domingo, 28 de setembro de 2008

I'll Be Back!



Caríssimos leitores deste modesto blogue.

Obrigações profissionais várias obrigam-me, de momento, a manter-me afastado das actividades bloguisticas, o que muito me penaliza, sobretudo num momento tão fevilhante de actividade como este que agora atravessamos: Fórum Fantástico, novo romance do David Soares, novo número da BANG!, etc...

Assim, o Blade Runner regresserá à actividade habitual - bom, esperemos que um pouco mais activa do que o habitual - depois do Fórum Fantástico, mas provavelmente nunca antes do próximo dia 17 de Outubro, ainda a tempo do Halloween e da comemoração dos setenta anos da transmissão da Guerra dos Mundos pelo Mercury Theater de Orson Welles.

Até lá, interromperemos apenas esta curta sabática caso alguma notícia fora do comum ou de particular interesse o justifique.

Boas leituras.

domingo, 14 de setembro de 2008

Porque Hoje é Domingo: THE EYES OF A KING de Catherine Banner



Random House Books for Young Readers, 2008
448 pgs.
ISBN-10: 0375838759
ISBN-13: 978-0375838750

Em Malonia, mundo “paralelo” ao nosso, com o qual se toca em certos e determinados pontos, corre a lenda de que o infante, príncipe deposto, se encontra exilado na mítica Inglaterra, juntamente com Aldebaran, um poderoso mago. A narrativa desenrola-se, sem grandes surpresas, nesses dois espaços paralelos, onde acompanhamos Arthur Field (Aldebaran), Ryan (o príncipe) e Anne (uma jovem inglesa, também oriunda de Malonia) na Inglaterra, e Leo, Stirling e Maria em Malonia. A guerra na fronteira com Alcyria está a correr de mal a pior, e são cada vez mais as vozes que recordam a profecia de Aldebaran, de que o príncipe herdeiro regressaria em tempo de crise para reclamar a coroa do malévolo Lucien. No entanto, é a morte de Stirling, vítima de uma estirpe mortal da Silent Fever que vai provocar a desagregação de Leo, da sua vida e, por reflexo, do próprio Reino.

Um livro – qualquer livro – é sempre um “portal”, uma entrada para uma realidade, mais ou menos distante, da envolvente do leitor que abre as suas páginas. E tal foi desde cedo intuído pelos mais variados autores, com especial destaque para o primeiro romance moderno, o D. Quixote de Cervantes, que explorava (e censurava) o carácter escapista – de portal – dos folhetins de cavalaria que o seu protagonista soía devorar. E, como não podia deixar de ser, os livros desempenham um papel recorrente na literatura de género, seja como títulos imaginários (o Necronomicon de Lovecraft), simbólicos (o Livro de Areia de Borges) ou de portais literais para outros mundos (Neverending Story de Michael Ende).

Este “THE EYES OF A KING” abre com a descoberta de um livro perdido na neve das Ruas de Malonia: um livro em branco que, à semelhança do diário de Folliot, no Philip José Farmer’s The Dungeon (6 vols, vários autores) se vai auto-escrevendo, como uma espécie de lousa psico-sensível, onde mão desconhecida deposita as palavras que vão servir de motor à narrativa. Ora, este livro dentro do livro – que é ainda um livro dentro de um outro livro (o livro que o narrador/autora nos diz ter começado a escrever aos quinze anos: I finished the story today. It has taken me five years. I am twenty now.), serve ao mesmo tempo de fio condutor e de fio de terra, orientando a narrativa, mas causando por fim a descarga no coração inerte do solo, onde se perde, inútil e estéril. Mas expliquemos a curiosa dualidade desta obra. A narrativa desenrola-se paralelamente em dois planos espaciais e temporais distintos: por um lado, temos a dicotomia espacial Malonia/Inglaterra; por outro, o tempo narrativo, no pretérito, que se encaixa no tempo do narrador – o presente da história – que nos conta aquilo que aconteceu.

E o livro abre-se numa época indistinta – e é interessante observar como o tempo nunca se define inteiramente (o tempo de Malonia é-nos indiferente; como terra de fantasia, vive por um relógio de fantasia), negando-se a narrativa a descobrir qualquer pista que nos permita ancorar a cronologia. Sabemos apenas que a Primeira Grande Guerra já se deu, pois Raymond tem um tanque de guerra no quintal, mas no demais todas as referências são suficientemente indistintas para poderem caber em qualquer momento do século XX: as personagens não se servem de telemóveis, nem de rádios, nem de computadores. Lêem jornais cujo conteúdo não nos é transmitido, viajam de automóvel e de autocarro, mas o mapa cultural mantém-se uma extensa planície sem relevos ou picos de referência. O que serve perfeitamente os interesses da história que a autora nos quer contar; interesses que, de momento, manteremos à margem da análise.

