Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção Científica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção Científica. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de agosto de 2016

PKD no Observador


Um artigo interesante, embora breve, sobre Philip K. Dick, da autoria de Isilda Sanches, que o apelida da mesma forma como antes se apelidava Isaac Asimov - O Homem que Sabia Demais - embora aqui com um sentido claramente mais... paranoico. No entanto, Isilda Sanches consegue, no breve espaço de um artigo estival agregar uma série de reflexões e informações sobre a obra do mestre californiano, e a sua influência sobre a cultura popular, que permitem uma boa introdução àqueles leitores menos familiarizados com ela.

Achei curiosa a coincidência entre a forma como Sanches descreve a sua exploração inicial da obra dickiana e a minha própria experiência, em tudo similar. De lamentar, porém (para além da brevidade - a autora não refere sequer títulos fundamentais de Dick como Ubik ou The Three Stigmata of Palmer Eldritch), que embora reconheça a existência de um estigma cultural que leva a que a FC seja percepcionada como um género menor, não se escuse ela própria (quiçá involuntariamente, quiçá por infelicidade de expressão, quiçá por perceber a FC essencialmente através do cinema) a tentar remover a obra de PKD da matriz mais ampla da Ficção Científica ("depressa percebi que a sua escrita está muito para lá do que dizem as regras do género" - que regras? de que forma delas se distingue Dick?), representando ela própria, por reflexo, o género como algo menor, ao considerar, de forma ligeira, e com ênfase, que "K. Dick só usou a matriz da FC para dar voz às histórias (e paranoias) que ecoavam na sua cabeça." Mas não é assim com todos os autores de FC? Ou de qualquer outro género literário?

E ao acrescentar que "Mesmo nos primeiros contos, escritos a metro para revistas da especialidade, o fundamental não é a vida alienígena ou a ameaça das máquinas, mas os seres humanos e os fundamentos do real", parece não se aperceber, ao misturar elementos meramente adjectivos do género, com a mais ampla questão ontológica, que está a roçar ao de leve o porquê do fracasso de Dick como autor do mainstream e o seu enorme sucesso no gueto genérico: é que Dick só podia explorar cabalmente os fundamentos do real e as histórias e paranoias que ecoavam na sua cabeça, por recurso à vida alienígena e à ameaça das máquinas. O mesmo é dizer, só abraçando o que dizem as "regras do género", só através da Ficção Científica, pôde Dick ser Dick, escrever o que escreveu, e explorar, como explorou, os fundamentos do real.  

terça-feira, 20 de abril de 2010

Mapas e Territórios da FC em Portugal




Confesso que hesitei muito antes de responder ao último post do Nuno Fonseca, integrante do debate, interessantíssimo (também muito por mérito dele) que temos travado. Essa hesitação deriva, em primeiro lugar, de uma estúpida sensação de dejá vu que me assaltou. Ao ler o texto do Nuno, era outro o interlocutor que parecia querer intrometer-se. O método retórico a que o Nuno recorreu fez-me lembrar um outro, bem conhecido do nosso fandom, que tinha o condão de transformar qualquer troca de ideias num lodaçal em que era impossível avançar um passo sem ser necessário desbravar o ínfimo significado de cada palavra. Por cada afirmação precipitada que o indivíduo proferia, o debate deslocava-se da substância para a forma: passava-se a discutir não o que ele tinha dito, mas se ele tinha dito aquilo que disse. E essa foi, predominantemente a forma escolhida pelo Nuno para me responder. A ela, somou-lhe uma táctica dúbia, que é tomar os meus silêncios por fuga à resposta, complementada pelo apelo ao leitor que ele não considera iletrado, analfabeto ou acéfalo, com a necessária implicação de que é assim que eu o considero. O Nuno dirá de imediato : “Estão a ver? Não foi nada disso que eu disse! Eu apenas disse que eu não os considero assim”. Mas a verdade, como o Nuno bem sabe, é que a linguagem, felizmente para todos nós que nos sentimos próximos da escrita e dela tiramos algum rendimento, não se confina ao que é dito. Estende-se ao que se sugere, ao contexto em que se diz o que se diz, em suma, reveste-se de capacidades retóricas que a enriquecem e enriquecem qualquer troca de ideias.

Por isso, não vou entrar no jogo do Nuno de estar aqui a dizer que ele interpretou mal aquilo que eu disse, ou que afirma que eu disse coisas que não disse, pois tudo isso é irrelevante. No meu texto, a que o Nuno responde, referi desde logo que considerava que o anterior texto do Nuno (sim, eu sei, isto é confuso) apenas nalguns pontos era susceptível de fricção com o que eu próprio havia escrito: como tal, abordei apenas esses possíveis pomos de discordância, não perdendo tempo a comentar aquilo com que concordo, ou aquilo com que, discordando, considero abarcado por pontos anteriormente abordados. O Nuno considera que isso são “formas epistolares de fuga à resposta”. No entanto, na ânsia de esclarecer as contradições que lhe apontei, o Nuno mergulha desabridamente por uma defesa incendiada da sua posição, fazendo os necessários acertos para que tudo encaixe. E é nesses acertos que tudo desaba.

Atente-se, desde logo, na primeira questão suscitada: O Nuno insurge-se contra a minha observação de que “Fonseca reconhece a realidade essencial que apontei no meu texto: algures entre finais dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado, desvaneceu-se o público leitor”. E o Nuno, não só se insurge contra a minha afirmação, como afirma agora que o inverso é que é o ponto essencial do seu artigo. Porém, aquilo que o Nuno escreveu, claramente e sem subterfúgios foi que (ênfase minha) “Durante cerca de 30 anos, entre os anos 50 e os 80 do século passado, houve pelo menos uma colecção de FC que vendeu como a “uva mijona”: a argonauta. As pessoas faziam esperas aos livreiros para os adquirir, iam regularmente às livrarias à procura do "último argonauta" e ainda hoje todos se lembram disto. Nesse mesmo período todas as grandes editoras tiveram colecções ou publicações regulares de FC e muitas das pequenas também. Por outro lado, hoje em dia, de uma forma ou outra, todas as editoras vão produzindo alguns títulos, de forma completamente casuística na maior parte dos casos, embora numa produção incipiente.” A única coisa em que esta frase difere da conclusão que eu atribuí ao Nuno é a expressão “desvaneceu-se o público leitor”. Mas como melhor sumariar a conjugação de “vendeu como a uva mijona”, “as pessoas faziam esperas aos livreiros”, e “todas as grandes editoras tiveram colecções e publicações regulares de FC e muitas das pequenas também” com “hoje em dia” vão-se produzindo “alguns títulos” “de forma incipiente”? Foram as editoras que perderam a vontade? Foram os autores que deixaram de escrever? Foram as livrarias que se recusaram a vender? Ou foram os leitores que deixaram de comprar?

Toda esta série de perguntas, porém, conduz à minha segunda fonte de hesitação para a elaboração desta resposta: há uma coisa em que o Nuno tem toda a razão. Não dispomos de números que nos permitam responder de forma cabal e incontestável a todas as questões que ele formulou nos seus dois posts. Só que, à luz da argumentação do Nuno, essa ausência de dados impede toda e qualquer resposta; impede mesmo o ensaio de uma resposta. E isso é tão verdadeiro para ele como para mim. Será, portanto, tão irrelevante dizer que a FC vende pouco, como dizer que isso não é verdade. E isso torna inútil qualquer debate. À boa maneira pós-modernista, a tal da esquerda académica que eu aqui critiquei, a falta de prova equivale à prova da falta. Como não há provas de que o Manel matou a Maria, logo o Manel não matou a Maria. E, com um pouco de esforço, chegaremos rapidamente ao extremo: como não há provas de que o Manel matou a Maria, logo o Manel não matou a Maria, logo a Maria ainda está viva. Sei que é uma redutio ad absurdum, mas como me ensinaram há muito na exegese jurídica, esse é o melhor método para testar a bondade de uma premissa ou a eficácia de uma tese. E não se diga que estou a exagerar demasiado. A impressão com que fiquei depois de ler o texto do Nuno foi essa: como não é possível afirmar com toda a certeza que a FC não vende, então ela vende. Mas fico sem saber se será lícito acrescentar, vender vende, pode é não ser comprada. Nunca me adaptei bem a estas realidades panglossianas, a esta vivência no melhor dos mundos, que só pode ser o melhor dos mundos, porque não logramos provar as suas deficiências.

