terça-feira, 5 de março de 2013

BREEDERS (Tim Kincaid, 1986)



BREEDERS é um descendente tardio do ALIEN (1979) de Ridley Scott, embora, curiosamente, devolva a temática às raízes do mais puro pulp dos anos trinta, comuns a ambos. Mas se o filme de Scott actualizava, de uma forma esteticamente irrepreensível e politicamente relevante, as promessas lúbricas das capas berrantes das THRILLING WONDER STORIES e PLANET STORIES, Tim Kincaid, argumentista e realizador deste BREEDERS opta por uma adaptação mais literal da sua temática. Se a particular estética da ficção científica da era das pulp parecia privilegiar os BEMs (Bug Eyed Monsters) tentaculados e ansiosos por provar as delícias carnais das virginais terrestres de vestes esfarrapadas, o conteúdo das publicações era bastante mais casto e relevante do que as audaciosas ilustrações prometiam. Apenas um punhado de contos de Henry Kuttner (três para ser mais preciso), escritos sob o pseudónimo James Hall (um deles), e publicados (nos dois primeiros números da) na efémera MARVEL SCIENCE STORIES, logravam cumprir a promessa das capas, apresentando-nos lúbricos monstros alienígenas, e donzelas de vestes esfarrapadas a contorcer-se nos braços tentaculados, verdadeiramente dignos das ilustrações. Nos demais casos, não é difícil imaginar a desilusão dos muitos adolescentes que despendiam os seus suados cêntimos à procura de uma brecha que lhes desse acesso momentâneo a um universo adulto, perverso e kinky, nem é difícil imaginar Kincaid como um desses adolescentes, ou como alguém que optou por os vingar.



BREEDERS é uma dessas histórias tornadas celuloide. Preparando uma invasão alienígena, um monstro de olhos esbugalhados viola uma série de atraentes jovens, todas elas virgens e que, depois de tratadas no Hospital de Manhatan, despertam como zombies, respondendo ao chamamento de uma cave subterrânea onde se deliciam com banhos de uma substância de aspecto seminal. Cabe a um detective de polícia (Lance Lewman) e a uma médica (Teresa Farley) desvendar o mistério e destruir a testa de ferro da invasão, o que fazem da forma mais involuntariamente inepta que imaginar se possa.





Kincaid rodou o filme no âmbito de uma proposta audaciosa que apresentou a Charles Band, dirigente da Empire Entertaiment: rodar duas longas-metragens simultaneamente (a outra foi MATT RIKER: MUTANT HUNT), ambas em apenas dez dias e com custos que não ultrapassassem o milhão de dólares. As nítidas limitações orçamentais e de tempo são bem visíveis nos decorados vazios e nus, e no fato de borracha do monstro, sendo que Kincaid deve ter reservado a maior parte do orçamento para duas cenas de efeitos especiais, curiosamente um tímido e modesto chest burster ripado de ALIEN, e uma exploding head inspirada por SCANNERS (1980), mas sem que Ed French (que também dirigiu as cenas de efeitos especiais e interpretou o médico que, no final do filme, é possuído pelos alienígenas) logre obter um décimo da eficácia de um ou outro efeito dos filmes onde originalmente surgiram.


Marcado por interpretações absolutamente ineptas de praticamente todos os envolvidos (apenas Lee Anne Baker, actriz que interpreta uma jovem enfermeira que é também vitimada pelo monstro, demonstra alguma capacidade de representação), e claramente mais interessado na exibição dos atributos femininos das actrizes intervenientes (aos mais interessados nestes pequenos pormenores, e na actriz principal, Teresa Farley, deverão estar atentos a um curtíssimo nip-slip perto do final), o filme tem porém o condão de irritar e ofender em doses iguais todos aqueles que tenham dificuldade em tolerar o tratamento mais descontraído ou leviano de temas sérios como a violação e os maus tratos sobre as mulheres.




Concentrando-se obsessivamente na virgindade das vítimas (CHERRY FALLS, faria o mesmo com os slasher movies, com resultados pouco melhores em 2002), Kincaid não leva o filme para o campo batido da dificuldade em encontrar virgens no quartel final do século XX (o Conde Drácula de Morrissey, Warhol e Margheritti enfrentara já esse problema em 1974 – aliás, o título italiano é bem elucidativo: DRACULA CERCA SANGUE DI VERGINE… E MORI DI SETE), mas também parece indiferente à aparente abundância com que estas pululam por Nova Iorque, nas mais inesperadas profissões: no mundo da moda e da enfermagem, e nalguns casos, já bem entradas na casa dos trinta. Mais do que um comentário à mores dominante ou à solidão das grandes cidades, é apenas mais um elemento de identificação do filme com os clássicos do Horror e da FC dos anos 30 aos anos 50, actualizados por via de uma maior liberdade sexual.







