quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Hoje Portugal... Amanhã o Universo (1/4)



João Seixas, Ricardo Duarte (moderador), Rui Baptista (Bela Lugosi is Dead) e David Soares. (Foto de Gisela Monteiro).

Por motivos de facilidade de leitura este texto foi dividido em quatro partes. Adverte-se que o mesmo contém expressões e opiniões susceptíveis de ofender um pouco toda a gente, pelo que se recomenda precaução na sua leitura ou, melhor ainda, evitar a mesma.

1 – A PROPÓSITO DE VAMPIROS

Todo o argumento coerente carece de uma linha condutora. É assim no ensaio, é assim na ficção. Mais uma das lições que parecem esquecidas, num panorama literário despido de contexto e referências. Vamos então escolher para fio condutor, o Vampiro.

No passado dia 19 de Setembro, a convite da Editora Objectiva, eu, o David Soares e o Rui Baptista, estivemos a falar de Vampiros, à hora das bruxas, no centro de Lisboa. A ideia, avançada pelos organizadores e pelo entusiástico moderador, Ricardo Duarte, foi a de que os vampiros estão na moda. Ideia que, como procurei expor numa das minhas intervenções dessa noite, está muito longe de ser verdadeira. Para compreender porquê, seria necessário reconstiuir a evolução do vampiro prototípico, do vampiro literário e cinematográfico, das suas representações populares, algo semelhante ao que Christopher Frayling fez no seu livro Vampyres: Lord Byron to Count Dracula (1991), prosseguido no volume Bram Stoker’s Dracula – Sucking Through the Century, 1897-1997 (1997) organizado por Carol Margaret Davison e actualizado de forma satisfatória pelas conferências realizadas em Budapeste em 2003 e que Carla T. Kungl coligiu parcialmente no volume Vampires – Myths and Matephors of Enduring Evil (2003).

Obviamente, seria um trabalho demasiado amplo e abrangente para um mero post, sobretudo um que está a ser redigido nos interstícios de prazos mais prementes e inclementes. No entanto, importa observar que independentemente das suas prováveis origens no folclore, nas tradições populares e na observação de alguns hábitos etológicos do reino animal, a figura literária do vampiro sofreu claras mutações ao longo do século e meio em que vem desfrutando de certa notoriedade e popularidade. Algumas dessas mutações representaram claras quebras com a tradição literária anterior, e merecem por isso ser destacadas, reclamando especial importância a transição do vampiro lânguido, faminto de companhia e presença humanas – dir-se-ia mesmo que faminto de humanidade – de Polidori e le Fanu, para o vampiro predador e violento de Stoker, e deste para o vampiro emasculado e anoréxico que aflorou pela primeira vez nas páginas de Anne Rice e domina o actual panorama literário. Obviamente, estas duas grandes rupturas emergiram dos seus próprios contextos históricos e culturais e por reacção a estes, moldando à sua maneira as sucessivas “modas” de vampiros bem como reacções à sua própria figuração, numa multiplicação de manifestações dessa figura prototípica. Tal como Nina Auerbach em Our Vampires, Ourselves (1995), podemos dizer “there is no such creature as ‘The Vampire’; there are only vampires”. Esta multiplicidade de vampiros, porém, mantém sempre uma afinidade de características essenciais que nos permite traçar a sua árvore genealógica e identificar as suas variações mais extremas como os vários vampiros psíquicos de Gaiman e Wilson, os vampiros tecnológicos de Star Trek (os Borg não são mais do que um sub-género de vampiros) ou os vampiros políticos de del Toro ou Simmons.

Uma das transformações mais subtis, e se calhar por isso menos notada (honra seja feita a Tomasz Warchol por chamar a atenção para ela em “How Coppola Killed Dracula”), foi aquela operada por Francis Ford Coppola na sua interessante adaptação de 1992: a origem da maldição de Drácula reside agora numa promessa de amor. Este prólogo que Coppola apensou ao texto original de Stoker, e que mergulha Drácula no reino do melodrama, não tardou a unir-se aos vampiros desdentados de Rice para dar origem a uma espécie híbrida e normalmente desinteressante. O vampiro deixa de ser um monstro sobrenatural, e passa a ser apenas mais um outcast, uma vítima da sociedade, tão digna de pena e comiseração quanto o original era de horror. I have crossed oceans of time only to find you, permanecerá como uma das mais pobres frases da história do fantástico, embora pareça ter influenciado sobremaneira os langores pseudo-góticos das novas gerações de fãs e não menos autores.

A estreia do filme de Coppola coincide com um momento de extrema popularidade da literatura de vampiros – em 1989, Nancy A. Collins tinha estreado a sua icónica Sonja Blue em Sunglasses After Dark, a série de novelas do vampiro St. Germain de Chelsea Quinn Yarbro atingia o oitavo volume em 1993 (Darker Jewels), Anne Rice voltava à carga com The Tale of the Body Thief (o último volume de alguma qualidade nas suas Vampire Chronicles, no ano anterior à estreia da adaptação cinematográfica de Interview With the Vampire, 1994), e Laurell K. Hamilton estreava a sua série Anita Blake com Guilty Pleasures (1993), provavelmente a mais imitada e influente das séries mencionadas. O fracasso de Buffy – The Vampire Slayer (1992) de Joss Whedon, seria redimido pela série epónima de 1997-2002, dando azo ao tenebroso mercado de pálidas imitações governado por Stephenie Meyer e outros sucedâneos menores como L.A. Banks, Richelle Mead, Tanya Huff, Charlaine Harris e quejandos.