É um argumento que eu até posso aceitar: implica o fim da discussão, pois tudo o que nos resta, como o Nuno diz, é formular uma questão atrás da outra. Só que nenhuma dessas questões vai ter a resposta que o Nuno exige, com números concretos, pois ninguém está disposto a avançar com eles. E quando avançam, são números debatíveis, porque existe uma miríade de razões (desde económicas, fiscais, e outras mais) que justificam que uma editora esconda os números reais das vendas. Não importa que elas não tenham o mínimo pejo em alardear os milhares de exemplares e as trintenas de edições sucessivas de Bolaños, Luís Miguéis Rochas, Xicos Viegas, Sousas Tavares, Rebelos Pintos e outros tantos mais. Mas quando chegam à FC... Aí, o segredo reina. Só aí os números têm que ser escamoteados, porque é uma vergonha e um prejuízo irreparável para as editoras confessarem que por cada 10.000 ou 30.000 Sousas Tavares que vendem, conseguem empurrar mais do que 1000 exemplares de um livro de FC. Há, por isso, que escamotear as vendas… certamente para não envergonhar os autores sérios, que poderiam ficar melindrados por venderem tanto como os rasteiros autores de histórias de lulas no espaço.

O Nuno certamente contrapor-me-á que apenas estou a referir os best-sellers, que isso é um fenómeno à parte. A questão não é nova. Penso que foi o David G. Hartwell quem contou esta história (e se não foi, peço que me perdoem, mas estou a escrever de memória): Um dia é chamado ao gabinete do director-mor do Grupo Editorial onde dirigia a linha de FC, que lhe diz “Estamos a pensar descontinuar a linha de FC, porque está a vender muito pouco”. O editor, surpreso, contrapõe, “A vender pouco? Mas se tenho dois livros no top de vendas do New York Times há mais de três meses”. “Ah, sim?” pergunta o big boss, de pé atrás “Quais?” “Os dois últimos do Asimov”, responde o editor. “Aaaah. Mas o Asimov não é FC. O Asimov é best-seller”. Só que os best-seller são uma categoria, não são um género. E há, também, best-sellers no Fantástico e na FC, como os há na Fantasia. Só cá é que não. E é de cá que estamos a falar.

Curiosamente, neste ponto, a falta de números e a falta de provas não são exigidas pelo Nuno para afastar os números apresentados pelas editoras. Para ele basta-lhe a existência de razões para que elas escamoteiem os seus números. E não é o único ponto. Quando me pediu estudos sobre a distribuição demográfica do consumo de FC, indiquei-lhos efectuados entre finais dos anos 70 e 2005. Como lhe dava jeito, escondeu o de 2005, e centrou a atenção no facto de datarem de início dos anos 80. Mas, pergunto eu, e os números para os contrapor, para mostrar que eles são hoje diferentes? Irrelevante. O Nuno aprendeu a gostar de F com a mãe e conhece muitas meninas que lêem FC. Esquecendo que, para quem pede números objectivos e estudos científicos, a experiência pessoal e a evidência anedótica são “major no nos”.

E nesta linha poderíamos seguir ad infinitum, sem que nada se adiantasse e nada se ganhasse. No entanto, e como o Nuno bem sabe, embora prefira fazer de conta que não, onde não existem dados concretos, existem indicadores. Alguns desses indicadores são objectivos. Entre eles podemos contar:

a) Publica-se, hoje, menos FC do que antes.
Esses dados podem ser ainda mais concretizados e de forma objectiva: não levando em consideração as obras slipstream, ou o surgimento de volumes pontuais publicados fora de colecção por editoras que normalmente não publicam FC, e não distribuídos como FC, publicaram-se em Portugal, entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2009, 318 livros de FC, destinados ao público adulto. Essa publicação foi efectuada por 5 grandes editoras (Gailivro, Presença, Saída de Emergência, Livros do Brasil e Europa-América) e duas pequenas editoras (Livros de Areia e Chimpanzé Intelectual).
Concretizando ainda mais esses dados, é possível observar que a publicação desses 318 livros se distribuiu de uma forma absolutamente desequilibrada, com 299 a serem publicados entre 2000 e 2005, e apenas 19 entre 2006 e 2009. Um diminuição, portanto, na ordem dos 94% em apenas 5 anos. (Seria interessante observar que livros de Fantasia ou outros géneros concorrentes foram publicados nesse ano e qual as suas vendas, e analisar a sua potencial influência sobre esta diminuição na publicação de FC. Mas já todos conhecemos a resposta, não é?)

b) Das editoras referidas anteriormente, duas delas (Europa-América e Livros do Brasil) cessaram praticamente a publicação de FC, descontinuando as suas colecções. Das três grandes editoras remanescentes, uma delas (Presença) apresentou uma diminuição acentuada na publicação de FC entre 2000-2005 (25 livros) e 2006-2009 (2 livros). As duas remanescentes apenas tiveram actividade significativa após 2005, pelo que não é relevante qualquer comparação. Objectivo, também, é que as duas primeiras (que cessaram a publicação) publicavam apenas ou maioritariamente FC (em detrimento de outros géneros do Fantástico, como o Horror ou a Fantasia), a terceira concentrou-se quase exclusivamente na Fantasia ou na Literatura adolescente, e as duas restantes incluem as obras de FC em colecções maioritariamente dominadas por obras de Fantasia ou outros géneros do Fantástico.

c) Todas essas editoras, nas escassas informações prestadas, maioritariamente através de entrevistas ou reportagens, indicam uma média de venda das obras de FC em torno dos 600 exemplares.

d) O mesmo número era já indicado também pela Caminho aos seus autores, em período anterior ao referido em a).

e) Os números indicados permanecem constantes independentemente da apresentação gráfica das obras ou das diferentes “máscaras” com que estas são comercializadas. Permanecem também constantes independentemente do preço de capa ou da qualidade desta, e independentemente de serem incluídas intra ou extra-colecção. Estes números aumentam na sequência de adaptação cinematográfica ou televisiva ou tie-in com as mesmas. (Estes dados parecem indicar ou uma constância do número de leitores de FC, ou uma constância de leitores de FC que dividem os seus afectos por sub-géneros da FC ou que, em ultima instância, compram FC enganados ou apenas pelo efeito de arrasto do sucesso das vertentes áudio-visuais).
f) No início dos anos 1980 assistiu-se a um incremento de publicação de FC, de certa forma mais consistente e concertado do que o que fora experimentado no imediato pós-25 de Abril. (Em ambos os casos, existem possíveis explicações sociológicas ou culturais para o facto: no primeiro caso, a conotação da FC com futuro, progresso e contra-cultura em meados dos anos 70, perfeitamente condizentes com a euforia pós-revolucionária; e no segundo caso pelo grande sucesso de STAR WARS, CE3K e E.T. e pela aproximação do ano de 1984).

g) Estudos recentes indicam que a frequência do ensino superior mais do que triplicou entre 1990 e 2005, e que as universidades são mais frequentadas por estudantes do sexo feminino do que masculino. Os mesmos estudos, ou estudos similares, indicam que se lê cada vez menos nas camadas universitárias e que a dita iliteracia funcional atinge em Portugal valores da ordem dos 80%.

h) São menos de 15% os portugueses que recorrem às compras on-line, seja em Portugal seja no estrangeiro. Desses, apenas uma percentagem escassa compra livros. (É certo, como eu já tinha aventado no meu primeiro post, e como o Ricardo Loureiro deu testemunho pessoal na caixa de comentários, que muitos leitores deixaram pura e simplesmente de ler em português, preferindo ir directamente à fonte. Mas atenta a percentagem de compradores on-line e a percentagem ainda menor de consumidores on-line de livros – para não referir já a ínfima minoria que compra livros de FC on-line – esse dado é negligenciável).