Começamos, portanto, numa época indistinta. Num local desconhecido, que o narrador não tardará a identificar como Malonia. Há guerra. Os soldados deslocam-se a cavalo pelas ruas. Informações que nos são dadas de forma parcimoniosa, semeadas aqui e ali, no texto. A porta do quarto precisa de dobradiças. “But it was hard to get hinges these days, when all that was made was bullets.” E existe magia. Quando o narrador – que nós ainda não sabemos tratar-se de Leo – encontra o livro na neve, pretende abri-lo com um gesto dos dedos e força da vontade. “Although it was only a cheap trick; no more. It did not even work on the Bible”. Há censura: um dos livros do pai do narrador, “The Golden Reign” é de leitura proibida. E a Inglaterra é um país lendário para onde se diz terem ido as pessoas que desaparecem e os exilados políticos.

Um breve capítulo introdutório é o suficiente para situar o leitor num universo de fantasia, um universo com magia, um tirano cruel, e um pano de fundo bélico. Para situar o leitor num conjunto de expectativas de género, onde tropos favoritos são uma vez mais dispostos sobre o tabuleiro de jogo, à espera que a autora subverta as regras em movimentos arrojados. Verdade se diga, não são raras as obras que exploram o conceito de universos paralelos. A science fantasy dos anos 30 assentava quase essencialmente no quebrar de barreiras entre mundos… concretamente entre o nosso mundo e o outro, o da fantasia. John Carter é transportado para o Marte de Burroughs tal como inúmeros outros viajantes o fariam nos pastiches de Lin Carter, Michael Moorcock ou Philip José Farmer. Mas são mais raros aqueles viajantes que se deslocam de um outro universo para o nosso, sendo que a nossa realidade é que serve de escapismo ao universo de fantasia.

Uma diferença fulcral, que não se pode deixar passar em claro.

Porque nela se joga a chave da narrativa. Leo refere em certo ponto ter por vezes a sensação de uma fragilização (thinning) das barreiras entre as várias realidades, uma fragilização que, de acordo com John Clute, poderíamos descrever como “a diminuição de uma Terra saudável até não passar de uma paródia de si mesma”, um processo normalmente posto em marcha pelo Senhor Negro.

E, de facto, quando damos os primeiros passos nesta Terra, somos imediatamente tocados pela fragilidade das barreiras; mais, pela fragilidade do próprio mundo, enfraquecido muito para além de um pastiche de si próprio; a barreira entre universos tem a densidade de uma folha de musselina, corroída pelo toque etéreo da morte.

E a morte é presença que se anuncia desde cedo: a avó de Leo surge-nos, idosa, imersa nas sombras da luz da candeia, “her eybrows lowered, casting her eyes into shadow like a skeleton” (‘de sobrolho caído, mergulhando os olhos na sombra, como os de um esqueleto’). A referência ao esqueleto (invocando a idade avançada e a proximidade do decesso) é reforçada pelo primeiro texto constante do livro que Leo encontra na neve: estamos num hospital. Um homem chora, vendo um comboio que passa no exterior (transitoriedade, a vida como uma passagem), enquanto um pássaro canta sem que o consigam ouvir através do vidro (como a barreira invisível que se estende entre a vida e a morte). E não tarda que a morte estenda o seu toque a todo o texto, espraiando-se sobre ele como a sombra funesta de uma nuvem de tempestade. A tal ponto que o bloco central da narrativa (a desequilibrada e demasiado extensa Parte V) se cinge exclusivamente à pungente morte de Stirling (um momento de grande impacto dramático, e onde a autora joga habilmente com as expectativas do leitor).

