segunda-feira, 20 de julho de 2009

Estes são os rostos...






... que há quarenta anos atrás oficiaram aos ritos de passagem de uma Humanidade que deixava para trás a infância, como muito bem disse o Luís Filipe Silva. São os rostos públicos de uma massa anónima de mais de 400.000 pessoas que directa ou indirectamente estiveram envolvidas em todos os passos do Programa Apollo. São os rostos que todos aprendemos a reconhecer como os heróis do programa espacial Norte Americano. Rostos que não perderam, com o passar do tempo, aquele ar deslumbrante dos heróis da juventude.





Mas que ganharam uma pátina de melancolia que marca o eterno sorriso voltado para um momento único da história colectiva da nossa espécie e das quais foram os protagonistas privilegiados. São rostos de uma felicidade extrema, de uma tristeza incomensurável. Náufragos, como nós, de um Futuro que passou ao largo. Mais do que nós, sentem a bofetada da História que não soube agarrar a mão que lhe estenderam.







Ao longo deste ano que passou, enquanto estive mergulhado na preparação da antologia COM A CABEÇA NA LUA (Saída de Emergência) que este mês chegou às livrarias, sinto que vivi de perto com estes rostos que ocuparam grande parte do meu tempo; que vivi as suas vidas, objecto de tantos e tantos volumes, artigos, reportagens, livros de História. Mas nunca nada me disse tanto sobre eles como ver-lhes os olhos onde ainda brilham as estrelas que as câmaras fotográficas não conseguiram captar, onde para sempre se ergue, luminoso, aquele earthrise que apenas eles, esses doze magníficos, conseguiram ver por sobre a superfície velha e encovada da Lua. São as últimas testemunhas de uma promessa de amanhã que nunca chegou.

domingo, 19 de julho de 2009

Uma Estranha Forma de Vida: o Fandom (2)




3. A SIMETRIA

Para compreender a situação actual da FC em Portugal é necessário descobrir porque motivo a Simetria - Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, não conseguiu agregar o fandom em torno de um projecto comum.

A verdade, como Jorge Candeias observa noutras páginas desta edição, é que o surgimento da Simetria no panorama nacional marcou o progressivo declinar da FC em Portugal. Ao invés de unir os fans em torno de um objectivo comum, a Simetria entrou numa dinâmica de desagregação patológica, provocando, um atrás do outro, os diversos incidentes que, no fandom ficaram conhecidos como Barreirosgate, Candeiasgate e Goblingate.

E, se este processo autofágico, se encontra sobejamente documentado nessa acta virtual que é a mailing list da Simetria (agora FICÇÃO-CIENTÍFICA) (10), estão ainda por esclarecer as causas mais profundas que lhe deram o suficiente momentum para que se tornasse um processo imparável e - aparentemente - irreversível.

E essas causas, independentemente dos protagonistas envolvidos, devem buscar-se na conjuntura estruturante – quer a nível de mercado, quer a nível de fandom - em que se move a FC portuguesa. Esta, apesar dos picos fulgurantes a que, de quando em quando, se eleva, continua a ser um género literário pouco mais que clandestino.

Por falta, sobretudo, de um fandom activo, capaz de constituir uma força de pressão sobre o mercado, quer a nível de produção nacional, quer a nível de importação, quer ainda a nível de força selectiva do núcleo de obras a perdurar enquanto referentes da evolução do género.

E é aqui que, até prova em contrário, se encontra a razão do monumental falhanço da primeira associação de fans de nível nacional: o incipiente fandom português que em torno dela se reuniu, surgiu de um processo evolutivo anómalo, atípico e, do ponto de vista histórico, patológico.

Com efeito, a Simetria surgiu, não de forma expontânea, mas por imposição exterior, como forma de criar um organismo passível de obter apoios do Estado e dos Municípios para prosseguir com a sua actividade ou, pelo menos, de prosseguir com a organização dos Encontros Anuais de Cascais(11)(12).

Surgida assim como forma de garantir apoios financeiros, a Simetria tornou-se numa associação mais preocupada em garantir o afluxo desses apoios do que em produzir trabalho capaz de criar um mercado capaz de os tornar supérfluos. A máquina começou a trabalhar apenas para alimentar a máquina e, nesse processo, alheou os próprios fans.

Ademais, parecendo ignorar o carácter essencialmente entusiasta e “fechado” do fandom, procurou namorar a Academia antes ainda de ter um corpus de trabalho capaz de suportar as suas pretensões.

O resultado, foi a atracção para a Associação de elementos alheios ao fandom, desconhecedores da produção (escrita ou cinematográfica) da literatura de género e, consequentemente, pouco interessados no seu desenvolvimento.