Todos estes são indicadores objectivos de que algo vai mal, muito mal, com a literatura de FC em Portugal. A sua conjugação parece indicar que esse é um problema que vai muito além da falta de números objectivos. A ideia de que existe um exército de leitores de FC formado nas últimas décadas, carece de todo de sustentação, quer a nível de factos, quer a nível de indicadores. A afirmação contrária, de que existiam leitores em número suficiente para manter várias colecções simultâneas ao longo de vários anos, prova-se pela existência dessas colecções (e não colhe aqui defender que algumas editoras poderiam – sempre a hipótese, nunca o facto – não pagar direitos, não pagar tradutores, não ter qualidade, não pagar ilustradores, etc… Essa realidade, a existir, permitiria aumentar os lucros das editoras, mas é irrelevante para o número de leitores, que compravam esses livros, ao mesmo preço, independentemente das práticas editoriais).
Penso que, no essencial, o Nuno tomou o mapa pelo território, e não vendo a grande cratera no mapa, resolveu negar a sua existência no real, mesmo enquanto os pés lhe escorregavam pela ladeira. Não quero, porém, menosprezar o texto do Nuno. Apesar de não corresponder à realidade que todos conhecemos, levanta inúmeras questões pertinentes e para as quais era importante encontrar uma resposta. Mas apenas porque todas elas apontam para um facto incontornável: não há FC de qualidade nas prateleiras das livrarias nem nos catálogos dos editores.

domingo, 18 de abril de 2010

A FC e as suas Audiências




Em resposta aos meus dois anteriores posts (e, reflexamente, ao post da Safaa Dib que inspirou toda a questão), o Nuno Fonseca publicou uma extensa reflexão sobre o potencial de comercialização da FC, para o qual o Rogério Ribeiro aponta , indicando-o como discordância do que eu aqui escrevi. Ora, se o texto do Nuno Fonseca tem alguns pontos de possível fricção com a posição por mim defendida, afigura-se-me que, no geral, não belisca minimamente o que afirmei.

Desde logo, Fonseca reconhece a realidade essencial que apontei no meu texto: algures entre finais dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado, desvaneceu-se o público leitor que sustentava praticamente em simultâneo, quatro colecções regulares de FC (Argonauta, Caminho, EA Bolso e Nébula) para além de outras iniciativas de menor duração (como a Contacto ou a Bolso Noite), fazendo com que o ritmo de publicação de FC sofresse um decréscimo de cerca de 32 volumes anuais (mais, se contarmos com a publicação ocasional de títulos de FC por outras editoras, fora de coleccção), para uns escassos 6 (na melhor das hipóteses, já incluindo esses títulos “surpresa”). Só que em vez de tentar explicar esse fenómeno, o Nuno opta por estender uma nuvem de questões, com o resultado de que as águas do debate parecem bastante mais turvas do que já estão. Algumas dessas questões, porém, são pertinentes, e merecem ser abordadas:

1) Antes de mais, a questão das tiragens: é verdade, como eu próprio reconheci, que os números são escassos. Porém, aqueles que temos, provêm de editoras com actividade frequente na área do Fantástico – e aplico aqui o Fantástico como incluindo a FC, e não no sentido Todoroviano, recorrendo a ele para indicar toda a literatura oposta ao mero realismo mimético, embora assuma que prefiro a designação FC&F, que sempre utilizei, para aquilo que se vem (erradamente) designando como Fantástico em geral – e que são surpreendentemente homogéneos. E, a menos que queiramos acusar todas as editoras de fraude e desonestidade, esses números são confirmados pelos relatórios de vendas que estas são legalmente obrigadas a enviar aos autores e que estes, querendo, podem livremente e a qualquer altura, sindicar. (Questão diferente, é a de saber se algumas editoras enviam esses relatórios e cumprem a legislação ou os contratos, mas essa é uma questão meramente acessória no thema decidendum sobre que versamos).

2) Questão imdiatamente conexa com essa, é a de apurar de que forma as alterações do livro-objecto podem ter reflexo nessa escassez de vendas. Ora, quer o Luís Filipe Silva, quer o António de Macedo, publicaram livros na Caminho antes e depois da transformação do formato bolso para o formato estante, com o concomitante aumento de preço dos (então) cerca de 350$00 para os 1.000$00 (o triplo do preço, uma medida já então fortemente criticada pelo Pedro Foyos em crónica no DN). Das conversas que tive com eles, não me recordo de as vendas terem sofrido uma quebra significativa (e se eles lerem este post, agradecia a confirmação ou a refutação deste facto), pelo que não terá sido essa a razão de afastamento dos leitores. Mas admito que a colecção azul da Caminho era relativamente sui generis em termos de conteúdo, e não disponho de quaisquer dados quanto às colecções da EA e da Argonauta. No entanto, a passagem da Contacto do formato hardback para o formato bolso, também não a impediu da extinção com fundamento na escassez de vendas. Actualmente, parece-me que é dado mais ou menos aceite, que o livro de bolso não vende, e que as recentes tentativas de retomar as edições de bolso (apesar dos preços mais baixos e, por vezes, das capas mais apelativas) foram um fracasso. Os leitores preferem comprar livros mais volumosos e mais caros, do que um número maior de livros.
Assim, e pese embora o entusiasmo do Nuno, falecem de imediato as suas duas primeiras conclusões, na medida em que equaciona a abundância de FC no passado com a certeza da possibilidade da sua publicação hoje e afirma que ainda existe hoje o público comprador de outrora (que não nos diz onde está).

3) Já a sua terceira conclusão (“- que toda uma geração foi exposta à FC escrita e que ela ainda existe em circulação, seja na casa das pessoas, em alfarrabistas ou simplesmente no imaginário ou "memória das estantes lá de casa") parece-me de pouco impacto para a situação actual do género.

De seguida, o Nuno Fonseca formula cinco perguntas, uma das quais foi respondida supra, outra das quais é parcialmente conclusiva e como tal só pode ser respondida clarificando as demais, e três bastante pertinentes, nomeadamente quanto a:

“- o peso que essas vendas terão no total da tiragem, no lucro da editora, de todos os intervenientes do mercado e, também importante, nas taxas de exposição e re-leitura;
- que há sectores a sobreviver com vendas e tiragens bem inferiores;
- a quem são vendidos esses números? “

4) Ora, quanto à primeira questão, a sua resposta é enganadoramente simples. Se uma editora imprime uma tiragem de 5.000 exemplares e vende 600, 600 esses que venderá se fizer uma tiragem de apenas 1.000 e que poderá esgotar caso se limite a uma tiragem de 600, o peso dessas vendas será sempre o mesmo, podendo fazer variar, isso sim, o peso do prejuízo. Mas a pergunta que realmente importaria formular como complemente necessário, é saber se vale a pena a uma editora de dimensão média/grande, pela margem de lucro obtida atentos os custos de produção (incluindo publicidade e marketing) e a constância das vendas, levar a cabo esse tipo de tiragem se não tiver um objectivo editorial que vá além da mera venda de livros. É uma questão que se prende intimamente com a seguinte e que leva a uma resposta similar: é possível que haja sectores a sobreviver com vendas e tiragens bem inferiores (imagino que a poesia seja um deles), mas aí importa apurar se vendas constantes de tiragens iguais ou inferiores a 600 exemplares não confirmam apenas que a FC é hoje um género pouco mais que marginal?; e se isso não é reconhecer que houve uma diminuição significativa do número de leitores de FC, que antes suportavam quatro colecções mensais e hoje têm dificuldade em assegurar uma venda de mais de 3.600 livros anuais (pressupondo a venda de 600 exemplares de cada um dos seis livros de FC publicados, optimisticamente, por ano).

5) Já a terceira questão, também conexa com aquelas, prende-se directamente com aquilo que eu escrevi. Ou seja, que em determinada altura, seja porque motivo for, quebrou-se uma cadeia de continuidade entre os leitores daquelas pretéritas colecções e os potenciais leitores da FC publicada nas editoras emergentes (Presença, Saída de Emergência, Gailivro, Livros de Areia, Chimpanzé Intelectual/E’scritório, etc..) que, ou abandonaram apenas as edições nacionais ou abandonaram o género.

Questão que o Nuno formula mas deixa sem responder, pois isso implicaria um esmiuçar, impossível por escassez de dados, sobre quem lê os bons livros de FC e que lê os outros, transpondo, como defendo, grande parte da responsabilidade desta situação para os leitores que temos (e que são produto dos nossos sucessivos sistemas educativo e político).

6)Continuando na sua senda de escamotear a realidade que todos nós percebemos quotidianamente por detrás de uma imaginada falta de números objectivos, o Nuno Fonseca formula uma falsa questão (“Há mesmo crise no negócio dos livros?”. Não, não há a menor crise no negócio dos livros, quando o próprio sector reclama um movimentação de quinhentos milhões de euros anuais, quando Grupos editoriais se constituem em Portugal como se nós fôssemos um país de literatos e de autores com grande projecção internacional; Há, isso sim, crise em alguns sectores do livro e em alguns géneros literários, como a FC), que serve apenas como pretexto para defender o gigante Leya, a coberto da observação de que na raiz do problema poderá estar o facto de “que quem tem meios para editar FC com sucesso e lucro” ser “quem não o faz”.
A posição é relevante – diria mesmo, determinante - mas o contexto é atabalhoado. Escreve Fonseca: “Certo certo é que, em termos de Fantástico, temos de recordar que a Gailivro não é a Leya, apesar de lhe pertencer; a Gailivro não determina a estratégia económica do grupo, pelo que o poder decisório quanto ao publicar não é igual.” Ora, antes de mais, há que decidir: ou a Gailivro é a LeYa ou não é a LeYa; num ou noutro caso, se tem ou não poder decisório, e em que termos.