E aqui reside o maior problema deste “THE EYES OF A KING”. Todos os tropos icónicos da Fantasia são postos de parte em favor deste cortejo fúnebre, desta danse macabre de dor e sofrimento, que afastam o texto da área do fantástico e o lançam (talvez inconscientemente) no domínio das Vidas de Santos, onde o exemplo da fé visa ensinar aos leitores a virtude do sofrimento e da redenção. E só sob este prisma consegue a narrativa funcionar de forma eficiente (se lermos Malonia como o Inferno, a Inglaterra como o Purgatório e reservarmos uma esperança – uma fé – de paraíso). Só assim é possível entender porque razão existe a Bíblia e o Cristianismo num universo paralelo onde as personagens motoras têm o nome de estrelas e constelações (Leo, Aldebaran), porque, em Malonia “as nomeamos mais tarde, e de cada vez que um astrónomo tentava encontrar um nome, algo se sugeria automaticamente. Absorvemos os vossos nomes para as estrelas, de forma imperfeita mas clara. E temos por isso um conjunto de nomes cuja razão desconhecemos. Júpiter e Vénus não têm sentido no nosso país” (p.199). Tal como explica o poder absoluto de que a Profecia usufrui em Malonia, a tal ponto de o próprio Ahira - o supremo tirano, o senhor de negro, a temer.

E o leitor emerge do texto emocionalmente exausto, com as paredes da alma a estremecerem sob o impacto sólido da catadupa de vidas malogradas que a Autora, de forma exímia e inclemente foi desfazendo perante os seus olhos. Como uma vingança. Uma revolta contra uma experiência pessoal sentida e que necessita exorcizar. Pois o exorcismo é outra forma de fechar barreiras, é outra forma de redenção, um processo de anular o “thinning” da realidade.

You know – diz-nos Leo, diz-nos a autora – death is another world. You can not trust the words people use, sometimes” (p.12).

THE EYES OF A KING” (referência aos olhos de um azul límpido da linhagem governante de Malonia) não é propriamente uma obra de Fantasia; melhor dizendo, os elementos do fantástico nela presentes são meros adereços decorativos, cuja função a autora vai alterando discricionariamente ao sabor das conveniências narrativas (o livro que se auto-escreve tanto é um instrumento de comunicação, como essa mesma comunicação é efectuada por meio dos sonhos, que depois o receptor, sonâmbulo, escreve no livro; o grande poder mágico contido no amuleto de Anne não permite mais do que viajar entre mundos, coisa que Aldebaran consegue fazer sem ele, etc…). O mesmo é dizer, as várias interrogações que o leitor vai colocando ao texto são respondidas com um encolher de ombros autoral. No entanto, se o livro não funciona como uma (boa) obra de Fantasia, a sua dimensão de catarse e de alegoria fazem com que não seja um texto completamente despiciendo, embora o pendor assumidamente prosélito do cristianismo – não obstante a defesa das mães solteiras e a ponderação do suicídio – torne a narrativa algo mais simplista do que poderia ser.

O que, porém, não lhe pode ser negado, é a sua extrema honestidade, pese embora a juventude da autora a impeça de balancear mais equilibradamente os dois pratos da balança retórica. No entanto, enquanto assistimos ao derrubar de barreiras, ao enfraquecer da realidade, à desintegração do narrador que nos sussurra, mais do que nos narra (um sussurro cúmplice no início, um sussurro exausto – emocionalmente exausto – no final) os acontecimento, somos atirados de uma para outra perspectiva, abraçamos as posições de uma e outra personagem – e atente-se que C. Banner trata com igual generosidade todas as suas personagens – e vamos acumulando um crescente respeito pela mestria da jovem autora.

Uma breve nota sobre o texto: como observamos já supra, recebemos a informação de que a autora (que é, sem dúvida, a narradora), teria começado a escrever o texto aos quinze anos de idade; se tivermos em conta as naturais diferenças linguísticas entre o português e o inglês, não deixa de ser surpreendente a maturidade do estilo narrativo quando comparado com semelhantes exemplos nacionais (Inês Botelho, Filipe Faria, et.al.); embora se encontrem passagens que melhorariam com um polimento a nível de revisão (por ex. … the stream shone like liquid silver. The moonlight was streaming through that small valley (p.236)… onde os clichés de misturam com a ecolalia), há outros momentos – bastantes e recorrentes – em que a autora consegue harmonizar naturalmente as palavras e a emoção (quando o caixão do irmão vai aberto para o velório, Leo observa: “there was nothing between him and the stars” (p.146); quando imagina o seu futuro, sem família, o mesmo Leo pondera (pese embora a repetição desnecessária): “The future to me was nothing any more. Fifty or sixty more years without Stirling, and than without Grandmother either. There’s too much future’, I told her.” (p.232).

E o efeito cumulativo das imagens de morte é ao mesmo tempo belo e desgastante, arrastando o leitor numa torrente na qual não quer mergulhar, da qual não quer saber, mas à qual não consegue resistir. Em suma, um texto difícil para o público juvenil a que se destina, demasiado negro e desesperançado, eivado de um sofrimento profundo e inabalável, carente de algum polimento a nível estilístico mas, apesar de tudo, uma leitura recompensadora.

