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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A CONSPIRAÇÃO DOS ANTEPASSADOS: UMA ENTREVISTA COM DAVID SOARES



Nesta frenética rentrée, repleta de novidades para os amantes da literatura e do cinema de Horror, chega hoje às livrarias o primeiro romance de David Soares, A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência). Aqueles que já apreciavam os seus contos e álbuns de BD, ou a inteligência que coloca nos ensaios que dedica aos mais diversos assuntos, vai encontrar neste livro todos os ingredientes a que já está habituado. Quem nunca leu David Soares, e quiser experimentar este romance, vai descobrir um mosaico literário de delicada artesania, composto de exaustiva pesquisa histórica, um saudável cinismo autoral e um sentido de ritmo narrativo que o manterá agarrado da primeira página até à fascinante secção final, informativa e profusamente ilustrada. Quem não estiver para aí virado, sempre poderá desfrutar do agradável aspecto gráfico do livro (do qual não resisto a destacar o tratamento dado à lombada).


A publicação deste livro dá o mote a mais esta entrevista; como bom conversador que é, acabamos por falar de muitos outros tópicos.

David, depois de teres explorado várias técnicas narrativas, desde o conto ao argumento de Banda Desenhada, surge agora o salto para o romance. Trata-se de uma história que tinha de ser contada assim, ou sentiste que já tinhas esgotado a forma curta?

O modo como uma história começa a ser formada na minha cabeça, muitas vezes começando com um cruzamento de ideias ou uma determinada imagem, diz-me, logo no início, se ela se vai tornar um conto, um álbum de BD ou, neste caso, um romance. Tudo se relaciona com aquilo que a história precisa: algumas ideias prestam-se melhor a serem contadas com palavras e imagens, outras só com palavras; não existe uma situação de esgotamento diante de um modo particular de desenvolver um enredo.

A Conspiração dos Antepassados” é um livro que me acompanhou durante muito tempo, mesmo quando, na sua fase embrionária, se resumia a dois trabalhos diferentes: uma biografia sobre Fernando Pessoa e uma biografia sobre Aleister Crowley, ambas iniciadas há quatro anos, mas, entretanto, interrompidas em virtude de outros trabalhos. No primeiro caso, tratava-se de um trabalho em spoken-word chamado “Os Quatro Elementos”, uma biografia ficcionada sobre Pessoa, com bastante hermetismo à mistura. No segundo, pensei em escrever uma trilogia em BD; comecei a escrevê-la, mas não tive sorte em encontrar um desenhador que quisesse aventurar-se numa tarefa tão grande. Esses projectos nunca saíram do meu horizonte, contudo e, mais tarde, conjugaram-se de um modo natural noutro formato. É revelador da plasticidade das histórias: quem deseja trabalhar como contador de histórias não pode olhar para as ideias como objectos estanques.

Penso que tenho muita sorte enquanto escritor porque também sou um desenhador e o meu trabalho em banda desenhada é muito útil no que alude à visualização de ambientes e personagens. Em essência, vejo aquilo que escrevo com bastante clareza. É preciso esclarecer que tanto a banda desenhada como a prosa são dialectos distintos do espectro visível composto pelas linguagens narrativas: ou seja, as duas são ferramentas perfeitas para contar histórias.

Dizes no teu blogue que este livro é, até agora, o que traduz de modo mais eficaz as tuas “preocupações autorais, temáticas e ambientes”. Vertentes que se prestam deliciosamente a exploração, começando por sondar em que sentido traduz este livro que agora chega às livrarias as tuas “preocupações autorais”?

Gosto muito de escrever contos, e entendo-os como peças muito específicas, cirúrgicas, até, mas um romance é uma forma maravilhosa de brincar com aquilo que mais nos fascina porque é muito maior. Não me considero uma pessoa negra, mas o meu universo autoral é feito de imagens negras. Penso que possuo uma sensibilidade mais escura no que diz respeito à abordagem aos assuntos e é essa qualidade que se transfere para o produto final. “A Conspiração dos Antepassados” não é excepção porque contém elementos de romance histórico, de thriller, de literatura fantástica, mas, no seu âmago, é ainda um livro de horror. É um romance de horror sobre um período especial da história de Portugal, uma história de horror sobre Fernando Pessoa, Aleister Crowley e Lisboa. Penso que por ter sido escrito com a já referida sensibilidade negra em mente acabou por ficar com uma intensidade insuspeita.

Trata-se de um romance onde exploro muita coisa que me dá prazer: o estudo da história e as ciências ocultas, por exemplo. Eu sou ateu e não acredito em Deus e na existência do espírito, mas gosto muito de escrever sobre temas sobrenaturais. Apenas tento observá-los à luz do cepticismo, tento descobrir novos pontos de vista para escrever sobre eles. Acredito que existe mesmo um ponto de encontro entre a ciência e o oculto porque a maioria dos conceitos herméticos encontra um reflexo na ciência. Acho que alguns feiticeiros foram mesmo proto-cientistas, mas na ausência da terminologia da física e da química usaram a astrologia e a numerologia para descreverem as experiências e as descobertas. Estou a lembrar-me da Árvore da Vida cabalística, que cito múltiplas vezes no romance. É uma forma poética, mística, de falar sobre aquilo que os físicos e os astrónomos actuais chamam de Multiverso. O nosso universo é composto por 90% de matéria negra e uma força física chamada energia negra que concorre para o expandir, lutando contra o coice da gravidade. Os cientistas acreditam que durante esse processo de expansão o nosso universo cria universos novos, assim como nascem pequenas bolhas na superfície de uma grande bola de sabão que estejamos a soprar por uma palhinha. Isso é a Árvore da Vida: vários universos semelhantes, mas diferentes, coexistindo; brotando uns dos outros.

