domingo, 2 de agosto de 2015

PARA MAIORES DE 18: Uma Antologia Erótica de Literatura Fantástica




Diz-nos a Biologia, que o sexo foi uma das mais importantes “descobertas” da natureza. Ao permitir a recombinação do ADN, veio facilitar a introdução e mais fácil transmissão de novas e benéficas formas de adaptação ao meio, para além de ter permitido desenvolver mecanismos sensoriais de intensificação do prazer. Um dos quais é a própria Imaginação.













E a Imaginação é a província de eleição dos géneros literários da Ficção Científica e do Fantástico. Olhando para as capas híper-coloridas das primeiras publicações na era dourada das “pulps”, a Ficção Científica, o Horror e a Fantasia pareciam regozijar-se naquilo que um dos pioneiros objectores do género classificou como “desbragadas orgias de sexo em letra de forma”. Nessas vívidas ilustrações de um dinamismo assoberbante, homens e mulheres parecem ansiar por um célere regresso ao paraíso terrenal, onde as roupas – esfarrapadas, quando não originalmente desenhadas de forma minimalista – não passavam ainda de um ténue cintilar nos sonhos de futuros costureiros, e onde todos os elementos de composição transmitem a vontade de copular. Tentáculos, fálicos foguetes, espadas e pistolas de raio, monstros lúbricos e donzelas semi-nuas, comungam de uma pornotupia que, para confusão e desconsolo dos muitos adolescentes que largavam as suas parcas economias nos quiosques da Grande Depressão, raramente encontrava lugar nas páginas interiores das revistas, tão puras que poderiam ser lidas em voz alta no púlpito das Igrejas (não foram muitos outros, e de outra ordem, os elementos que proibissem uma tal leitura).


Foi só na histórica edição da Startling Stories de Julho de 1952, que o sexo aflorou como tema principal de uma história de Ficção Científica, no clássico “The Lovers” (“Os Amantes Cósmicos”) de Phillip José Farmer. Se, até então, por via do carácter monstruoso das uniões carnais (tentadas, mais do que consumadas) com mortos reanimados, alienígenas e BEMs das mais variadas morfologias tentaculares, que iam surgindo em publicações como a Marvel Science Stories, Weird Tales, Horror Stories ou os vários Spicy isto-ou-aquilo, a relação com o sexo se apresentava como algo horrível, tétrico e mórbido, transparecendo uma ideia juvenil das funções corporais, com Farmer, apesar do sexo ocorrer para lá das cortinas da narrativa, esta apresentava-se já como algo de erótico.

 


A revolução, porém, não foi imediata, e só um par de anos mais tarde autores como Theodore Sturgeon e Robert A. Heinlein se juntaram a Farmer na vanguarda da introdução do sexo na literatura de FC&F. Com as portas da censura escancaradas por estes autores, o sexo surgiu abundante nas páginas da New Wave revolucionária e contracultural dos anos 60, não como sexo erótico, mas como sexo político. Onde antes era proibido copular, agora era proibido copular sem uma agenda sociológica pré-determinada e politicamente correcta. Harry Harrison, em Star Smashers of the Galaxy Rangers (1973) ridicularizou a corrente subterrânea de erotismo subjacente às primeiras space operas, quase ao mesmo tempo que John Norman se tornava o anti-cristo da FC&F ao sublimar a corrente subterrânea de erotismo sado-masoquista dos primeiros romances planetários na sua saga de Gor (1966-2013).
 
 

Entre os dois extremos, como não podia deixar de ser, escondeu-se a virtude. Ao longo dos anos 70 e 80, autores como Andrew J. Offut, Sharon Green, Jo Clayton, Robert E. Vardeman, Victor Milán, Jane Gaskell e o sempre presente Phillip José Farmer, continuaram a produzir obras de transbordante erotismo sem que o sexo tenha que ser despojado das suas manifestações mais prazenteiras ou constantemente complexado e problematizado sob procústeas interpretações feministas e opressivas.