Nota: o presente texto baseou-se nas provas gráficas do livro, pelo que pode ter sofrido alterações quer quanto à numeração das páginas, quer quanto à correcção dos erros apontados a nível de escrita.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

No we won't


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

George R.R. Martin na OS MEUS LIVROS




Já está nas bancas a edição de Setembro de 2008 da revista OS MEUS LIVROS. De epecial interesse para os fãs do fantástico em geral e de Martin em particular, este número da revista traz uma breve entrevista com o autor da Canção do Gelo e do Fogo (publicada entre nós pela Saída de Emergência) realizada por mim durante a sua estadia em Portugal em Julho passado. A entrevista teve uma duração total de cerca de cinquenta e oito minutos e, por imperativos editoriais, muito do que se conversou ficou de fora do texto que agora é publicado. No entanto, os entusiastas e completistas de Martin podem contar com uma nova entrevista com o autor aqui no Blade Runner, provavemente por altura do Fórum Fantástico, em Outubro.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Zé do Caixão em Lisboa



Com a decomposição do Verão, cada vez mais mole no arrastar de Agosto, aqueles que têm sangue nas veias começam a sentir as palpitações de antecipação pela reentré cada vez mais próxima. E, tal como no ano passado, o MOTELx é o primeiro a cravar a estaca no coração moribundo da estação, derramando o rio globulínico que vai alimentar a próxima estação do Fantástico... pelo menos na área do Horror. Na verdade, a aproximação do triste Outono - pelo menos para aqueles que não languescem de delíquos pseudo-góticos - torna-se bastante mais suportável com o descanso de um evento que, com a regularidade dos equinócios e do Fórum Fantástico, ameaça tornar-se um marco incontornável na agenda dos amantes lusos do Fantástico.


Este ano, para além da interessante programação, de onde obrigatoriamente se destacam Diary of the Dead (Romero) e Doomsday (Neil Marshall), não só pelo necessário atractivo comercial, como pelo ponto fulgurante em que se encontra a carreira de ambos os realizadores, o Cineclube de Terror de Lisboa (CTLX) propõe-nos ainda um workshop de realização, simplesmente dirigido pela lenda viva do horror brasileiro, José Mojica Marins, aqui auxiliado pela deslumbrante Liz Vamp (Liz Marins), sua filha.

José Mojica Marins é o criador (diria mesmo a encarnação) do inesquecível Zé do Caixão, personagem ao mesmo tempo bizarra, sinistra e divertida, que com o seu visual de capa e cartola negras e longas unhas recurvas, depressa se tornou um ícone internacional, fascinando ao mesmo tempo o público e a crítica franceses e americanos, através de filmes como À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA (1963), O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO (1968), O DESPERTAR DA BESTA (1970) ou ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967), alguns dos quais poderão apreciar também na mostra.

Com Zé do Caixão, Marins cria uma persona recorrente e cativante, à semelhança de Valdemar Daninsky do espanhol Paul Naschy (Jacinto Molina), ou da Elvira de Cassandra Peterson, capazes de se elevarem acima das obras individuais (de qualidade variável) que protagonizam. Em Portugal, como sempre acontece com estas coisas, Marins apenas foi reconhecido pelo Fantasporto de 2000, que o considerou uma revelação (que pecou por muito tardia, diria eu).

As inscrições para o workshop, limitadas a 25, terminam no próximo dia 02 de Setembro, pelo que o melhor é apressarem-se a telefonar para a Mafalda Correia ou para a Carla Carreira, através dos telefones indicados na imagem supra. Uma vez que do workshop vai resultar uma curta metragem de horror, parece-me uma oportunidade a agarrar com unhas e dentes.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

He's done it again...