Existem temas recorrentes no meu trabalho, certas ideias... Gosto de pensar que as minhas histórias são optimistas, mesmo assim. Acho que sou obcecado tanto por imagens de trevas como imagens de luz.

Lisboa é uma cidade normalmente associada à sua luz e é verdade que sempre se pressentiu Lisboa em toda a tua obra. Não só nos contos que fazes desenrolar aí, mas como uma personagem mais que aparece mascarada, como cidade túmulo ou como ruína graffitada. De onde provém esta paixão lisboeta?

Começou de um modo muito simples. Sempre gostei da cidade, mas quando me mudei para Campolide comecei a ler mais sobre a sua história. Principalmente, moveu-me o impulso de conhecer bem o lugar para onde tinha ido morar. Descobri que Lisboa tem uma história riquíssima, e que nem sempre é luminosa. A noção de Lisboa como “Cidade Branca” é totalmente falsa: Lisboa é vermelha e castanha, azul e amarela. É uma cidade pintada com uma paleta mediterrânica quente, mas escura. O Sol é muito enganador, basta subir até ao Castelo de São Jorge para o constatar, basta passear pelos bairros históricos para o aprender. Apesar disso, não considero Lisboa uma cidade “gótica”, como Londres. Nada disso. A escuridão de Lisboa é de outra ordem… Telúrica, talvez. A escuridão que se encontra numa cidade soterrada quando se quebra a casca estratigráfica. Lisboa é uma cidade soterrada; já o era antes do terramoto de 1755: ela é que ainda não se apercebeu disso.

Agora moro em Alcântara, o que não me surpreende, pois, de uma forma ou de outra, acabo sempre por ser “atirado para aí”. É um lugar de infância onde passei várias temporadas com os meus avós, é o sítio onde encontrei o meu primeiro emprego numa agência de publicidade e, agora, é o sítio onde moro. É muito relaxante sair de casa depois do jantar e ir passear a pé até ao Mosteiro dos Jerónimos. Onde mais eu poderia espreitar pela janela e ver mais de quinhentos anos de história debaixo do nariz? É um privilégio!

Como sabes, gravei um spoken-word sobre Lisboa: é um dos meus trabalhos preferidos! Lisboa nunca me sai da cabeça enquanto escrevo. Mesmo quando escrevo sobre cidades sem nome vou roubar panoramas a Lisboa.

Não obstante, esta “Conspiração” traz a Londres das neblinas até Lisboa, aflorando a exótica Tunísia. De certa forma, são todos ambientes propícios ao fantástico. Há alguma dimensão pessoal nos loci que escolheste? Ou foram exclusivamente ditames de correcção histórica?

A Conspiração dos Antepassados” é uma história sobre o encontro de Fernando Pessoa com Aleister Crowley, mas foi o segundo quem viajou para falar com o primeiro. Sempre considerei que esse encontro poderia servir de base para contar uma história interessante, mas apenas se fosse encontrada uma excelente razão para a ocorrência. Com isto quero dizer que o encontro real não foi muito interessante: Pessoa esteve com Crowley pouco mais que três breves vezes. Acho que Crowley gostou mais de Pessoa que Pessoa gostou de Crowley; a evolução da correspondência entre ambos é evidente. Crowley continuou a escrever cartas, inclusive uma na qual manifesta o desagrado em não ter respostas. Essa foi a última carta. Existe uma pequena circular dirigida a Pessoa que era missiva exclusiva dos membros da Argenteum Astrum, uma das fraternidades mágicas que Crowley organizou, mas dizer-se que Pessoa foi iniciado nessa ordem, ou outra, com base nesse documento é conjectural. A verdade é que ninguém sabe a verdadeira razão que fez Crowley vir a Lisboa em Setembro de 1930. A minha conclusão é que ele veio, simplesmente, em férias.

Estava a passar um mau-bocado e começavam-se a esgotar os países onde ele poderia estar. Já tinha sido proibido de entrar em Itália e na França… Acho que ele apenas quis mudar de ares e o facto de ter um correspondente em Lisboa, que ainda por cima falava inglês, pesou na decisão de vir a Portugal. Enquanto cá esteve não fez nada de traquinas: foi à praia, pintou uns quadros e passeou em Sintra e Lisboa. Só quando a namorada o abandonou é que ele procurou Pessoa com maior urgência para que o ajudasse a forjar o suicídio na Boca do Inferno. Foi nesse período que estiveram mais próximos e, logo em seguida, Crowley foi-se embora. Isto não é material suficientemente intrigante para se escrever um bom romance.

Nessa óptica, urgia encontrar um bom motivo para a viagem de Crowley e para o contacto com Pessoa. Percebi que teria de ser algo relacionado com a história de Lisboa, com a história de Portugal. Não fazia sentido escrever uma aventura onde Crowley se desloca a Lisboa em busca de um artefacto estrangeiro: tinha se ser algo especificamente português; e, ao mesmo tempo, europeu. Algo interdisciplinar que, sem deixar de ter um carácter português, comunicasse com outras histórias, com outras mitologias. A resposta era óbvia: o mito sebástico!

