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domingo, 1 de março de 2009

I'm Back


Exactamente três meses sem um único post...

E o mais estranho de tudo... gostei. Gostei de não ter mais uma obrigação para cumprir, de não ter uma vozinha a murmurar-me atrás da orelha que era preciso actualizar o blogue... E depois a necessidade de voltar a escrever nele. Acho que foi saudável este interregno. Ajudou-me a reperspectivar as coisas, permitiu-me pôr em ordem assuntos por terminar, concluir as minhas décima e décima primeira traduções... sobretudo, a perceber o que quero deste blogue, sobretudo ao pegar nele numa altura em que o que está na berra é esse execrável fenómeno do Twitter, com todos os "twatters" a fazerem-me lembrar uma multidão de pintainhos, cada um a tentar gritar mais alto do que os outros, em busca da minhoquinha de uma efémera fama. Tentaram-se seduzir para isso, tentei obrigar-me a aderir... mas é demasiado vácuo, fátuo e flátuo para me conseguir fisgar...

Ainda sou dos que gostam de ler informação com sumo, ideias que vão para além do dichote com mais piada do que substância, espaço para elaborar um discurso com tronco, cabeça e membros.

Que esperar, então, do Blade Runner para os próximos tempos?

Antes de mais, uma maior variedade temática: falar de séries de TV, filmes e livros, maioritariamente mas não exclusivamente pertencentes aos géneros do fantástico. Tentar manter uma maior constância de críticas, e retomar as midnight sessions. Sobretudo, tentar trazer mais e mais variada informação, se, porém permitir que o blogue se transforme na minha actividade principal. Estes quatro meses de trabalho quase exclusivo na tradução e na advocacia, não me permitira escrever uma única linha: A ALMA DO LOUVA-A-DEUS continua por terminar, tal como os ZEPPELINS SOBRE LISBOA. Em contrapartida, outros projectos descolaram e consolidaram-se neste interregno, e um deles, ainda surpresa, chegará às bancas em Junho deste ano (knock on wood).

Portanto, caros leitores - e desde já quero agradecer a todos aqueles que ao longo deste período me incentivaram a regressar ao blogue, e manifestaram por ele um entusiasmo que eu próprio por vezes senti fraquejar, pessoalmente e por mail - podem esperar a partir de agora actualização mais frequentes, menos abundantes, mas todas elas merecedoras de trabalho, pesquisa e dedicação. Num ano como 2009 - que como todos os anos que precedem o terminar de uma década, são cheios de efemérides, como se os acontecimentos se atropelassem em busca do centro do palco, de um espaço na memória colectiva - muito haverá de que falar. 40 anos volvidos sobre a alunagem da Apollo XI, 50 sobre a revolução Cubana, 200 sobre o nascimento de Darwin e 15o sobre a publicação da Origem das Espécies; 20 sobre a queda do Muro de Berlim, 80 sobre o crash bolsista, trinta sobre a revolução no Irão, duzentos sobre o nascimento de Poe e 160 sobre a sua morte, 70 sobre o início da Segunda Guerra Mundial e muitos outros de menor memória mas não menos importância...

Oportunidade para falarmos de história alternativa da Segunda Guerra Mundial, das célebres adaptações das obras de Poe assinadas por Roger Corman nos tempos áureos da sua AIP, para além de visitarmos filmes e livros, dos mais recentes aos mais clássicos, dos mais celebrados aos mais desconhecidos.

E, nada melhor para recomeçar esta nova fase de actividade do que falar-vos e convidar-vos a participar no CÍRCULO DE LEIBOWITZ.

Mas isso, é uma história para amanhã...
Nota: A imagem que ilustra este post foi encontrada em http://stencilrevolution.com/photopost/data/501/

sábado, 9 de agosto de 2008

Brightness falls from the air...



Por volta das onze horas e um minuto da manhã do dia 9 de Agosto de 1945, uma abertura na cobertura de nuvens permitiu ao artilheiro do B-29 "Bockscars", capitão Kermit Beahan, localizar visualmente o alvo do segundo bombardeamento atómico da história da humanidade. A Fat Man, prevista para atingir a cidade de Kokura, acabou por ser lançada sobre Nagasaki, alvo secundário, devido à cobertura de nuvens que impedia completamente a visibilidade sobre o alvo principal.



