que esteve na moda além fronteiras em 1973, foi The Exorcist de William Friedkin, baseado no romance homónimo de Peter Blatty. A par de Rosemary's Baby (1968) de Polanski (baseado na novela de Ira Levin), O Exorcista iria despoletar uma vaga de imitações nos quatro cantos do mundo, colocando a religião e o satanismo no centro da discussão. Os acontecimentos de Jonestown em 1978, vieram apenas sublinhar os extremos a que a irracionalidade religiosa pode chegar.

Os anos setenta, mais do que qualquer outra década, viram aumentar a procura de livros e filmes sobre O Diabo, sobre o Ocultismo (ou melhor, aquele oxímoro que é "as Ciências Ocultas") e sobre os rituais satânicos. É certo que Stephen King veio revolucionar o estagnado género do horror em meados da década, mas as suas ideias encontraram solo fértil numa sociedade que parecia ter absorvido cada nuance das missas negras, dos sacrifícios humanos, da cópula diabólica e das orgias do bode. Em Portugal, dando seguimento ao grande sucesso da publicação de O Despertar dos Mágicos (La Matin des Magiciens) de Bergier e Powells pela Bertrand, surgiram inúmeras coleccções sobre (pseudo)enigmas da história (outro fenómeno paralelo despoletado pelo clássico da pseudo-ciência Eram os Deuses Astronautas? de von Däniken), ocultismo e demais mistérios ovniológicos (Portas do Desconhecido, Enigmas disto e daquilo, etc...)

Perdido no meio desa avalanche que se estendeu até meados dos anos 80, quando os portugueses parecem ter descoberto os livros de auto-ajuda, e a PORTUGAL PRESS traduziu entre nós este OS FILHOS DO DIABO, uma antologia de contos organizada por Peter Haining (1940-2007), misturados com duas breves notícias relacinadas com satanismo e retiradas de jornais ingleses e excertos de obras de Aleister Crowley e Montague Summers. Os filhos do diabo, no dizer de Haining, são os satanistas, aqueles que prestam culto ao Maligno, numa linha de continuidade com os míticos sabbaths de outrora.

Haining foi um insigne antologiador, especialista em literatura de horror e conhecedor profundo da série de televisão Dr. Who (1961-). No entanto, na apresentação que nos é feita do autor neste volume, o ênfase (tal como sucedera também com Dennis Wheatley, que também está representado neste volume) é colocado na impressão de que ele seria alguém profundamente envolvido nas práticas ocultas: "Peter Haining é um escritor e antologista que vive no coração da famosa «região das bruxas» no Essex (...) Possui uma vasta biblioteca de raros e valiosos livros sobre Ocultismo, quer de verdadeiro, quer de ficção, e está presentemente empenhado em editar mais duas antologias e um estudo pormenorizado sobre Bruxaria e Magia Negra".

No interior do volume, para além de uma introdução de August Derleth, encontramos contos clássicos de Lovecraft, E. F. Benson, Algernon Blackwood e Clive Cartmill, criteriosamente seleccionados e precedidos de uma breve introdução histórica e temática. Ecos de um período onde um livro de bolso podia esconder sob a capa lúbrica e ousada - da autoria de Carlos Alberto, que no ano seguinte começaria a ilustrar as histórias e a elaborar as capas dos 28 números da Zakarella de Roussado Pinto), e que aqui retém apenas a cabeça do bode e a disposição cromática da capa original - uma selecção de contos de autores de alto quilate, raramente traduzidos entre nós, antes ou depois.