É a escolha perfeita porque consegue unir com elegância as mitologias de Pessoa e de Crowley e, também, servir de coluna a um romance onde eu possa falar de história e de magia. Faz sentido, do ponto de vista ficcional, colocar Crowley em busca de Pessoa porque ele era um profundo conhecedor do mito sebástico. Assim como na ciência, também na literatura as soluções mais elegantes são as melhores.

Atento o título e o teor da história que resolveste contar, receias que o público leitor possa confundir essa elegância de soluções, que muitas vezes separa a boa da má ficção, com os romances pseudo-históricos de Dan Brown ou Luís Miguel Rocha? Como encaras esse modelo literário que parece ter tomado de assalto o mercado editorial?

Penso que nas próximas décadas qualquer livro será comparado, em menor ou maior espessura, com “O Código Da Vinci”, e isso cinge-se ao impulso que os leitores têm de comparar as novidades com aquilo que já conhecem para se familiarizarem rapidamente com elas. Isso é válido para tudo, não apenas para os livros. O que se passa é que esse livro de Dan Brown foi, para o bem ou para o mal, um mastodôntico sucesso comercial. Que significa isso? Que, provavelmente, toda a gente comprou o livro, leu o livro ou ouviu falar dele. Já nem refiro aqueles que só viram o filme... Avaliando a questão desse prisma é óbvio que qualquer livro que seja editado daqui em diante será medido segundo a escala do “Código”; mas a um nível superficial. Acredito que a maioria dos leitores são mais inteligentes que isso e que são capazes de ler um livro sem necessidade dessas muletas. Romances com personagens históricas são publicados às dezenas todos os dias e já o eram antes de “O Código Da Vinci” ser editado. Pessoalmente, eu acho que o Dan Brown nunca imaginou a aberração na qual o seu livro se iria transformar e que ele apenas quis escrever um bom livro de aventuras inscrito na tradição de thrillers que o antecede.

Escrever sobre personagens históricas pode ser um exercício divertido. Eu já escrevi sobre Nietzsche e William Burroughs, adaptei o “Doutor Fausto” de Thomas Mann para banda desenhada, gravei um spoken-word sobre a história e a mitologia de Lisboa e guardo excelentes recordações do processo criativo desses trabalhos. Escrever sobre Fernando Pessoa e Aleister Crowley foi ainda mais divertido porque são, por mérito próprio, personagens maravilhosos. De qualquer das formas, eu não acho que “A Conspiração dos Antepassados” seja um romance histórico. O solo onde a narrativa é plantada é adubado com bastante rigor histórico e biográfico, claro, mas o enredo é completamente ficcionado. Depois, está recheado de elementos de literatura fantástica que costumam estar ausentes nesse género e, mais importante, tem uma intensidade, um dramatismo, que se relaciona com o facto de ter sido escrito como um livro de horror. Volto a dizer que é uma aventura negra que possui elementos de romance histórico, de thriller, de literatura fantástica e horror. Costumo dizer que acabar de escrever um romance é como ter um filho, mas quem tem um filho é muito mais sortudo porque é bastante fácil definir um recém-nascido: ou é menino ou menina. Agora... um romance?! É mais difícil definir o género de um romance. Dizer-se que um determinado título se inscreve na peugada do sucesso do “O Código Da Vinci”, e epígonos, somente porque fala sobre personagens ou acontecimentos históricos revela falta de imaginação. Trata-se de uma entidade complexa que, a fazer-lhe justiça, não pode ser classificada apenas com um rótulo. É preciso lê-lo, pensar sobre ele.

Falando em géneros, se há um género literário que, em Portugal, está em pior situação do que a ficção científica, é o Horror. Como autor, nas várias vertentes criativas, e como criador com uma “sensibilidade negra”, tens sido o único autor nacional a apresentar consistência no trabalho dentro do género. Há alguma razão para que o Horror não seja tão bem recebido entre nós?

Não sei porque é que não existem mais autores portugueses de ficção de horror ou de ficção científica, mas acho que existe um preconceito enorme dirigido a qualquer espécie de livro que tente contar uma história sem se preocupar com o simples relato de emoções, ideias ou expressões. Também existe um preconceito ainda maior voltado contra os livros que se tornem grandes sucessos comerciais: é um absurdo! A má qualidade de uma obra não se correlaciona com um número de vendas elevado nem um título que venda apenas uma centena de exemplares é, à partida, uma obra de arte. Existem livros que vendem bastante e que são muito bons e outros que não vendem nada, precisamente, porque são péssimos.

Acredito que o horror é, por excelência, o género da ruptura: é assim que eu o vejo. É um género que lida com os assuntos humanos através da transgressão, da ruptura, da noção de danação que advém do conhecimento de si. Todas estas ideias são bastante extremas e é natural que sejam, também, desconfortáveis para a maioria dos leitores. Não há nada de errado com isso... Enquanto leitor, ou espectador, gosto de obras que me provoquem, simplesmente porque gosto de aprender e as situações extremas são excelentes salas de aula para aprenderes um pouco sobre ti mesmo.

Portugal não tem géneros literários de origem, excepto o fenómeno do Novo Realismo que surgiu na segunda metade do século XX como literatura de denúncia política e social. Tudo aquilo que os nossos romancistas escreveram ou escrevem segue os modelos de ficção franceses ou anglo-saxónicos. Os “Vencidos da Vida” do século XIX copiavam os modelos deixados em aberto por romancistas ingleses como George Gissing... Acho que a nossa tradição literária se inclina para a comédia de costumes inaugurada pela Madame de la Fayette no século XVII e tudo o que se afasta desse cânone é, infelizmente, observado como sendo parte menor da literatura. Eu acho que um livro ou é bom ou não é bom, independentemente de fazer parte de uma literatura de género ou de fazer parte daquilo que é considerado pela academia como sendo a alta literatura.