O que se pretende com esta antologia é recuperar a arte perdida do erotismo na Ficção Científica e no Fantástico, aqui se incluindo todos os sub-géneros, desde a Fantasia Épica ao Weird, passando pelo Steampunk, a Sword and Sorcery, a Space Opera, o RetroPulp, ou o Policial Macabro. E para isso a Saída de Emergência convidou-me, juntamente com o Luís Filipe Silva, para levar a cabo a tarefa de seleccionar um conjunto de histórias onde o sexo titila e estimula, e os únicos complexos de culpa que gera são os próprios dos pequenos prazeres inconfessáveis que guardamos nos recônditos mais profundos da mente. Pretendemos, porém, contos e noveletas eróticas, mas não pornográficas; com isto não queremos dizer que o sexo não possa ser explícito, mas sim que o sexo deve estar subordinado à história, e não a história ao sexo. E pretendemos histórias originais – se viu a recente série Femme Fatales, ou as clássicas The Hunger e Masters of Horror, se leu os livros de Laurell K. Hamilton, Peter Saxon, Scott Ciencin, Charlaine Harris, Paolo Eleuteri Serpieri ou Aishling Morgan, lembre-se que eu e o Luís também as vimos e também os lemos.

O Regulamento, bem como informações adicionais, pode ser consultado aqui.

Apesar de uma iniciativa deste género não ser inédita em língua Portuguesa - só no Brasil editaram-se pelo menos três entre 2001 e 2011 - é pioneira em Portugal, ao tratar-se de uma antologia de contos originais, escritos em Português, o que a separa desde logo da única publicação semelhante entre nós, a há muito esgotada O Sexo na Moderna Ficção Científica (Antologia de Autores Franceses), organizada em 1976 por Isabel Meireles para as Edições Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello, com magníficas ilustrações de Nuno Amorim. Por isso, a Saída de Emergência abrirá em breve um espaço virtual onde eu e o Luís Filipe Silva regularmente partilharemos ideias, observações, notas e, no geral, daremos conta do andamento do processo de selecção dos contos, como forma de ajudar os autores interessados a irem de encontro às nossas pretensões.


Também com esse objectivo, publicarei até Dezembro, aqui no Blade Runner, alguns textos abordando algumas obras (livros, contos, filmes, ou BDs) ilustrativos daquilo que já se fez e que, de certa forma, considero como bons ou maus exemplos do que pode ser feito e do que (pelo menos da minha parte) pretendo para a antologia. Obviamente, o processo de selecção irá muito além dos meus próprios gostos (não só os gostos do Luís, como os méritos de cada texto submetido a apreciação, serão ponderados por nós e pelos editores), mas seria ridículo pretender que as preferências subjectivas dos organizadores não terão interferência nas escolhas. E, porque aproveitarei este necessário recurso ao blogue para tentar reanimar uma vez mais o projecto Blade Runner, os posts - espero - não se limitarão àqueles pertinentes à antologia, pelo que estes serão identificados pela epígrafe (e etiqueta) +18.

E, dito isto, bem-vindos de novo ao blogue, e ponham a imaginação a trabalhar, aproveitando a oportunidade de integrar mais uma das já célebres antologias da Saída de Emergência e da Colecção Bang! que desde A Sombra Sobre Lisboa (2006) até à Lisboa no Ano 2000 (2013), sempre marcaram de forma indelével o panorama editorial do Fantástico português.  

sábado, 4 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

BLADE RUNNER - ANO 8: O NÃO ANIVERSÁRIO

Há que reconhecer que o Blade Runner, nesta sua intermitência vital, neste perpétuo oscilar entre o abandono e a reanimação, começa a ser uma doentia ilustração daquela que venho apontando como sendo a característica essencial do Fantástico luso: o Eterno Recomeço. Algo que adquire contornos tanto mais preocupantes quando, relendo todos estes propósitos falhados, me apercebo de como poderia hoje escrever o mesmo que escrevi, por exemplo, em 2009: "a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica." E é lamentável constatar como as constantes lamúrias que vão aborrecendo o próprio que as profere, continuam actuais, continuam justificadas, continuam a resistir a todos os protestos dos optimistas que não deixam de repetir, "desta vez é que é".

Mas não é. Nunca é. Os projectos e as intenções, próprias e alheias, sucedem-se, de ano para ano, e são como rolhas à tona de um mar encarpado, ora emergem da espuma prenhes de esperança, ora desaparecem sob as ondas negras para não mais ressurgirem, deixando atrás de si mais lamúrias e mais queixumes e, sobretudo, mais porquês.