Como acontece com quase todas as obras de ruptura, os textos de Stoker, Anne Rice, Hamilton ou Coppola, para além de originarem um novo contexto literário onde explorar este novo vampiro renovado, repositório dos medos, angústias, receios e preconceitos do seu zeitgeist, geraram uma vaga de imitadores surdos ao subtexto mas atentos às manifestações mais imediatas e “ruidosas”, num constante processo de filtração da originalidade até manter apenas aquele mínimo denominador comum sobre o qual Baudrillard nos alertava com grande presciência no meio de toda a estática pseudo-científica da sua filosofia. O que fica no coador não são os elementos arquetípicos ou prototípicos do vampiro, mas a familiaridade de uma estrutura desgastada e a busca de renovação de uma emoção perdida por parte do leitor.
(continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Breve Antevisão


1. VAMPIROS

Os vampiros estão outra vez na moda. Parece que não se pode abrir um livro sem nos depararmos com umas presas afiadas a gotejar tinta de prosa púrpurina. Mas será realmente assim? Será que o surto de obras que surgiu em catadupa no seguimento da tenebrosa (no pior sentido) tetralogia de Stephenie Meyers trata realmente de vampiros? Será que se inserem no vasto catálogo da literatura fantástica? Estas são algumas questões que podem ser debatidas amanhã, 19 de Setembro, por volta das 23:30 no Largo Luís de Camões, em Lisboa. Trata-se de uma tertúlia subordinada ao tentador tema "A literatura fantástica e o universo vampírico", inserida no amplo Cordão de Leitura organizado pela editora Objectiva. Para além deste vosso escriba, estão confirmadas as presenças de David Soares, Rui Baptista e Pedro Sena Lino. A moderação é de Ricardo Duarte, e o livro The Srain (A Estirpe) de Guillermo del Toro e Chuck Hogan servirá de mote .



2. DAGON

Já está nessa enorme banca virtual que é a Internet desde 31 de Agosto. Surge em pleno clima de crispação com uma agenda muito concreta e é a mais recente revista on-line da área do fantástico. Infelizmente o resultado fica muito aquém das expectativas criadas, prometendo reavivar um certo abespinhamento por parte de um grupo de jovens autores cujo potencial permanece ainda latente...



3. SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Cumprem-se setenta anos desde o início da mais mortífera guerra do Século XX. As suas especiais caracteísticas ideológicas, técnicas, militares e estéticas fizeram dela um cenário priveligiado para a imaginação. Ao horror sucedeu-se o fascínio e ao fascínio a estilização de uma era. Aqui, no Blade Runner, vamos explorar algumas das obras onde a Segunda Grande Guerra serve de palco para o Fantástico, aproveitando a chegada do Outono para tentar arrancar de vez com as há muito prometidas Midnight Sessions.


4. O CÍRCULO DE LEIBOWITZ

Circunstâncias adversas têm-me mantido afastado da actividade do CÍRCULO, cujo peso tem recaído sobre os ombros mais do que capazes do Nuno Fonseca e da Cristina Alves. Este mês o círculo regressa à actividade plena, a 30 de Setembro, e com um livro incontornável no praticamente incipiente cânone da FC nacional: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994) de João Barreiros. Oportunidade para dissecar um pouco a essência da ficção científica nacional, marcando também um primeiro passo no olhar mais atento sobre a actividade dos autores portugueses. Uma das fontes da crispação de que falava acima assenta na inexistência de um corpus crítico que permita definir um padrão de qualidade para a recepção das obras da área do fantástico. Procurei dar aqui a minha modesta contribuição para a criação desse corpus.

Tudo isto, no Blade Runner, a partir de 21 de Setembro.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Como lemos é como somos


A leitura é, para além de um acto de prazer, um exercício intelectual. É um jogo de possibilidades em que participam autor e leitor, o primeiro procrando enredar o segundo numa trama, o segundo procurando discernir os pormenores dessa trama. O que torna o jogo particularmente enriquecedor é que o leitor que procura as malhas da trama não as quer encontrar. Sabe que estão lá - afinal este jogo chama-se ficção - mas quanto melhor escondidas estiverem, melhor. Porque a invisibilidade das tramas, dos pontos em que a estrutura foi soldada, permite-lhe ir além da palavra escrita e penetrar naquele segundo grau de leitura que é a imersão na história, no drama, no conflito e desenvolvimento das personagens. Tropeçar nos buracos do enredo, onde a massa não foi bem colocada ou onde são perfeitamente visíveis os acabamentos toscos, detrai necessariamente do prazer do jogo. Pelo menos se queremos levar o jogo a sério, como leitores participantes, e não como meros leitores passivos.

Creio que antes poderíamos fazer a qualificação dos leitores passivos como "leitores escapistas", aqueles que, deslumbrados pela luz não reparam nas arestas cruas, que fascinados pelas cores perdoam a tosca utilização dos pincéis, aqueles que dispensados de pensar, esquecem como isso se faz. Mas não gosto dessa definição, porque não encontro nenhum mal intrínseco na literatura escapista ou na leitura pelo mero prazer imediato.