Antes de mais, parece-me importante separar a questão da Gailivro-LeYa, da questão mais geral, tanto mais que nem compreendo porque razão o Nuno resolve individualizar essa editora. É minha opinião que a mais recente política editorial da Gailivro tem sido a mais danosa para o panorama do Fantástico nacional, e não apenas da FC. Precisamente, pelas razões que o Nuno aponta. Neste momento, nenhuma editora nacional teria melhores condições para relançar um Fantástico de qualidade, sem, no entanto, mostrar sinais de o querer fazer. O Nuno fala do marketing e das capas que escamoteiam a identidade da FC, mas o primeiro livro de FC da Gailivro publicado em 2010, escolhe para a capa uma iconografia de zombies, na linha da aposta editorial que eu referi num post anterior. Mas esta questão LeYa é completamente alheia ao que vimos discutindo, pois a política editorial seguida pela Gailivro não apresenta alterações significativas face àquela que seguia antes da aquisição pelo Grupo.

Mais importante, ainda que empiricamente e porventura seguindo uma filosofia “em cima do joelho”, seria colocar a seguinte questão: Porque não aposta a Gailivro na boa FC? Porque razão, tendo a Presença estreado a sua colecção Viajantes no Tempo com livros de FC destinados a adultos e de qualidade (Stephensom, Asher, Dick) depressa a transformou numa colecção juvenil? Porque razão desistiu da publicação do CARBONO ALTERADO, que viria depois a ser publicado pela SdE, com resultados bem distantes dos obtidos na língua original? Falta de promoção? Falta de marketing? Quer a Presença quer a Saída de Emergência (entendá-mo-las, neste cenário de mega-grupos literários como pequenas ou médias editoras) têm uma exposição pública nvejável. As principais livrarias têm os seus livros nas montras e nos expositores? Que as leva então a tomar estas decisões, senão as ridículas vendas da FC?

O Nuno equaciona de seguida os Grupos como a LeYa com as cadeias como a FNAC. Aí está redondamente enganado. Se é certo que grupos como a FNAC, com as condições que impõem para a fixação de um preço inferior ao da venda em livrarias normais, pode levar a um encarecimento dos livros (pois as editoras procurarão manter a sua margem de lucro), não é menos certo que, pelo menos a FNAC, é muito mais receptiva à venda de edições de pequenas e médias editoras, e mesmo da literatura de FC, do que as distribuidoras e livrarias convencionais.

7) Igualmente escamoteadora da realidade é a questão da pescadinha de rabo na boca que o Nuno estabelece entre o “não se publica por não se vende, não se vende porque não se publica”, e escamoteadora porque parte do princípio de um novum, em contradição com o que defendeu em um. Ou seja, e como já antes tive oportunidade de observar ao Nuno, num outro post, a questão não é porque razão a FC não vende, mas sim porque razão a FC deixou de vender. É um fenómeno conexo e paralelo à de perguntar porque razão a Fantasia começou a vender tanto. Há certamente pontos de contacto entre ambas as questões, mas a resposta de uma nunca será suficiente para esclarecer a outra.

É que, apesar de tudo, e por muito mercantilistas que sejam, as editoras e os grupos editoriais não são insensíveis às pressões da procura. E eu, que sou insuspeito nessa matéria, não sinto a mais pequena pressão de procura da FC. Daí que eu não censure, por exemplo a Gailivro por não publicar FC; censuro a Gailivro por contribuir conscientemente para tornar impossível no curto-médio prazo avitalidade da FC e do Fantástico em geral, ao substituí-los paulatinamente por derivados que apresenta como tal. No que não está sozinha.

8) Por fim, iluminado por um fulgurante pensamento politicamente correcto, o Nuno aborda duas questões importantes – a da influência dos leitores de sexo feminino, e o do cinema de FC – escudando-se numa suposta falta de estudos e números objectivos, ignorando, porventura, que esses números existem lá fora, e que ambas as questões têm sido estudadas de forma pertinente e conexa pelo menos desde há trinta anos para cá, quando o surgimento dos primeiros fenómenos televisivos na área da FC, como o Star Trek (1966-1969) nos Estados Unidos e o Doctor Who (1963-1995) e sucessivas reencarnações, permitiram perceber uma alteração na demografia e na distribuição das audiências, sobretudo através da quase predominância de mulheres no universo de fanzines e fan-fiction da série Star Trek, motivada mais pela “sedução” do Sr. Spock do que do capitão Kirk. No entanto, este súbito crescimento da base feminina de fãs da FC, acompanhando os movimentos feministas e de empowerment das mulheres que nessa altura começavam a emergir, não era idêntico ao da tradicional base masculina da FC da Golden Age e dos anos cinquenta. Referindo-se, por exemplo, ao aspecto utópico da série Star Trek, Henry Jenkins (in Textual Poachers: Television Fans and Participatory Culture, 1992) escreve: “female fans of Star Trek have, in fan magazines, gone further into the utopian than the text itself, transforming Spock himself and the series ‘into women’s culture, shifting it from science fiction into romance, bringing to the surface the unwritten feminine “countertext”, and forcing it “to respond to their needs and to gratify their desires. These female fanzine writers, thus, re-position the play of generic ambiguities and contradictions that Cranny-Francis talks about, but in this case outside the televised text” (o bold é meu, o itálico é do autor).

Analisando o mesmo fenómeno, o aumento significativo da demografia do público-alvo da FC no pós guerra, e aceitando a posição de Gerald Klein de que a FC adoptou uma via pessimista nos anos 50, assim a distinguindo da via optimista dos anos de Campbell, Adrian Mellor [in ‘Science Fiction and the Crisis of the Educated Middle Class’, in C.Pawling, (Ed.), Popular Fiction and Social Change (London: Macmillan, 1984), p. 39] comenta que “Our thesis must be that science fiction remained culturally marginalised for just as long as it continued to embrace science and technology, and to view the future with optimism. To the extent that it abandoned this world view, embracing instead the values of pessimism and tragic despair, so it was in turn embraced by the ‘dominated fraction’ of the dominant class. For the ‘tragic vision’ whose origins can clearly be discerned in SF from the 1950s onwards, is itself expressive of core values of the educated middle class. Mainstream culture’s new interest in SF, the vast growth of college science fiction courses in the United States, the advance of certain SF texts to the status of cult objects within the (middle-class) hippie counter-culture all this becomes explicable as a meeting of ideological minds. It is not the educated middle class that has changed, it is science fiction. The retreat into pessimism and cosmic despair is viewed by the dominated fraction of capitalism’s dominant class as a maturation, a welcome end to the isolation forced upon a subculture by virtue of its faith in the future.

Uma constatação que levou Teresa Ebert a distinguir três formas de FC em razão dos seus respectivos receptores e consumidores: a FC mimética (a que também se referia como “literária” e que empregaria ‘mimetic conventions of the bourgeois novel with its preoccupations with sociopsychological realism and its commitment to a causal interpretation of the universe’), Meta-FC (‘a self-reflexive discourse acutely aware of its own aesthetic status and artificiality’) e o parente pobre a Para-FC. Se da primeira dava como exemplo o STRANGER IN A STRANGE LAND do Heinlein e do segundo o DAHLGREN do Delaney, o exemplo escolhido da terceira era a série STAR TREK, o único exemplo desta nova forma de recepção de FC. Da Para-FC escrevia ela “Para science fiction is a type of writing which is energised by the sudden popularity of science fiction among a new class of readers… an adaptation and updating of the old-fashioned space opera type of science fiction for the tastes of middle class consumers whose passion for gadgets is inexhaustible…. This type of science fiction has the tendency to leave the literary altogether and move into TV serials, films and comic strips.” (in ‘The Convergence of Postmodern Innovative Fiction and Science Fiction’, Poetics Today, 1:4, 1980, p. 92.).

