domingo, 19 de julho de 2009

Uma Estranha Forma de Vida: o Fandom (1)



O Fandom nacional no lançamento da antologia com a CABEÇA NA LUA (2009)
O breve ensaio que a seguir reproduzo foi escrito em 2001 para um número especial do magazine brasileiro MEGALON dedicado à Ficção Científica em Portugal. Nessa data, tanto quanto me recordo, fui convidado juntamente com o Jorge Candeias a escrever algo sobre o estado da FC entre nós, daí as referências feitas ao trabalho do Candeias que, mais tarde, serviria de base ao ensaio que escreveu também para o dossier Ficção Científica que eu, ele e o João Barreiros organizamos para a revista LER, sob orientação deste último. Se agora o reproduzo aqui - a par do facto de ele nunca ter sido directamente disponibilizado ao público português - prende-se com o debate que está a ser travado no CORREIO DO FANTÁSTICO.

O ensaio já não representa totalmente a minha opinião sobre a matéria, e contém algumas passagens que já não reconheço como reflectindo a realidade (por exemplo, o António de Macedo, tem sido um dos mais incansáveis divulgadores do género e das pessoas que mais apoiam os novos valores), mas no essencial, ainda lhe encontro vários elementos com capacidade explicativa e interpretativa da situação actual do fandom nacional. Como sempre, apresento o texto sem quaisquer modificações, daí que utilize fan em vez de fã, sftional, em vez de científico-ficcional, e outros anglicismos.

Devido à extensão do ensaio, que pode dificultar a sua leitura on-line, optei por dividi-lo em duas partes (as notas acompanham a segunda parte).

Posto isto, cá vai:


Os Futurians em 1938
UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA

Breves Notas Para a Historiografia do Fandom em Portugal (1965-2001)



1. QUESTÕES INICIAIS


O presente ensaio não pretende ser uma História da recente Ficção Científica Portuguesa. No entanto, procura aventar uma explicação para o estado do género literário Ficção Científica em Portugal, e as causas prováveis desse estado e, para isso, terei forçosamente que me referir a alguns aspectos da história da FC em Portugal..

Isto porque não é possível falar do fandom, sem falar de Ficção Científica. Um e outro estão de tal forma indissociáveis e interligados que o primeiro é, acima de tudo, uma manifestação do segundo.

Ou será o contrário?

Se abrirmos o extenso ensaio “Paradise charted” de Algis Budrys (1) deparamo-nos de imediato com um curioso mapa desenhado à mão e intitulado ‘the shape of things it came from’. Confrontado com o emaranhado de setas rabiscadas que interligam os vários actores da História da FC, é impossível não nos apercebermos de um que sobressai imediatamente do centro da página, parecendo concentrar em si o emaranhado de sarrabiscos: THE FUTURIANS, o mítico grupo de fans (The Futurian Society of New York) que trouxe para a FC nomes como Frederik Pohl, Damon Knight, Donald Wollheim, Judith Merril, Cyrill Kornbluth e por onde passaram nomes como Asimov, Lowndes e James Blish.

Embora a centralidade dos Futurians possa ser discutida por outros pesos pesados como Gernsback (2) ou Campbell, ela é demonstrativa da importância determinante do Fandom para o amadurecimento do género.

Com efeito, os Futurians, nos finais de 1942, tinham nas suas mãos (enquanto editores, ou enquanto autores) a totalidade das revistas de Ficção Científica publicadas no Estados Unidos, o que, à época, equivalia a dizer no mundo(3).

E se, no espaço de um ano, perderam esse domínio, a verdade é que dos Futurians nasceram os autores, editores, críticos e ensaístas que iriam dominar a Ficção Científica entre 1945 e 1965, estendendo a sua importância até aos dias de hoje. Se muitos dos autores que surgiram das pulps estão hoje esquecidos, os títulos dos Futurians, de Asimov, Pohl, Kornbluth, Merril, ou Blish ainda hoje são objecto de reedição atrás de reedição.