Poderíamos falar em graus de exigência de leitores, mas isso acaba quase sempre numa contraposição entre a dita "literatura séria" e a "literatura popular". Parece-me que é mais ou menos aceite que esta última - onde nasceram e cresceram os géneros do Fantástico - são literaturas onde a recompensa emocional/intelectual é mais imediata, não carecendo de grandes mediadores culturais a fazerem a ponte entre o texto e o contexto social - mas também isso é enganador, de tal forma sofisticadas se tornaram as literaturas de género e tão vácuas, repititivas e simplistas se tornaram as manifestações do mainstream.

Devemos por isso cingir-nos ainda ao jogo e à forma como é jogado. Sobretudo quando estamos a braços com um debate alargado sobre o futuro do género em Portugal. Várias propostas mais ou menos ambiciosas, mais ou menos batidas, foram lançadas sobre a mesa. Lemos - surpresos - uma tentativa de efectuar clivagens entre uma imaginada velha guarda do fandom e um grupo de jovens supostamente activos que querem criar o seu próprio Fantástico, sem os entraves que parecem perceber oriundos dos que os antecederam. Mas, para além das intenções, pouco mais se vê. Ora, mais do que uma clivagem geracional - afinal, aqueles que agora são referidos como "velho fandom", oscilam entre os vinte e poucos anos da Safaa Dib e os extremamente lúcidos oitenta e tantos do António de Macedo - afigura-se-me haver uma certa clivagem de formas de jogar o jogo da literatura.

Nomeadamente, assistimos ao surgir de uma nova geração de fãs que, sorvendo as referências no imediatismo voraz da internet, parecem prescindir de uma mediação contextual do que se lê. Uma geração não só avessa à necessidade de crítica literária, mas incapaz de proceder a uma crítica literária. Uma geração que lê apenas pelo prazer que lhes confere o mínimo denominador comum da leitura (ou mesmo da própria cultura). Esta é, uma perspectiva demasiado redutora e desde já afirmo que tal não é a situação generalizada desta nova geração. Se calhar não é sequer uma situação maioritária. Mas que é uma tendência muito forte é, porque assenta numa total incompreensão dos protocolos de leitura do Fantástico.

Um dos pontos que foi aflorado no recente debate, foi o do estado da crítica. Disse-o aí, e repito-o aqui: a crítica séria do Fantástico é inexistente em Portugal, apesar dos inúmeros blogues que se dedicam à divulgação do que se vai publicando. É claro que não podemos exigir de bloggers amadores - no sentido de não remunerados profissionalmente - a dedicação que é necessária à análise crítica de uma obra de FC, de Fantasia ou de Horror. Mas também não nos podemos deixar tombar pela ladeira oposta, que é a resvaladiça ladeira da opinião. Sobretudo a de uma opinião assente exclusivamente nos critérios subjectivos do gosto.

O Luís Filipe Silva, como sempre certeiro no momento e na oportunidade, resolveu mostrar, através de um exercício crítico, como é que a coisa se faz. Apesar de ter assinado um dos contos mais interessantes publicados este ano entre nós, resolve desfazê-lo com abandono, suscitando questões que seria normal os leitores colocarem perante o texto. Porque essa é a forma correcta de jogar este jogo: porque a literatura não deve ser recebida acriticamente numa escala de mero prazer emocional/sensorial. Um texto literário é sempre o resultado de uma série de escolhas de quem o escreveu. Essas escolhas nem sempre são as melhores, e por vezes cabe ao leitor encontrar as soluções que teriam enriquecido o texto, reconhecer as escolhas que foram feitas e porquê, e avaliar o resultado final contra os milhares de textos fantasma, de meros potenciais, que lhe passaram pela cabeça ao lê-lo.

Só assim os autores podem melhorar o que escrevem. Borges dizia que "todos julgamos os outros por aquilo que escreveram, mas esperamos ser julgados por aquilo que queríamos ter escrito". É altura que todos sigamos um mesmo critério. É imperativo, para que possamos crescer.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Círculo de Leibowitz: Adiamento


A todos aqueles que aguardavam ansiosamente a apreciação que o CÍRCULO DE LEIBOWITZ prometeu para hoje da obra The Fifth Head of Cerberus (1972) de Gene Wolfe, apresento as minhas desculpas. Com toda a actividade em torno da celebração da alunagem, e a inesperada participação no debate organizado pelo Correio do Fantástico e pelo Stranger in a Strange Land sobre o presente e incerto futuro do Fantástico em Portugal, não me foi possível terminar uma crítica aceitável e capaz de estar à altura do título proposto. A pedido meu, e excepcionalmente, o CÍRCULO aceitou adiar esta etapa para o próximo dia 31 de Julho. Assim, os leitores interessados em participar, poderão aproveitar ainda para ler esta curta mas brilhante novela.

Ainda falando no debate e nos propósitos manifestados por todos os intervenientes, sinto-me obrigado, também a título excepcional, a chamar a atenção para os esforços dos quatro autores que o Blade Runner convidou para assinalar a alunagem da Apollo 11. Dois desses autores, dois dos nomes mais conhecidos do Fantástico nacional, escreveram dois contos propositadamente para assinalar a data. Acho ao mesmo tempo curioso e lamentável, que todos aqueles que tanto afinco manifestaram no debate e que tanto protestaram admirar e defender os géneros do Fantástico, não tenham ainda comentado os contos e discutido o seu conteúdo e qualidade. Honra seja feita ao Roberto Mendes que o fez pessoalmente, por e-mail pessoal, com uma homenagem muito própria e que aqui agradeço publicamente.