Cada vez mais me convenço, contra a minha própria vontade, contra o meu próprio querer, que a FC e os portugueses não têm muito em comum. É a síndroma do Comandante Silva feito carne e osso em cada leitor que vira as costas aos livros de FC nas prateleiras das livrarias (se ao menos eles lá estivessem). O mais curioso e deprimente é que isso acontece numa altura em que, praticamente todos os anos, surgem dois ou três excelentes filmes de ficção científica. É como se, ao contrário da Fantasia ou do Horror (ou do pseudo-horror, no caso de Stephenie Meyer - ainda alguém se lembra dela?), o cinema de FC estivesse separado da literatura num compartimento estanque que impedisse qualquer contágio, para o melhor ou para o pior.

O pior, por sua vez - porque nem tudo pode ser mau - parece ter diminuído um pouco. Com o desaparecimento de Meyer e Paolini (alguém ainda se recorda dele?), e mesmo de Harry Potter, a chusma de imitadores imberbes, incapaz de escrever bem ou de evoluir na sua escrita, desapareceu dos catálogos das editoras, reaparecendo apenas esporadicamente nas vanity presses. As editoras, sem esse poço de baixo custo, começaram a publicar obras que se assemelhassem mais aos grandes fenómenos de sucesso: quis a sorte que o maior de todos fosse a adaptação televisiva de A Game of Thrones de George R.R. Martin.

O fenómeno é interessante de ilustrar. Há exactamente 10 anos, em duas edições da revista "Os Meus Livros" (OML #26, Abril de 2005, e OML #33, Novembro de 2005), noutros tantos dossiers temáticos sobre a FC e a Fantasia que elaborei, redigi duas listas de 10 títulos de cada género que me parecia vergonhoso não terem ainda sido traduzidos e publicados em Portugal. Foram eles, para a FC:
1) O Ciclo Instrumentality of Mankind (1955-1966), de Cordwainer Smith
2) Stand on Zanzibar (1968), de John Brunner
3) Dangerous Visions (1967), editado por Harlan Ellison
4) Bug Jack Barron (1969), de Norman Spinrad
5) The Centauri Device (1974), de M. John Harrison
6) Dahlgren (1975), de Samuel R. Delany
7) Blood Music (1982), de Greg Bear
8) The Anubis Gates (1983), de Tim Powers
9) The Hyperion Cantos (4 Vols, 1991-1999), de Dan Simmons
10) Perdido Street Station (2000), de China Miéville
E, para a Fantasia:
1) A trilogia Ghormenghast (1946-1959), de Mervyn Peake
2) O ciclo Fafhrd & the Grey Mouser (1937-1987), de Fritz Leiber
3) O ciclo Dying Earth (1950-1984), de Joack Vance
4) O ciclo Viriconium (1971-1991), de M. John Harrison
5) O ciclo Dark Tower (1978-2004), de Stephen King
6) The Iron Dragon's Daughter (1995), de Michael Swanwick
7) Heroes Die (1998), de Matthew Woodring Stover
8) Ash (2000), de Mary Gentle
9) O ciclo Kushiel (2001-2005), de Jacqueline Carey
10) A saga A Song of Ice and Fire (1995-2005), de George R.R. Martin
Comparando as duas listas, é impossível deixar de observar que da lista da ficção científica, nenhum dos títulos foi ainda traduzido e publicado em português - apenas os direitos de The Anubis Gates foram adquiridos para Portugal pela Saída de Emergência, não tendo o livro sido publicado por motivos totalmente alheios à vontade da editora. É um resultado paupérrimo, de apenas 10% de recuperação de um atraso de décadas na publicação de clássicos indiscutíveis do género (aos quais facilmente se poderia juntar uma boa centena mais de títulos, incluindo obras de autores que nunca foram publicados, de todo, em Portugal).

Já no que respeita à Fantasia, o resultado salda-se por um impressionante 50%, sendo que praticamente apenas ficaram de fora os títulos individuais, tendo sido publicadas todas as séries, compostas de vários volumes (com excepção do pobre Leiber, de quem apenas um volume foi publicado). Um ponto que merece ser salientado, é que com excepção da saga de Stephen King, publicada pela Bertrand, todas as outras foram publicadas por uma única editora, a Saída de Emergência, confirmando também aquilo que tenho vindo a observar, nomeadamente que a aparente proliferação de obras de FC&F um pouco por todas as editoras prende-se meramente com a imitação de epifenómenos de vendas e não com qualquer aposta séria e criteriosa na literatura de género.