Liberdade essa resultante do crescente mercado videográfico para consumo caseiro, que permitiu explorar a nostalgia de uma geração que se formou com os extravagantes opus de sexo e violência que durante os anos 70 vicejavam nos drive-ins e nas grindhouses. BREEDERS insere-se assim num movimento concertado de filmes que, em meados dos anos 80, apostaram em levar para as salas de estar as experiências que antes apenas podiam obter-se nos cinemas menos reputados do interior, dos centros urbanos decrépitos, e da famosa 42nd Street de Nova Iorque. Se um maior grau de explicitude retirou uma dose do poder perturbador de filmes mais contidos como o MURDERS ON THE RUE MORGUE (1932) de Robert Florey, CAT PEOPLE (1942) de Jacques Tourneur (este também objecto de um soberbo e explícito remake por Paul Schrader em 1982), ou mesmo de I MARRIED A MONSTER FROM OUTER SPACE (1958) de Eugene Fowler, abriu também uma maior paleta plástica na representação do até então irrepresentável.






E, pese embora todas as limitações referidas, Ed French, que já assinara também os efeitos de maquilhagem do clássico de culto C.H.U.D. (1984) no ano anterior, consegue por via dessa representação do irrepresentável, fazer momentaneamente a ponte entre o imaginário da cultura popular e visionários como Brueghel ou Bosch, apresentando-nos numa criação surrealista de feições distorcidas e órgãos reposicionados, o desastroso resultado da impregnação de uma não virgem pelos alienígenas, enegrecendo ainda mais a conotação sexual e a importância da virgindade num subtexto, quiçá involuntário, mas terrivelmente conservador.


A imagem mais gratuitamente erótica e duradoura que resulta do filme (pelo menos a julgar pela polémica que a publicação de uma fotografia de produção nas páginas da FANGORIA #51 de Janeiro de 1986 gerou), é a das cinco actrizes convertidas em reprodutoras, tão nuas quanto o bom gosto permite, num lânguido banho de visco seminal alienígena que espalham por todo o corpo com gestos de uma transbordante sensualidade, iluminadas em tons primários, sanguinolentos, como num recorrente sonho uterino.






Recordo-me de ter visto este filme em VHS, numa edição pan&scanada, algures em 1988 ou 1989, e de não ter gostado minimamente do filme. Revendo-o agora numa edição primorosamente restaurada para o seu correcto formato 1:85:1, foi-me mais fácil simpatizar com as intenções dos autores (talvez ajudado por uma dose de nostalgia), e anotar com mais facilidade, não só os muitos defeitos, mas as poucas imagens que perduram.



BREEDERS foi objecto de um remake não oficial em 1996, com argumento e realização de Paul Matthews, e efeitos especiais bem mais conseguidos do que no esforço inicial de Kincaid. Este novo BREEDERS mantém a mesma ideia central, embora reduza a zona de caça da criatura alienígena, do centro de Manhattan, para um colégio feminino. Apesar da alteração, e dos superiores efeitos especiais, a nudez é inexistente, o que ajuda a explicar que tenha passado totalmente desapercebido para as longas e sobrecarregadas estantes do esquecimento.

sábado, 24 de novembro de 2012

50 Doors Into SF 05: O Covil do Vilão



O primeiro filme da série James Bond que tenho memória de ver é MOONRAKER (1979), provavelmente o mais excêntrico e pulpesco de toda a colecção de aventuras cinematográficas do agente secreto criado por Ian Fleming em 1953 (pelo menos se não levarmos em consideração o extravagante CASINO ROYALE de 1967). Produzido no ano seguinte ao histórico sucesso de STAR WARS (1977), um sucesso que todos os grandes e pequenos estúdios, bem como os produtores independentes, queriam imitar, MOONRAKER entrou desabrido pelo universo da fantasia científica, presenteando os espectadores com fatos espaciais de aspecto metálico como os dos velhos seriados, armas de raios, bases espaciais, lutas no espaço, vilões (quase) indestrutíveis. A série de filmes do agente 007, com a excepção da segunda entrega, FROM RUSSIA WITH LOVE (1963), sempre teve um pendor de tecnofantasia, pendor esse assumido não só nas engenhocas desenvolvidas pelo departamento Q, mas sobretudo nos magníficos cenários tecnofabulosos desenhados por Ken Adam, que assumiu as funções de set producer em sete dos vinte e três filmes da série, tendo visivelmente inspirado todos os subsequentes, inclusivamente os nove em que essas funções foram assumidas por Peter Lamont.