Publicado em Março de 1975, e abrindo com a advertência AVISO AO LEITOR: FECHE ESTE LIVRO ANTES DO CAIR DA NOITE. O HORROR CRESCENTE DAS SUAS PÁGINAS JAMAIS FOI IGUALADO!, é mais um marco de uma era estranha da história cultural de Portugal... uma era onde tudo era permitido e todas as esperanças eram legítimas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um livro por dia: 11/FC



Em comentário a um dos posts recentes desta série, o João Barreiros referiu um dos mais estranhos fenómenos do mercado editorial do período 1964-1985: as antologias de contos da PALIREX, um conjunto de títulos de referência que mereciam ter permanecido nas prateleiras como (múltipla) porta de entrada na literatura de ficção científica. Delas, talvez a mais estranha tenha sido 11/FC (Onze Grandes Histórias de FC), editada por Groff Conklin, e que sem exagero poderíamos classificar como "o livro que nunca existiu".

Grof Conklin (1904-1968) foi crítico de FC na prestigiada revista GALAXY, e entre 1946 e 1968, colocou o seu extenso saber e paixão pelo género ao serviço dos leitores, dirigindo nada menos que 41 antologias de Ficção Científica e Horror. Várias dessas antologias, tinham um numeral no título (6 Great Short Novels of SF; 12 Great Classics of SF; 50 Short SF Tales) e, ao longo de duas décadas e meia foram responsáveis pela captação de inúmeros leitores, para além de serem um excelente repositório do melhor que se fazia na época. No entanto, consultando a obra de referência 41 Above the Rest: An Index and Checklist for the Anthologies of Groff Conklin (2004) de Bud Webster, debalde procuraremos a antologia com o título "11 Great Stories of Science Fiction". Mas, sejamos honestos, não é esse o título original que nos é dado pela ficha técnica deste volume da PALIREX: IL GREAT STORIES OF SCIENCE-FICTION. Uma "astuciosa" gralha, ou um acaso conveniente? Impossível responder. Tal como é imossível responder à mesma questão quando aplicada à deturpação do nome do compilador que surge na capa (Croff Conklin). É certo que o fantástico mundo literário que se descubria nesse momento, transbordava mais de entusiamo do que profissionalismo, e o desconhecimento quase completo do que se fazia e vinha fazendo era crónico, propiciando erros e conjecturas que por vezes raiavam o ridículo (Roussado Pinto, numa das suas antologias, lendo o nome do proprietário do copyright de um conto de Borges publicado nos Estados Unidos, chegava a aventar a possibilidade de que Jorge Luis Borges fosse o pseudónimo de um autor americano!).

No entanto, consultando o conteúdo da antologia, é fácil apercebermo-nos de que se trata de 13 Great Stories of Science Fiction, editada por Conklin em 1960, e dedicada a todo o tipo de invenções que não as da "era da máquina" (que ele cobrira já em Thinking Machines em 1956), expurgada de dois dos seus contos (provavelmente por os direitos de reprodução em Portugal pertencerem a outras editoras), nomeadamente The Skills of Xanadu de Theodore Sturgeon e Silence Please de A. C. Clarke.

Pese embora essa amputação dê origem a um volume que deve ser prezado sobretudo pelos coleccionadores deste tipo de anomalias, o que resta da amputação é ainda suficientemente sumarento para garantir várias horas de interessante leitura. 11/FC fo uma das primeiras antologias de ficção científica que li quando comecei a interessar-me por este género literário, e se os contos de Damon Knight (Os Análogos), Wyman Guin (Volpla, que quase jurava estar na origem dos vulpis do TERRARIUM), e John Wyndham (Circuito de Compaixão) nunca me saíram da cabeça, foi o conto de Poul Anderson (A Luz), talvez o mais estranho e poético desta antologia, o que mais me marcou, pelo absurdo da situação conjugado com o tratamento literário de Anderson (imaginem um astronauta na Lua, que pensa reconhecer uma certa carcaterística da luminosidade lunar que terá entrevisto num quadro de um famoso pintor, que nunca teria podido visitar o nosso satélite; somem-lhe o facto de que se trata de uma antologia sobre invenções e...).