Terminando também esta etapa, acho que todos os membros do fandom nacional deveriam ler este pertinente, honesto e sincero post do Rogério Ribeiro. Sendo um dos nomes mais visíveis e activos do Fantástico, editor de um fanzine pioneiro, inspirador do projecto BRIGADAS FC e co-organizador do Fórum Fantástico, soube rapidamente tornar-se indispensável ao Fantástico português e conquistar o respeito de todos os membros do fandom. A sua opinião é sempre importante. Dadas as circunstâncias em que entendeu manifestá-la, é-o ainda mais. Leiam o texto e reflictam sobre ele. Se conseguirem dominar a curiosidade, evitem ler os comentários. Apesar da elegância e postura do Rogério, o espectáculo volta a ser deprimente.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

The Moon is a Dashing Mistress


Para todos aqueles que acompanharam este blogue ao longo do mês de Julho deve ter ficado clara a admiração que nutro pelo Programa Espacial Norte-Americano, pelas missões Apollo em particular, e pelo fascinante período histórico em que decorreram. Foi uma época única, de objectivos ambiciosos, resultados concretos, actos terríveis e promessas generosas. Na década em que a América perdeu a inocência, também a Humanidade atingiu o estado adulto. Foi, tanto quanto possível, para partilhar um pouco desse meu fascínio que propus ao Luís Corte Real e à Saída de Emergência a organização da antologia COM A CABEÇA NA LUA. É-me, por isso, tremendamente gratificante ver o resultado final nas livrarias. Tão gratificante quanto ver que pela primeira vez a infosfera, o panorama televisivo e a internet estão a fervilhar de comentários, documentários, referências e programas alusivos a um evento digno de todo esse hype: a chegada do Homem à Lua. Um momento que me parece tanto mais grandioso quanto o súbito abandono de uma exploração e colonização cadenciada da Lua e do sistema solar o faz parecer quase mítico. Em breve, não o conseguiremos distinguir - ou as gerações futuras não o conseguirão distinguir - da ficção científica de que parece ter saído.

Também por isso é gratificante ler os textos que o António de Macedo, o Luís Filipe Silva, o David Soares e o João Barreiros escreveram para assinalar este evento, indo muito além daquilo que lhes foi proposto. O meu muito obrigado aos quatro por isso. Enquanto houver estes feitos para assinalar, e autores destes para os assinalar, nem o Fantástico, nem a FC correm o risco de desaparecer.

Por último, a Antena 1 passou hoje uma entrevista comigo, conduzida com grande simpatia pela Ana Aranha, a propósito da publicação de COM A CABEÇA NA LUA e com o fito de assinalar o grande salto que a Humanidade conseguiu dar em 20 de Julho de 1969. Quem não tiver tido a oportunidade de a ouvir durante o dia, ela encontra-se já disponível aqui.

Comemorando Apollo 11: João Barreiros


O SÍNDROMA DE ABRAÃO

por João Barreiros

O passado, como dizia o poeta, é de facto uma terra estranha. E tão cruelmente ingénuo que até custa a crer. Nesses tempos ainda pensávamos que era possível sobreviver a um ataque nuclear agachados por detrás de um banco de escola, com uma patética folha de jornal a cobrir-nos a cabeça. Hoje em dia é difícil perceber como foi possível, pobres tontos que nós éramos, imaginar que as estrelas seriam um dia nossas, pelo simples facto de que alguém deu o primeiro passo, (melhor diria um tropeção), e calcou a poeira lunar com a marca indelével de um traseiro? Como se ela (a poeira) não estivesse já marcada, desde há milhares de anos, pelos contornos de outras botas, pinças, trilhos, rodízios, cremalheiras e radículas de cristal? Ainda há poucas horas fomos informados, de uma vez por todas, que os futuros deixaram de cantar. Que as estrelas nunca serão nossas, pois já pertencem a outros, talvez às inteligências frias dessas Singularidades Impassíveis, na opinião de alguns místico-gasosos, ou aos tentáculos desses Monstros de Olhos Esbugalhados que tanto deliciaram a FC pulp da primeira metade do século XX. Se quiserem a minha opinião, a história da espécie humana, tal como nós a conhecemos, terminou quarenta anos atrás, no Verão de 1969. Agora a humanidade não canta, antes grita, pois a nossa espécie vai ser obrigada a pagar com juros aquilo que julgou ser prendas dos deuses. Permitam-me o lugar comum: Quem ignora as lições da história vai ter de repeti-las ad nauseam.