Para o meu eu aos oito anos, de olhos esbugalhados colados no ecrã gigantesco, as magníficas bases secretas dos vários vilões megalomaníacos adquiriam uma dimensão transcendental que prontamente procurava reproduzir em casa com elementos de Lego ou com quaisquer outros materiais que estivessem à mão. Tenho a certeza que um exército de pseudo-académicos freudianos teriam inúmeras teses a debitar sobre o fascínio fetichista que aqueles amplos espaços cavernosos, de arquitectura escorreita e asséptica, nos quais se travavam estrondosas batalhas, dos quais emergiam fálicos foguetes, e nos quais feneciam vilões e se consumavam paixões, poderiam exercer sobre a mente pueril. Mas a verdade é que sempre me fascinou o gigantismo desses covis de Ken Adam, de amplo pé-direito, recheados de apetrechos electrónicos de funções indefenidas mas tão essenciais, entre os quais se esconde sempre um improvável botão de auto-destruição.

Acho que todas as crianças têm o fascínio por tudo o que é gigante, e não sei se o facto de alguns adultos – como eu – o manterem muito depois da puberdade, pretende significar uma ânsia de retorno ao ventre materno, à infância, ou tão só um pendor ditatorial e agressivo da personalidade (dependendo dos académicos que quisermos ler…), mas o facto é que o gigantismo sempre foi uma característica histórica, central da Ficção Científica: desde o gigantesco gorila de KING KONG (1933), aos insectos mutantes de THEM (1954), ou THE DEADLY MANTIS (1954), passando pelo gigantismo do normal de DR CYCLOPS (1939), THE INCREDIBLE SHRINKING MAN (1957), ou FANTASTIC VOYAGE (1966), até aos Big Dumb Objects de inúmeras obras literárias, de Arthur C. Clarke a Peter F. Hamilton, sem esquecer os gigantescos cruzadores e a magnífica Deathstar de STAR WARS (1977). Tenho a certeza que muitos detractores do género encontrarão nisso sintoma do seu infantilismo, mas revisitando regularmente esses covis de tecnologia avançada, vejo neles generosas portas de entrada para o magnífico universo da Ficção Científica: ‘A wonderland, that’s sf, a realm of the curious, through which a twentieth-century reader wanders like a Terylene-clad Alice’ (Brian Aldiss, na introdução à essencial Penguin Science Fiction, 1960). Em tempos, também Alice foi considerada ficção só para crianças. Tal como ela, sigamos o coelho, embora no nosso caso, seja um coelho mecânico, com sistemas bélicos integrados e muito panache.

Relatório Sobre Probabilidade Zero


Destroços. A nave que se quis indómita jaz desfeita e abandonada.


Os arquivos mortos e empoeirados, esperando mão caridosa que desenferruje os gavetões; os sistemas off-line, dormitando sob plásticos que pouco protegem como indigentes fugindo do esquecimento.

Regresso ao blogue volvidos que são ano e meio sobre o último post significativo que por aqui publiquei. Desde essa altura, e como diria o velho sabujo de má memória, “o mundo mudou”. Inventaram-se primaveras árabes, depuseram-se ditadores e aliados, e por cá, neste arabesco lateral e periférico, mudou-se finalmente, o governo, a forma de governar, e a forma de ver o país. Não chega, não foi da melhor maneira, mas foi um primeiro passo. Porém, no que aqui nos interessa, nada mudou realmente. O mercado livreiro encolheu-se um pouco, a OS MEUS LIVROS desapareceu mais uma vez, desta feita (aparentemente) sem retorno possível, mas o Fantástico, esse termo que cada vez mais abomino, continua a arrastar-se, sem forma ou substância, rumo à irrelevância final. É verdade que se publicaram mais alguns livros, que se organizaram mais alguns eventos, que se assistiu a incursões da academia na área do Fantástico e do Fantástico na área da academia – mas todas elas tiveram um sabor estranho e amargo. O Fantástico Português ainda não alcançou o País: este viu-se reduzido, da pior e mais violenta forma, à sua verdadeira e irrelevante significância. No Fantástico ainda continuamos convencidos de que as coisas estão… qual será o termo? Fantásticas? Hmmmf.