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um livro por dia: O PLANETA ESPELHO



Mais um exemplo do caos total em que a FC sempre se viu mergulhada no mercado editorial portugês é este O PLANETA ESPELHO, oitavo volume da colecção Galáxia da Editorial Verbo. O PLANETA ESPELHO, tradução do original alemão Der Spiegelplanet (1978), é a décima-sétima aventura de Mark Brandis, que faz aqui as vezes de autor e personagem principal (à semelhança do que sucedia com Alan Burt Akers/Kenneth Bulmer na interminável saga de Dray Prescot).

Mark Brandis é na realidade o pseudónimo sob o qual se acolheu o jornalista e autor alemão Nikolai von Michalewsky para assinar as 31 aventuras do personagem com o mesmo nome, primeiro astronauta e piloto de testes, depois piloto de uma nave de socorro num mundo dividido entre a União da Europa, das Américas e da África e as Repúblicas Orientais Unidas (qualquer um destes topónimos deverá soar melhor em alemão) antes de passar a viver aventuras espaciais à laia de Star Trek, como é o caso do presente volume.

Tanto quanto sei, esta é a única aventura de Mark Brandis publicada entre nós, o que obriga o leitor a mergulhar in media res, sem saber nada do que se passou para trás, e sem perspectivas de acompanhamento das futuras aventuras do personagem, se a tanto se sentir inclinado. Mais uma vez fica a sensação de que os nossos editores vão apenas tacteando os gostos do público e a potencialidade das vendas, sem realmente "conhecerem" o género que pretendem explorar - e sem lhe votarem o menor módico de interesse, que não pelo potencial de receitas absolutas.

O PLANETA ESPELHO foi publicado em Maio de 1980, com capa original de José Antunes e ilustrações interiores a preto e branco de Nuno Amorim, que vão do banal descritivo ao conceptual interessante (num próximo post, reproduzirei as minhas preferidas).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS INIMIGOS DO SISTEMA



Bom, o livro de hoje não é bem um livro. Na verdade, é um objecto difícil de classificar e, de certa forma, característico daquele que tem sido o padrão do Fantástico em Portugal: atrevimento e modéstia, indefinição, efemeridade, moda, caos.

O Magazine do Fantástico e Ficção Científica conheceu cinco números editados entre nós em finais da década de 70 por Vítor Claudino, e eram uma adaptação do célebre e celebrado Magazine of Fantasy and Science Fiction, fundado em 1949 por Boucher e McComas e que ainda hoje é uma das três grandes revistas de referência na área do Fantástico (as outras são, claro, a Asimov's e a Analog). No entanto, ao invés de consistir na versão nacional dessa publicação, Vítor Claudino optou por operar apenas uma selecção de contos, expurgando o conteúdo das ilustrações, colunas críticas e ensaios da sua congénere norte-americana, assim a transformando numa forma de antologia atípica. Para aumentar ainda mais a estranheza deste objecto, os reponsáveis do projecto parecem indecisos quanto à natureza e objectivos do mesmo: ao mesmo tempo apresentando-se como um magazine, possui título individual e insere-se numa colecção (a colecção "Parsec").

OS INIMIGOS DO SISTEMA, título do primeiro número dado à estampa, é apenas o título de uma das histórias contidas no volume, tradução da célebre noveleta de Brian Aldiss ENEMIES OF THE SYSTEM: A TALE OF HOMO UNIFORMIS (1978), que a Vega viria a re-editar anos mais tarde (as outras são A SANGUESSUGA de Frank Sisk, O FEITO de Andrew Weiner, CASA DIVIDIDA de Lee Killough e O REI DAS RÃS de Richard Olin).