Pese embora o meu desagrado por algumas das considerações da autora, é relevante a associação que desde sempre se estabeleceu entre o surgimento da FC televisual e o aumento da demografia de espectadores de ambos os sexos ao afastamento da FC escrita e das suas naturais características. Quando em 1982, William Sims Bainbridge da Universidade de Harvard publicou os resultados do primeiro estudo científico do reflexo da composição das audiências do género sobre a sua percepção, elaborado no decurso da 36º WorldCon, as conclusões (conforme sumariadas) foram: “Science fiction has become an important medium of communication for new ideas and values concerning sex roles, and the influx of women into this previously male literary subculture is a change of significance for popular culture. This article uses the first large well-collected body of social science survey data to examine the ideological orientations of women readers and authors. None of the leading women authors write the traditional Hard-Science variety of science fiction that explores innovations in physicial science and technology, and there is a slight tendency for women readers to prefer this type less than men do. Women authors tend to write either Sword-and-Sorcery, a variety of heroic fantasy, or New-Wave science fiction, a politically liberal and stylistically progressive form. Many of the women authors use their fiction as a medium for advocating social change from a feminist perspective. Science fiction has become a forum for women authors' uninhibited public analysis of contemporary sex roles and consideration of options for the future.” (in Sex Roles, Vol. 8, No. 10, 1982).

Dados mais completos e uma história mais detalhada podem ser encontrados, por exemplo, em Science Fiction Audiences – Watching Doctor Who and Star Trek (2005) de John Tulloch e Henry Jenkins, que me foi de extrema utilidade para localizar a bibliografia citada neste texto.

Até que ponto estes estudos podem ser transpostos para a realidade portuguesa actual pode, e deve, naturalmente, ser debatida, mas não permite de forma alguma o subterfúgio de que houve uma transmutação da comunidade de leitores para a comunidade de telespectadores ou consumidores de espectáculos cinematográficos. Não só porque a literatura coexiste com eles desde os anos 50 (no caso do cinema) e dos anos 60 (no caso da TV), como porque cinema e televisão apresentam um discurso completamente distinto do da FC escrita, com raros e pontuais casos de sintonia entre ambos. Não tenciono menosprezar o cinema e a televisão de FC (que muito aprecio e de que sou consumidor habitual), mas isso não permite negar a predominância do espectáculo visual nesses meios em detrimento do conteúdo. Nessas circunstâncias, a literatura continua a ser a forma predominante da FC. E é essa que está manifestamente em crise em Portugal.

sábado, 17 de abril de 2010

Ficção Científica: Os porquês e os porque nãos (um rascunho)




Este texto nasceu como uma breve resposta ao comentário que a Regina Catarino deixou no meu post anterior, e cresceu até merecer a visibilidade de um post próprio. Por isso, e antes de mais, tenho que agradecer à simpática Regina pelo espicaçar, e pelas palavras amáveis quanto à possibilidade de trocar ideias civilizadamente neste blogue. Sempre procurei que assim fosse, e só num caso - como de habitual, com o(s) suspeito(s) do costume - é que a coisa descambou para a indesejada javardice. Mas adiante.

O comentário da Catarina (cuja leitura na íntegra podem fazer – e recomendo – na caixa de comentários) colocava uma série de questões quanto ao porquê de cada vez de publicar e ler menos FC em Portugal. Ao fim e ao cabo, a pergunta que todos nós, entusiastas do género ouvimos e colocámos com demasiada frequência para que possamos ser optimistas quanto à saúde deste.

Ora, quanto ao porquê de não se publicar mais FC em Portugal, e de as editoras não apostarem na FC, a resposta é simples: a FC não vende. Seja qual for a editora (ou editores) a quem se coloque a questão, todos são unânimes: um bom livro de FC vende, em média 600 a 800 exemplares, o que é muito pouco quando comparado com as vendas de séries de Fantasia, de Romances Históricos ou de Romances Cor-de-Rosa.

No entanto, essa questão pressupõe, obviamente uma outra: porque é que a FC não vende? OU seja, porque razão os leitores portugueses viraram as costas à FC?

E essa é uma questão de difícil resposta por não dispormos de estudos, números e informações suficientes. Mas, seja qual for a explicação para esse fenómeno, penso que ela se há-de sempre buscar na confluência de uma série de factores; a saber:

a) um aumento da iliteracia e da iliteracia funcional. Como todos sabemos, a FC, quando levada a sério, pode ser um dos géneros mais exigentes para o leitor, impondo-lhe um mínimo de conhecimentos básicos de ciência e uma vontade de descobrir novas formas de ver o mundo. Note-se, porém, que não estou a dizer que é preciso saber ciência ou ser-se cientista para apreciar a FC, mas exige-se do leitor uma certa "atitude" intelectual que lhe permita questionar - pelo lado da "realidade" - o mundo em que vive, assumindo a possibilidade de que este é 1) objectivamente cognoscível através da ciência; 2) meramente contingente; e 3) susceptível de permanente e radical mudança.

b) Por outro lado, um aumento da ignorância científica, substituída pelo fascínio por gadgets; o fácil acesso à mais avançada tecnologia leva o leitor a contentar-se com o mero conhecimento na "óptica do utilizador" em deterimento do conhecimento técnico-científico.

c) Em terceiro lugar, a FC evoluiu muitíssimo desde os tempos de Verne e Wells, sofrendo consideráveis mutações e espraiando-se numa filigrana de sub-géneros comunicantes e reciprocamente alimentados de temas, ideias e formas de tratamento. Infelizmente, essa evolução não foi acompanhada pelas nossas colecções - seja a Argonauta, a Caminho ou a EA Bolso - que se foram limitando a repetir quase exclusivamente um mesmo "tipo" de FC, ou subgénero da FC, levando a 1) uma saturação dos leitores, fartos de lerem ao longo de 50 anos a FC de há 50 anos (e mal traduzida); e 2) o afastamento de leitores que conhecendo a FC fizeram transitar as suas aquisições para as lojas internacionais e especializadas, lendo-a na língua original, não mais regressando a casa (por assim dizer).

d) O envelhecimento dos leitores, compaginado com c), e com as características típicas da FC (sobretudo a auto-referenciação) que impedem a entrada de novos leitores desprovidos do conhecimento da longa evolução do género e das suas mais recentes manifestações.

e) O facto inverso de a literatura de Fantasia Épica - a mais predominante entre nós - não sofrer tantas evoluções a nível da estrutura narrativa, mas tão só a nível de formas de tratamento dos temas (técnicas literárias), reforçando a familiaridade e a "segurança" dos leitores (bem como facilitando as estratégias de marketing).

f) O facto de a FC no cinema mais recente assentar exclusivamente no espectáculo visual, praticamente não se distinguindo do thriller, do cinema de aventuras ou de acção (para não dizer Fantasia ou Tecnofantasia), que, ao invés de atrair novos leitores, os afasta logo que pegam num livro de FC.

g) O grande sucesso do cinema de Fantasia (LOTR, Harry Potter, etc..) com o efeito inverso.

h) Apesar de parecer preconceito, é (estatisticamente) verdade que há menos mulheres a ler FC do que homens; ora, a par da evolução dos gadgets (que podem afastar mais homens do que mulheres da leitura - em particular por via dos videojogos), assistiu-se a um maior predomínio de leitoras em geral, com o necessário reflexo nos gostos de leitura e no pequeno campo da FC;

i)A incapacidade de muitos editores compreenderem sequer o que é FC - da qual têm um (pre)conceito e uma imagem derivada da iconografia genérica e não do objectivo último da sua utilização, leva a que estes "fujam" da FC, ou tão só publiquem aquela que se conforma à sua percepção pessoal do género.

j) Por parte de muitos autores ou aspirantes a tal, observa-se, por vezes, um fenómeno curioso, que é escreverem aquilo a que se soe chamar "FC para quem não gosta de FC", ou seja, textos que pretendem apenas utilizar a iconografia e as técnicas da FC a nível meramente metafórico, simbólico ou satírico (a DAGON #0 trás um exemplo claro disso).

h) Some-se a tudo isso o desprezo da crítica em geral (que em Portugal, como se sabe, é de qualidade rasteira e meramente propagandística ou presa a afectos) que contribui para diminuir, não só a exposição do género, como a sua recepção, estigmatizando-a.

i) E há, também, por vezes conexa com a anterior, lamentavelmente, uma razão político-ideológica: a esquerda política (com as suas excrescências feministas e multiculturalistas) sempre equacionou a ciência e a tecnologia com o domínio de princípios conservadores, tudo contribuindo para que uma literatura que é claramente defensora de um domínio do tecnológico e - por vezes mesmo - de uma tecnocracia (quando não propondo mesmo que o processo decisório da res publica passe por um processo científico e não político), seja claramente anátema.

j) Por último, e ainda conexo com os dois pontos anteriores, ambas as condicionantes são reforçadas por uma crescente afirmação das escolas de pensamento pós-modernistas nas faculdades de letras, com a sua daninha proposição de que todas as manifestações culturais são igualmente válidas como instrumentos de conhecimento (nesta perspectiva o conhecimento cientifico ou as crenças religiosas, os mitos ou a história, tudo teria igual valor) – veja-se, por exemplo, Boaventura Sousa Santos e Eduardo Prado Coelho. Obviamente, num tal caldo anóxico é impossível a sobrevivência de um género literário que subsiste de uma clara delimitação entre o possível, o impossível, o provável e o exequível.