Em 2011 publicou-se aquele que será, provavelmente o mais importante livro de literatura de género desta segunda década do século XXI, em Portugal. De sua designação OS ANOS DE OURO DA PULP FICTION PORTUGUESA (Saída de Emergência), parece-me que foram poucos aqueles que alcançaram as cabais implicações daquele magnífico retrato de uma história literária que podia ter sido. Foi um projecto de envergadura e arrojo, desenquadrado do nosso panorama deprimente e, por isso mesmo, serviu também para nos fazer notar o paupérrimo estado de coisas na nossa literatura. Derivativo é o qualificativo que cada vez mais se nos oferece com direitos de cidade. Mostrarem-nos como as coisas poderiam ter sido, ilumina cabalmente as coisas como elas são e, sobretudo, como elas não são.

Mas regressar à actividade bloguística após todos estes meses não pode ser um exercício pautado pela desilusão e pelo desânimo. A verdade é que a miséria reinante apenas permite progredir. Pior é possível, claro que sim, mas pouco desejável. Mas relendo textos pretéritos, varrendo do chão os cacos de todos estes propósitos, que fica por fazer? Gerar mais propósitos e consequentemente, mais cacos? Mais projectos estéreis? Bah, para quê?



No espaço de uma semana são apresentadas ao público duas novas antologias: LISBOA NO ANO 2000 (organizada por João Barreiros para a Saída de Emergência) e MENSAGEIROS DAS ESTRELAS (organizada por Octávio dos Santos para a Fronteira do Caos). São duas colecções de ficção curta com propósitos tão díspares quanto ambiciosos. De ambas participei um pouco, em fases distintas da sua gestação; no resultado final, a minha presença apenas será sentida na de Octávio dos Santos, que generosamente nela incluiu um mal-amanhado conto meu, O Confessor. São duas antologias que não podiam ser mais diferentes, mas, numa e outra, numa ou noutra capacidade, senti uma vez mais aquilo que nunca desaparece: uma paixão pelos meus géneros favoritos. E, se há uma coisa de que me apercebo, é que por muitas voltas que dê, por muitas traições que lhe cometa, pelas muitas vezes que por vezes lhe volte as costas, continuo a ter pela Ficção Científica a mais desvairada das paixões.

Daí que tenha decidido, como propósito de retomar a actividade no BLADE RUNNER, que doravante este se dedicará exclusivamente ao meu género de eleição. Daqui em diante, e salvo raras e honrosas excepções, debruçar-me-ei apenas sobre a Ficção Científica, seja com a objectividade do Crítico que, apesar de tudo, ainda sou, seja com a subjectividade do entusiasta com eternos doze anos que nunca deixei de ser.

Mas porque acima de tudo urge ser realista, sei que não conseguirei manter um ritmo de actualizações que me satisfaça cabalmente, pelo que aponto para uma periodicidade rara – uma vez por semana será o objectivo, mais como meta do que como promessa.

E porque as paixões são voláteis, e porque sei que volta e meia sentirei a tentação de abordar o Horror, resolvi criar uma válvula de escape para as pulsões mais subterrâneas, uma válvula com quatro escoadouros, que podem ser encontrados clicando nas imagens abaixo. 





As actualizações, meramente ocasionais, serão devidamente assinaladas na barra lateral do blogue, sob a epígrafe “Now Playing in a Blog Near You”.


Ora bem, renovados os votos, sumariamente manifestados os propósitos, limpos o pó e as teias de aranha, reparado quanto possível o casco deste foguete de voos baixos, resta colocar os sistemas novamente on-line, desempoeirar os arquivos da memória e da experiência e aguardar que os motores desenvolvam potência.



Como diria o Comandante Picard: warp speed: engage!





domingo, 1 de janeiro de 2012

Todos os finais...



... são apenas um novo recomeço.




Bem-vindos a



no BLADE RUNNER

sexta-feira, 16 de setembro de 2011