Outra coisa que deve ter influenciado bastante o nosso modo de olhar para a arte deve ter sido o efeito que a tradição religiosa operou, e ainda opera. A inquisição só foi abolida em Portugal há cento e oitenta e seis anos!... Pensar que quase quatro séculos de repressão religiosa não influenciaram o nosso modo de olhar os livros é ingénuo: isso diz muito sobre o modo como a ficção de horror e a ficção científica são mal recebidas aqui e em outros mercados inseridos em países de fortes tradições religiosas.

Um autor que aborda frequentemente uma temática e uma imagética religiosa e escatológica é Clive Barker. Nota-se, na tua obra, uma marcada influência barkeriana. Se é certo que todos os autores buscam imitar os seus escritores favoritos (“retribuir-lhes o prazer da leitura”, como diria Borges), que outros autores ou cineastas te marcaram mais?

Quando escrevo não penso em nenhum autor. O que me interessa é capturar o tom da história que estou a escrever e isso é algo que apenas se aprende com a experiência da escrita, porque não pode ser ensinado de outra forma. Relaciona-se com a voz autoral, mas é uma coisa diferente. Acho que cada autor fala com uma voz distinta: as influências são os sotaques. É possível que tenha um pouco de sotaque barkeriano porque o Clive Barker é um dos meus autores preferidos.

Outro autor que gosto muito é o escritor alemão Günter Grass. Vi o filme “O Tambor”, de Volker Schlöndorff, que adapta o romance homónimo de Grass para o cinema, quando andava na segunda classe e fiquei muitíssimo impressionado. Era grotesco: nunca tinha visto nada parecido! Tinha montes de nudez e sexo, muito perverso, e era, igualmente, muito violento. Acho que a mistura de sexo com a violência, mais o ambiente negro e fantástico, me influenciou muito. Mais tarde li o livro e descobri que era ainda mais extremo que o filme.

Gosto de escrever sobre sexo e tento escrever sobre sexo como parte do horror e não como uma fuga ao horror. Acho que o sexo pode ser uma experiência aterrorizante: é um momento onde se está bastante vulnerável e onde se comunga com outro corpo, com outra mente. O sexo transforma-nos; e se não tivermos cuidado transforma-nos naquilo que não gostaríamos de ser.

Gosto de muitos autores diferentes, mas quando escrevo só penso em mim: naquilo que me está a ser sugerido pela narrativa e como isso afecta o tom que desejo imprimir nas palavras. Costumo ler em voz alta para ouvir o ritmo das frases e se eu não gosto do que ouço, mudo-as. Foi algo que trouxe para a escrita depois de ter gravado o CD “Lisboa”: tento que o texto funcione como uma história contada oralmente. Acho que isso fortalece muito o resultado final porque se acaba por conseguir algo hipnótico, harmonioso. Eu gosto bastante disso! Não tenho ouvido para a música, mas penso que tenho ouvido para as letras.

E jeito para o desenho. Se te pedissem que escolhesses um livro de Horror para adaptar a Banda Desenhada, qual escolherias? E porquê?

Não me lembro de nenhum, mas a BD tem grandes obras originais de horror. O autor japonês Junji Ito é um grande exemplo: “Uzumaki” é uma das melhores obras de horror que já li; é mesmo perturbante e o final é grandioso. Sobretudo é uma obra de horror pensada para ser uma banda desenhada, com cenas imaginadas para esse formato! Penso que as adaptações em BD de romances de horror não são grande coisa, mas as histórias originais de horror em BD costumam ser bastante eficazes.

Pode-se fazer coisas assustadoras em BD... Lembro-me do álbum de Alberto Breccia com adaptações de contos de Lovecraft, mas o Breccia era um mestre! É uma obra genial com soluções gráficas brilhantes. Já a biografia em BD sobre Lovecraft que o filho Enrique Breccia desenhou deixa muito a desejar.

Acho que gostaria de ver alguém adaptar os “Contos da Chuva e da Lua”, de Ueda Akinari, porque consiste em material muito visual e ficaria perfeito se representado com algum surrealismo, algum experimentalismo abstracto. Uma espécie de Mark Rothko meets Kaneto Shindo. Cor, ambiente onírico e violência gore: eu estaria na linha da frente para os autógrafos.

Terminado o primeiro romance, com vários volumes de contos e álbuns de BD no currículo, a seguir, que projectos?

Tenho muitas histórias que quero escrever, mas ainda não sei qual delas será o meu próximo trabalho. Tenho uma ideia em desenvolvimento para um grande romance sobre Lisboa, algo que quero muito fazer porque se trata de uma coisa que ainda não experimentei: um épico! Também tenho muitos argumentos de BD que quero tirar da gaveta, se encontrar desenhadores com vontade de trabalhar, porque adoro essas histórias e quero vê-las cá fora. Ainda tenho muitas ideias para contos. A verdade é que nunca consigo parar durante muito tempo. Sou um contador de histórias: sei o que sou e o que preciso de fazer para ser feliz e faço-o! Não perco tempo com coisas inúteis.

terça-feira, 31 de julho de 2007

PARABÉNS, BARREIROS!