Ainda assim, 50% daquela lista é bom, não é? Não sei. Num mercado variado, onde títulos de vários géneros competissem pela atenção do leitor, sim, sem dúvida. Mas na nossa realidade, estes números têm que ser lidos (ou, pelo menos, é essa leitura que faço), num contexto bem menos luminoso. Este crescimento da publicação de Fantasia - dir-se-ia mesmo esta manifesta hegemonia da Fantasia Épica de pendor medieval - parece-me apenas mais uma manifestação de um percebido atavismo cultural. Mais uma manifestação de teconofobia, se não mesmo de futurofobia, expressa de igual forma na febre de feiras medievais higienizadas e idealizadas que pululam um pouco por todo o país. Incapaz de enfrentar o futuro, parece que o país se volta para um passado irreal, um passado de Fantasia. Este saudosismo do passado não deixa incólumes os próprios autores de FC, afadigados em steampunks, winepunks, electropunks, dieselpunks (eu próprio, no pouco que tenho publicado recentemente, me tenho cingido ao passado)... Talvez seja sintoma de saudades de um passado em que ainda era possível sonhar o futuro.

É, porém, esta capacidade de sonhar o futuro que parece ter-se perdido. Ignorância do saber científico - pior, cepticismo face à ciência - contribui imenso para isso. De certa forma, a impressão com que ficamos é a de estarmos prestes a mergulhar novamente numa Idade Média, pelo menos ao nível da imaginação. A magia e a crença no sobrenatural substituem progressiva e paulatinamente a ciência. Não é possível sonhar o futuro, porque a Fantasia nos promete apenas um eterno presente. Um presente que é, curiosamente, apenas o passado idealizado.

É altura de recuperar o Futuro, se ainda formos a tempo.

sábado, 27 de junho de 2015

Contra a Novilíngua


Confesso algumas reservas quanto ao proposto Referendo ao "Acordo" Ortográfico de 1990 e respectivos Protocolos Modificativos. Reservas que não se prendem tanto com o aspecto jurídico da questão, mas com o fundo da mesma. Que o dito "acordo" ortográfico - que cada vez mais se assemelha a uma afirmação onanista e individual de um Estado isolado - é uma imbecilidade indefensável, inútil, custosa e ruinosa para a língua, parece-me ser uma evidência reforçada diariamente; e se o leitor já teve a oportunidade de ouvir as arengas do pai da coisa, Malaca Casteleiro, em defesa do nado-morto, já se apercebeu da vacuidade e circularidade dos argumentos aduzidos e de que tudo se reduz a um problema de ego superavitário, evidenciador de um défice de inteligência que as modestas capacidades intelectuais do sujeito não conseguem suprir.
 
Mas, tal como a História nos tem demonstrado e, infelizmente, a actualidade nos confirma diariamente, a estupidez do animal humano não conhece limites. E se a aprovação do dito "acordo" se me afigura realmente um dos grandes exponentes lusos de insuperável estupidez, não creio que seja através de referendos que ele possa ser combatido. Tal como não respeito a decisão da sua aprovação, continuando a escrever sem observância das novas regras ortográficas, não respeitarei uma decisão dimanada de um referendo que opte por manter o atentado linguístico em vigor. É, pura e simplesmente, uma decisão - num ou outro sentido - que não é, nem podemos tolerar que seja, política.

A melhor forma de combater o "Acordo" Ortográfico de 1990 é aquela que tem sido adoptada pelos melhores escritores, ficcionistas e ensaístas Portugueses, e para a qual, ressalvadas as devidas proporções e dimensões, procuro dar o meu contributo: continuar a produzir obras relevantes em língua verdadeiramente Portuguesa, e pugnando - nos casos em que o relevo o justifique - por edições ne varietur, que impeçam a adaptação dos textos à novilíngua, mesmo em manuais escolares.