Bastaria o exemplo – historicamente irrepetível – deste grupo de fans para demonstrar a inultrapassável importância do fandom para a Ficção Científica. Sem ele inexiste um elemento de agregação dos vários actores da subcultura sftional, sem o qual, como sabemos, o centro não se consegue aguentar.

Daí que a principal questão a que se impõe responder é: pode a situação do fandom em Portugal, explicar a situação da Ficção Científica Portuguesa?

A inexistência de tal figura - uma ficção científica portuguesa - é um dado indesmentível no presente contexto literário português. Existe, de forma incipiente, uma “ficção científica escrita por portugueses, em português”(4), que dificilmente conseguirá dar origem à massa crítica de trabalhos necessária para consolidar uma Ficção Científica Portuguesa enquanto tal, ainda que tão só abarcando os temas da modernidade através de uma perspectiva caracteristicamente nacional.

Isto porque, como escrevia José Manuel Morais(5), para que fosse possível a criação, desenvolvimento e consolidação de uma FC lusa, seria necessário que existisse “um número razoável (...) de autores que publicassem regularmente as suas obras, uma constelação de outros autores menos prolíficos mas que igualmente publicassem” ainda que esporadicamente, “uma ou mais revistas especializadas, (...) editoras com colecções onde os autores portugueses fossem bem acolhidos” e “um número elevado de leitores que, organizados ou não, viabilizassem, consumindo, tudo o que antecede” (6)

Sintomaticamente, o texto de J.M. Morais que venho citando, foi publicado em 1996, inserido num caderno temático do jornal Já, editado a propósito da organização dos Primeiros Encontros de Ficção Científica e Fantástico – Na Periferia do Império; ou seja, no auge - esperemos que não o apogeu – da FC portuguesa.

Esses Encontros, que reuniram em massa o Fandom português, que trouxeram a Portugal pela primeira vez autores da craveira de Brian Aldiss, Joan D. Vinge, Joe Haldeman, Charles N. Brown ou David Pringle, e nos quais foi apresentada ao público a obra máxima da FC lusa – TERRARIUM, Um Romance em Mosaicos (7) – constituíram - e constituem até hoje - um marco irrepetível na evolução do género.

E se há vários factores de entre aqueles indicados por Morais que podem só por si – ou pela sua inexistência – explicar de forma satisfatória o porquê da estagnação em que a Ficção Científica em Portugal se encontra mergulhada desde 1996 e da qual só agora lentamente se começa a recuperar, parece-me claro que o fandom sobressai de entre eles como dotado de uma força explicativa plena.

2. UMA BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA

O comportamento do Fandom em Portugal é errático, desafiando a própria definição daquilo que se soe entender como tal. Fenómeno originário da ficção científica, o fandom caracteriza-se acima de tudo pelo seu caracter de actividade (mais do que de passividade) em relação ao género. Usando a Ficção Científica como núcleo referencial, constitui uma verdadeira sub-cultura, com linguagem, usos e costumes próprios e com uma produção literária de volume (se não de qualidade) muito superior ao do próprio mercado.

Em Portugal, pelo contrário, os fans movem-se como traças, irresistivelmente atraídas para uma lâmpada, apenas para se afastarem subitamente quando a chama das resistências eléctricas lhes queima a ponta das asas. E mantêm-se à distância, desconfiados, ensaiando aproximações amedrontadas.

Este comportamento atípico (como veremos infra revelador de um antagonismo do fandom ao próprio género) só muito raramente dá azo a que surjam eventos de uma magnitude capaz de sinalizar a vitalidade do género.

Em Portugal apenas existiram dois desses eventos de aproximação maciça das pequenas traças à lâmpada incandescente: o Ciclo de Cinema de Ficção Científica organizado em 1984 pela Cinemateca Portuguesa e os Encontros de Cascais de 1996(8).

Ambos são fulcrais no desenvolvimento posterior da FC, funcionando como súbitos saltos na maturação do género que, uma vez dissipadas as suas ondas de choque, volta a mergulhar num êxtase suporífico, apático, de uma letargia constrangedora.

E são de tal forma fulcrais, que não é ilegítimo falar-se de um antes-e-depois de 1984 e de um antes-e-depois de 1996.

