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domingo, 5 de julho de 2009

Umbiguismo


Isto é o que acontece quando o umbigo domina o cérebro.

Afinal, a culpa agora é do Twitter, que não o deixou desenvolver a sua lógica discursiva. Mas o Twitter tem destas coisas, impõe um verter constante de egolalias sob pena de esquecimento, e o insigne autor não resiste a colocar-se debaixo do holofote. Mas como não lhe podemos negar uma certa capacidade de análise, ele explica tudo neste post.

Mas voltando ao que nos traz aqui: é um post longo, mas tem momentos que justificam a sua leitura. Afinal, até um relógio parado acerta duas vezes por dia. Mas torna-se mais interessante se compaginado com este post do Nuno Fonseca, modestamente nascido como comentário aqui no Blade Runner, mas elevado à sua real dignidade no Inner Space. O Nuno levanta algumas questões pertinentes mas que não deixam de perder parte do seu potencial explicativo ao perfilharem do mesmo erro que anima parte do post do Jorge Candeias. A outra parte é animada pela mais pura má-fé e desonestidade, mas a isso já vamos; a saber: um erro na datação da FC Portuguesa e do fandom nacional.

Escreve o Nuno que “O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios.” O exemplo da Saída de Emergência é legítimo, mas não exclusivo. Efectivamente, para quem tem andado atento a estas coisas, quer a Presença, quer a Gailivro, quer mesmo – em casos contados – a Civilização, têm apostado fortemente em marketing e divulgação. E penso não estar a exagerar quando digo que a Gailivro é, até, das editoras com marketing mais agressivo e com um sentido de comunidade de leitores mais forte (embora limitada a um segmento específico de mercado). É certo que o Fórum BANG! da Saída de Emergência foi nesse aspecto pioneiro e inovador, mas é um aspecto que carece de uma potencialidade explicativa total.

Sobretudo porque o problema que ninguém parece querer abordar é precisamente aquele que transparece da referência aos primórdios da FC. É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa.

O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.

Já o Nuno imagina um eterno recomeço da FC em Portugal – que é real – mas que não pode permitir uma eterna infantilização do género, nem pode permitir escamotear a pergunta a que importa responder. E esta não é como chegar aos potenciais leitores, mas sim para onde foram os leitores que durante anos justificaram a existência dos vastos catálogos da Argonauta, da Europa América, da Caminho, da Panorama, da Bolso Noite, etc, etc.. Para onde foi o público leitor adulto de Ficção Científica, que desapareceu sem deixar rasto? Observe-se que mesmo a colecção VIAJANTES DO TEMPO da Presença arrancou com um público adulto em vista, antes de se ir progressivamente encerrando na sua caixinha juvenil, abdicando mesmo da publicação de um título como o Carbono Alterado (2002) de Richard Morgan, que estava já traduzido.

A verdade é que, como quem passa uma esponja, vamos encarando como natural um renascimento cíclico da FC em Portugal, esquecendo que a primeira tentativa de criação de um Clube de Leitores de Ficção Científica entre nós data já de 1965. Que foi feito do público leitor destes últimos 45 anos? Porque não responderam às iniciativas das inúmeras editoras que tentaram nesta última década fazer renascer o género? Falta de publicidade? Não creio. Porque a falta de publicidade também não explica o afastamento de muitos dos autores nacionais que escreviam nessas colecções e que são os primeiros a acusarem o desinteresse do público.

O Jorge também acredita que parte do problema reside na falta de divulgação, mas acrescenta-lhe a actividade sinistra de uma cáfila de indivíduos que tem estado à frente de algumas das iniciativas editoriais de publicação de FC, e que não tem sensibilidade para compreender o público português. Mas será isso verdade? Ele refere o exemplo da Contacto, uma colecção dirigida pelo João Barreiros que revelou estar à frente do seu tempo, pelo menos uns vinte anos. Culpa do director da Colecção, ou culpa do público leitor? Não referiu que a Livros de Areia, por exemplo, encabeçou em 2005 o regresso ao Livro de Bolso que agora parece ser uma nova (e fracassada) revolução editorial. Culpa da Editora ou do Público Leitor? Também não fala do caso paradigmático da Cavalo de Ferro, que se calhar lhe permitiria testar a tese que pretende fazer passar: um editora (profissional ou não?) com selecção criteriosa de títulos, com público alvo definido, excelente visibilidade, e que desapareceu depois de apostar na promoção de livros comerciais e de alto retorno. Culpa dos Editores, do Público Leitor, ou do Jorge?