Quando Armstrong deu aquele pequeno trambolhão de que todos os homens se orgulham, activou sem querer aquilo que esperava por nós, em absoluta quietude, há três milhões de anos. Tal qual fazem aqueles os piolhos que aguardam pelo sangue quente de uma vaca, suspensos nos galhos de uma árvore. Os piolhos não estão vivos (pelo menos segundo os padrões humanos) mas também não estão mortos. Apenas em stand-by, tal qual as flores meméticas. Em boa verdade, mal Armstrong se estatelou no solo lunar, abriu caminho a uma sinistra Primavera que logo fez esquecer um Inverno de silêncio que poderia ter durado para sempre. Vá-se lá saber o que activou as flores. Como se isso fosse importante, a la longue. Como se a resposta não estivesse escondida numa das páginas secretas da Enciclopédia, disponível para quem se queira dar ao trabalho de a procurar. Especulou-se que foi a vibração anómala do solo, quando a Eagle alunou, num impacto desta vez tão diferente do choque banal de um meteorito, a acordar as sementes. Quem sabe se não teriam sido as micro partículas de ADN coladas ao revestimento exterior do escafandro, ou uma variação anómala de temperatura a contrastar com o frio ambiente. Há que diga que as radículas detectaram uma lufada química dos jactos de atitude do módulo. Outros afirmaram a pés juntos que o principal responsável foi uma baforada de CO2 expelida pelos circuitos de reciclagem do escafandro.

Que interessa isso? Basta dizer que as flores acordaram. E ao acordar, cravaram as raízes no regolito lunar e estenderam as pétalas rígidas e sedosas na direcção do sol. O Mar da Tranquilidade encheu-se em apenas poucos minutos de um fulgor coruscante. E assim despertas, como se fossem girassóis, viraram-se para o primeiro astronauta, para saudar a sua gloriosa e um tanto ou quanto ridícula chegada. De um momento para o outro, o Mar da Tranquilidade encheu-se de reflexos cromáticos. Em poucos minutos a Eagle ficou rodeada por um jardim de impossível delicadeza. Não havia vento a soprar, claro está, mas as pétalas rodopiavam como caleidoscópios capturando a luz do sol e decompondo-a em milhões de reflexos prismáticos. Este estremecimento frenético provocou uma tempestade de poeira, visível da Terra, tempestade que se estendeu por vários quilómetros até vir de novo a assentar e a servir de adubo ao crescimento de uma pseudo-planta capaz de sobreviver em pleno vácuo. E perante os olhos piscos e miópicos das câmaras de TV, a humanidade inteira viu o jardim a crescer e a multiplicar-se numa progressão exponencial.

Vês como somos belas? Como é maravilhoso o jardim a que pertencemos? Esquece os calhaus que nos rodeiam. Leva-nos de volta para a Terra...

Quem não se recorda da famosa frase de Armstrong (parafraseando uma outra de um filme que a história recente amaldiçoou?): “My God, it’s full of Ships!”. E ao dizer isto, sob os múltiplos reflexos do jardim nascente, as botas falharam o último degrau e o escafandro deslizou, devagar, devagar, numa queda que quase custou a vida ao seu utilizador, até vir bater na poeira ainda há pouco revolvida pelos jactos de atitude do módulo Eagle.

Claro que o astronauta tombado na poeira, com os pés a espadanar como uma barata tonta, esqueceu-se de debitar frases memoráveis imbuídas de um humanismo pegajoso e praguejou em alta voz aquilo que mais tarde as radiodifusões censuraram, mas que todos nós ouvimos perfeitamente (pelo menos aqueles que estavam nesse momento colados aos ecrãs da TV): shit, fuck! I’m done!

A definição das câmaras de TV era, à época, minimalista. A imagem de um pobre Armstrong a tentar levantar-se de uma queda vergonhosa, foi tudo o que conseguíamos ver durante a histórica emissão nocturna. Pedro Moutinho comentava o óbvio, e Eurico da Fonseca procurava explicar que os degraus da escada podiam estar escorregadios devido às partículas de gelo. E que era perigoso, mesmo muito perigoso, descer assim, num passo descuidado, sobre as rochas virginais de um novo mundo. Virgens uma história! Ninguém conseguiu perceber o sentido da exclamação de Armstrong, a não ser os que já tinham visto o filme 2001. Algures, no outro lado do mundo, Clarke, devia estar a esfregar prematuramente as mãos de contente, aguardando pelas primeiras imagens da proverbial Sentinela e um aumento substancial da sua conta bancária. Infelizmente para ele e para todos os optimistas que mais tarde vieram a criar a religião do Saganismo Eufórico, o Mar da Tranquilidade não estava pejado de Monólitos negros, mas sim com as carcaças dos contentores, vindos dos Impérios do Centro da Galáxia, contentores que em tempos deveriam ter instalado e distribuído as sementes por todo o solo lunar. Carcaças cinzentas, reflectoras de radar, invisíveis aos telescópios da distante Terra. Carcaças miméticas de módulos de von Neumman. Agora, poucas horas depois da alunagem, já quase ocultas pelo florescimento dos jardins de cristal, podiam ainda ver-se restos colapsados de distribuidores, tubagens, escavadoras, catapultas, domos ecosféricos (furados pela passagem implacável do tempo), templos subterrâneos cheios das múmias aracnóides dos operadores alienígenas (ou quem sabe, apenas e tão só simples bioconstructos, em nada semelhantes à verdadeira forma de quem os enviou). Quem quiser saber mais, que consulte os ficheiros da Enciclopédia, e isso depressa, antes que os serviços até agora gratuitos ganhem outro rumo.