A bomba mergulhou durante quarenta e três segundos, antes de deflagrar a cerca de 469 metros de altitude, resultando num raio de destruição total de mil e seiscentos metros, e riginando a deflagração de incêndios numa extensão de três mil e duzentos metros através da zona norte da cidade.



A explosão sobre Nagasaki, apenas três dias após a destruição similar de Hiroshima, obrigaram à rendição incondicional do Japão, tornando desnecessários outros bombardeamentos semelhantes. No entanto, o exército norte-americano aguardava ter disponíveis para utilização outras sete bombas entre Agosto e Outubro, para apoioar a planeada invasão do território japonês.



Certamente, o mundo teria sido muito diferente se o uso de armas atómicas não se tivesse confinado àquelas duas manhãs que a História não nos permitirá jamais esquecer. As páginas da ficção científica, porém, são ricas em cenários pós-apocalípticos provocados por um uso incontrolado do arsenal nuclear que se foi acumulando durante a guerra fria. Não duvido, como Bradbury afirmou certa vez, que a obsessão que a FC manifestou com o horror nuclear entre os anos 50 e 80 do século XX, foi em grande parte responsável pela contenção no uso dessas armas. Também não duvido, que as suas disparatadas historietas de mutantes radioactivos e gigantescos insectos geraram grande parte da aversão ao nuclear que nos tem mantindo estupidamente reféns do uso do petróleo.



Em The Imagination of Disaster, um ensaio influente mas não muito elaborado, incluido no volume Against Interpretation (1966), Susan Sontag, referindo-se apenas aos filmes de FC dos anos 50, reconhece aquele que é (indubitavelmente) um dos maiores prazeres do visionamento desses filmes (e, diria eu, da leitura de algumas obras do género), ao escrever que " science fiction film is concerned with the aesthetics of destruction, with the peculiar beauties to be found in wreaking havoc, making a mess" (p.213).



Essa estética da destruição, emergiria dos perigos naturais do (ab)uso da ciência e da tecnologia, ampliados à última potência pelo símbolo desse (ab)uso, a Bomba, a ponto de Sontag identificar em todas as ameaças futuras ou alienígenas da FC, uma metáfora para esse espectro damocleano em constante pendência sobre o cachaço da humanidade.



Embora Sontag exclua o prazer estético da destruição, da literatura de FC ("But in place of an intellectual workout, they can supply something the novels can never provide—sensuous elaboration", p.212), não nos é difícil reconhecer essa elaboração sensual na própria literatura, de tal forma que será válida para ambos os meios a afirmação de que "(...) one can participate in the fantasy of living through one’s own death and more, the death of cities, the destruction of humanity itself" (idem).

Por vezes interrogo-me que teria pensado Sontag se tivesse lido a saga da Purple Invasion, nas páginas do Operator #5? Pese embora ter protagonizado 48 aventuras entre Abril de 1934 e Dezembro de 1939, escritas por Frederick C. Davis e Emile C. Tepperman, sob o pseudónimo editorial Curtis Steele (informações mais pormenorizadas podem encontrar-se no incontornável The Great Pulp Heroes (1996,2007) de Don Hutchinson), o Ás do Serviço Secreto norte-americano ficou na memória dos leitores pelas treze últimas novelas, as quais constituem a narrativa (inacabada) da invasão dos Estados Unidos pelos exércitos de Rudolfo I da Bulkaria, o Imperador Púrpura.

Ao longo das treze desesperantes aventuras, onde parece ser impossível derrotar as tropas invasoras, apesar do heroísmo dos rsistentes (em alguns trechos, é fácil encontrar momentos percursores de outros encontrados no Red Dawn (1984) de John Millius), os Estados Unidos são varridos por armas extremamente avançadas, numa sucessão de calamidades, derrotas e reveses que só a inflamada escrita pulp consegue transmitir adequadamente.



Há, porém, no último número publicado (The Army From Underground, em Dezembro de 1939), uma passagem profética, cuja leitura ainda hoje provoca arrepios na espinha:

Soon they reached the edge of the recognizable ruins and were picking their way through a desolation that resembled the debris-littered trail of a devastating tornado. Wreckage encompassed them on every side. Tall buildings had been flattened, stout steel girders twisted and snapped, concrete shattered and crumbled. Streets had ceased to exist, except as barely distinguishable canyons through the mounds of litter. And nowhere was there a living human being... only mangled, half-burned corpses to indicate that this stricken wilderness had once been a great city. (...)
«Everything is destroyed», one dazed worker told them as he tore away tumbled wreckage in an attempt to reach a screaming woman pinned beneath the debris. «Philadelphia is wiped out... everything but the suburbs. It'a all gone - disappeared. Houses, cellars, bomb-proof shelters - all blown to nothing.»
His incredible words were all too true. Operator #5 found them corroborated even before the grey light of dawn revealed the tremendous crater that was the huge empty grave of the Quaker City. Philadelphia had been utterly obliterated, wiped from the face of the earth - with a loss of life that probably would reach a million!
«They never had a chance», he said bitterly as he stared out over that terrible waste. «This is the most ghastly mass murder the world has ever seen - the most heinous crime ever committed agains an innocent and defenseless people!»
A primeira bomba atómica tinha sido lançada sobre os Estados Unidos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Happy Birthday, Mata Hari



Mata Hari, nascida Margaretha Geertruida Zelle, passou à história como símbolo da femme fatale, capaz de ajoelhar os militares mais experientes perante a beleza e sensualidade dos seus bailados éxóticos/eróticos. As fotografias que nos restam da mais famosa espia da história, descontando os sempre volúveis padrões de beleza, mostram-nos uma mulher que era tudo menos isso: Russel Warren Howe, aliás, no seu livro Mata Hari: The True Story (1986), refere mesmo o facto de a agente dupla acolchoar as copas do soutien encrustado de jóias com algodão, para simular umas proporções que não possuía.

No entanto, quando a lenda é mais interessante que os factos, faça-se da lenda facto, e a interpretação imortal de Greta Garbo, no Mata Hari (1931) de George Fitzmaurice, dançando perante uma enorme estátua de Shiva com um ornamento cónico a emoldurar o rosto de uma beleza exótica e cativante, tornaram-na num ícone facilmente reconhecível.

A ilustração de capa deste número de Spy Stories de Março de 1929, demonstra bem o poder da lenda enquanto instrumento conformador da realidade. Mata Hari aparece representada como uma mártir perante o pelotão de execução, envergando a toilette com que esperaríamos encontrá-la num salão parisiense a seduzir um qualquer diplomata. É como se, surpreendida em flagrante delito, tivesse sido de imediato arrastada contra a parede e colocada perante os improvisados verdugos (erradicando, assim, da História os oito meses em que esteve presa, durante o julgamento). Uma écharpe cai-lhe dos ombros, escorrendo contra a parede branco como sangue que se esvaísse já das feridas abertas pelas balas impiedosas. É, mesmo perante a morte, uma figura sexual, em abandono.

Mata Hari é uma das personagens do meu seriado ZEPPELINS SOBRE LISBOA, que começará a ser publicado no próximo número da revista BANG!. Também eu, escrevendo aquilo que é uma história alternativa, e que pretende ser um exercício retro-pulp, escolhi a lenda perante a realidade. A minha Mata Hari, para além das particulares características que lhe confere a minha imaginação, subordinada às necessidades narrativas, é uma criatura compósita da imagem da espia ao mesmo tempo fria e apaixonada, fascinante e sensual que o imaginário popular tem transmitido de geração em geração, quer na literatura, quer no cinema.

E, particularmente deste último, servi-me de especial inspiração de três interpretações tão distintas como marcantes:




Greta Garbo em Mata Hari (George Fitzmaurice, 1931)




Jeanne Moreau em Mata Hari, Agent H21 (Jean-Louis
Richard, 1964)




Sylvia Kristel em Mata Hari (Curtis Harrington, 1985)

Mata Hari nasceu há exactamente 132 anos. E nunca mais morreu...

domingo, 20 de julho de 2008

Suspensos no vazio


Foi há precisamente 39 anos.

Muitos disseram que a FC morrera nesse momento, tocada pelos dedos frios da realidade. Crescemos num mundo que nos prometeu as estrelas, estações orbitais, colónias planetárias, naves-geração... Suspensos no vazio, vimos o esvaziar dessas promessas. Alguém disse, certa vez, que o facto de termos abandonado as estrelas dá razão aos imbecis das teorias de conspiração que apagam a história com o passar ao de leve da esponja da estupidez.

Hoje à noite vou sentar-me debaixo das estrelas, a devolver o olhar frio da luz cheia, procurando atravessar com os dedos a distância inalcançável que um dia pareceu tão simples de cruzar.

E lembrar-me da história de D. D. Harriman. Dos tempos em que a FC era uma promessa de futuro...