Do Jorge não, certamente, porque o Jorge gosta de atirar a pedra e depois lançar-se para o chão a uivar “aqui d’El Rei que me batem, ai ai ai”. A verdade é que o Jorge resolveu soltar uma flatulenta farpa no twitter porque não se deu ao trabalho de ler o que os outros escreveram. Quando lhe foi chamada a atenção para o facto, fez aquilo que lhe é habitual: vitimização e ataque indiscriminado, ventilando frustrações e ódiozinhos de estimação, desta vez alargando-se a todos aqueles que tenham qualquer ligação comigo. Imagina insultos, ameaça com câmaras de vácuo, porque as de gás não quadram bem com ele, que ele é mais gulags e falsificações da história.

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?

Curiosamente, há coisa de um ano, o mesmo Jorge escrevia, aqui, que: “eu tenho sempre sérias dúvidas de que o mercado realmente "exija" seja o que for, especialmente na indústria cultural. O mercado escolhe entre aquilo que tem para escolher, e geralmente nem isso, geralmente são os publicitários e o marketing quem escolhe”.

Aqui chegados, confrontados com a contradição (ou será, apenas, mera evolução do pensamento?) seria o ponto em que o Jorge poderia acrescentar algo de útil, ajudando-nos, a nós, editores, críticos e leitores, a perceber melhor os padrões culturais que possam permitir melhorar esta situação. Mas quanto a isso, o insigne educador mantêm-se mudo e quedo. Porque essa não era a sua intenção, nem era a intenção do seu post. O seu real objectivo – daí a má-fé e a desonestidade – era chegar à conclusão de que aqueles que manifestam uma opinião contrária à sua, perfurando a confortável bolha do seu solipsismo, querem apenas destruir a FC. E acusa-nos de nada fazermos, ou de nada fazermos bem pelo género e, no que concerne especificamente à minha actividade de editor na Livros de Areia, acusa-me de incompetência.

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

Ou será falta de divulgação? Quer o Jorge quer o Nuno encontram potencialidades mágicas no marketing, na publicidade e na divulgação. Na perspectiva de ambos, seria a divulgação que permitiria a confluência do público leitor potencial (evidentemente desprovido da capacidade de iniciativa que os levasse a procurar on-line, a consultar blogues ou páginas de referência) e as obras. Mas será realmente assim? Será essa a resposta e a solução? Ou será apenas mais um meio de potenciar a aquisição acrítica de títulos badalados? Será que é essa a via que nos interessa?

Mas o Jorge tem ao seu dispor inúmeras e efectivas plataformas de divulgação: ele foi o fundador e moderador da lista FICÇÃO CIENTÍFICA (provavelmente, a par da Bibliowiki, a sua maior contribuição para o Fantástico Luso) – hoje infelizmente moribunda ; ele administra o site E-NIGMA, vegetativo desde 2007; ele assegura um post semanal (quando eu não lhe dou azo a mais) no LÂMPADA MÁGICA; ele arrotou quase 5000 twits no Twitter, para além da sua presença incansável no Fórum da Saída de Emergência, no BBDE, inúmeros blogues e listas de discussão.

E seria de perguntar, com toda esta actividade aparente, que tem feito o Jorge nos últimos anos pelo desenvolvimento do Fantástico em Portugal? A resposta? Nada. Tem olhado pelo umbigo. Tem, como todos nós, feito pela vida. Dele procuraremos debalde uma crítica sobre os últimos livros de autores nacionais, uma apreciação dos esforços das editoras que puseram nas livrarias livros como as FICÇÕESCIENTÍFICAS E FANTÁSTICAS, A SOMBRA SOBRE LISBOA, os CONTOS DE TERROR DO HOMEM-PEIXE, A REPÚBLICA NUNCA EXISTIU, ele que sempre afirmou que era preciso apostar na ficção curta. Mas da parte do Jorge, silêncio.