Antes de 1984 existiu o CLUBE DE LEITORES DE FC (CLFC), a primeira tentativa falhada de organizar o fandom em Portugal. Presidido por Isabel Meyrelles, fan activa nos anos 60, que subitamente desapareceu da cena sftional, deixando atrás de si a promessa nunca concretizada de um fanzine e uma antologia de contos da moderna Ficção Cientifica francesa, surgiu tarde demais num mercado ainda inexistente. Ia a meio a década de 60.

De certa forma, a experiência do CLFC marcou uma passagem de testemunho de uma velha guarda, que incluía nas suas hostes Natália Correia e Romeu de Melo entre os mais representativos, e que deixou atrás de si uma obra dispersa, de pouco relevo, e algumas tímidas antologias, para um grupo de jovens autores, alimentados pelo bolo anglo-saxónico, que dominariam a cena entre 1984 e 1996.

Em meados da década de 80, quase que simultaneamente, surge a colecção Mamute da Editorial Caminho, que publicava pela primeira vez João Aniceto e Daniel Tércio, lançando as raízes da futura colecção de FC da Caminho com as suas inconfundíveis lombadas azuis e o Prémio Caminho de FC; e era organizado o Ciclo de Cinema de Ficção Científica (1984) que dava a conhecer ao público o autor, fan e crítico implacável João Barreiros.

Às salas da Cinemateca acorreram centenas de fans que encheram cada lugar para assistir a cerca de duas centenas de filmes e que rapidamente esgotaram o volume editado em paralelo com o evento, dirigido por João Barreiros e João Benard da Costa, tornando-o numa preciosidade entre os coleccionadores.

Deste evento nasceria para a FC a segunda tentativa de organizar o fandom que se consolidaria em 1990 em torno da revista OMNIA (1988-1991), a qual viria a publicar trabalhos de José Manuel Morais (depois editor do suplemento Ficções da revista), João Barreiros, João Paulo Cotrim, Álvaro de Sousa Holstein (este editor do incipiente fanzine NEBULOSA, publicado artesanalmente no Porto e com uma tiragem diminuta) e Daniel Tércio. Também Luís Filipe Silva, que em 1991 viria a obter o primeiro lugar no Prémio Caminho de Ficção Científica, orbitava este núcleo criativo da ficção científica.

Não é de surpreender, portanto, que os elementos da OMNIA se começassem a relacionar com os autores da Caminho que, nessa altura, entregara já 3 prémios de Ficção Científica e publicava autores portugueses com uma regularidade que não conseguiu manter na segunda metade da década de 90.

O núcleo de actividade que se começava a agregar em torno de uma paixão comum pela Ficção Científica e que se desmultiplicava em jantares e tertúlias atraiu autores dispersos que até então se mantinham à margem do fenómeno fannish, como foi o caso de João de Mancelos, tudo culminando na publicação da antologia O Atlântico tem duas margens (1993), que reuniu trabalhos dos principais autores portugueses e brasileiros (9).

A dinâmica gerada impulsionou a realização dos Encontros de Ficção Científica e Fantástico, um evento que há muito se mostrava necessário, emulando o modelo das Convenções de FC que todos os anos se realizam em todo o mundo.

Era uma oportunidade para tirar o pulso ao fandom, para medir os níveis de glucose das editoras, para auscultar o que os autores tinham para dizer.

Mais uma vez os resultados foram surpreendentes; os fans acudiram em massa, os Encontros foram noticiados em jornais, rádios e televisões.

Apesar do desaparecimento prematuro da OMNIA, a FC em Portugal parecia gozar de uma vitalidade invejável. Pela primeira vez pensava-se em organizar uma Convenção Anual em Cascais, que possibilitasse reunir a totalidade do fandom, permitindo o diálogo entre autores, leitores, críticos, ensaístas, editores e que, simultaneamente, publicasse uma antologia que servisse como mostruário daquilo que de melhor se fazia no género.

Pensou-se, pela primeira vez, assistir a uma Idade de Ouro da FC Portuguesa.