O reduzido número de volumes publicados permanece como um sintoma da relação atípica do mercado português para com a Ficção Científica e o Fantástico; oriundo da febre de FC que se gerou em Portugal - e no mundo - após a estreia de Star Wars em 1977, não conseguiu mesmo assim singrar apesar da sua tríplice natureza e do preço avulso de cada volume se cifrar nos 40$00 de então (preço que me parece acessível, quando comparado, por exemplo, com o de outras revistas e jornais diários da época - a Zakarella, se bem me recordo, custava 15$00 em 1978, e tinha apenas 20 páginas). Não excluo, porém, a hipótese de ter sido mais uma vítima da proibição da saída de divisas então decretada. Curioso é que após a "fartura" que se gerou no pós-25 de Abril (e que deveria ter criado uma certa habituação no leitor), esta súbita quebra de oferta, provocada pelo desaparecimento simultâneo de tantas publicações, não tenha servido de nicho para o desenvolvimento de autores nacionais. Efectivamente, desta época - ao mesmo tempo áurea e negra - apenas nos ficaram os esforços de autores como Roussado Pinto (Ross Pynn), Luís Campos (Frank Gold) e mais um punhado de autores que pontificaram ainda na década de oitenta na colecção Bolso Noite, dirigida por este último.

Desta forma se foi construindo lentamente a história da publicação de FC&F entre nós: apesar de uma aparente riqueza e variedade, as experiências eram curtas e efémeras, sem critério ou sistema, transformando essa mesma história num vasto cemitério de títulos desaparecidos, colecções moribundas e autores esquecidos.

domingo, 2 de novembro de 2008

Um livro por dia: JUSTIÇA FACIAL



Pese embora o teor deste meu post, não pensemos que Portugal era um deserto em tempos de ditadura. Aliás, e se nos abstrairmos dos depoientos gemebundos dos nossos autores que viveram a ditadura queixando-se da censura, em surdina, para em 1975 abrirem as gavetas e revelarem que estavam absolutamente vazias - que nenhum manuscrito impossível de publicar ficou a aguardar por melhores dias, que nenhuma ideia subversiva lhes saira das cabecinhas bem pensantes - a verdade é que a nossa ditadura foi particularmente sui generis. O Pássaro Pintado de Kosinski foi publicado em 1968 e, tanto quanto me foi dado saber, prontamente retirado do mercado. No entanto, em 1964, os Estúdios Cor lograram dar à estampa um livrinho com o sugestivo título de Cinco Novelas de Antecipação Soviéticas, sem qualquer problema.

Mas, como diria L. P. Hartley (em The Go-Between, 1953): "O passado é um lugar estranho. Lá fazem as coisas de maneira diferente." E se isso é assim, em geral, que dizer deste nosso Portugal?

Pois L. P. Hartley foi precisamente o autor que, em Abril de 1961, a Editorial Minotauro escolheu para estrear a sua colecção Órbita, dirigida por Fernando de Castro Ferro. Com tradução do mesmo F. C. Ferro, capa de Fernando Azevedo e 292 páginas de texto, este JUSTIÇA FACIAL (tradução literal de Facial Justice, título original da obra), surge no mercado nacional no ano seguinte (em Abril) à sua publicação original, coisa hoje cada vez mais rara. Sem qualquer constrangimento, a editora escreve Ficção Científica com todas as letras (e sem o malfadado ífen - que é como deve ser) logo no topo da capa, e apresenta correctamente o livro como inserindo-se na senda de obras como 0 Brave New World e 1984, embora não se prive de alertar que se trata de um livro "que nos oferece uma visão, mais psicológica do que científica, de um «Estado»existente num futuro não muito distante", para provar que nem tudo é diferente hoje em dia.

O futuro proposto por Hartley não é muito interessante, nem muito credível, mas tal como 1984 - um grande livro, mas um mau livro de FC, if you know what I mean - é uma obra que ganha muito ao ser lida como alegoria simbólica de um certo estado de coisas. E, tal como em 1984, esse estado de coisas é o que pode emergir de uma sociedade literalmente comunista, que leve os princípios Marxistas-Leninistas ao extremo do absurdo. Que Hartley tenha escolhido como símbolo desse absurdo a imposição de um ideal de beleza feminino, não deixa de causar ao mesmo tempo estranheza e fascínio no leitor. Efectivamente, o passado é um local muito estranho... mesmo - ou sobretudo - quando quer descrever o futuro.

Na mesma colecção foram posteriormente publicados os Nove Amanhãs de Isaac Asimov e a Missão de Gravidade de Hal Clement.