Tendo em conta estes elementos, como poderemos conceber um possível futuro para a FC nacional? Correndo o risco de fazer soar novamente as trompetas das habituais lamúrias, diria que o futuro da FC em Portugal (e do fantástico em geral) se mostra hoje mais negro do que há cinco anos atrás. A FC está estrangulada pela proliferação de fantasias juvenis e autores pueris, as primeiras manifestamente lucrativas, os segundos oferecendo uma via aberta ao oportunismo editorial. A falta de qualidade de uns e outros, e o abastardamento do Fantástico às mãos de Stephenie Meyers, Paolinis e companhia, criaram uma tal poluição que serão necessários muitos e muitos anos para se recuperar um mínimo de senso. E isso é pouco provável por duas ordens de razões: 1) Porque são pouco exigentes e fáceis de obter e imitar, enquanto a receita tiver sucesso vai ser explorada até à exaustão. Alguns bons títulos serão publicados, ou por editoras alternativas aos grandes grupos que se constituíram recentemente, ou por estes numa tentativa de defenderem um mínimo de credibilidade e apaziguarem os críticos mais ferozes; 2) quando o filão se esgotar e os lucros caírem a pique (como aconteceu, no cinema, com os grandes Dramas Históricos nos anos 60), o impacto não se fará sentir apenas nestas obras de imitação, mas também nas obras do género stricto sensu, que serão sempre identificadas com aquelas. Afinal, já há muito se observou com alguma pertinência que a FC é um género que é sempre julgado pelos seus piores exemplos.

Recordo, por exemplo, que até Junho de 2009, tinham sido publicados apenas dois livros de Ficção Científica: o WHERE LATE THE SWEET BIRDS SANG da Kate Willhelm pela Gailivro e a antologia COM A CABEÇA NA LUA, pela Saída de Emergância. Daí até ao final do ano, foram publicados mais dois ou três livros também por estas duas editoras cujos editores, Luís Corte-Real e Pedro Reisinho, no debate da SPA organizado pela OML em Outubro, prometeram grandes apostas no campo da FC para 2010. Em meados de Abril deste ano, corrido quase o primeiro terço do ano, foram publicados apenas dois livros de FC, ambos pelas mesmas editoras (o FORÇAS DE MERCADO pela Saída de Emergência , e a antologia do João Barreiros, SE ACORDAR ANTES DE MORRER pela Gailivro). Ora, a publicação de menos de um título por mês é incomportável para o desenvolvimento do género. É certo, tanto quanto sei, que a SdE tem em preparação pelo menos mais três livros de FC e a Gailivro, um, pelo que até ao final do ano o panorama pode alterar-se ligeiramente (e a SdE já publicou a BANG! que promete ter pelo menos mais dois números este ano, possivelmente três – como diz a capa do #7, “daqui para a frente a revista BANG! promete sair de 3 em 3 meses, MESMO!”), mas chegando Novembro e o Fórum Fantástico, já anunciado, logo faremos contas.

No entanto, é confrangedor verificar que pelos dois livros de FC já publicados, surgiram nas livrarias mais de uma vintena de títulos de pseudo-Fantástico ou dedicados exclusivamente a um público juvenil, que necessariamente abafarão a sua visibilidade. O futuro, como dizia o sábio Criswell, é composto de coisas que nos acontecerão no futuro e, daí que, embora tenha a convicção de que a FC e o bom Fantástico estarão praticamente mortos em Portugal durante os próximos vinte anos (se não mais), reservo o meu prognóstico para o fim do jogo, como diria esse Criswell do futebol que é o João Pinto. Porque nunca tanto como neste caso, desejaria estar enganado.

Adenda (às 20:12): Estupidamente, ao referir os títulos de FC publicados este ano, esqueci-me do FLASHFORWARD do Robert J. Sawyer, também da Saída de Emergência. Fica corrigido o lapso que, lamentavelmente, em nada altera o que disse seguidamente.

Adenda II (às 21:47): Esqueci-me também da edição da Antagonista do GOLFINHO DE JÚPITER da Mary Rosenblum, o que aumenta, para já, a média para um livro por mês. Aqui fica a necessária correcção.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Leitura Obrigatória

No meio de todo a lodo que nestes últimos dias se levantou do fundo dos fundos do fandom, quase se perdia aquele que é, provavelmente, o melhor e mais importante ensaio escrito em português sobre a natureza, o presente e o futuro daquilo a que, quantas vezes sem critério, costumamos referir-nos como Ficção Científica Portuguesa. Impõe-se por isso uma especial chamada de atenção para este brilhante post de Luís Filipe Silva, e uma invectiva a todos que me leiam para que sigam o link e meditem atentamente nas palavras e na chamada de atenção do Luís. Certamente não voltarão a encarar a questão da mesma forma após uma leitura atenta.
Por minha parte, confesso que encontro ali, de forma clara e cristalina, aquilo que desde há anos para cá venho tentando expressar sem sucesso, após uma breve afloração ao tema na minha primeira coluna “Ácido Gástrico” nas extintas Brigadas FC. Nesse texto citei um ensaio que Elizabeth Vonarburg publicou na New York Review of Science Fiction #57 (Maio de 1993), com o sugestivo título So You Want to Be a Science Fiction Writer?, onde a dado passo se pode ler “when you are not an American science fiction writer, and not a native English speaker writing science fiction, all you can do is write either WITH or AGAINST the American and British science fiction traditions – what you know of them”.
São palavras que continuo a subscrever inteiramente, tal como agora subscrevo inteiramente a opinião do LFS. Mas gostava de acrescentar algo a esta minha subscrição sem reservas: é que o Luís Filipe Silva toca aqui num ponto tão óbvio, tão intuitivo, que raramente é referido, compreendido e reflectido. O facto de a Ficção Científica ser uma semântica e uma gramática essencialmente Americanas. Todas as outras ficções científicas, são apenas traduções desse Ur-text essencial. É, obviamente, uma contingência histórica: a ficção científica Americana enquanto género literário como inicialmente definido por Hugo Gernsback em 1926 nasce da confluência e cristalização das suas raízes de origem francesa (Verne), inglesa (Wells) e norte-americana (Poe). E dessas primeiras frases trans/internacionais, criou-se essa nova linguagem que é a Ficção Científica que, como o Luís certeiramente sugere, é sempre acompanhada do apodo invisível “americana”. E é-o por força da uma das suas característica essenciais, para a qual Frederik Pohl chamara a atenção ainda nos anos 50 e que Barry N. Malzberg tão eloquentemente sintetiza também no seu ensaio Science Fiction as Picasso (1980), incluído no seu histórico volume BREAKFAST AMONG THE RUINS: “Science Fiction, Fred Pohl has said, is the only genre where collaboration is commonplace, in which collaborative works of quality are prevalent because science fiction is a pool of ideas, a manner of approach; writers function less from their idiosyncratic vision (as is the case in «serious» literature) or their ability to recombine elements of the form (the mystery and the western) then from their immersion in the approach. Science Fiction, as Pohl said, is a way of thinking about things”.

Ora esse cadinho de ideias para o qual todos os autores vão contribuindo a cada obra, enriquecendo-lhe o léxico, é, por default, porque não pode ser de outra forma, um cadinho americano. É esta essencial característica que permite que Malzberg defina “science fiction as a single, demented, multi-tentacled artist singing and painting and transcribing in fashion clumsy and elegant, errant and imitative, innovative and repetitious, the way the future would feel”. Só que esta criatura singular tem que ser forçosamente englobante, agregadora das várias formas de expressão, das várias mãos que se erguem de meninos que querem subir ao palco, sob o manto de uma única linguagem, que é a ficção científica.