Criou-se, pela primeira vez em Portugal, com quase 70 anos de atraso, uma Associação de Fans.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

And the moment is now!


São exactamente 14:32.

A missão pode ser acompanhada aqui.

Há 40 anos atrás...



Quando forem 14:32, hora de Lisboa, cumprir-se-ão quarenta anos sobre o momento em que teve início a mais fantástica viagem alguma vez realizada por um ser humano. E mesmo volvido todo este tempo, a dimensão do feito continua a ser impressionante. É impossível ver as imagens do portentoso Saturn V a erguer-se, trôpego, da plataforma de lançamento A-19, envolto numa nuvem de gases e chamas e fumo, soltando um rugido cuja amplitude é perceptível pelo estremecimento abafado dos receptores e gravadores, e não ponderar o quão implausível parece tudo aquilo. É impossível não nos sentirmos assoberbados pela excelência científica, tecnológica e essencialmente humana que permitiram tal ousadia.



Há momentos que entram instantaneamente na História; momentos que não carecem do imprimatur da retrospectiva futura, que desdenham o debate, a avaliação, o contexto. Seriam muitas as vertentes possíveis da discussão: económica, política, estética, científica, cultural... Mas nenhuma delas, nenhum argumento, nenhuma racionalização pode apagar o facto em si mesmo. Fossem quais fossem os motivos, os custos, as desvantagens, o feito em si foi o maior que a espécie humana alguma vez realizou. Tanto quanto sabemos, nenhuma outra espécie no universo foi capaz de igual feito. Não o digo com a soberba de um humanismo serôdio, de um antropocentrismo cego, mas como medida da dificuldade do desafio. To put a man on the Moon before the decade is over and bring him home safely, como Kennedy o definiu da forma mais simples possível. Nada podia ser mas directo e claro, como observou Michael Collins no magnífico documentário IN THE SHADOW OF THE MOON (2006): fazer o quê? Colocar um homem na Lua. Quando? Antes da década terminar. Wham Bang, thank you spaceman!



A missão Apollo 11 mudou para sempre o rosto da Humanidade. Armstrong, Aldrin e Collins foram embaixadores de seis biliões de pessoas, foram actores de um dos mais antigos sonhos da humanidade; mais do que representantes, foram avatares de todos nós, foram personagens da ficção científica que atravessaram a barreira da ficção para a realidade. Vendo e revendo as fotografias da época, vendo uma e outra vez os filmes do lançamento, não me canso de vasculhar os rostos das pessoas que se acotovelavam nas praias em redor do Kennedy Space Center para admirar o lançamento. E não deixo de me sentir fascinado pelas expressões dos rostos de adultos e crianças unidos numa comunhão facial de eterna juventude e emaravilhamento.

Durante os anos mágicos do Programa Apollo, a Humanidade pode espreitar o mundo e o universo pelo olhar fascinado de uma criança. Nunca mais a Humanidade foi tão jovem.

Fotos: NASA

terça-feira, 14 de julho de 2009

RIP: Charles N. Brown (1937-2009)


É uma daquelas notícias que nunca pensamos ouvir. Charles Brown, fundador e editor da revista de referência Locus, era uma daquelas pessoas que não morreriam nunca. Era impensável abrir um dos números da revista que ele soube fazer crescer de umas meras duas páginas dactilografadas até ser o órgão de informação por excelência da ficção científica e do Fantástico em geral, sem ver Charles Brown, sem ler Charles Brown. Charles Brown morreu no Domingo, aos 72 anos de idade, quando regressava da Readercon - e é assim que deve ser. Se temos que morrer, que seja fazendo aquilo que mais amamos.

Não há nada que possa dizer sobre Charles N. Browm que outros não tenham já dito melhor, ou que o seu trabalho não exponha de forma mais eloquente. A sua falta será sentida como a amputação de um órgão importante do corpo da literatura. Ao contrário de muitos que recebem esse encómio, Brown era realmente um dos raros homens de quem se pode dizer que, a partir da sua morte, nada será realmente como dantes.