Uma capa por dia / 30 dias de pulp


À laia de impiedosa ampulheta, marcando a cadência implacável para o final do prazo (prorrogado para 30 de Novembro) do concurso PULP FICTION À PORTUGUESA organizado pela Saída de Emergência, com coordenação de Luís Filipe Silva, o nosso vizinho Tecnofantasia resolveu assumir o desafio de publicar uma capa pulp por dia... acompanhada de um pequeno e delicioso conto que desenvolve a ideia sugerida pela capa, por vezes até conclusões surpreendentes.

Ora, antecipando o desafio, o Blade Runner começou já a publicar uma capa por dia: mas ao invés de recorrer à vasta iconoteca on-line, preferi seleccionar algumas capas da minha própria colecção de título de Ficção Científica, Fantasia e Horror, publicados em Portugal, e há muito desaparecidos dos catálogos e - às vezes - dos próprios alfarrabistas.

Mas, e para fazer o gosto ao dedo, e prosseguindo com a série que comecei a publicar, de forma errática, aqui, cá fica a capa da Science Fiction Adventures de Julho de 1962, que representa de forma exemplar a ideia de tempo a esgotar-se.

sábado, 1 de novembro de 2008

Um livro para o Halloween



O Horror sempre foi um género muito mal tratado entre nós. As poucas colecções que a ele se dedicaram - mormente a saudosa Livro B da Estampa e a menos saudosa Pêndulo da Europa-América - limitavam-se quase exclusivamente à reprodução de textos no domínio público, desde os clássicos (Stoker, Maupassant, Poe, Radcliff), passando por mistos quase indefiníveis de policial e macabro (Edgar Wallace), tie-ins cinematográficos (Carrie, Night of the Living Dead), obras que os próprios autores assinavam sob pseudónimo (o Funhouse de Clive Owen na Pêndulo não foi escrito senão pelo "mestre" Dean Koontz) e a inesperada pérola perdida por entre toda aquela mistela (o Damnation Game de Clive Barker, publicado em dois volumes na Pêndulo). Outras colecções foram inserindo volumes de forma aleatória entre títulos de FC e Policial (com aconteceu com a Bolso Noite da Europress) e títulos avulso foram vendo a luz do dia de quando em quando. No entanto, e sem qualquer exagero, podemos afirmar que o género moderno do Horror é quase totalmente desconhecido do público nacional.

Mas nem sempre foi assim. Ou melhor, houve um período mágico - que decorreu (talvez com alguma subjectividade) entre 1974 e 1985, ou seja, entre o 25 de Abril e a entrada na CEE - em que tudo nos parecia ser permitido. Com a queda da ditadura, gerou-se uma avalancha cultural, onde tudo aquilo de que os anos negros do Salazarismo-Marcelismo nos tiham privado se multiplicava agora de forma imparável: literatura, cinema, comics, revistas políticas, eróticas, pornográficas, fummetti, a New Age, os OVNI, o disco sound, o rock and roll, o despertar dos mágicos, o Satanismo, tudo era absorvido e reproduzido sem progressão, sequência ou critério. E, na ânsia de mostrar que éramos um país capaz de se modernizar, procurávamos mostrar que também éramos capazes de fazer igual. Muitas vezes sinto a necessidade de folhear algumas revistas da época, sobretudo a revista política de esquerda OPÇÃO, de que herdei a colecção quase completa do meu avô, e fico verdadeiramente aparvalhado com a variedade cultural, de oferta e de gostos que era possível satisfazer nesse período. Em 1978, as coisas começaram a mudar quando o governo proibiu a compra de dólares como forma de impedir a saída de divisas nacionais, assim impedindo o pagamento de direitos para publicação de material estrangeiro. Revistas como a saborosa Zakarella (dirigida por Roussado Pinto e publicando banda desenhada de horror da escola da EC Comics) extinguiram-se impossibilitadas de comprar material novo para publicar. Creio que foi nessa altura que se começou a gerar a nossa presente mediocridade.