Assim, inicialmente agregada em torno de um grupo de fans - no sentido puro do termo – conhecedores do género, entusiastas, e quase todos eles igualmente autores, a Simetria tinha naqueles os seus alicerces de sustentação; assim que estes se afastaram, todo o edifício colapsou, mergulhando desde então numa inércia contra-pruducente.

Inércia esta que apenas de compreende se atentarmos na sua causa mais profunda: o fandom, em Portugal é quase nulo.



4. ... AO MENOS LEITORES?

Isaac Asimov chegou a escrever que apenas no período em que a FC se encontrava totalmente concentrada nas pulps foi possível o desenvolvimento do fandom(13). Nesse período, como não voltaria a ocorrer desde então, era possível aos leitores conhecer toda a ficção científica publicada. E foi este conhecimento – esta possibilidade de conhecimento - aliado ao espaço de cartas dos leitores que enchia várias páginas das revistas, que permitiu o surgimento do fandom(14).

De certa forma, este ímpeto era impresso ao fandom pelas próprias casas editoriais, interessadas em consolidar um mercado para o novo género literário. Tal não era, por si só, suficiente, como o atesta o desaparecimento de todas as demais pulps que não sobreviveram ao advento da banda-desenhada e da televisão; era necessário que os próprios fans tivessem características particulares, capazes de os tornar uma elite.

Tais características, aliás confirmadas por vários estudos realizados desde então (com o valor que lhes queiramos atribuir), demarcam o leitor de FC como sendo jovem, de cultura elevada, inteligência superior à média, e uma insaciável necessidade de conhecimento.

Recentemente discutia-se na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, quantos leitores de FC existiriam em Portugal. Jogava-se com os dados (supostamente) conhecidos das tiragens das publicações nacionais e do número de vendas médio, para além de inferidos hábitos de leitura, chegando um dos intervenientes a avançar o número surpreendente de que um fan português, leria em média 2,5 livros de Ficção Científica por ano.

Se é certo que estes números foram avançados sem a sustentação de um estudo credível, não é menos certa a sua potencialidade explicativa do flagrante insucesso da Simetria e da concreta situação do fandom em Portugal. Porque estes números deixam adivinhar a inexistência de uma massa crítica de leitores que permita a consolidação quer de uma Associação de Fans de âmbito nacional, quer ainda de uma Ficção Científica Portuguesa ou da Ficção Científica em Portugal.

Simplesmente, em Portugal, não existem leitores de Ficção Científica! (15)

Mas, para avançar esta hipótese explicativa, será antes de mais necessário identificar em que consiste essa figura do leitor de FC. E, sobretudo, porque motivo não podemos considerar alguém que lê uma média de 2-3 livros anuais como tal.

Ora, uma excelente definição do leitor de FC é-nos adiantada por Isaac Asimov, no editorial do nº2 da revista ASIMOV'S SCIENCE FICTION MAGAZINE, publicada no Verão de 1977(16). Nele, o bom doutor define o leitor de FC como sendo "someone for whom science fiction is a more or less steady diet, who subscribes to magazines, who combs the book and magazine racks, to whom the various authors are household names".

Esta definição, pese embora não contemple os casos especiais do media-fandom, é ainda perfeitamente válida para os propósitos deste breve ensaio, já que a principal manifestação da FC continua a ser a literária.

Assim, do leitor de FC, exige-se, antes de mais, que possua um conhecimento do género muito mais profundo do que aquele que deve ser exigido de um leitor do mainstream.

Isto porque, como já se referiu supra, o fandom(17), mais do que um simples agrupamento de leitores, é uma autêntica sub-cultura, activa, comunicante, manifestando-se através de correspondência, fanzines, mailing lists e associações amadoras de imprensa (amateur press associations - apas) (18).

Ora, os fans portugueses não conhecem a ficção científica. Como tal, passou-lhes completamente desapercebido o cyberpunk dos anos 80 (ao qual apenas foram introduzidos pelas suas manifestações fílmicas, (Jonny Mnemonic (1995), Strange Days(1996) e Matrix (1999), já na segunda metade da década de 90), o Steampunk, o Ribofunk, todo o renascimento da FC britânica e até aquilo que poderíamos chamar como nanotech-lit ou nanoclit.

E esse facto marca de forma indelével a FC portuguesa (ou escrita em português), já que esta é precisamente um espelho – ainda que involuntário – do fandom (ou, mais propriamente, do público leitor). É assim, com excepção de João Barreiros e Luís Filipe Silva, que encontramos uma ficção científica portuguesa dominada por obras datadas, escritas em resposta à FC americana de há quatro ou cinco décadas atrás, aquela que (moldada pelo fandom, e moldando o fandom, num processo de retro-alimentação recíproco) ainda hoje preenche as principais colecções publicadas em Portugal.