Daí que o Luís tenha toda a razão quando questiona a validade e o interesse – eu diria mesmo a possibilidade – de uma Ficção Científica não-americana e, ultimamente, de uma ficção científica geneticamente portuguesa. Até que grau será possível afastar-se da matriz americana sem erradicar as próprias características da Ficção Científica? Até que ponto será necessário afastar-se das raízes genéricas para criar uma ficção científica de carácter verdadeiramente local? E será essa ficção científica, ainda ficção científica?

Ao ler o ensaio do Luís, apercebo-me como se fosse pela primeira vez, de que todos temos andado a falar de uma criatura que ainda ninguém definiu a contento: uma Ficção Científica Portuguesa. O que é? Como reconhecê-la? A mais próxima definição que encontro continua a ser a de José Manuel Morais: uma ficção científica escrita por portugueses (onde deveria ler-se, invisível, uma Ficção Científica Americana escrita por portugueses). E poderá haver outra? Existirá, por exemplo, uma Ficção Científica Francesa que não seja uma Ficção Científica Americana Escrita por Franceses?

A pergunta pode colocar-se, sistematicamente, ao longo da geografia global, procurando sempre uma mesma resposta: se existe, qual é o elemento que faz dela uma Ficção Científica não-Americana? É evidente que não me é possível ensaiar sequer uma tentativa de resposta quanto a uma multiplicidade de universos imaginários que não conheço senão pelo reflexo distorcido do cinema (que, como todos sabemos, se posiciona quase sempre e cada vez mais em oposição ao universo da FC escrita, afastando leitores e distorcendo a sua semântica própria para a adaptar à (uni)dimensão do espectáculo sensorial): a FC Japonesa, ou Checa, por exemplo. Mas vasculhando bem fundo que poderemos encontrar? John Griffiths, no seu pertinente Three Tomorrows – American, British and Soviet Science Fiction (1980), não analisa o trabalho de Lem, mas refere: “I believe its characteristics stem more from his Polishness than from his politics, and since he himself specifically rejects any special role for science fiction and even rejects the Russian Tarkovsky’s treatment of his novel Solaris (…)” mas não aprofunda mais a questão. Mas seria interessante apurar quais os elementos que conformariam aquela “polacidade” de Lem, que considerava a ficção científica como um bando de charlatães rodeando um único verdadeiro profeta, Philip K. Dick... um autor americano.



Interessante, também, neste tactear cego à procura da essencial alteridade regional ou nacional, escarafunchar um pouco numa Ficção Científica que pensaríamos tão essencialmente antagónica ao modelo Americano como o deveria ser a Soviética. Mas esta, começando com Plutonia, uma narrativa iniciada em 1913 mas terminada apenas após a Revolução de 1917, cedo se viu tolhida pelo diktat do seu autor, Obruschev (tão familiar aos nossos ouvidos) de que uma boa história de FC, para além de plausível deveria ser educativa, desprezando o carácter lúdico da FC de Verne e Doyle, que Obruschev deplorava mas em cuja veia escrevia sem o jeito daqueles autores. Após a Revolução, a FC Soviética voltar-se-ia uma vez mais para os autores utópicos do Século XIX, como os Príncipes Mikhaíl Scherbatov e Nikolai Chernishevsky, a par de autores menores mas mais tecnofílicos como Chikolev e Rodnik. Gorki escreveria que “a ciência e a tecnologia não deveriam ser representadas como um armazém de convenções prontas a servir, mas sim como uma arena onde um homem real se sobrepõe à matéria e às tradições”, recomendação que os autores Soviéticos se apressaram a ignorar. Por fim, em 1928 o Partido Comunista começa a controlar as publicações, até suprimir as inúmeras e populares revistas de FC que, nas palavras de Alan Myers (numa carta enviada a Griffiths) eram preenchidas quase totalmente por “plágios de produtos ocidentais ou meras traduções destes, incluindo incontáveis cientistas loucos; após a supressão das revistas em 1930, as pessoas olhavam com nostalgia para aquelas histórias, mesmo já na década de cinquenta, contrastando as suas aventuras cheias de acção com o aborrecidíssimo produto contemporâneo”. A situação mudaria nos anos 70 com autores como os Strugatski, Snegov ou Pukhov, autores manifestamente heterodoxos em relação ao regime e à literatura por este imposta (Efremov e companhia), influenciados pelo crescente influxo de obras de autores ocidentais na União Soviética após a abertura proporcionada pela visita de Nixon à URSS, sobretudo Heinlein, Dick, Asimov, Sheckley, Bester, Simak, et. al.

Ou seja, mesmo uma literatura fantástica como a Soviética, que nos pareceria mais naturalmente dona de uma voz própria, optou ao longo da sua evolução pela imitação, agregação, adopção e adaptação dos temas, linguagem e semântica própria da Literatura de FC Ocidental, dando forma ainda mais consistente à imagem de Malzberg que via os autores de FC apenas como tentáculos de uma única criatura: a Ficção Científica.

Como necessário corolário dessa assunção, Malzberg deixa-nos ainda uma lição que, se seguida, poderia ter sido bastante nestes últimos dias: “We may be less than the sum of our parts but we are far, far more in the aggregate than individually we ever took ourselves to be. None of us can build science fiction, none of us can destroy it. Science fiction gave us voice and the voice, however directed, must be toward its perpetuation.

É o que permite à Ficção Científica manter-se pujante e coesa há cento e cinquenta anos, essa unidade em torno de um cânone universalmente reconhecido, amado, imitado e enriquecido por cada autor que se estreia no género. É a base da sua perpetuação.

Por isso, e na peugada do trabalho do LFS, penso que seria importante reflectir sobre o tema, procurar descobrir quais seriam os modos de tratamento da FC que permitiriam torná-la genuinamente portuguesa. Que cada um de nós parasse um pouco para pensar nos pontos extremamente válidos que o Luís formulou, e apresentasse, nos seus próprios blogues, ou nas caixas de comentários disponíveis, a sua opinião sobre a possibilidade, necessidade ou utilidade de uma Ficção Científica exclusivamente Portuguesa.

Não posso terminar estas breves notas sem responder à questão obrigatória: por muito que me custasse deixar para trás os trabalhos do João Barreiros, do Luís Filipe Silva, do David Soares, do Macedo, ou do Tércio, não hesitaria um segundo em escolher a primeira pilha. A vantagem é que quem escolhesse a segunda ia ter que gramar o que eu próprio escrevi. A escolha foi vossa.

domingo, 5 de julho de 2009

Umbiguismo


Isto é o que acontece quando o umbigo domina o cérebro.

Afinal, a culpa agora é do Twitter, que não o deixou desenvolver a sua lógica discursiva. Mas o Twitter tem destas coisas, impõe um verter constante de egolalias sob pena de esquecimento, e o insigne autor não resiste a colocar-se debaixo do holofote. Mas como não lhe podemos negar uma certa capacidade de análise, ele explica tudo neste post.

Mas voltando ao que nos traz aqui: é um post longo, mas tem momentos que justificam a sua leitura. Afinal, até um relógio parado acerta duas vezes por dia. Mas torna-se mais interessante se compaginado com este post do Nuno Fonseca, modestamente nascido como comentário aqui no Blade Runner, mas elevado à sua real dignidade no Inner Space. O Nuno levanta algumas questões pertinentes mas que não deixam de perder parte do seu potencial explicativo ao perfilharem do mesmo erro que anima parte do post do Jorge Candeias. A outra parte é animada pela mais pura má-fé e desonestidade, mas a isso já vamos; a saber: um erro na datação da FC Portuguesa e do fandom nacional.

Escreve o Nuno que “O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios.” O exemplo da Saída de Emergência é legítimo, mas não exclusivo. Efectivamente, para quem tem andado atento a estas coisas, quer a Presença, quer a Gailivro, quer mesmo – em casos contados – a Civilização, têm apostado fortemente em marketing e divulgação. E penso não estar a exagerar quando digo que a Gailivro é, até, das editoras com marketing mais agressivo e com um sentido de comunidade de leitores mais forte (embora limitada a um segmento específico de mercado). É certo que o Fórum BANG! da Saída de Emergência foi nesse aspecto pioneiro e inovador, mas é um aspecto que carece de uma potencialidade explicativa total.

Sobretudo porque o problema que ninguém parece querer abordar é precisamente aquele que transparece da referência aos primórdios da FC. É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa.

O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.