A revista Locus será certamente o seu maior legado e a sua continuidade - para já assegurada por Liza Groen Trombi (na foto, com Brown) - a melhor homenagem. Afinal, poucos como ele tiveram a capacidade de inspirar tanta gente a fazer um trabalho tão sério e rigoroso como todos os meses podemos apreciar em cada edição. Há homens que transcendem as limitações do humano. Brown foi um deles. E a FC está a ficar cada vez mais rarefeita.
A foto acima pertence a Ellen Datlow.

sábado, 11 de julho de 2009

Contagem Decrescente



Ten... nine (ignition sequence start)... eight...


...seven... six (ignition)... five... four...


...three... two... one.... and we'll have lift-off.... later today:


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Com a Cabeça na Lua


Como é já do conhecimento dos leitores deste blogue, organizei para a Saída de Emergência uma antologia comemorativa do quadragésimo aniversário da Alunagem da missão Apollo 11, aniversário esse que se celebra no próximo dia 20 de Julho. COM A CABEÇA NA LUA é o título dessa antologia, um conjunto de 10 narrativas (que vão de um conto com pouco mais de duas páginas a uma novela curta com quase 150) escritas e publicadas após 1865 e antes de 1969. 1865, porque foi a data de publicação do clássico de Verne De La Terre à la Lune, o primeiro texto a tratar a Viagem à Lua não só como uma possibilidade eminentemente científica e tecnológica, mas como um objectivo concretizável e a concretizar; e 1969, data em que esse objectivo foi alcançado, permitindo à Ficção tornar-se Realidade. COM A CABEÇA NA LUA é assim, não só uma homenagem a todos aqueles que tornaram possível esse feito inigualável (infelizmente, há mesmo quem diga que se trata de um feito literalmente inigualável), mas também a todos os autores e entusiastas da Ficção Científica, que tornaram possível sonhar esse feito.

Porque não há dúvida disso: foi o género marginal, mal-tratado e desprezado que todos nós amamos que manteve acesa a chama da viagem espacial e da chamada conquista espacial, mesmo sujeitos ao ridículo de todos aqueles que tinham por certo a imanente loucura da tentativa de romper as grilhetas da gravidade. A partir de Julho de 1969, a realidade passou a ser comparada com a FC: muitos dos astronautas - dos moonwalkers - descreviam a sua experiência real por comparação com as expectativas que a FC neles tinha gerado, ao passo que outros emulavam as visões da FC, orbitando a Lua ao som da banda sonora de 2001: A SPACE ODYSSEY (1968), projectando-as asim sobre a realidade, moldando-a à ficção.

Nunca a Ficção Científica obteve tanto prestígio como nesse momento histórico. Nesse sentido, esta Antologia é também uma máquina do tempo até um período anómalo na história cultural do século XX; um período durante o qual uma Nação mergulhada numa guerra sangrenta nas selvas do Vietnam, numa multiplicidade de lutas políticas internas e de problemas sociais, pontilhadas aqui e ali pelo assassinato a sangue frio de algumas das personalidades mais estimadas pela sociedade democrática, e ali e acolá pela morte prematura de ícones populares como Marilyn Monroe, Jayne Mansfield, Sharon Tate ou Jim Morrison, logrou erguer-se acima da História e em nome de toda a humanidade chegar à Lua.

A antologia, que chega na sexta-feira às livrarias, será apresentada na FNAC COLOMBO no próximo sábado dia 11 de Julho pelas 17 horas. Comigo estarão o Luís Corte Real, editor da Saída de Emergência e José Saraiva, geólogo especialista em Marte, do IST, e também ele entusiasta da Ficção Científica que não carece de apresentações.