O mesmo é dizer, o leitor português, é um leitor errante, que toca a FC apenas de forma tangencial, em busca de receituários ou entretenimento. É um leitor escapista, que ignora as características próprias e distintivas do género, rectius, que nem sequer as reconhece.

Nestas circunstâncias, não deve surpreender que a Direcção da Simetria não tenha sabido compreender a mecânica própria em que assenta a credibilização em Portugal - um país culturalmente atrasado, tecnologicamente debilitado, antagónico ao conhecimento científico - de um género literário que é essencialmente alienígena à nossa cultura popular e académica.

Assim, alheada do diminuto fandom existente em Portugal - aquele que emergiu dos tubos de ensaio da OMNIA e da Caminho - e retendo junto a si apenas um par de autores (Daniel Tércio, António de Macedo e Luís Miguel Sequeira), curiosamente antagónicos ao espírito de fandom (19), a Simetria transformou-se num estranho objecto à deriva, incerto nos seus objectivos, incapaz de atrair quer o fandom quer os Trekkies a quem fez a corte em 2000 (20).

Sem publicações, sem concursos, sem iniciativa, a Simetria procurou reunir o fandom para discutir, mais do que o Estado da FC em Portugal, o Estado da Associação na FC. Os anunciados ESTADOS GERAIS DA FC&F redundaram num constrangedor non-event, assim marcando, tristemente, o desaparecimento da Simetria do mapa stefnal português(21).

5. QUE FUTURO?

Na ausência de um fandom activo, e sem uma base ampla de leitores capaz de lhe dar origem, que futuro resta à FC em Portugal? Ou não passa esse futuro de um lento agonizar?

O fandom português, curiosamente, uma vez falhado o projecto simétrico encontrou um caldo de cultura extremamente rico em nutrientes na Internet. Centrando-se na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, os poucos fans sistematicamente activos vêm desenvolvendo uma actividade proporcionalmente significativa quando comparada com o seu número reduzido.

Com um número de inscrições superior a 100, abriga uma dezena de fans que mantêm uma actividade constante e visível e que, não obstante o seu parco número, consegue obter alguma repercussão fora das fronteiras do próprio fandom.

No futuro, não parece arriscado prognosticar, será do núcleo de fans em actividade nesta lista que virá a surgir a próxima geração da FC portuguesa e, quem sabe, a primeira escola literária da Ficção Científica em Portugal.

Agregando-se em torno daqueles que originalmente desbravaram o caminho para a FC e Portugal - João Barreiros e Luís Filipe Silva à cabeça - surgiu uma nova geração (nova que não em idade) de fans entusiastas, Jorge Candeias, Luis Rodrigues, João Seixas e António Martins-Tuválkin, entre outros que, de uma forma ou outra, tem estado ligada aos mais relevantes eventos relacionados com a FC em Portugal.

Este pequeno grupo está na origem de alguns dos mais arrojados projectos, desde a primeira Enciclopédia On-Line da FC&F(22), um E-Zine (E-NIGMA, que já mereceu críticas elogiosas no jornal PÚBLICO), o site luso-americano FANTASTIC METROPOLIS (presentemente sob direcção de Moorcock, VanderMeer e Zivkovic), a colecção de FC da Editora Portal Devir e o esperada primeira revista profissional de FC em Portugal (a ser publicada, brevemente, pela mesma Editora).

Se é certo que Hugo Gernsback foi o pai da moderna FC ao criar a primeira revista do género, não é menos importante o facto de ter sabido criar, em torno dela, um grupo de fieis entusiastas que viriam a consolidar o género tal como hoje o conhecemos.

Se um papel semelhante puder vir a ser desenvolvido pelo fandom agrupado em torno da mailing list de FICÇÃO CIENTÍFICA então, quem sabe, talvez ainda haja um futuro...


AGRADECIMENTOS:

A João Barreiros pela preciosa ajuda prestada no preenchimento das abundantes lacunas nos meus parcos conhecimentos. A sua ajuda foi preciosa, mas os erros - inevitáveis - são de minha exclusiva autoria.

A Jorge Candeias por, amavelmente, me ter facultado uma cópia do seu artigo que surge nesta mesma edição, e que constituiu um interessante ponto de referência e comparação na elaboração do presente ensaio.

Notas:


(1) Algis Budrys, “Paradise charted”, in Triquarterly 49 “Science Fiction”, Northwestern University, Evanston, Illinois, Fall 1980, pags, 5-75

(2) É importante referir, a bem do rigor histórico, que Gernsback, para além de possuir a paternidade da moderna ficção científica, foi também o criador do fandom, ao fundar a Science Fiction League, em 1927.