Já o Nuno imagina um eterno recomeço da FC em Portugal – que é real – mas que não pode permitir uma eterna infantilização do género, nem pode permitir escamotear a pergunta a que importa responder. E esta não é como chegar aos potenciais leitores, mas sim para onde foram os leitores que durante anos justificaram a existência dos vastos catálogos da Argonauta, da Europa América, da Caminho, da Panorama, da Bolso Noite, etc, etc.. Para onde foi o público leitor adulto de Ficção Científica, que desapareceu sem deixar rasto? Observe-se que mesmo a colecção VIAJANTES DO TEMPO da Presença arrancou com um público adulto em vista, antes de se ir progressivamente encerrando na sua caixinha juvenil, abdicando mesmo da publicação de um título como o Carbono Alterado (2002) de Richard Morgan, que estava já traduzido.

A verdade é que, como quem passa uma esponja, vamos encarando como natural um renascimento cíclico da FC em Portugal, esquecendo que a primeira tentativa de criação de um Clube de Leitores de Ficção Científica entre nós data já de 1965. Que foi feito do público leitor destes últimos 45 anos? Porque não responderam às iniciativas das inúmeras editoras que tentaram nesta última década fazer renascer o género? Falta de publicidade? Não creio. Porque a falta de publicidade também não explica o afastamento de muitos dos autores nacionais que escreviam nessas colecções e que são os primeiros a acusarem o desinteresse do público.

O Jorge também acredita que parte do problema reside na falta de divulgação, mas acrescenta-lhe a actividade sinistra de uma cáfila de indivíduos que tem estado à frente de algumas das iniciativas editoriais de publicação de FC, e que não tem sensibilidade para compreender o público português. Mas será isso verdade? Ele refere o exemplo da Contacto, uma colecção dirigida pelo João Barreiros que revelou estar à frente do seu tempo, pelo menos uns vinte anos. Culpa do director da Colecção, ou culpa do público leitor? Não referiu que a Livros de Areia, por exemplo, encabeçou em 2005 o regresso ao Livro de Bolso que agora parece ser uma nova (e fracassada) revolução editorial. Culpa da Editora ou do Público Leitor? Também não fala do caso paradigmático da Cavalo de Ferro, que se calhar lhe permitiria testar a tese que pretende fazer passar: um editora (profissional ou não?) com selecção criteriosa de títulos, com público alvo definido, excelente visibilidade, e que desapareceu depois de apostar na promoção de livros comerciais e de alto retorno. Culpa dos Editores, do Público Leitor, ou do Jorge?

Do Jorge não, certamente, porque o Jorge gosta de atirar a pedra e depois lançar-se para o chão a uivar “aqui d’El Rei que me batem, ai ai ai”. A verdade é que o Jorge resolveu soltar uma flatulenta farpa no twitter porque não se deu ao trabalho de ler o que os outros escreveram. Quando lhe foi chamada a atenção para o facto, fez aquilo que lhe é habitual: vitimização e ataque indiscriminado, ventilando frustrações e ódiozinhos de estimação, desta vez alargando-se a todos aqueles que tenham qualquer ligação comigo. Imagina insultos, ameaça com câmaras de vácuo, porque as de gás não quadram bem com ele, que ele é mais gulags e falsificações da história.

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?

Curiosamente, há coisa de um ano, o mesmo Jorge escrevia, aqui, que: “eu tenho sempre sérias dúvidas de que o mercado realmente "exija" seja o que for, especialmente na indústria cultural. O mercado escolhe entre aquilo que tem para escolher, e geralmente nem isso, geralmente são os publicitários e o marketing quem escolhe”.

Aqui chegados, confrontados com a contradição (ou será, apenas, mera evolução do pensamento?) seria o ponto em que o Jorge poderia acrescentar algo de útil, ajudando-nos, a nós, editores, críticos e leitores, a perceber melhor os padrões culturais que possam permitir melhorar esta situação. Mas quanto a isso, o insigne educador mantêm-se mudo e quedo. Porque essa não era a sua intenção, nem era a intenção do seu post. O seu real objectivo – daí a má-fé e a desonestidade – era chegar à conclusão de que aqueles que manifestam uma opinião contrária à sua, perfurando a confortável bolha do seu solipsismo, querem apenas destruir a FC. E acusa-nos de nada fazermos, ou de nada fazermos bem pelo género e, no que concerne especificamente à minha actividade de editor na Livros de Areia, acusa-me de incompetência.

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

Ou será falta de divulgação? Quer o Jorge quer o Nuno encontram potencialidades mágicas no marketing, na publicidade e na divulgação. Na perspectiva de ambos, seria a divulgação que permitiria a confluência do público leitor potencial (evidentemente desprovido da capacidade de iniciativa que os levasse a procurar on-line, a consultar blogues ou páginas de referência) e as obras. Mas será realmente assim? Será essa a resposta e a solução? Ou será apenas mais um meio de potenciar a aquisição acrítica de títulos badalados? Será que é essa a via que nos interessa?

Mas o Jorge tem ao seu dispor inúmeras e efectivas plataformas de divulgação: ele foi o fundador e moderador da lista FICÇÃO CIENTÍFICA (provavelmente, a par da Bibliowiki, a sua maior contribuição para o Fantástico Luso) – hoje infelizmente moribunda ; ele administra o site E-NIGMA, vegetativo desde 2007; ele assegura um post semanal (quando eu não lhe dou azo a mais) no LÂMPADA MÁGICA; ele arrotou quase 5000 twits no Twitter, para além da sua presença incansável no Fórum da Saída de Emergência, no BBDE, inúmeros blogues e listas de discussão.

E seria de perguntar, com toda esta actividade aparente, que tem feito o Jorge nos últimos anos pelo desenvolvimento do Fantástico em Portugal? A resposta? Nada. Tem olhado pelo umbigo. Tem, como todos nós, feito pela vida. Dele procuraremos debalde uma crítica sobre os últimos livros de autores nacionais, uma apreciação dos esforços das editoras que puseram nas livrarias livros como as FICÇÕESCIENTÍFICAS E FANTÁSTICAS, A SOMBRA SOBRE LISBOA, os CONTOS DE TERROR DO HOMEM-PEIXE, A REPÚBLICA NUNCA EXISTIU, ele que sempre afirmou que era preciso apostar na ficção curta. Mas da parte do Jorge, silêncio.

Dir-me-ão que não é obrigado a isso. É certo, mas a lógica que utilizou para justificar o seu refluxo twístico – quem não edita FC não se pode queixar de que não se edite FC – ainda que não corresponda à verdade, é-lhe oponível. Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada. Dir-me-ão que o Jorge pode ter mais o que fazer, que tem que fazer pela vida. Que faça. Mas que não ande, sistematicamente a sabotar o trabalho de quem faz, para satisfazer as suas necessidades de entretenimento no Twitter. É que onde o Jorge se contenta em fazer pela vida – como todos nós – outros que acreditam na FC e na possibilidade de melhorar o panorama, pessoas como eu, o Pedro Marques, o Luís Corte-Real, ou o Miguel Neto, pusemos dinheiro – muito dinheiro – dos nossos bolsos para arriscar publicar autores que ninguém sabia se seriam lidos e que, muitas vezes, sabíamos que não o seriam, mas que deviam ser disponibilizados ao leitor português. E todos nós, através das nossas respectivas editoras, apostamos em vias diferentes e com resultados diferentes. Mas assumimos o risco e estivemos dispostos a arriscar. Quando o Jorge quiser fazer o mesmo, quando quiser arriscar também dinheiro dele, quando estiver disposto a pôr as notas onde tem a língua, então reconheço-lhe o direito de falar, com conhecimento de causa, de uma realidade que vai muito além de receber o chequezinho no fim do mês, e muito além do Twitter. É que o Twitter é como um automóvel: pode ter muitos cavalos debaixo do capot, mas não vai a lado nenhum com um burro ao volante.

E, no fim de tudo isto, Jorge, a boa notícia é que ainda temos lugar para mais um na câmara de vácuo.

Jump in.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Vasco Granja e a FC



Quando publicou este artigo no Diário de 1 de Março de 1987, prosseguindo incansável a sua missão de divulgar coisas novas à juventude, Vasco Granja tinha 62 anos de idade. Até nisso demonstra o empobrecimento cultural deste país no que concerne à divulgação da arte e da cultura popular. Quem temos hoje, nessa faxa etária (com excepção do António de Macedo, que infelizmente não tem uma plataforma que lhe permita chegar a um maior público), capaz de fazer o mesmo?
Obrigado, Vasco Granja.