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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Um livro por dia: PARA ALÉM DO INFINITO



Entre PESADELO GALÁCTICO e PARA ALÉM DO INFINITO, mediaram apenas nove anos. Uma eternidade no que concerne à memória do género em Portugal. O tempo suficiente para que desaparecessem as colecções Série Antecipação da Panorama e DH Ciência da Edições Dêagá; tempo suficiente para que surgisse e desaparecesse a colecção de capa negra do Círculo de Leitores, e para que praticamente o mesmo sucedesse à colecção Bolso Noite.

É o eterno recomeço de que falava nos últimos posts. Uma página virada, uma página da história apagada. Nada fica na memória colectiva do género.

É possível que quando PESADELO GALÁCTICO foi publicado em Dezembro de 1976, esta edição de PARA ALÉM DO INFINTO de A. E. Van Vogt (Junho de 1974) ainda lampejasse na memória daqueles que decidem os títulos das obras e traduzir. Esse mesmo constrangimento já não existe em 1985, quando é novamemnte publicado sob o título PARA ALÉM DO INFINITO. Os editores sabem que já ninguém recorda o livro de Van Vogt traduzido entre nós com esse título, uma mera década antes. Tal como hoje, provavelmente, ninguém recordará o papel preponderante de Van Vogt no dealbar da Ficção Científica.

Considerado como um dos quatro grandes da Golden Age campbelliana, Van Vogt foi um dos autores mais lidos e populares da FC. Amado e detestado em igual medida, ainda hoje os críticos do género se debatem quanto aos seus méritos e deméritos. O título de um dos seus livros mais populares, Slan (1946), popularizou-se como uma expressão do fandom da ficção científica (quem não se recorda do célebre slogan "fans are slans"?) ao passo que a sua primeira história publicada, Black Destroyer (1939), foi a base para inúmeros filmes de Ficção Científica, incluindo o célebre Alien (1979) de Ridley Scott. Para se aferir da sua importância relativa na literatura do género, foi o ensaio Cosmic Jerrybuilder (1945) que pela primeira vez centrou as atenções sobre o jovem Damon Knight, que podemos considerar o pai da crítica séria de Ficção Científica. Cosmic Jerryuilder (que pode ser lido no volume In Search of Wonder), é uma crítica demolidora à obra de Van Vogt, daquelas que hoje seriam consideradas entre nós como "crítica altamente negativa", "ataque ad hominem", etc... (mais um sintoma da infantilidade crítica nacional - e não apenas na FC).

Neste volume (que data originalmente de 1952, embora a nota de copyright refira 1963) reúne 8 narrativas curtas (entre o conto e a noveleta), das quais se destacam Segredo Inviolável e Os Vampiros do Espaço, como magníficos exemplos de um tipo de pulp fiction que já não se voltará a escrever.


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um livro por dia: UMA INFINIDADE DE ESTRELAS



1972 ano do caos na FC em Portugal? Bom, pelo menos não era apenas a Brasília Editora a trocar as voltas aos leitores. Considerem a surpresa e o espanto de quem pegasse no oitavo volume da colecção DH Ciência das Edições Dêagá esperando levar para casa UMA INFINIDADE DE ESTRELAS de Isaac Asimov, a terceira colectânea dos seus ensaios (de que a Dêagá publicara já A Ciência, os Números e Eu e Da Terra ao Céu), apenas para descobrir que acabara de adquirir a tradução portuguesa de A Wilderness of Stars, antolgia organizada em 1969 por William F. Nolan.

Certamente o leitor não saíria muito prejudicado, pois o conjunto de 10 contos que exploram as consequências e desafios da exploração espacial, não deixará de compensar largamente qualquer apreciador de FC (embora possa desgostar um pouco aquele leitor que procurasse apenas os ensaios do Bom Doutor). Entre as histórias seleccionadas no ano em que o Apolo XI levou o homem à Lua, contam-se dois magníficos contos de Walter M. Miller (que abrem e fecham o volume), um interessante conto sobre uma regata espacial da autoria de Arthur C. Clarke, um clássico conto marciano de Bradbury, um conto do próprio organizador, que todos reconhecerão como sendo o autor do não menos clássicos Logan's Run e Logan's World, para além de trabalhos de Sheckley, Chad Oliver, Charles E. Fritch e Ray Russel.

Para os amantes do caos, este modesto volume (196 páginas) de grande ambição, ainda oferece a "surpresa" de, entre as páginas 96 e 97, reproduzir novamente as páginas 81 a 96, sem porém obliterar qualquer página da história interrompida.

No texto de contra-capa, o leitor reparará que o editor salienta o facto de esta ser a "segunda antologia de Ficção Científica que incluímos na presente coleccção", bem traduzindo uma diferença fundamental entre o mercado de então e o mercado actual onde, com excepção de colectâneas de autor e das antologias necessariamente temáticas que a Saída de Emergência vem organizando (A Sombra Sobre Lisboa, A República Nunca Existiu), o conceito de colectânea de vários autores parece ser totalmente anátema. É certo que tal se deve à constatação de que no âmbito da literatura de género as formas curtas encontram-se moribundas, tendo perdido a importância que detinham entre guerras e durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, não é menos certo que a ausência de traduções para português de algumas das antologias anuais que compilam o que de melhor se vai fazendo durante o ano, como as de David Hartwell, Robert Silverberg, Stephen Jones e - menos a meu gosto - Gardner Dozois, dificulta o primeiro contacto entre os leitores que desejam experimentar algo novo e os novos autores que pretendem começar a escrever num género que mal conhecem.

Também nisso, apesar do caos, da desordem, da confusão e das más traduções, o Portugal dos anos 70 - e em parte o Portugal da ditadura - tinha mais para nos oferecer do que o Portugal de hoje... que nos oferece apenas a porta aberta e a oportunidade de por ela sairmos. Abençoado seja por isso.