(3) Damon Knight, THE FUTURIANS, 1977

(4) José Manuel Morais, “O Estado da Arte”, in Já, Ano 1, nº 27 (1996)

(5) Idem

(6) Para além destes requisitos, Morais exigia ainda - e com razão - a existência de um “corpus de temas e preocupações comuns que definissem a ficção científica assim produzida como ‘portuguesa'".

(7) Terrarium – Um Romance em Mosaico, de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Caminho, Lisboa, 1996.

(8) Podemos aqui considerar de igual importância os Encontros de 1997 – Efeitos Secundários – já que estes ainda foram organizados na curva ascendente da sinóide da FC portuguesa. Para um relato bastante detalhado dos primeiros três Encontros de Cascais vide Gerson Lodi-Ribeiro, “Primeiros Encontros de Ficção Científica em Cascais”, “Efeitos Secundários: Segundos Encontros da FC&F Portuguesa” e “Fronteiras: Terceiros Encontros da FC&F Portuguesa”.

(9) Ainda assim não deixa de ser sintomático que João Barreiros tivesse que assinar dois dos textos portugueses ("A Verdadeira Invasão dos Marcianos" e "Os Mininos da Noite", este último como José de Barros), de forma a equilibrar a participação das duas margens do Atlântico.

(10) Em www.groups.yahoo.com/group/Ficção-Científica

(11) Esta informação foi prestada por António de Macedo, na sua participação no Painel de Editores, realizado em 06 de Outubro de 2001, no âmbito dos ESTADOS GERAIS DA FC&F, organizados pela Simetria.

(12) As primeiras associações de fans foram criadas por editoras profissionais, com o intuito de criar e consolidar um mercado exclusivo para o género então recém-nascido em termos comerciais.

(13) Isaac Asimov, ASIMOV ON SCIENCE FICTION, Doubleday, New York, 1981.

(14) Curiosamente, essa é a situação do trek-fandom (os trekkers ou trekkies) ainda hoje. Limitando-se ao Universo Roddenberiano (ou outro análogo – o fandom da Galáctica, dos X-Files, ou dos seus spin-offs mais recentes), ou seja, a um episódio semanal de 45 minutos, uma dúzia de novelizações ou tie-ins por ano, e um imparável fluxo de re-runs, têm todas as possibilidades de conhecer não só tudo o que se produz nesse universo, mas de o conhecer com uma profundidade que dificilmente se encontrará nos próprios fans de FC. Consequentemente, são os trekkies e afins quem mais actividade fannish desenvolve em Portugal (ou pelo menos os mais organizados) estendendo os seus pseudópodes pelas mailing lists SCIFIEMPORTUGAL, GALÁCTICA e inclusivamente editando um fanzine (WARP FANZINE). Paradoxalmente, a mesma característica que permitiu o desenvolvimento do fandom stefnal, é que atrofia o próprio fandom trekkie, condenando-o a uma actividade fannish absolutamente inócua. Com efeito, o objecto do seu fandom é o diverso material promocional da série televisiva – mercadoria – sujeito de tal forma a regras restritivas da creatividade emanadas dos detentores do copyright da franchise, que os próprios fans não podem aspirar a escrever nada mais do que meras fanfiction.

(15) Que isto é verdade, ficou patente nos ESTADOS GERAIS DA FICÇÃO CIENTÍFICA E DO FANTÁSTICO, realizados pela Simetria de 1 a 7 de Outubro, em Cascais, onde três painéis de conferencistas (um quarto, agendado, não se realizou porque ninguém compareceu) falaram para uma parca dezena de pessoas sobre o Estado (calamitoso) da FC em Portugal.

(16) Isaac Asimov, “Try to Write”, in Asimov’s Science Fiction Magazine # 2, Summer 1977. Republicado em Asimov on Science Fiction, 1981.

(17) Neste sentido, podemos falar, com Algis Budrys de fans (a person active in a large subculture loosely based on science fiction and fantasy reading), trufans (a secure member of fandom) e sercon fans (serious, constructive fans). Jorge Candeias, curiosamente, cunhou o termo "especialistas" para o tipo de fan que busca conhecer tudo o que existe no âmbito da literatura de género, constituindo as "enciclopédias vivas da FC".

(18) O advento da Internet, veio potenciar exponencialmente a actividade fannish. Aquilo que antes ocupava os letterhacks durante horas todas as noites é facilmente executável num quinto desse tempo através do e-mail. De igual forma, as mailing-lists, com o seu serviço central de distribuição dos vários posts é uma manifestação moderna daquilo que é uma apa, embora ainda não tenha sido utilizada exclusivamente para a finalidade original daquela.