Ao fim e ao cabo não há pachorra para investigar aquilo que julgávamos estar disponível para sempre... O que se passou foi que, em vez de rochas aborrecidas e monótonas, os contentores do módulo encheram-se das mais belas corolas que lhes foi possível recolher. Algumas foram postas em isolamento, apenas tocadas pelas luvas blindadas dos astronautas. Outras, num daqueles actos de criminosa negligencia, foram levadas para a cabine de pilotagem e acariciadas pelas mão nuas e seborrentas dos dois astronautas. E a Enciclopédia integrada na estrutura cristalina das pétalas das pseudo-flores, contaminou-os, com os memes metagnósticos de uma civilização trans-galática. Uma multitude de Nanócitos exógenos passaram-lhes através da pele, depois para o sangue e finalmente para as zonas vicariantes do cérebro. Os lobo pré-frontais explodiram numa glória de misticismo e de sonhos húmidos de poder. Duas horas de delírio febril foram suficientes para activar os primeiros protocolos de comunicação. Ficheiros inter-activos começaram a explicar-lhes de viva voz as respectivas funcionalidades. E enquanto explicavam como era possível ter acesso a quase tudo o que era possível saber, os astronautas, (que ainda não tinham deixando de recitar estrofes da Bíblia à guisa de vade-retro) desobedeceram às ordens de Houston, que lhes aconselhava um suicídio altruísta a bem de toda a espécie humana, dispararam o módulo até uma órbita cis-lunar, acopolaram-se ao transportador, passaram as viroses meméticas ao piloto solitário e arrancaram na direcção da velha Terra. Durante toda a viagem de regresso, sempre em comunicação com Houston, (mas surdos a qualquer pedido que lhe exigia que fossem razoáveis e que se deixassem morrer) foram reconstruindo, remodelando, reformatando, todos os pequenos bugs e deficiências do módulo lunar, tornando quase impossível um fracasso, um acidente, um erro que poderia degenerar em catástrofe. As vozes amigas da Enciclopédia estavam sempre com eles, sugerindo, alvitrando, recomendando. Quando dormiam num sono dos justos, (sim, porque a Enciclopédia também possuía arquivos de auto-reparação nos organismos dos seus utilizadores), os três astronautas sonhavam com Impérios Galácticos, visões divinas, êxtases místicos e momentos de futuras erecções que nem as primitivas cantáridas poderiam alguma vez superar.

O resto é história. A Enciclopédia chegou à Terra e não houve censura que lhe pudesse pôr cobro. Porque mesmo em isolamento, os astronautas deixaram memes nas águas do oceano, nos assentos do helicóptero que os transportou até ao porta-aviões, nas mãos enluvadas dos médicos que os examinaram. E embora a carga que viajou no interior dos contentores do módulo tivesse sido praticamente destruída, a verdade é que sempre sobrou qualquer coisinha. Técnicos, marinheiros, agentes do FBI levaram para casa, escondida nas solas dos sapatos e nas dobras da roupa, uma informação que deixou de ter segredos seja para quem for.

As flores começaram a aparecer e a reproduzirem-se sem controlo, poucas semanas depois da amaragem, nas praias da Florida, nos jardins públicos de Miami. A tropa meteu-se ao barulho, armada de lança-chamas e (pobres idiotas) toneladas de DDT. Mas não é assim, como chamas e químicos, que se dá cabo de uma invasão alienígena. Todos os contaminados (aqueles a quem a Enciclopédia passou a prestar serviços) passaram-se para o inimigo. Guardas-marinha, os médicos que examinaram a saúde hercúlea dos astronautas, desde logo seduzidos, distribuíram, intencionalmente ou sem querer, as sementes rígidas escondidas nas corolas solúveis de todas as flores.

Houve quem construísse balões de ar quente ligados a uma cestinha de pétalas vivazes, e os soltasse depois ao sabor do vento e da História. Houve quem construísse pequenos barcos impulsionados por placas solares (montadas nas garagens e oficinas de vulgares cidadãos, como manda o figurino) e os deixasse seguir pelo Oceano fora. Houve quem fabricasse pequenos foguetões preparados para explodir e disseminar sementes a quilómetros de altitude. Nesses anos sessenta não havia meios físicos capazes de controlar uma pandemia. No final do Verão de 69 todo o continente Americano passou a ter acesso a uma troca de dados sem limites.

Dois meses depois Nixon demitia-se, pois não havia segredo que pudesse esconder-se de uma troca livre e franca de informação. Escritores, compositores, poetas, comediantes deixaram de receber direitos das suas obras, pois estas, graças à divulgação anárquica da Enciclopédia, entraram em todas as cabeças, mesmo antes de serem editadas em papel ou gravadas em vinil. Milhares de casais divorciaram-se ou chegaram mesmo a degolar-se, no pior dos casos, pois a verdade é que deixou de haver segredos íntimos, logo que as memorias passaram a ser livremente trocadas. Poderia ter sido o fim da civilização, até que alguém descobriu uma sub-pasta no Arquivo Central da Enciclopédia onde era possível activar alguns protocolos de privacidade. Nas escolas, os alunos passaram a saber tudo, mesmo antes do professor abrir a boca. Nenhum teste, nenhum exame, nenhuma prova conseguia escapar ao facto que todos os conhecimentos, já digeridos e integrados em estruturas cognitivas, poderiam ser aplicados à resolução de qualquer tipo de problemas, mesmo os mais complexos.

E a Enciclopédia, compactada nas sementes carregadas de nanócitos mais as respectivas flores contaminantes, atravessaram o Oceano e chegaram à Europa. Há quem diga que os Americanos bombardearam a União Soviética e a China com toneladas de sementes na barriga de bombardeiros stealth, simplesmente para acelerarem o processo da desintegração do Comunismo. Verdade seja dita que o Muro caiu. Que a KGB se auto-destruiu numa única noite de chacina inter-pares capaz de lembrar a outra noite das Facas Longas. Querem saber mais? Procurem os Arquivos correctos.

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Quanto a mim, acedi pela primeira vez à Enciclopédia numa tarde de Agosto, estendido na praia, a secar as gotas de água sobre uma toalha. Estava nesse momento sozinho, (pois quem quer saber de um puto magricelas e míope), apenas na companhia do Homem Demolido do Bester. Qualquer coisa picou-me o rabo. E eu, julgando tratar-se de uma concha ou a tampa de uma lata, ergui a toalha, enfiei a mão na areia grossa e peguei na flor por uma das pétalas. A principio, apesar de tanta fotografia, não cheguei a perceber do que se tratava. Estávamos em Portugal, sob o peso da bota, e os resultados dos testes de exame apenas nos chegavam através da Rádio Marrocos Livre. A pétala parecia-se com um fragmento de bolo de açúcar caramelizado. A luz da tarde penetrava-a de um lado ao outro em delicadas cintilações. A superfície, a princípio elástica e resistente ao toque, começou a amolecer-me entre os dedos. Uma sensação de frescura colou-se-me à mão e foi-me crescendo pelo braço. Pisquei os olhos., engoli em seco, mas a sensação não foi de agonia mas sim de um vago prazer, quase sexual. Pisquei os olhos porque os óculos começaram a incomodar-me. Tirei-os para os limpar, com um fragmento de pétala semi-dissolvido ainda agarrado aos dedos, e descobri, para meu espanto, que agora via melhor sem eles, que a miopia tinha deixado de me atormentar. Olhei para o mar e de súbito veio-me à memória todos os contaminantes químicos das gotículas de água que ainda me cobriam o corpo. Soube que a praia estava contaminada pelas salmonelas provenientes dos eflúvios de um matadouro próximo e que deveria ser enviada uma reclamação contundente à Junta de Freguesia. Percebi a natureza tóxica de todos os contaminantes de um oceano aparentemente límpido. Calculei a velocidade das correntes da baixa-mar, e a velocidade em nós dos navios que passavam ao longe, para lá da barra. Soube que horas eram sem sequer deitar uma olhadela ao relógio ainda guardado no saco. Lembrei-me do final do romance do Bester apesar de ainda não ter chegado a meio. Vieram-me à memória todos os estúpidos erros que cometi, há semanas atrás no meu Exame de Matemática. Agora conseguia, sem o menor esforço, recitar toda a tábua de logaritmos. Conclui então que a Enciclopédia estava agora comigo, para sempre. Na cova da mão, entre os resquícios das pétalas dissolvidas, repousava apenas o esferóide de uma nova semente, semente essa que seria o meu dever plantar em qualquer outro lado, longe dali. Levantei-me a tremer de entusiasmo. Toda a gente na praia devia estar a dormir apoiada num conjunto subterrâneo de radículas. Até ao final da tarde, as primeiras pétalas haveriam de despontar entre os grãos de areia, beatas de cigarro e restos de sandes abandonadas.

O governo caiu semanas depois, como é costume caírem as ditaduras que controlam a informação perante a Mente Colectiva em que a Enciclopédia nos transformou. Imagino os segredos da DGS a correrem pelas bocas do mundo. Marcelo Caetano a tremer à beira da catástrofe. Lembro-me do único discurso coerente feito pelo Presidente Américo Tomaz, gramaticalmente bem construído, a pedir desculpas e a despedir-se do poder.

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A Utopia resultante desta Felicidade Compulsiva durou 40 anos.

No final da tarde, 20 de Julho de 2009, hora local, a Enciclopédia abriu uma nova mensagem à escala planetária. Quer isto dizer que todos nós, a espécie humana, recebemos a mesma informação, precisamente ao mesmo tempo.

As vozes delicodoces da Enciclopédia (para quem gosta de a ouvir em circuito áudio) explicaram-nos que o período de assinatura gratuita estava prestes a terminar. Que a partir do dia 30 de Julho os serviços seriam cancelados, os aplicativos dissolvidos, os jardins de flores meméticas reabsorvidos a não ser que a assinatura fosse renovada, mas que desta vez era preciso pagar.

Seguiram-se os protocolos da renovação do contrato. E porque a Enciclopédia funciona segundo princípios democráticos, a opção deveria partir da escolha consensual de sessenta por cento da população mundial. Às dezoito horas do dia 30 de Julho, todos nós deveríamos dizer se sim ou se não. E que o preço era meramente simbólico, apenas uma questão de respeito perante as inteligências que tanto tinham feito pela espécie humana.

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Quem quer que tenha enviado as flores conhecia a história da humanidade. Sabia o que os Gregos fizeram aos Troianos com a oferta irrecusável de um certo cavalinho de madeira. Sabiam o que aconteceu aos índios americanos quando receberam cobertores dos colonos contaminados com malária. Oferecemos de mão beijada arados de ferro às tribos do Norte de África com os conhecidos resultados de desertificação. De facto, a Enciclopédia poderia ser considerada uma arma à escala trans-galáctica construída para sufocar as civilizações da Periferia. A verdade é que, desde há 40 anos nunca mais produzimos, inventámos ou criámos nada que não estivesse já incluído nos protocolos da Enciclopédia. Tornámo-nos dependentes de uma droga. E ninguém vai conseguir fazer a ressacagem a tempo de nos salvar do colapso final.

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Afinal quem é que vos disse que as civilizações do Centro, lá pelo facto de serem tecnologicamente mais avançadas, possuem valores éticos de natureza quase divina?

São sádicos, são voyeurs, deleitam-se, tal como nós, com os combates até à morte dos cães e dos grilos em arenas. Nós, humanos, não passamos de um mero espectáculo que essas inteligências frias contemplam de muito, muito longe. A salivar perante futuros prazeres.

A Enciclopédia deve ter meios de lhes fazer chegar toda a informação do que se passa no nosso planeta em apenas poucos minutos. Algures, no sistema operativo das flores meméticas, deve estar incluído um ansible.

Quem querem eles como paga da renovação da assinatura?

Muito simplesmente o sacrifício anual (e quanto mais sangrento melhor) de 5.000 crianças no topo das pirâmides de Chichen Itza. E tudo isto filmado e representado a preceito. Se as criancinhas forem executadas pelos pais, tanto melhor, mais bela e delicada será a estética do evento. É importante que seja escolhidas a dedo entre as mais belas e saudáveis. É recomendável que se lhe arranque o coração ainda em vida. E depois as tripas. E que os parentes bebam uma taça do sangue derramado à guisa de respeito por quem manda.

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Temos poucos dias para decidir mas, conhecendo como conheço a espécie humana, já sei qual será a resposta. Cínico que sou, concluo que antes do advento da Enciclopédia, morriam mais crianças no mundo de doenças e acidentes do que estas cinco mil. No dia 30 vou cerrar os olhos e dar a minha escolha. (Não são permitidos votos em branco). Resta-nos optar entre a extinção global da nossa espécie e a simples perda de algumas células não essenciais. Estou habituado ao meu conforto, à minha felicidade sintética, não tenho filhos para criar, o problema é dos outros, não meu. Opto pela morte do Mandarim e pelo afluxo de uma gigantesca fortuna. E no próximo ano conto estar no México, a aplaudir, como tantos outros, a renovação da assinatura da Enciclopédia que afinal é o fundamento das nossas vidas.


“Os monstros existem, mas são demasiado numerosos para constituírem um
perigo. Quem é perigoso são os homens vulgares, preparados para acreditar e
obedecer sem discutir.”


Primo Levi

Comemorando Apollo 11: David Soares


A Lua ainda é um lugar misterioso…
por David Soares
A Lua ainda é um lugar misterioso…
Quarenta anos depois da primeira alunagem – depois daquela tímida tentativa de despir Selene – parece que o mundo ainda não entrou na épica era espacial que projectámos durante os anos cinquenta e sessenta do século passado: o futuro, para mal dos nossos pecados, assemelha-se, demasiado, ao presente. Ou, pior!, ao passado. A deusa ainda está vestida e adormeceu-nos, pobres pastores, de modo a conservar o pudor.
A conquista do espaço foi a última grande meta-narrativa que marcou, com um cunho distintivo, a cultura ocidental, mas, inversamente às meta-narrativas religiosas, que, infelizmente, ainda subsistem, esta, que é científica, parece ter sincopado. Não se assiste a um grande entusiasmo público diante dos progressos astrofísicos que vão sendo divulgados pela comunicação social e nos veículos da especialidade. Acho até que o espaço nunca esteve tão distante de nós, como hoje – e isso é uma pena. Talvez a Lua seja, com efeito, uma amante cruel.
Ou talvez nos falte uma comunicação social que conheça a linguagem científica e saiba transmiti-la sem a associar a imagens e conceitos, ditos divertidos, pensados para a tornar degustável pelos espectadores. Talvez nos falte uma nova grande meta-narrativa científica que sirva de contrapeso aos absurdos da fé. (O burburinho criado em volta do novo super acelerador de partículas do CERN quase serviu, mas os meandros da física quântica são demasiado insondáveis para serem compreendidos, e amados, pelo grande público.)
Em suma, falta-nos olhar outra vez para a Lua – de modo simbólico, também, pois trata-se de um local onde já estivemos e pode ser um lugar que sirva de modelo a viagens mais arrojadas.
A Lua ainda é um lugar misterioso… Na verdade, ainda é virgem. Apenas a acariciámos – falta cumprir-se a sua conquista.
Quarenta anos depois da primeira alunagem, ainda não despertámos para essa conquista. Talvez devêssemos aproveitar o facto de ainda estarmos a dormir… para sonhar!
Como está expresso no título da antologia de contos de ficção científica organizada pelo João, e publicada pela Saída de Emergência, precisamos de pôr a cabeça na Lua. Já lá pusemos o pé, mas isso não é suficiente, porque o pé não sonha.
A cabeça é que sonha.
E atrevo-me a dizer que os assuntos relacionados com a conquista do espaço são a única área da ciência capaz de fazer o público sonhar. Acredito que o futuro do discurso científico, junto da opinião pública, terá de passar por um novo sonho espacial.
Sonhar com o espaço faz da Terra um lugar melhor: mais pacífico, mais sábio e maior.
Mais sensual, até.