Provavelmente, vocês terão estado mais atentos a estas coisas do que eu. Mas a verdade é que Pedro Marques voltou a colocar um magnífico post sobre capas de ficção científica no seu cada vez mais incontornável Montag. Desta feita, embora não exclusivamente, o Pedro refere-se à linha gráfica da mítica casa editorial Doubleday & Co. que escavou brechas profundas no mercado editorial de FC, desde logo com a ajuda de Frederik Pohl, autor que dirigiu a Galaxy e a If nos seus períodos áureos, ao mesmo tempo que era (e foi o único) agente do gigante Asimov (uma indústria em forma humana), que viria a ser um dos autores mais fiéis da chancela. Marques inclui o post na sua fascinante série de comentários gráficos ao ano de 1968 (que adquiriu uma certa aura na Europa que eu nunca vou conseguir compreender), altura em que a publicação de FC pela Doubleday estava no auge; efectivamente, logo no ano anterior, tinha sido sob essa chancela que Harlan Ellison dera à estampa o histórico volume Dangerous Visions (1967), a obra que acabou, de certa forma, por definir o movimento New Wave da FC, iniciado por Moorcock na revista New Worlds em 1964.
O Pedro aborda ainda, e apenas de passagem, o Science Fiction Book Club, que era uma divisão da Doubleday que tinha a particularidade de publicar também livros de outros editores, em edição harcover.
No entanto, nada melhor que ir à fonte, e beberem directamente das observações do Pedro, que nestas coisas gráficas, é praticamente imbatível. E aproveitem para se deliciar com algumas capas surpreendentes, de títulos bem conhecidos...

domingo, 24 de agosto de 2008

Sobreviver ao cogumelo



Creio que não sou o único a olhar com nostalgia para o período da guerra fria. Aqueles que vivemos as décadas de setenta e oitenta, experimentamos ainda alguns dos picos do confronto ideológico-militar dos dois super-blocos. Apesar de tudo, do ridículo que hoje nos parece, o despertar para um amanhã iluminado pelos cogumelos nucleares era uma possibilidade bem concreta. A arte e a música populares reflectiam-no. No cinema Rocky massacrava Ivan Drago e colhia o aplauso do Politburo; Rambo liderava os mujaheideen contra a ocupação soviética; os soviéticos, auxiliados por tropas cubanas, ocupavam os Estados Unidos e eram vítimas da guerrilha dos Wolverines em Red Dawn de Millius; e nos comics Ronnie Raygun Reagan apertava a mão do Super-homem; o heróis da Marvel enfrentavam os correlativos soviéticos; a literatura apresentava-nos as melhores obras de LeCarré, Tom Clancy, Forsyth, Little, et. al. e na música, The Russians de Sting, 99 Red Balloons de Nena ou Star Wars de Paul Hardcastle foram verdadeiros hinos da guerra fria (da mesma forma que Winds of Change, dos Scorpions o foram para o colapso da USSR.

É claro que mesmo a escalada de tensão que os exercícios da NATO geraram em 1983 (provavelmente o ano da década de 80 em que o mundo mais se aproximou de um conflito aberto USA-USSR) não se compara minimamente à crise dos mísseis de Cuba em 1962, tal como a paranóia nuclear nunca igualou os anos que antecederam esse episódio.

Dessa paranóia ficaram-nos vários testemunhos, autênticos documentos de uma era que hoje nos parece saída da ficção mais pobre: não só os filmes de ficção científica de monstros e mutantes radioactivos, mas também os filmes oficiais de prevenção de um eventual ataque nuclear aos Estados Unidos.

Filmes com títulos como:



Breves curtas metragens, patrocinadas pelo governo e destinadas a preparar a população para o inevitável confronto que faria surgir um sinistro jardim de cogumelos luminosos. Olhando para trás para esses filmes, é impossível não nos rirmos com a ingenuidade das recomendações (you better keep a flashlight at hand, you might need it), como se nunca tivéssemos visto as imagens das planícies arruinadas em que Hiroshima e Nagasaki se converteram.



Ao invés, é-nos recomendado, mal surja o flash que denuncia a detonação, "to hit face to the ground immediately" e "stay where you are until you're sure it's safe to move", enquanto alguns fragmentos esparsos tombam sobre o actor que se apressa a demonstrar o cumprimento das instruções.



Ou, "if you're inside a house, fall beneath the table".





As instruções, perante o triplo impacto da bomba (the blast, the heat, the radiation), são cada vez mais incríveis: abrigar-se debaixo de uma mesa pode ser o suficiente para nos salvar; ou, o meu favorito, "keep a first aid kit and learn how to stop bleeding".



E a apoteose com uma observação de involuntário humor-negro (ou talvez de freudiana expiação pela contabilidade macabra que os efeitos secundários ainda não tinham encerrado): "If the people of Hiroshima and Nagasaki had known what we know about Civil Defense, thousands of lives may have been saved".



Ao ver estes filmes, ao escutar estas considerações, não consigo deixar de pensar que ideias semelhantes devem ouvir-se hoje em dia à mesa do presidente Ahmadinejad.