(19) Tércio já manifestou por várias vezes a sua "aversão" a participar em grupos de discussão na Internet, e as participações de Macedo e Sequeira são negligenciáveis, assim como a sua produção em termos de publicações dirigidas exclusivamente aos fans.

(20) Curiosamente, os Trekkies foram o centro dos V Encontros de FC&F de Cascais que, sintomaticamente, foram os últimos, tornando nítido o cansaço que já há anos imobilizava a Associação. Aparentemente, a corte descarada ao trek-fandom (que chegou a ser anunciada como a salvação da Simetria e dos Encontros) logrou o afastamento definitivo de grande parte do fandom que ainda se mantinha com a Simetria. Infelizmente, os próprios Trekkies não estiveram à altura das expectativas, tendo desertado imediatamente o projecto associativo, o que legitima a posição da facção que se questiona sobre o papel que uma Associação de âmbito nacional pode desempenhar em prol da FC em Portugal.

(21) Sintoma disso foi o silêncio que se gerou na Simetria após estes esses encontros. Com um resultado que exigia uma reacção, não houve um único post na mailing list da Simetria a dar conhecimento aos associados, nem dos temas tratados, nem das conclusões alcançadas. Pelo contrário, o único debate entre organizadores e críticos teve lugar na lista FICÇÃO-CIENTÍFICA, que cada vez se assume mais como o centro nevrálgico do fandom português. E é de certa forma sintomático que a lista da Simetria apenas pareça ter um membro activo que, incansável, lá divulga o que passa na TV, num epitáfio tão efémero quanto a própria programação.

(22) http://come.to/fc-e-f

Uma Estranha Forma de Vida: o Fandom (1)



O Fandom nacional no lançamento da antologia com a CABEÇA NA LUA (2009)
O breve ensaio que a seguir reproduzo foi escrito em 2001 para um número especial do magazine brasileiro MEGALON dedicado à Ficção Científica em Portugal. Nessa data, tanto quanto me recordo, fui convidado juntamente com o Jorge Candeias a escrever algo sobre o estado da FC entre nós, daí as referências feitas ao trabalho do Candeias que, mais tarde, serviria de base ao ensaio que escreveu também para o dossier Ficção Científica que eu, ele e o João Barreiros organizamos para a revista LER, sob orientação deste último. Se agora o reproduzo aqui - a par do facto de ele nunca ter sido directamente disponibilizado ao público português - prende-se com o debate que está a ser travado no CORREIO DO FANTÁSTICO.

O ensaio já não representa totalmente a minha opinião sobre a matéria, e contém algumas passagens que já não reconheço como reflectindo a realidade (por exemplo, o António de Macedo, tem sido um dos mais incansáveis divulgadores do género e das pessoas que mais apoiam os novos valores), mas no essencial, ainda lhe encontro vários elementos com capacidade explicativa e interpretativa da situação actual do fandom nacional. Como sempre, apresento o texto sem quaisquer modificações, daí que utilize fan em vez de fã, sftional, em vez de científico-ficcional, e outros anglicismos.

Devido à extensão do ensaio, que pode dificultar a sua leitura on-line, optei por dividi-lo em duas partes (as notas acompanham a segunda parte).

Posto isto, cá vai:


Os Futurians em 1938
UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA

Breves Notas Para a Historiografia do Fandom em Portugal (1965-2001)



1. QUESTÕES INICIAIS


O presente ensaio não pretende ser uma História da recente Ficção Científica Portuguesa. No entanto, procura aventar uma explicação para o estado do género literário Ficção Científica em Portugal, e as causas prováveis desse estado e, para isso, terei forçosamente que me referir a alguns aspectos da história da FC em Portugal..

Isto porque não é possível falar do fandom, sem falar de Ficção Científica. Um e outro estão de tal forma indissociáveis e interligados que o primeiro é, acima de tudo, uma manifestação do segundo.

Ou será o contrário?

Se abrirmos o extenso ensaio “Paradise charted” de Algis Budrys (1) deparamo-nos de imediato com um curioso mapa desenhado à mão e intitulado ‘the shape of things it came from’. Confrontado com o emaranhado de setas rabiscadas que interligam os vários actores da História da FC, é impossível não nos apercebermos de um que sobressai imediatamente do centro da página, parecendo concentrar em si o emaranhado de sarrabiscos: THE FUTURIANS, o mítico grupo de fans (The Futurian Society of New York) que trouxe para a FC nomes como Frederik Pohl, Damon Knight, Donald Wollheim, Judith Merril, Cyrill Kornbluth e por onde passaram nomes como Asimov, Lowndes e James Blish.