Porque, caso contrário, com a novilíngua a ser já ensinada nas escolas, e com o carneirismo daqueles que sem pensar ou ripostar o aplicam cegamente, pois para eles a língua não é instrumento, mas mera ferramenta, o próprio tempo, como é da sua natureza, se encarregará de assegurar o seu predomínio.

Não obstante, e com ressalva de tudo quanto atrás disse, o referendo agora proposto, num espírito de mero pragmatismo, pode ser útil, em caso de vitória por parte daqueles que pretendem ver revogado o malfadado engendro, porque vinculativo para os órgãos de soberania que, nesse caso, ficarão obrigados a promover a desvinculação de Portugal do AO90. É, por isso, um esforço que vale a pena intentar. A minha parte está feita: já assinei, e estou (com a colaboração de colegas do escritório) a recolher mais assinaturas. Aqui fica, à consideração, a proposta dos organizadores:

«A situação actual, de anarquia gráfica, é insustentável e lesa inapelavelmente a Língua Portuguesa, o nosso Património Cultural imaterial, bem como a estabilidade ortográfica. A riqueza de uma Língua está na sua diversidade. O AO90 não corresponde a uma “evolução natural” da língua, mas a uma alteração forçada, em sentido negativo e empobrecedor. Há muito que a maioria dos Portugueses vê como indispensável um Referendo Nacional, de modo a dar a voz ao Povo nesta matéria. Ora, a Constituição da República Portuguesa (CRP) permite justamente a submissão a Referendo das questões de relevante interesse nacional que sejam objecto de Tratado internacional (artigo 115.º, n.º 3, da CRP); o que é o caso do Tratado do AO90 e das alterações que sofreu (através dos seus Protocolos Modificativos). A Iniciativa poderá provir dos cidadãos (artigo 115.º, n.º 2, da Constituição), como é o caso da presente. Antes da realização de eleições (ou, se for o caso, após estas), os agentes políticos deverão dizer qual o seu sentido de voto, na Assembleia da República, em relação à presente Iniciativa de Referendo: se votarão a favor; ou se, no mínimo, viabilizarão esta Iniciativa, através da abstenção na AR. Convocado o Referendo Nacional, faremos campanha. Os resultados reflectirão o modo como todos os utentes da Língua pensam acerca da ortografia que melhor corresponde a um uso sustentado da mesma, no quadro das línguas europeias da mesma família. Apelamos a cada Português para que assine esta Iniciativa de Referendo; e, na medida do possível, pedimos que angarie assinaturas (dentro do seu meio, da sua família, do seu círculo social; ou até, mais latamente, de forma pública).»  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

The Final Countdown


Não restam grandes dúvidas, neste momento, e no final de mais um ano de calendário, de que o BLADE RUNNER é um espaço virtual assombrado pelos fantasmas de projectos por cumprir. A média anual de quarenta posts ao longo destes sete anos de semi-inactividade não permite ocultar que 217 dos 240 posts foram publicados nos primeiros três anos e meio de existência do blogue.

É, assim, momento de colocar um ponto final na actividade do BLADE RUNNER. E, no entanto, pôr termo ao blogue ao fim de oito meses de total ausência de publicações não deixa de saber a desistência. Um sabor que não me agrada muito.

Resolvi por isso, agendar o ponto final no blogue para o dia 31 de Dezembro de 2014. O objectivo? Permitir-lhe, e a mim, uma última oportunidade de exibir algum fulgor antes da machadada final. A data da execução fica marcada; a mim incumbe-me fazer com que o blogue tenha um final digno ou se mantenha apenas uma presença silenciosa numa ciberesfera cada vez mais dominada pelo ensurdecedor grasnar vácuo do facebook.

Aqueles que queiram acompanhar esta corrida contra o relógio, os meus votos de um excelente ano de 2014 aqui no BLADE RUNNER.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

RIP: Jesus Franco (1930-2013)


Faleceu ontem, num hospital em Málaga, o mais prolífico realizador Europeu de sempre. Com mais de 190 filmes no seu currículo, sem contar as inúmeras versões de muitos deles, e uma ligação muito especial a Portugal, onde veio buscar cenários fantásticos (nos dois sentidos do termo) para muitos dos seus filmes, Franco foi um realizador literalmente único. O seu olhar, filtrado pela câmara, foi capaz de dotar o mundo e as suas personagens de uma dimensão que poucos de nós poderiam perceber sem ajuda. Despreazado pela crítica durante a maior parte da sua carreira, apenas recentemente, com a recuperação das suas obras em magníficos DVD e BD, viu reconhecida uma parca fatia do seu incomensurábvel mérito.