João Barreiros é o Mestre incontestável da Ficção Científica Portuguesa e faz hoje 55 anos.

Que melhor forma de celebrar o evento do que iniciando uma série de entrevistas com os autores portugueses do Fantástico?

A começar por ele…

Nascido em 1952 e Licenciado em Filosofia, organizou em parceria com a Cinemateca Portuguesa e a Fundação Calouste Gulbenkian o Grande Ciclo do Cinema de Ficção Científica, em 1984. Dirigiu duas colecções com objectivos ambiciosos para o género em Portugal, tendo publicado a primeira tradução a nível mundial do NEUROMANTE de William Gibson, em 1985. É o autor de O CAÇADOR DE BRINQUEDOS E OUTRAS HISTÓRIAS (1993), TERRARIUM (com L.F. Silva, 1995), A VERDADEIRA INVASÃO DOS MARCIANOS (2004) e DISNEY NO CÉU ENTRE OS DUMBOS (2006).

Barreiros, depois de um interregono de dez anos, entre a publicação do TERRARIUM (1995) e da A VERDADEIRA INVASÃO DOS MARCIANOS (2004), no qual publicaste apenas um conto por ano nas antologias da Simetria (1996-2000), os últimos meses assistiram à publicação de duas noveletas (uma pela
Saída de Emergência e outra pela Livros de Areia), à republicação de um conto de 1995 (pela Chimpanzé Intelectual) a qual foi também traduzida e incluída na EUROPEAN SF HALL OF FAME (2007); Aguarda-se para os próximos meses a publicação de A BONDADE DOS ESTRANHOS: PROJECTO CANDYMAN (Chimpanzé Intelectual) e uma colectânea dos teus contos dispersos (pela Livros de Areia), um conto numa antologia sobre brinquedos, AS IDADES DO BRINQUEDO (2007) e um de horror, SE EU MORRER ANTES DE ACORDAR (também pela Chimpanzé Intelectual). Para além disso, voltaste a assinar críticas para o Público. Sentes que aos 55 anos, começas a obter o reconhecimento que mereces?

Penso que o que aconteceu não passa de um mero exercício de sincronicidade. Mas lá pelo facto de eu ver publicado um conto aqui e ali, isso não quer dizer que um determinado autor seja lido. Os livros continuam a vender-se pouco. Os adultos deixaram de ler FC. E os jovens só lêem fantasia infanto-juvenil. Os editores, mesmo aqueles que publicam obras próximas do fantástico, recusam-se a pés juntos a publicar seja o que for que se passe no futuro, mesmo que esse futuro seja o dia depois de amanhã. Continua a não existir uma crítica especializada: — note-se, por exemplo, que nenhum jornal falou do DISNEY nem da VERDADEIRA INVASÃO... E também estou quase certo que ninguém falará da BONDADE...

Numa nota recente da Caminho, fui informado que quanto às vendas do CAÇADOR e do TERRARIUM, nenhum deles ultrapassou os 800 volumes. E é de lembrar que já faz 10 anos desde a publicação do TERRARIUM. Portanto a minha “invisibilidade” permanece tal qual.

Ao contrário de outros autores, nunca fugiste à Ficção Científica, mesmo quando escreves no modo do horror. Porquê esta fidelidade a um género que a intelligentzia portuguesa despreza?

Por uma questão de militância. De marcar posição. De fazer frente ao passado. Por me divertir, sonhar o futuro ou mesmo ter saudades dele. Porque escrevo como uma forma de prazer onde o mundo inteiro é espectáculo. Prefiro mil vezes esse universo exterior, esse universo-como-personagem do que a circularidade do meu umbigo, a poesia sem rima, e todas as temáticas urbano-depressivas sobre conversas de cama e morte de familiares. O quotidiano aborrece-me. Os super-mercados nauseiam-me. Noites de farra aborrecem-me o fígado. Sobre que falar então? Dizia alguém que toda a linguagem é metafórica. Mas a FC é o único género onde a metáfora é realista, onde todas as palavras terão de ser cuidadosamente medidas. Aqui, "um céu demasiado azul", implica a possibilidade do sol se estar a transformar numa gigante branca...

A alienação da FC por parte do establishment cultural encontra um espelho tão tortuoso quão divertido nos E.T. que povoam as tuas obras: desde Mr. Lux no TERRARIUM que colecciona avidamente todas as pulps, até às tenebrosas aranhetas que estrebucham quando Chekov é interpretado num palco. Porquê esta fixação que os alienígenas barreirianos nutrem pela “nossa” FC?

Uma ideia que sempre me fascinou, mas que raramente vi tratada por outros autores, é pensar que os alienígenas, se é que existem, poderão ter formas de Arte. E que essas mesmas formas de arte resultarão perfeitamente incompreensíveis quando colocadas perante os nossos olhos.

Brian Aldiss tratou desse assunto de uma forma quase escatológica quando colocou os seus extra-terrestres a viverem uma profunda experiência estética perante as respectivas poias. Inversamente, também poderemos perguntar o que sentirão eles ao ler... bom, digamos, o Proust ou o Saramago? No ciclo das Aranhetas incluí o conceito de que todos os textos demasiado “literários” possuem uma densidade assassina. A leitura mata alienígenas, literalmente. Como se fosse uma arma. Como se um “clássico” tivesse, como subtexto, uma espécie de meta-mensagem onde as depressões do seu autor resultariam em ordens subliminais de auto-destruição.

Pela minha parte pergunto-me se os proverbiais extra-terrestres também escreverão FC. E que pensarão eles de nós, os tais “monstros de olhos achatados”?

Já o herói barreiriano, ao contrário, por exemplo, do engenheiro heinleiniano, é um tipo que está constantemente no lugar errado, na hora errada, a fazer a coisa errada. E, no entanto, tem sempre uma convicção interior muito forte. São como miúdos traquinas, que encontram na tecnologia o supremo dos brinquedos. São reflexos do teu próprio papel nos meios da FC e da literatura?

Yeap. Como dizem os nossos amigos britânicos, “shit happens, and happens at the worst possible moments”. Os meus personagens são exemplos disso. Talvez essa marca esteja mais presente na minha última novela, A BONDADE DOS ESTRANHOS: PROJECTO CANDYMAN.

A revolta de Joana contra uma instituição que a tramou, seja ela humana ou alienígena, só pode ser catastrófica. Quem teve infâncias monstruosas comete actos monstruosos quando adulto. Mas em boa verdade, é aborrecido estar sempre revoltado contra o mundo. A raiva perante a estupidez ou a ignorância é um sentimento que nos consome. Não me apetece passar a vida a tomar anti-ácidos. Porque afinal o meu coração respinga de uma “bondade” incontida.

E embora as minhas histórias sejam hiper-violentas, isso serve um pouco como forma de terapia. Na vida real posso ser bondoso como um cordeirinho acabado de nascer...


Quem tem o prazer de te conhecer pessoalmente sabe que nutres um maravilhoso fascínio pela tecnologia. Como encaras a onda de obras de Fantasia escritas por adolescentes e que parecem ser verdadeiros manifestos tecnofóbicos (um jovem autor, ainda em recente entrevista ao suplemento ÍPSILON do Público, se vangloriava de que no “seu mundo” a pólvora jamais seria descoberta)? Como sintomas de uma doença da cultura popular portuguesa, ou mero oportunismo face aos fenómenos Harry Potter e Senhor dos Anéis?


De facto não haveria coisa mais interessante do que introduzir tecnologia num mundo medieval.

Mark Twain inventou esse conceito genial no seu livro “Um Yankee na corte do Rei Artur”.

Lembro-me ainda do THE MAN IN BLACK, do John Brunner, onde um “exorcista” renegava todas as bolsas de “magia”, graças a uma atitude racional e positivista. Recordem-se da série de fantasia da Sheri Tepper, THE TRUE GAME, onde nevava em todas as batalhas onde participavam magos, pois estes iam roubar energia térmica ao espaço em volta, para os seus feitiços.

Ou as minas no centro da Terra, onde vivem os demónios, e os humanos vão sacar-lhes as “poias” cristalinas, que muito valem no nosso mundo. Sem esquecer toda a “tecnologia” necessária para as recolher. Não percam o ciclo de Nifft, the Lean, do brilhante autor Michael Shea, que infelizmente tão pouco escreve.

As oportunidades de sabotar o esquema da fantasia introduzindo nele pequenas gotas do pensamento científico são muitas e memoráveis. Pensem em Jack Vance, China Mièville, Scott Lynch, Steven Erickson, para apenas citar alguns exemplos.

O problema não está aí. Localiza-se principalmente numa falha de imaginação, ou mesmo de ousadia, pois, tal como acontece na FC, autor que não tenha nunca lido antes fantasia, corre o risco de reinventar a roda. Estes jovens autores deveriam ter uma mão editorial que os ajudasse, que lhes dissesse que deveriam ganhar um pouco mais de maturidade. E que deveriam ler muito, muito mais antes de começarem a escrever.

Mas é também uma doença cultural, claro. A desconfiança no futuro. O medo da mudança. O peso do imaginário judaico-cristão que força autores e leitores a criarem heróis positivos, sempre a combaterem contra as forças das Trevas. Ah, que saudades da BLACK COMPANY do Glen Cook, onde os heróis eram uma horda de mercenários malvados e violadores, a combaterem pelo lado das trevas...E recordam-se do Thomas Covenant, o herói leproso de Stephen Donaldson que logo nas primeiras páginas, chegado ao mundo da fantasia, “viola” uma jovem que se prestou a ajudá-lo?

Aqui para nós, digo o mesmo que Steven Erickson já disse algures: Se voltar a ouvir falar de uma jovem guerreira a querer lutar contra as forças do Mal, vomito. Pronto. É uma atitude assaz escatológica, concordo, mas talvez seja a única possível.

Dirigiste colecções na Gradiva e na Clássica, foste publicado pela Caminho, Presença, Saída de Emergência, Livros de Areia e chimpanzé Intelectual: como vês o papel das editoras portuguesas?

Bem que gostaria, nestas curtas linhas, de glorificar o heróico papel das editoras portuguesas na defesa do género. Infelizmente não é esse o caso.

As velhas editoras que publicavam FC, publicavam-na a medo, quase sem nenhum investimento. Tinham tendência a escolher as piores obras dos piores escritores pois os direitos de autor eram muito mais baratos. Não queriam publicar obras com mais de 200 páginas, excluindo assim, para todo o sempre, livros memoráveis como o STAND ON ZANZIBAR do Brunner ou o RIVER OF GODS do McDonald, para apenas citar dois exemplos.

Depois não se investia em bons tradutores. Para quê?, perguntavam as Editoras. Não será a FC uma para-literatura, dedicada aos geeks e aos adultos com problemas de crescimento emocional?

Outras editoras preferiam apenas publicar tie-ins, dizendo que eram precisamente esses livros que garantiam a publicação ocasional de outros melhores que ninguém iria ler.

A verdade é que todas elas acabaram. Hoje em dia não há em Portugal uma única editora a publicar FC. Os editores, quando pensam publicar qualquer coisa no domínio do fantástico, pedem ao agente literário que lhes envie qualquer coisa simples, barata, e sem grande exigência estilística.

E quando por mero acaso publicam FC sem o saberem, como no caso da ESTRADA do Cormac McCarthy, louvam-no como algo de profundamente original como se a FC não tivesse já tratado desse tema muito, muito antes e muito, muito melhor.

Ou chega a acontecer que um editor “esconda” que o livro é de FC, e na capa, em vez de um disco voador, ponha uma “passarola”, quem sabe para não assustar as “tias” que costumam ler romances históricos.

Provavelmente estão a defender-se ao procurarem vender um produto com outro rótulo. Mas a FC é um anátema, sim, para qualquer editor que se preze. É por isso que não existe uma única revista do género a ser publicada em Portugal.

Se eu fosse rico, se tivesse milhões de euros para estoirar, gostaria de publicar uma colecção de FC a sério, com boas obras, bons autores, bons tradutores, boas capas. Para que em seguida pudesse dizer, “depois de mim, o dilúvio”.

E se te convidassem para organizar outra colecção de Literatura Fantástica, hoje, que títulos escolhias?

Na FC escolheria Space Operas, começando pelas mais comerciais, tipo David Weber, mas sem esquecer Baxter, Reynolds, Hamilton, Banks. Talvez uma FC militarista, pós-Heinlein, tipo David Drake, David Feintuch ou Elizabeth Moon. E porque não a série do Miles da Lois McMaster Bujold?

Em Fantasia há sempre um Scott Lynch, um Abrecombie, um Donaldson, uma Martha Wells, um Sean McMullen, uma Robin Hobb... No horror há sempre um McCammon, um King, um Straub. Tudo depende da promoção...

E pelo inverso: se te pagassem principescamente para escrever uma fantasia juvenil… que história contavas?

A história de uma cidade com uma Torre imensa, uma torre que ligava o céu às profundezas do inferno habitado por demónios. Essa torre teria um balancé interior, uma espécie de giroscópio interno que a manteria direita. A história trataria de um jovem artesão, chamado Filipinho, responsável pelas engrenagens que mantêm o giroscópio funcional. Até que um belo dia...

Apesar de não teres sido o primeiro autor de FC em Portugal, a qualidade e ímpeto dos teus textos, e a acutilância das tuas críticas, rapidamente te erigiram como o “expoente” da FC portuguesa. E, desde a tua primeira publicação semi-amadora (DUAS FÁBULAS TECNOCRÁTICAS, 1977), continuas sem “rival” à altura, apesar da manifesta qualidade de autores como o Luís Filipe Silva. Como vês hoje a FC portuguesa? Em que mudou desde que começaste a escrever?

Ora, nada. Ninguém escreve FC em Portugal, a não ser uma ou outra obra de cariz amador, publicada em edições de autor que logo são engolidas pela Grande Noite. Gostaria que o Luís Filipe Silva voltasse a escrever sem se preocupar com as posições dos intimistas ou urbano-depressivos. Gostaria que um certo João Seixas tivesse tomates para terminar a sua parte do tríptico.

Quando eu e o LFS escrevemos o TERRARIUM (até agora julgo eu, o mais volumoso livro de FC nacional jamais publicado na história do género) julgámos que ele ia abrir portas, entusiasmar novos escritores como uma forma de desafio para que nos suplantassem em tamanho e ousadia. Nada disso aconteceu. O TERRARIUM foi como que o canto do cisne.

Bem que gostaria de ter um rival. Ou mesmo dois ou três. Mas nada.Escrever no vazio, sabe-se lá para quem, dói que se farta.

Numa recente visita à Polónia que, como toda a gente sabe, não “existia” antes dos anos 50, encontrei livrarias imensas, com secções avultadas dedicadas à FC, com quase “tudo” traduzido e, para grande espanto meu, mais de 20 autores polacos todos eles com obras de FC disponíveis (e não estou a falar aqui da fantasia). Ter na frente aquelas fileiras de autores polacos — autores a que nunca poderei ter acesso por causa da língua — encheu-me de uma surda tristeza. Lembro-me de um livro enorme, que o Michael Kandell muito louvou, OCEANO NEGRO, de um tal Jacek Dukaj, ao que parece uma resposta sublime ao STAND ON ZANZIBAR. É terrível pensar que a Polónia defende os seus autores, que há quem os leia e os publique.

E que aqui, nada existe, nem vai existir no futuro próximo pois a iliteracia continua a crescer como um cancro.


Pegando nesse exemplo: e a FC em si, extra-fronteiras? Sempre foste defensor do óbito da FC que Clute pronunciou no início dos anos 90 (e que depois retractou parcialmente). Achas que havia razões para o pânico? Ou a FC morreu mesmo, e a nossa actividade não passa de necrofilia?

A FC tradicional está a envelhecer. Os grandes autores da Golden Age estão hoje extintos. Os da terceira geração (pós-New Wave) andam a morrer como tordos. Os livreiros conglomerados só apostam em mega-bestsellers, o que significa que a FC foi varrida das estantes da maior parte das livrarias. Um pouco por todo o mundo as livrarias “especializadas” foram mergulhando no abandono e na falência. Tome-se à guisa de exemplo, a extinção da maravilhosa MURDER ONE em Charing Cross Road.

Um autor conhecido deixa de ser publicado porque os editores preferem apostar na edição da primeira obra de um jovem arrivista. Mas a verdade é que este desgraçado só pode publicar quatro vezes na mesma editora antes de ser escorraçado para as trevas exteriores. Todos eles dependem da análise estocástica das futuras vendas. E se essa previsão do futuro não se revelar propícia...então...

Mesmo assim a FC britânica, principalmente o novo género da Space Opera Gótica continua sublime. E porque estes senhores continuam a escrever pelo menos um livro por ano, está salva a honra do convento.

Leiam por favor Ian McDonald, Ian R. McLeod, Peter F. Hamilton, o Alastair Reynolds, Jon Courteney Grimwood, Ian R. Banks para apenas citar alguns. São eles que mantêm a chama acesa. Quanto a eles serem publicados em Portugal...ah...tristes tristezas!

Que consideras ser necessário para inverter essa situação nesta lusa periferia? Ou é mesmo um beco sem saída?

Para inverter a situação seria necessário que as Editoras começassem a publicar livros “diferentes”, mesmo que nada ganhassem no início. Depois teria de haver programas na TV dedicados ao género, clubes de leitura, livrarias especializadas e...mais do que tudo, duas ou três revistas mensais, bem produzidas, bem ilustradas, a anos-luz das BANGs, por exemplo.

E depois sessões de hipnagogia sob as almofadinhas de todos os bebés, a dizer-lhes o que devem ler.

Infelizmente já chegámos tarde. Os miúdos, hoje em dia, são filhos de duas gerações que nunca leram. As casas deles, mesmo os que são filhos de professores, não têm livros, portanto como hão-de eles iniciar o processo de leitura? As bibliotecas das Escolas nada têm que seja novo ou diferente. E, como os professores responsáveis por essas bibliotecas também não lêem, como hão-de eles estimular os miúdos? Desconheço quais as obras que foram incluídas no Plano Nacional de Leitura para os jovens das Escolas. Mas desconfio que, entre elas, não haverá um único romance de FC. Lembro-me que, aqui há alguns anos, os meninos do Colégio Francês liam as CRÓNICAS MARCIANAS do Bradbury, e faziam eles muito bem.

E, já agora, como farias para introduzir à literatura fantástica uma nova geração de leitores jovens, atafulhados em playstations, DVD e telemóveis 3G?

Seria muito difícil. Os jovens hoje em dia sofrem, como já disse, de iliteracia. Isto quer dizer que, mesmo sabendo ler, não percebem aquilo que leram. Tive disso um belo exemplo quando na Escola onde sou professor, uma turma do 10º ano tentou ler o DISNEY NO CÉU...Só rir, só rir...

A título de exemplo, disseram que não tinham gostado do fim, porque acabava mal...porque é que eu não o reescrevia? Acabar mal, exclamei espantado! Mas tem um happy end múltiplo: A Suzana ganha porque defendeu a prole. A prole ganha porque pôde nascer aos milhões. Marklin ganha porque conseguiu fugir à Suzana. O Rato Negro ganha porque atingiu a Singularidade gnóstica. As ninhadas de ratinhos ganham porque se puderam reproduzir em grandes orgias. A Diáspora ganha porque pôde deitar as mãos a um gerador de hiper-espaço. Afinal ganharam todos e viveram felizes para sempre.

E ao dizer isto vi os olhares aterrados das criancinhas e professoras, sempre habituadas ao triunfo monolítico do Bem contra o Mal.

Mas sugiro a leitura comentada de contos escolhidos a dedo. Sugiro clubes de cinema e ateliers de escrita criativa, na escola, e não só.

E por falar em escrita criativa: qual é o método de escrita do João Barreiros? Qual é o segredo do sucesso, atendendo a que qualquer pessoa que já escreveu contigo sabe que és um autor rápido e profíquo...

O plot nasce com uma imagem única que depois se divide para trás e para a frente da árvore narrativa. Depois é esperar a possessão da Musa, que chega em sonhos ou nos momentos mais inopinados do dia.

É uma forma terrível de submissão a uma força maior que me deixa esgotado e a tremer de frio.

Quando a Musa surge, as coisas avançam, mosaico a mosaico. Quando não chega, as histórias morrem a meio. A maior parte das vezes as soluções do plot chegam em sonhos como uma intuição. No caso da BONDADE vivi vários meses com a imagem sufocante de um jardim implacável onde a Joana andava perdida.

O que nos leva à inevitável questão: Barreiros, esta actividade é para continuar? Tens mais projectos em mão?

Bom, estou a pensar escrever um romance steampunk a meias com um certo senhor que todos conhecem. É também uma história alternativa, pois aqui as teorias criacionistas são verdadeiras. As vagas criacionistas espalham-se em ondas, pelo Cosmos, alterando tudo por onde passam, reformatando a vida nos planetas por onde já passou uma onda anterior. O que aconteceria ao nosso mundo se sofresse dois impactos sucessivos, um no Séc. XVIII e outro no inicio do Séc. XXI?

Ah, o romance steampunk, pois… errr… estou atrasado com isso, não é?


Obrigado Barreiros. E feliz aniversário.