Embora a centralidade dos Futurians possa ser discutida por outros pesos pesados como Gernsback (2) ou Campbell, ela é demonstrativa da importância determinante do Fandom para o amadurecimento do género.

Com efeito, os Futurians, nos finais de 1942, tinham nas suas mãos (enquanto editores, ou enquanto autores) a totalidade das revistas de Ficção Científica publicadas no Estados Unidos, o que, à época, equivalia a dizer no mundo(3).

E se, no espaço de um ano, perderam esse domínio, a verdade é que dos Futurians nasceram os autores, editores, críticos e ensaístas que iriam dominar a Ficção Científica entre 1945 e 1965, estendendo a sua importância até aos dias de hoje. Se muitos dos autores que surgiram das pulps estão hoje esquecidos, os títulos dos Futurians, de Asimov, Pohl, Kornbluth, Merril, ou Blish ainda hoje são objecto de reedição atrás de reedição.

Bastaria o exemplo – historicamente irrepetível – deste grupo de fans para demonstrar a inultrapassável importância do fandom para a Ficção Científica. Sem ele inexiste um elemento de agregação dos vários actores da subcultura sftional, sem o qual, como sabemos, o centro não se consegue aguentar.

Daí que a principal questão a que se impõe responder é: pode a situação do fandom em Portugal, explicar a situação da Ficção Científica Portuguesa?

A inexistência de tal figura - uma ficção científica portuguesa - é um dado indesmentível no presente contexto literário português. Existe, de forma incipiente, uma “ficção científica escrita por portugueses, em português(4), que dificilmente conseguirá dar origem à massa crítica de trabalhos necessária para consolidar uma Ficção Científica Portuguesa enquanto tal, ainda que tão só abarcando os temas da modernidade através de uma perspectiva caracteristicamente nacional.

Isto porque, como escrevia José Manuel Morais(5), para que fosse possível a criação, desenvolvimento e consolidação de uma FC lusa, seria necessário que existisse “um número razoável (...) de autores que publicassem regularmente as suas obras, uma constelação de outros autores menos prolíficos mas que igualmente publicassem” ainda que esporadicamente, “uma ou mais revistas especializadas, (...) editoras com colecções onde os autores portugueses fossem bem acolhidos” e “um número elevado de leitores que, organizados ou não, viabilizassem, consumindo, tudo o que antecede(6)

Sintomaticamente, o texto de J.M. Morais que venho citando, foi publicado em 1996, inserido num caderno temático do jornal , editado a propósito da organização dos Primeiros Encontros de Ficção Científica e Fantástico – Na Periferia do Império; ou seja, no auge - esperemos que não o apogeu – da FC portuguesa.

Esses Encontros, que reuniram em massa o Fandom português, que trouxeram a Portugal pela primeira vez autores da craveira de Brian Aldiss, Joan D. Vinge, Joe Haldeman, Charles N. Brown ou David Pringle, e nos quais foi apresentada ao público a obra máxima da FC lusa – TERRARIUM, Um Romance em Mosaicos (7) – constituíram - e constituem até hoje - um marco irrepetível na evolução do género.

E se há vários factores de entre aqueles indicados por Morais que podem só por si – ou pela sua inexistência – explicar de forma satisfatória o porquê da estagnação em que a Ficção Científica em Portugal se encontra mergulhada desde 1996 e da qual só agora lentamente se começa a recuperar, parece-me claro que o fandom sobressai de entre eles como dotado de uma força explicativa plena.

2. UMA BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA

O comportamento do Fandom em Portugal é errático, desafiando a própria definição daquilo que se soe entender como tal. Fenómeno originário da ficção científica, o fandom caracteriza-se acima de tudo pelo seu caracter de actividade (mais do que de passividade) em relação ao género. Usando a Ficção Científica como núcleo referencial, constitui uma verdadeira sub-cultura, com linguagem, usos e costumes próprios e com uma produção literária de volume (se não de qualidade) muito superior ao do próprio mercado.

Em Portugal, pelo contrário, os fans movem-se como traças, irresistivelmente atraídas para uma lâmpada, apenas para se afastarem subitamente quando a chama das resistências eléctricas lhes queima a ponta das asas. E mantêm-se à distância, desconfiados, ensaiando aproximações amedrontadas.

Este comportamento atípico (como veremos infra revelador de um antagonismo do fandom ao próprio género) só muito raramente dá azo a que surjam eventos de uma magnitude capaz de sinalizar a vitalidade do género.