Franco é uma daquelas forças ocultas que modelam indelevelmente a realidade e a história da imaginação, com uma influência que vai muito além da sua multivariegada obra. A marca da sua imaginação, que abordou todos os géneros possíveis e imagináveis, e que nos legou personagens inesquecíveis como o Dr. Orloff ou o detective Al Pereira, é visível na obra de centenas de outros criadores que reconhecem agradecidos a sua influência benigna.

Franco morreu poucos dias após a estreia do seu último filme AL PEREIRA VS THE ALLIGATOR LADIES (2013), estreado a 22 de Março, e a pouco mais de um mês de cumprir 83 anos. Desde há quase uma década que devoro avidamente os seus filmes, que como todos os que os conhecem bem sabem, vão do sublime ao banal. Quis o destino que o Maestro morresse no preciso dia em que recebi uma das ansiadas embalagens da Amazon trazendo três dos seus filmes (CECILIA, LORNA L'EXORCISTE e LA CONTESSE PERVERSE). O vazio que se abriu no mundo do cinema Fantástico será muito difícil de colmatar.

terça-feira, 19 de março de 2013

DEATH RACE 3: INFERNO (Roel Reiné, 2012)


Uma das principais causas do declínio da qualidade narrativa e da estética visual no cinema fantástico tem sido a detrimental influência visual dos reality shows e dos videojogos; CGI, movimentos tremidos de câmara, rap ou hip-hop aos berros, impossíveis POV subjectivos e colorações esverdeadas parecem ter vindo para ficar: nem é preciso dizer SUCKER PUNCH (2011) ou Uwe Böll para justificar este argumento. Curiosamente, ambos os factores funcionam maravilhosamente ao serviço deste DEATH RACE 3: INFERNO, tal como tinham favorecido já as duas anteriores entregas. Paul W. Anderson – que não é propriamente alheio à adaptação de videojogos (RESIDENT EVIL e suas sequelas, que escreveu e/ou realizou) – realizador por cujo trabalho até há pouco tempo pouca simpatia tinha, soube evitar a armadilha de refazer o clássico de culto de Paul Bartel, DEATH RACE (1975) e, com o beneplácito de Corman, surpreendeu com um filme entusiástico, competente, e com o seu q.b. de comentário social como forma de justificar a extravagante violência automobilística.


Quando DEATH RACE estreou em 2008, com o cenário de uma economia americana colapsada, não deve ter deixado de provocar um arrepio nos espectadores que começavam ainda a descobrir o longo dominó financeiro despoletado pela falência do Lehman Brothers, conferindo particular relevância à sua trama de exploração de uma corrida mortal como forma de financiar os crescentes custos do sistema prisional privatizado. Juntamente com o subapreciado REPO MEN (2009) de Miguel Sapotchnick, foi um dos primeiros filmes a representar cenários de horror económico após o soluço financeiro de 2008, o que terá conferido algum grau de plausibilidade às excêntricas premissas de um e outro.


A história dos vários DEATH RACE, como a narração desta última entrega não deixa de nos recordar, começa e acaba com Frankenstein, a estrela mascarada das corridas letais que, a par do inovador DR. WHO (1963-actualidade), oferece uma razão lógica e plausível para a passagem de testemunho de Jason Statham no primeiro filme, para o surpreendentemente agradável Luke Goss (da famigerada boys band original, Bros) nas duas sequelas. Tendo começado com a típica história de um encarceramento imerecido, perpetuado por uma incriminação que assegurasse a sua participação nas corridas substituindo o original Frankenstein (David Carradine) falecido num aparatoso acidente, o piloto mascarado (como um Jason Vorhees tecnofantástico) oferece um excelente ícone anónimo para identificação e gáudio das massas que acompanham as corridas no circuito prisional de Terminal Island.




