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domingo, 23 de novembro de 2008

Um livro por dia: ESTAÇÃO DE TRÂNSITO



ADENDA: 24 de Novembro de 2008

O post que se segue contém incorrecções graves, devidamente apontadas pelo José Simões na caixa de comentários e pelo Jorge Candeias no seu blogue, motivadas por uma deficiente pesquisa da minha parte e de alguns erros de datação constantes da Bibliowiki (que, no entanto, não pode ser responsabilizada por este meu - imperdoável - deslize. Apresento por isso as minhas desculpas aos leitores do Blade Runner e aos organizadores da Bibliowiki. Como é óbvio, ser-me-ia extremaente fácil apagar este post, coisa que seria de uma desonestidade intelctual imperdoável. Assim, ao prosseguirem na vossa leitura, devem ficar cientes de que os excertos iluminados a azul contêm erros e incorrecções.

Vamos aproveitar o livro de hoje, ESTAÇÃO DE TRÂNSITO para falar um pouco mais de caos. ESTAÇÃO DE TRÂNSITO, um dos livros mais conhecidos e justamente celebrados de Clifford D. Simak (1904-1988), foi o título escolhido pela Colecção Argonauta para celebrar o seu duocentésimo volume publicado. Como a ocasião se proporcionava, o tomo inclui também o duocentésimo título da Colecção Vampiro (policial), a tradução de The Case of the Crooked Candle (1940), uma das aventuras de Perry Mason de Erle Stanley Gardner. Só por isso, o volume é já digno de nota e da estima de qualquer coleccionador; ademais, a Livros do Brasil adopta aqui a estrutura dos lendários volumes da Ace Double norte americana, publicando os livros dos-a-dos (costas com costas em francês, dois a dois em espanhol) seguindo um eixo horizontal. O único defeito da execução é o facto de a lombada indicar os dois títulos numa mesma orientação vertical, ao invés de em correspondência com a respectiva capa.


Até me arrepio só de pensar que já vi ambos os volumes à venda independentemente em alfarrabistas, pelo mero expediente de os separar pela lombada, destruíndo a unidade de uma peça de colecção.

Ora, seguindo o teor dos anteriores posts, onde de certa forma lamentei o desaparecimento de algumas editoras e colecções, ocorreu-me escolher este volume para mostrar que, apesar das dificuldades, algumas colecções atingiam os 200 números publicados com certa qualidade (a Argonauta passaria dos 600 antes de soçobrar). Mas aqui se levantam os problemas, pois como vem sendo hábito das nossas editoras, a data de publicação do volume é uma incógnita. E é aqui que nasce o caos.


Isto porque, quando aqui falei de OS AMANTES de Philip José Farmer, aventei a hipótese de a nossaediçao se ter baseado na edição da Ballantine, comemorativa dos vinte anos da publicação original, datando por isso a edição da Panorama por volta de 1972. Na sequência imediata desse post, o António de Macedo enviou-me um amável e-mail (que muito agradeço), chamando-me a atenção para o facto de que a Biblioteca Nacional indicava a data de publicação de OS AMANTES, como sendo 1970. Nada mau, isso apenas demonstrava acuidade editorial por parte de Lima Rodrigues, editor da Série Antecipação e da Antecipação Extra.

Pois bem, lembrando-me deste episódio, resolvi fazer o mesmo quanto a ESTAÇÃO DE TRÂNSITO. Way Station, título original da novela que em 1963 reuniu as duas partes de Here Gather the Stars, publicada nesse mesmo ano na revista Galaxy, viria a obter o Hugo de 1964 na categoria de Best Novel. Pois o site da Biblioteca Nacional lista o depósito legal da tradução da Livros do Brasil como sendo 1964, uma data de surpreendente celeridade na tradução - coisa a que não estamos minimamente habituados por cá.


Mistério resolvido. Só que...


ESTAÇÃO DE TRÂNSITO é o número 200 da Colecção Argonauta. E O CONSTRUTOR DE UNIVERSOS, de que já aqui falamos é o número 161 da mesma colecção. Ora, não tenho qualquer dúvida de que este título de Farmer foi publicado em 1970 - após as sequelas publicadas na Série Antecipação - coisa que pude comprovar com coleccionadores que já por cá andavam nessa altura (em especial a enciclopédia ambulante que é o João Barreiros). Surpresa, das surpresas, também a Biblioteca Nacional lista o depósito legal do título de Farmer como sendo 1970, o que invalida a data de publicação de ESTAÇÃO DE TRÂNSITO e, de ums só assentada, descridibiliza de vez as referências da BN.


(Observe-se, en passant, que o mesmo sucede com a Bibliowiki, que indicando correctamente a data de publicação de Farmer como sendo 1970, atribui ao livro de Simak a data de publicação de 1968, adensando ainda mais a confusão. A agravar tudo, o título de Simak nem sequer aparece referido como integrndo a Colecção Argonauta, cujo número 200 nos é indicado como sendo As Máquinas da Destruição de Fred Saberhagen, com data - mais credível - de 1974. Infelizmente, a informação extremamente esparsa da Bibliowiki - que exclui fontes e razões de ciência - não permite controlar a veracidade das suas informações, em muito empobrecendo o seu valor como recurso bibliográfico, como se demonstra por estes exemplos, entre muitos outros com que me fui deparando na elaboração destes posts.)