Em Portugal apenas existiram dois desses eventos de aproximação maciça das pequenas traças à lâmpada incandescente: o Ciclo de Cinema de Ficção Científica organizado em 1984 pela Cinemateca Portuguesa e os Encontros de Cascais de 1996(8).

Ambos são fulcrais no desenvolvimento posterior da FC, funcionando como súbitos saltos na maturação do género que, uma vez dissipadas as suas ondas de choque, volta a mergulhar num êxtase suporífico, apático, de uma letargia constrangedora.

E são de tal forma fulcrais, que não é ilegítimo falar-se de um antes-e-depois de 1984 e de um antes-e-depois de 1996.

Antes de 1984 existiu o CLUBE DE LEITORES DE FC (CLFC), a primeira tentativa falhada de organizar o fandom em Portugal. Presidido por Isabel Meyrelles, fan activa nos anos 60, que subitamente desapareceu da cena sftional, deixando atrás de si a promessa nunca concretizada de um fanzine e uma antologia de contos da moderna Ficção Cientifica francesa, surgiu tarde demais num mercado ainda inexistente. Ia a meio a década de 60.

De certa forma, a experiência do CLFC marcou uma passagem de testemunho de uma velha guarda, que incluía nas suas hostes Natália Correia e Romeu de Melo entre os mais representativos, e que deixou atrás de si uma obra dispersa, de pouco relevo, e algumas tímidas antologias, para um grupo de jovens autores, alimentados pelo bolo anglo-saxónico, que dominariam a cena entre 1984 e 1996.

Em meados da década de 80, quase que simultaneamente, surge a colecção Mamute da Editorial Caminho, que publicava pela primeira vez João Aniceto e Daniel Tércio, lançando as raízes da futura colecção de FC da Caminho com as suas inconfundíveis lombadas azuis e o Prémio Caminho de FC; e era organizado o Ciclo de Cinema de Ficção Científica (1984) que dava a conhecer ao público o autor, fan e crítico implacável João Barreiros.

Às salas da Cinemateca acorreram centenas de fans que encheram cada lugar para assistir a cerca de duas centenas de filmes e que rapidamente esgotaram o volume editado em paralelo com o evento, dirigido por João Barreiros e João Benard da Costa, tornando-o numa preciosidade entre os coleccionadores.

Deste evento nasceria para a FC a segunda tentativa de organizar o fandom que se consolidaria em 1990 em torno da revista OMNIA (1988-1991), a qual viria a publicar trabalhos de José Manuel Morais (depois editor do suplemento Ficções da revista), João Barreiros, João Paulo Cotrim, Álvaro de Sousa Holstein (este editor do incipiente fanzine NEBULOSA, publicado artesanalmente no Porto e com uma tiragem diminuta) e Daniel Tércio. Também Luís Filipe Silva, que em 1991 viria a obter o primeiro lugar no Prémio Caminho de Ficção Científica, orbitava este núcleo criativo da ficção científica.

Não é de surpreender, portanto, que os elementos da OMNIA se começassem a relacionar com os autores da Caminho que, nessa altura, entregara já 3 prémios de Ficção Científica e publicava autores portugueses com uma regularidade que não conseguiu manter na segunda metade da década de 90.

O núcleo de actividade que se começava a agregar em torno de uma paixão comum pela Ficção Científica e que se desmultiplicava em jantares e tertúlias atraiu autores dispersos que até então se mantinham à margem do fenómeno fannish, como foi o caso de João de Mancelos, tudo culminando na publicação da antologia O Atlântico tem duas margens (1993), que reuniu trabalhos dos principais autores portugueses e brasileiros (9).

A dinâmica gerada impulsionou a realização dos Encontros de Ficção Científica e Fantástico, um evento que há muito se mostrava necessário, emulando o modelo das Convenções de FC que todos os anos se realizam em todo o mundo.

Era uma oportunidade para tirar o pulso ao fandom, para medir os níveis de glucose das editoras, para auscultar o que os autores tinham para dizer.

Mais uma vez os resultados foram surpreendentes; os fans acudiram em massa, os Encontros foram noticiados em jornais, rádios e televisões.

Apesar do desaparecimento prematuro da OMNIA, a FC em Portugal parecia gozar de uma vitalidade invejável. Pela primeira vez pensava-se em organizar uma Convenção Anual em Cascais, que possibilitasse reunir a totalidade do fandom, permitindo o diálogo entre autores, leitores, críticos, ensaístas, editores e que, simultaneamente, publicasse uma antologia que servisse como mostruário daquilo que de melhor se fazia no género.

Pensou-se, pela primeira vez, assistir a uma Idade de Ouro da FC Portuguesa.

Criou-se, pela primeira vez em Portugal, com quase 70 anos de atraso, uma Associação de Fans.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

And the moment is now!