Mas desse breve período, em que nos foram entreabertos os portões da modernidade e da civilização, muito ficou, não só na nossa memória, mas também nas prateleiras de alguns alfarrabistas. E, por vezes, oriundos de fontes verdadeiramente inesperadas: é o caso destes CONTOS DE TERROR, uma antologia em que José Vilhena (humorista e caricaturista que dispensa apresentações) não só editou e seleccionou os textos, como traduziu e elaborou a ilustração de capa. E uma coisa se pode dizer de Vilhena: ele conhece os seus autores. Desde o clássico A COISA NO HALL de E. F. Benson ao mais que clássico OS RATOS DO CEMITÉRIO de Henry Kuttner, são dezassete os contos muito bem traduzidos que compõe as 194 páginas deste volume.

Confesso que não consigo datar a edição, impressa no Centro Gráfico das Beiras (Fundão) e distribuído pela «Specil». Na ilustração de capa, penso conseguir ler a data de 1967 na lápide que se encontra em plano mais próximo, mas é impossível dizer se é essa a data da ilustração ou da própria edição. Seja como for, foi o primeiro livro de Horror que li na minha vida. O livro era do meu pai, e estava "escondido" entre os vários volumes da Biblioteca RTP da Verbo, os clássicos de Júlio Dinis (que tentei ler, sem sucesso), Fernando Namora (idem) e Ferreira de Castro (deste gostei). Isso teria sucedido algures em finais dos anos 70 ou começos dos 80, pois eu estaria a frequentar, ou os últimos anos da escola primária ou o primeiro do ciclo. Era uma altura em que o comboio fantasma que todos os anos visitava Viana nas Festas da Agonia exercia sobre mim um fascínio tal que os meus pais me proibiam de ler o que quer que fosse de horror, convencidos - há boa maneira dos anos 70 - que isso iria perturbar-me o sono. Mas eu li-o. Eu e o meu irmão, quando estávamos sozinhos em casa, eu lendo em voz alta, para assim melhor repartirmos o medo que da leitura pudesse advir. E que leitura! Desde o homem que era submetido a uma autópsia estando ainda consciente (A AUTÓPSIA de G. Heym) ao navio que viajava carregado de caixões (O NAVIO CEMITÉRIO de S. Paintbridge), a descoberta do segredo das estranhas estátuas numa ilha grega (A ILHA DO TERROR de William Sambrot), passando pelo meu favorito de sempre (A BRUXA de Williams Hines, uma história carregada de erotismo sobre uma bruxa que prende o destino de uma mulher ao de um pássaro), foram contos que eu li e reli, uma e outra vez, pois era o único livro de horror que possuía - sim, pois depressa o fiz meu, sonegando-o entre os inúmeros TIO PATINHAS, PATO DONALD e ALMANAQUE DISNEY que compunham a minha incipiente biblioteca. Depressa se lhe foram juntar alguns comics da Vampirella e dos Contos da Crypta (edição Brasileira) que eu conseguia comprar quando ainda se vendiam livros em segunda mão em Viana, graças à conta que o meu pai tinha aberto no Sr. Silva e que me permitia adquirir a minha BD até certo montante (como o montante era escasso, cada revistinha era um tesouro).

Mas, como dizem, não há amor como o primeiro e ao pegar neste pequeno volume esquecido na prateleira, não consigo deixar de sentir aquela magia dos primeiros tempos de contacto com a literatura fantástica. Nunca mais consegui encontrar nada de Williams Hines (um pseudónimo?) e nem a net me consegue ajudar. Mas o esqueleto vampírico e de cabeça rachada que me olha daquela magnífica capa azulada, não deixa nunca de me fazer evocar uma noite de infância, onde os vampiros, os ghouls e os lobisomens se movem entre a neblina de Verão e os morcegos recortam a sua silhueta contra a lua cheia que banha as lápides frias de um cemitério calmo e silencioso.