Assim, continua em dúvida a data de publicação de OS AMANTES (a Bibliwiki bate aqui com a BN, indicando 1970), e deste ESTAÇÃO DE TRÂNSITO, que tudo indica ter sido publicado em meados da década, algures por volta de 1974.


Mais um exemplo de como não existe uma "história" e uma tradição de "fantástico" em Portugal, por muito que os nossos patriotas mais entusiastas arenguem aqueles que acusam o nosso mercado, o nosso fandom, e os nossos editores (e leitores) de se moverem num vazio de referências que é bem real.


Sic transit gloria lusa...


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um livro por dia: A AMEAÇA DO INFINITO



As colecções de literatura de género agregam em si a promessa de uma uniformidade de conteúdos e temáticas que permitirão simultaneamente fidelizar um grupo alargado de leitores e oferecer (idealmente) uma selecção do que melhor esse género tem para oferecer. Até meados da década de sessenta do século passado, a única colecção de literatura de ficção científica - e para lá dela, só o policial encontrou semelhante acolhimento, sendo todas as demais experiências efémeras - digna desse nome era a Colecção Argonauta da Livros do Brasil. Colecção que manteve a supremacia durante quase quatro décadas, até terem surgido primeiro a FC de Bolso da Europa América (1978) e depois a Colecção Azul da Caminho (1984). Pese embora a repetição de alguns títulos e autores entre a Argonauta e a Europa-América, as três colecções complementavam-se de uma forma impossível de repetir hoje em dia quando todas as editoras competem pelo mesmo e a ideia de colecção parece definitivamente posta de parte.

Nesse período que antecedeu o nascimento das principais concorrentes/companheiras da Argonauta, e pese embora várias tentativas de criar colecções temáticas de ficção científica (e já aqui falamos das Colecções Órbita e Galáxia), apenas a mítica Série ANTECIPAÇÃO (1967) da Editorial Panorama, dirigida por Lima Rodrigues, chegou a ameaçar consolidar-se como concorrente directa. Com uma selecção criteriosa de autores e títulos, pecava por uma tradução desastrosa (frequentemente a cargo do não menos mítico Eduardo Saló) e uma distribuição deficiente (provavelmente aliada a uma tiragem limitada) que faz com que os 69 volumes editados sejam encontrados com menor frequência nos alfarrabistas.

A AMEAÇA DO INFINITO, de Fredric Brown, foi o primeiro título desta colecção que viria a integrar alguns clássicos incontornáveis (e que fica a palavra, mesmo para quem não gosta dela) como The Left Hand of Darkness de Ursula LeGuin, a série World of Tiers de Philip José Farmer, Night Wings de Silverberg e uma generosa selecção de títulos de John Brunner, um dos mais injustiçados autores de FC de todos os tempos.

Um pouco também como Fredric Brown, um autor que viu uma série de títulos seus publicados entre nós, sem nunca ter obtido o reconhecimento que lhe é indubitavelmente devido. Dotado de um verdadeiro estatuto de autor de culto em França e nos Estados Unidos (mais ou menos como Dick), é sobretudo reconhecido pelo humor cortante e cruel das suas histórias curtas, verdadeiras pérolas de concisão e impacto narrativo. Embora as suas novelas não atinjam o mesmo nível de exelência das narrativas mais curtas, não são desprovidas de motivos de interesse, dentre os quais sobressai uma imaginação transbordante, capaz de alegorizar e literalizar as fabulações mais inesperadas. Se existe um equivalente literário de Tim Burton, esse é certamente Brown.

AMEAÇA DO INFINITO é a tradução portuguesa (sim, acometida das mesmas falhas de todas as traduçoes de Saló: "Tinham-se apaixonado há um ano, e seis meses depois decidiram casar. Avistaram-se com as respectivas famílias...) de The Mind Thing, a história de um alienígena incorpóreo que se vê "encalhado" no nosso planeta e que pretende regressar ao seu, ocupando sucessivos corpos humanos numa possessão fatal.

Oportunidade também para louvar a excelente capa de Richard Powers, um dos expoentes da ilustração de FC, com motivos que invocam as célebres ilustrações de capa que executou para os 14 volumes de J.G. Ballard publicados pela Berkley Books entre 1962 e 1977.

Um toque distintivo do livro, é a presença de uma gota de goma a unir a face exterior das páginas, garantindo a sua inviolabilidade ao potencial comprador. A Série ANTECIPAÇÃO, que revisitaremos mais vezes, ofereceu aos seus leitores algumas particularidade semelhantes, das quais é de destacar o recurso a um papel azulado, alegadamente para facilitar o esforço de leitura à noite (papel ainda não presente neste volume inicial).