São exactamente 14:32.

A missão pode ser acompanhada aqui.

Há 40 anos atrás...



Quando forem 14:32, hora de Lisboa, cumprir-se-ão quarenta anos sobre o momento em que teve início a mais fantástica viagem alguma vez realizada por um ser humano. E mesmo volvido todo este tempo, a dimensão do feito continua a ser impressionante. É impossível ver as imagens do portentoso Saturn V a erguer-se, trôpego, da plataforma de lançamento A-19, envolto numa nuvem de gases e chamas e fumo, soltando um rugido cuja amplitude é perceptível pelo estremecimento abafado dos receptores e gravadores, e não ponderar o quão implausível parece tudo aquilo. É impossível não nos sentirmos assoberbados pela excelência científica, tecnológica e essencialmente humana que permitiram tal ousadia.



Há momentos que entram instantaneamente na História; momentos que não carecem do imprimatur da retrospectiva futura, que desdenham o debate, a avaliação, o contexto. Seriam muitas as vertentes possíveis da discussão: económica, política, estética, científica, cultural... Mas nenhuma delas, nenhum argumento, nenhuma racionalização pode apagar o facto em si mesmo. Fossem quais fossem os motivos, os custos, as desvantagens, o feito em si foi o maior que a espécie humana alguma vez realizou. Tanto quanto sabemos, nenhuma outra espécie no universo foi capaz de igual feito. Não o digo com a soberba de um humanismo serôdio, de um antropocentrismo cego, mas como medida da dificuldade do desafio. To put a man on the Moon before the decade is over and bring him home safely, como Kennedy o definiu da forma mais simples possível. Nada podia ser mas directo e claro, como observou Michael Collins no magnífico documentário IN THE SHADOW OF THE MOON (2006): fazer o quê? Colocar um homem na Lua. Quando? Antes da década terminar. Wham Bang, thank you spaceman!



A missão Apollo 11 mudou para sempre o rosto da Humanidade. Armstrong, Aldrin e Collins foram embaixadores de seis biliões de pessoas, foram actores de um dos mais antigos sonhos da humanidade; mais do que representantes, foram avatares de todos nós, foram personagens da ficção científica que atravessaram a barreira da ficção para a realidade. Vendo e revendo as fotografias da época, vendo uma e outra vez os filmes do lançamento, não me canso de vasculhar os rostos das pessoas que se acotovelavam nas praias em redor do Kennedy Space Center para admirar o lançamento. E não deixo de me sentir fascinado pelas expressões dos rostos de adultos e crianças unidos numa comunhão facial de eterna juventude e emaravilhamento.

Durante os anos mágicos do Programa Apollo, a Humanidade pode espreitar o mundo e o universo pelo olhar fascinado de uma criança. Nunca mais a Humanidade foi tão jovem.

Fotos: NASA

terça-feira, 14 de julho de 2009

RIP: Charles N. Brown (1937-2009)


É uma daquelas notícias que nunca pensamos ouvir. Charles Brown, fundador e editor da revista de referência Locus, era uma daquelas pessoas que não morreriam nunca. Era impensável abrir um dos números da revista que ele soube fazer crescer de umas meras duas páginas dactilografadas até ser o órgão de informação por excelência da ficção científica e do Fantástico em geral, sem ver Charles Brown, sem ler Charles Brown. Charles Brown morreu no Domingo, aos 72 anos de idade, quando regressava da Readercon - e é assim que deve ser. Se temos que morrer, que seja fazendo aquilo que mais amamos.

Não há nada que possa dizer sobre Charles N. Browm que outros não tenham já dito melhor, ou que o seu trabalho não exponha de forma mais eloquente. A sua falta será sentida como a amputação de um órgão importante do corpo da literatura. Ao contrário de muitos que recebem esse encómio, Brown era realmente um dos raros homens de quem se pode dizer que, a partir da sua morte, nada será realmente como dantes.

A revista Locus será certamente o seu maior legado e a sua continuidade - para já assegurada por Liza Groen Trombi (na foto, com Brown) - a melhor homenagem. Afinal, poucos como ele tiveram a capacidade de inspirar tanta gente a fazer um trabalho tão sério e rigoroso como todos os meses podemos apreciar em cada edição. Há homens que transcendem as limitações do humano. Brown foi um deles. E a FC está a ficar cada vez mais rarefeita.
A foto acima pertence a Ellen Datlow.

sábado, 11 de julho de 2009

Contagem Decrescente



Ten... nine (ignition sequence start)... eight...


...seven... six (ignition)... five... four...


...three... two... one.... and we'll have lift-off.... later today: