
Até há relativamente pouco tempo, os géneros do Fantástico eram olhados com sobranceria e desdém pelos poucos não iniciados que, por acaso ou curiosidade, se deparavam com um livro de FC nas mãos, um filme de Horror na televisão, ou, mais raramente, uma fantasia épica em qualquer dos suportes. Os iniciados, que bem conheciam a valia que os outros se recusavam a ver, não se poupavam às hipérboles, sobrecarregando o mais modesto série B ou a mais inepta das pulps, com uma carga denotativa e simbólica que muitas vezes nem o melhor de Shakespeare ou o mais brilhante de Bergman conseguiriam transportar. Em última instância, alargavam os braços procurando arrebanhar toda e qualquer obra de valor histórico para o âmbito do seu género de eleição, alheios ao ridículo ou ao potencial disparo de culatra que daí poderiam resultar.
Em The Science Fiction Novel (1964), Kornbluth escrevia a esse propósito que “some of the amateur scholars of science fiction are veritable Hitlers for aggrandizing their field. If they perceive in, say, a sixteenth century satire some vaguely speculative element they see it as a trembling and persecuted minority, demand Anschluss, and proceed to annexe the satire to science fiction”.
Em 1976, na introdução ao seu histórico ensaio The Horror Film, H.W. Dillard tecia considerações semelhantes quanto aos exageros praticados na defesa do cinema de horror antes da publicação dos trabalhos seminais de Carlos Clarens e David Pirie.
Depois um e outro género foram ganhando terreno e foram merecendo maior atenção por parte dos críticos, dos académicos e dos consumidores em geral, e o tom elegíaco foi sendo substituído, finalmente, por um tom sério e ponderado, muito mais adequado à sua nova posição. Apenas onde os géneros não mereceram ainda tal atenção, assistimos ainda ao uso exacerbado de hipérboles fantásticas, como se o mais recente exemplo da Sword & Sorcery tivesse vindo substituir a Chanson de Roland no cânone, ou o último bug-eyed monster com fecho de correr corporizasse a mesma simbólica da teratologia de Breughel.
Duas dessas hipérboles foram emitidas recentemente, em atordoante sucessão, por fonte inesperada, que considera a saga As Terras de Corza (Gailivro, 2006-2010) “como merecedora de maiores análises e aprofundamentos, inclusivamente académicos” e que O Regresso dos Deuses – Rebelião (Presença, 2011), ocupa “uma posição na actual literatura fantástica nacional que, apesar de não esvaziada de executantes, era urgente reforçar”. Quero desde já deixar claro que não li, ainda, nenhum dos volumes da autoria da Madalena Santos, pelo que as minhas palavras não pretendem constituir qualquer juízo sobre o valor ou mérito da sua obra, mas tão só observar que este tipo de encómio pode muitas vezes funcionar em detrimento desta, ao atribuir-lhe uma dimensão ou um alcance para a qual não foi pensada. Isso porque convinha definir, antes de mais, quais os tipos de obras que são efectivamente merecedoras de atenção académica séria, e não do agigantamento hitleriano que os departamentos de Estudos de Género, Teoria Marxista e Multiculturalismo têm derramado sobre textos ineptos e desastrados mas politicamente correctos. Um dos factores determinantes para avaliar da dignidade dessa atenção é o factor tempo. Há que medir o impacto que determinada obra teve sobre o tecido cultural (ou sobre as convenções genéricas), em que medida logrou realmente cristalizar o zeitgeist seu contemporâneo, e qual o grau de inovação introduzido por ela para poder esperar um estudo mais aprofundado. Em defesa da saga, diga-se que o Rogério está certamente a confundir o papel da crítica com o da análise académica e, pelo menos isso, não pode ser apontado como falha do autor.
De falhas do autor abunda o segundo caso, mas não são elas que nos trazem aqui, pelo menos não directamente. O que nos traz aqui é o posicionamento do texto como preenchendo uma lacuna no Fantástico português – e não apenas na Fantasia – sem que nos sejam apresentadas balizas referenciais. Por exemplo, seria interessante saber qual o posicionamento do texto em relação, por exemplo, a dois outros praticamente contemporâneos como Oblívio (Presença, 2011) e Batalha (Saída de Emergência, 2011), e mesmo em relação à história recente do género, abrangendo não só as demais obras de David Soares, como o corpus de textos de Inês Botelho, da própria Madalena Santos, da Sandra Carvalho ou, num registo mais próximo, Fábio Ventura, Carla Ribeiro e Diana Tavares.
Ao não o fazer, e como no caso anterior, estamos mais uma vez a mergulhar no erro de crítica que é prefigurar o eterno renascer do Fantástico, onde cada novo autor que surge, cada novo texto publicado, passa uma esponja sobre o passado e entra imediatamente num cânone tão efémero quanto subjectivamente pessoal.
É que este tipo de hipérbole acaba sempre confrontada com os seus referentes; os leitores do Fantástico poderão apenas encolher os ombros e abanar a cabeça soltando um tsc tsc tsc de incompreensão, mas os mundanos não deixarão de tomar o referente pelo referencial, a árvore pela floresta, e a hipérbole pelo real. E, nalguns casos, os danos podem ser tão irreparáveis como inesperados. É que, em última instância, ou o género ou quem profere a hipérbole... um dos dois sai mal na fotografia.