Depois de DEATH RACE ter estabelecido a premissa da corrida mortal, as regras e a recompensa (ao fim de cinco vitórias, a liberdade), e DEATH RACE 2 (2010) ter jogado de forma interessante com a questão da identidade do homem sob a máscara, pouco mais resta a esta mais recente entrega do que aumentar o grau de espectacularidade da acção e fazer variar o cenário, tarefa que Anderson (argumentista) e Roel Reiné (realizador) fazem sem hesitar. Uma OPA agressiva por parte do multimilionário Frost (Dougray Scott, preenchendo o habitual papel do vilão britânico que tem dominado o cinema americano) sobre a empresa de Weyland (Vingh Rhames) que explora as corridas, serve como justificação para o cenário da corrida no deserto do Kalahari, o que permite fazer o upgrade dos carros musculados e blindados das primeiras entregas para verdadeiros colossos todo-terreno que parecem saídos das oficinas de MAD MAX (1979-1985). Tudo o mais, todas as pequenas intrigas secundárias, são apenas rodas dentadas da engrenagem no coração do filme: as próprias corridas, filmadas com a precisão de um velho espectáculo de Hal Needham, e a anos-luz das abstracções CGI da série THE FAST AND THE FURIOUS (2001-2010).




Não obstante a centralidade dos três grandes segmentos da corrida, Anderson e Reiné empilham outros motivos de interesse puramente pulp, desde o pormenor dos guardas que patrulham o perímetro prisional com corpulentas hienas, passando por duas cenas de pancadaria com artes marciais, até à inesperada prova de selecção das sensuais navegadoras que, tivesse sido filmada nos tempos áureos da AIP ou da New World Pictures de Corman, não deixaria de incluir tops arrancados e corpo-a-corpo na lama (confirmando o filme como um clássico de culto instantâneo), antes de culminar na violenta apoteose com machados, lança-chamas e cabeças decepadas com que somos bafejados.


O elenco de actores, que inclui os favoritos de culto Danny Trejo (FROM DUSK TILL DAWN) e Ving Rhames (PULP FICTION) parte do qual transita dos filmes anteriores, entrega-se com gosto a este misto de filme de acção, exploitation e tímido comentário social, apesar de alguns apartes dos falsos anúncios televisivos, seguindo na linha de outros semelhantes da obra de Paul Verhoeven (v.g. ROBOCOP, STARSHIP TROOPERS), se apresentarem como apontamentos semi-satíricos que elucidam alguns pormenores da constituição do tecido sociológico do futuro próximo imaginado pelo filme; o meu favorito: “o acesso ilegal ao live feed será punido com pena de morte, ou prisão perpétua para os menores de quinze anos”.


Luke Goss possui inegável carisma no papel do mítico Frankenstein e a belíssima Tanit Phoenix incendeia o ecrã à cabeça de um deslumbrante elenco feminino que pouco mais faz do que cumprir a função de regalo para os olhos e, para além do generoso decote que ostenta em todo o filme, presenteia o espectador com a mais inesperada, absurda e gratuita shower scene de que há memória, de tal forma que nos sugere a sua inclusão como um momento auto referencial face às convenções genéricas. Não que isso constitua razão de queixa, seja como for…




Contas feitas, e parafraseando umas das mais memoráveis falas de Quentin Tarantino, DEATH RACE: INFERNO, é uma pop bubblegum extravaganza, que preenche exemplarmente a sua intenção de servir um espectáculo puramente sensorial. O final, que imagino não encontre uma recepção unânime por parte da audiência, apenas faria sentido até finais dos anos setenta e nos série-B mais fracos, num universo alheio às regras da genética e onde os registos dentários não existissem. Atenta a gratuitidade com que a vida humana é encarada ao longo de toda a série, poder-se-ia arguir que a identificação dos cadáveres seria uma formalidade desnecessária, mas se tivermos em conta os milhões de dólares em jogo na trama, não se nos afigura muito credível – é apenas preguiça de Anderson no argumento, ou o simples gosto de escrever uma conclusão antiquada, mais adequada à era que inspirou e viu surgir o primeiro DEATH RACE (1975), do que a um imaginário amplamente informado por séries como CSI ou THE CLOSER. Seja como for, é um final relativamente insatisfatório mas que deixa em aberto múltiplos rumos futuros para a franchise e, pelo menos desta vez, fico ansioso pela próxima sequela.