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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro por dia: A LONGA TARDE DA TERRA



A última grande tentativa de criar uma colecção de FC capaz de aliar primorosos critérios de selecção dos títulos com uma soberba apresentação de livro-objecto de prazer, foi sem dúvida a malograda Colecção Contacto da Gradiva (1986-1988), que se ficaria pelos quatro volumes [3 publicados em 1986 e o quarto, a primeira tradução a nível mundial de Neuromancer (1984) de William Gibson, em 1988]. Mas que volumes: uma arrojada história alternativa de Harry Harrison, uma magnífica e distópica sátira política de Frederik Pohl, e um olhar glauco sobre uma terra futura e tropical, num sistema solar em fim de vida, assinada por Brian Aldiss. Não é, portanto, de surpreender encontrarmos o bem conhecido nome de João Barreiros ao leme da empreitada.

Aliando a escolha exemplar de títulos correspondentes a pontos altos da carreira dos seus respectivos autores a um cuidado aspecto gráfico, ao qual não falta mesmo um raro (e à data ainda mais do que hoje) recurso à "capa dura", a Contacto devia ter sido o culminar de um percurso incerto na evolução do conceito de "colecção de FC" em Portugal e, a partir daí, o parâmetro a seguir. Claro que não foi assim, e a colecção desapareceu ao fim de pouco tempo, para experimentar uma efémera sobrevivência no circuito das feiras do livro, que foi onde adquiri os meus exemplares, a um preço mais aceitável do que a exorbitância que então era cobrada em livraria, entre os quais se conta este A LONGA TARDE DA TERRA.

Lembro-me de o comprar num fim de tarde de verão, em plena época de exames, depois de o mesmo me ter sido recomendado, uma e outra vez, pelo Pedro Marques que o devorou com verdadeiro deleite de leitura. Comecei a lê-lo no MacDonald's que substituiu o velho Café Imperial na baixa do Porto, eu próprio deliciado por encontrar, para além do prometido livro, um excelente ensaio introdutório de Joseph Milicia, da Universidade do Wisconsin, que me despertaria o interesse e o entusiasmo pelo ensaísmo e pela crítica literária.

A LONGA TARDE DA TERRA, ficaria para sempre associado na minha memória a essa longa tarde de Verão no Porto, a umas horas de abstracção das minúcias do Direito Administrativo e das Finanças Públicas, e ao prazer da descoberta de um autor que então era para mim desconhecido, e que hoje é um dos meus predilectos.

A Contacto foi o último fôlego no esforço de estabelecer uma tradição de leitura de FC através de uma colecção de volumes de luxo, dignos de figurar em qualquer biblioteca e capazes de ultrapassar o preconceito adverso que parece marcar o género como anátema; foi, também, a última das colecções "extravagantes", das colecções que vicejaram brevemente, procurando demarcar-se do (ou suplantar o) padrão Argonauta, antes de caírem no esquecimento e na morte prematura. Enquanto tal, foi sem dúvida um dos esforços mais dignos e meritórios, que não logrou o apoio da própria editora e do público leitor. O seu desaparecimento poderia ter sido dramático, de tal forma as duas principais colecções de FC (Argonauta e FC Bolso da Europa-América) se estavam a tornar complementares, sem abrirem espaço a autores alternativos, não fora o ter deixado espaço à terceira das colecções de referência do panorama nacional: a Colecção Azul da Caminho.

O resto, como costuma dizer-se, é história, e estes quatro volumes têm o seu lugar obrigatório em qualquer biblioteca do fantástico que se preze, perfilando-se como exemplo e memória de uma época que não mais se repetirá.