Dir-me-ão que não é obrigado a isso. É certo, mas a lógica que utilizou para justificar o seu refluxo twístico – quem não edita FC não se pode queixar de que não se edite FC – ainda que não corresponda à verdade, é-lhe oponível. Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada. Dir-me-ão que o Jorge pode ter mais o que fazer, que tem que fazer pela vida. Que faça. Mas que não ande, sistematicamente a sabotar o trabalho de quem faz, para satisfazer as suas necessidades de entretenimento no Twitter. É que onde o Jorge se contenta em fazer pela vida – como todos nós – outros que acreditam na FC e na possibilidade de melhorar o panorama, pessoas como eu, o Pedro Marques, o Luís Corte-Real, ou o Miguel Neto, pusemos dinheiro – muito dinheiro – dos nossos bolsos para arriscar publicar autores que ninguém sabia se seriam lidos e que, muitas vezes, sabíamos que não o seriam, mas que deviam ser disponibilizados ao leitor português. E todos nós, através das nossas respectivas editoras, apostamos em vias diferentes e com resultados diferentes. Mas assumimos o risco e estivemos dispostos a arriscar. Quando o Jorge quiser fazer o mesmo, quando quiser arriscar também dinheiro dele, quando estiver disposto a pôr as notas onde tem a língua, então reconheço-lhe o direito de falar, com conhecimento de causa, de uma realidade que vai muito além de receber o chequezinho no fim do mês, e muito além do Twitter. É que o Twitter é como um automóvel: pode ter muitos cavalos debaixo do capot, mas não vai a lado nenhum com um burro ao volante.

E, no fim de tudo isto, Jorge, a boa notícia é que ainda temos lugar para mais um na câmara de vácuo.

Jump in.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

ASNEIRA


Pois é, para verem que também os grandes tropeçam e, como dizia o célebre Tuco (Elli Wallach) em O Bom, o Mau e o Vilão, quando caem fazem mais barulho. De tal forma que os ecos deste meu trambolhão chegaram a um outro blogue que normalmente não se ocupa destas coisas, mas cujo autor se dignou debruçar do seu pedestal para repor a verdade dos factos. Fê-lo, infelizmente, de forma pouco elegante e aproveitando o erro para ventilar algumas frustrações que o fandom bem lhe conhece e que por isso - se não por mera educação - não vale a pena estar aqui a esmiuçar. Não obstante, o meu agradecimento e a minha vénia, genuinamente extensivas - e com maior força de razão - ao José Simões que ademais de apontar o lapso, contribuiu com alguns detalhes preciosos para quem tem apreciado esta minha série de posts.

O médico bem me dizia para não me por a fazer várias coisas ao mesmo tempo, pois alguma havia de falhar. Cá está ela. O erro é de facto grave, tanto mais que possuo os exemplares em causa da Argonauta e ter-me-ia sido fácil tirá-los da estante - se não tivesse as estantes espalhadas por três espaços físicos distintos e em duas localidades portuguesas. Mas enfim, o que está feito, está feito, e tiremos daqui as lições que interessa tirar: para começar, a confirmação de que o bias é perigoso. Sem qualquer fundamento que não o entusiasmo por um género, nunca me passou pela cabeça que um volume de FC pudesse não ter a primazia: a ideia, inconsciente, era de que o livro policial seria um "bonus" numa colecção de FC, e nunca o oposto. Goes to show... Mas essa "impressão" puramente subjectiva conduziu inconscientemente a escrita do post anterior, servindo para colocar lá "factos" que não o eram e que, além de facilmente verificáveis, iam-me latindo ao ouvido à medida que os passava a escrito, como que querendo avisar-me de que algo não estava bem. Outra lição: nunca actualizem os vossos blogues de uma directa a tentar recuperar atrasos de tradução e de escrita.

Em segundo lugar, a confirmação do caos das nossas edições, caos que se reflecte necessariamente nas fontes de referência, como este blogue ou a Bibliowiki pretendem ser, sem que muitas tal se fique a dever a pura negligência. No entanto, a memória de um entusiasta da FC como o José Simões, mostrou-se mais fiável do que a informação do Blade Runner ou da Bibliowiki.

Bom, lembram-se de quando a Academia Nobel atribuiu o Prémio da Paz a Arafat e o da Literatura a Saramago? Lembram-se de quando o Silverberg assegurava a pés juntos que a escrita de James Tiptree, Jr (Alice Sheldon) era tão masculina que apenas um homem a poderia ter assinado? Pois bem, toda a gente tem direito a uma grande patacoada na vida. Já viram a minha. Aproveitem, que tão cedo não há outra.

PS: I've shamelessly ripped the image for this post from the wonder-blog ARBOGAST ON FILM. Hope he doesn't mind.