Leitura Obrigatória

No meio de todo a lodo que nestes últimos dias se levantou do fundo dos fundos do fandom, quase se perdia aquele que é, provavelmente, o melhor e mais importante ensaio escrito em português sobre a natureza, o presente e o futuro daquilo a que, quantas vezes sem critério, costumamos referir-nos como Ficção Científica Portuguesa. Impõe-se por isso uma especial chamada de atenção para este brilhante post de Luís Filipe Silva, e uma invectiva a todos que me leiam para que sigam o link e meditem atentamente nas palavras e na chamada de atenção do Luís. Certamente não voltarão a encarar a questão da mesma forma após uma leitura atenta.
Por minha parte, confesso que encontro ali, de forma clara e cristalina, aquilo que desde há anos para cá venho tentando expressar sem sucesso, após uma breve afloração ao tema na minha primeira coluna “Ácido Gástrico” nas extintas Brigadas FC. Nesse texto citei um ensaio que Elizabeth Vonarburg publicou na New York Review of Science Fiction #57 (Maio de 1993), com o sugestivo título So You Want to Be a Science Fiction Writer?, onde a dado passo se pode ler “when you are not an American science fiction writer, and not a native English speaker writing science fiction, all you can do is write either WITH or AGAINST the American and British science fiction traditions – what you know of them”.
São palavras que continuo a subscrever inteiramente, tal como agora subscrevo inteiramente a opinião do LFS. Mas gostava de acrescentar algo a esta minha subscrição sem reservas: é que o Luís Filipe Silva toca aqui num ponto tão óbvio, tão intuitivo, que raramente é referido, compreendido e reflectido. O facto de a Ficção Científica ser uma semântica e uma gramática essencialmente Americanas. Todas as outras ficções científicas, são apenas traduções desse Ur-text essencial. É, obviamente, uma contingência histórica: a ficção científica Americana enquanto género literário como inicialmente definido por Hugo Gernsback em 1926 nasce da confluência e cristalização das suas raízes de origem francesa (Verne), inglesa (Wells) e norte-americana (Poe). E dessas primeiras frases trans/internacionais, criou-se essa nova linguagem que é a Ficção Científica que, como o Luís certeiramente sugere, é sempre acompanhada do apodo invisível “americana”. E é-o por força da uma das suas característica essenciais, para a qual Frederik Pohl chamara a atenção ainda nos anos 50 e que Barry N. Malzberg tão eloquentemente sintetiza também no seu ensaio Science Fiction as Picasso (1980), incluído no seu histórico volume BREAKFAST AMONG THE RUINS: “Science Fiction, Fred Pohl has said, is the only genre where collaboration is commonplace, in which collaborative works of quality are prevalent because science fiction is a pool of ideas, a manner of approach; writers function less from their idiosyncratic vision (as is the case in «serious» literature) or their ability to recombine elements of the form (the mystery and the western) then from their immersion in the approach. Science Fiction, as Pohl said, is a way of thinking about things”.

Ora esse cadinho de ideias para o qual todos os autores vão contribuindo a cada obra, enriquecendo-lhe o léxico, é, por default, porque não pode ser de outra forma, um cadinho americano. É esta essencial característica que permite que Malzberg defina “science fiction as a single, demented, multi-tentacled artist singing and painting and transcribing in fashion clumsy and elegant, errant and imitative, innovative and repetitious, the way the future would feel”. Só que esta criatura singular tem que ser forçosamente englobante, agregadora das várias formas de expressão, das várias mãos que se erguem de meninos que querem subir ao palco, sob o manto de uma única linguagem, que é a ficção científica.

Daí que o Luís tenha toda a razão quando questiona a validade e o interesse – eu diria mesmo a possibilidade – de uma Ficção Científica não-americana e, ultimamente, de uma ficção científica geneticamente portuguesa. Até que grau será possível afastar-se da matriz americana sem erradicar as próprias características da Ficção Científica? Até que ponto será necessário afastar-se das raízes genéricas para criar uma ficção científica de carácter verdadeiramente local? E será essa ficção científica, ainda ficção científica?

Ao ler o ensaio do Luís, apercebo-me como se fosse pela primeira vez, de que todos temos andado a falar de uma criatura que ainda ninguém definiu a contento: uma Ficção Científica Portuguesa. O que é? Como reconhecê-la? A mais próxima definição que encontro continua a ser a de José Manuel Morais: uma ficção científica escrita por portugueses (onde deveria ler-se, invisível, uma Ficção Científica Americana escrita por portugueses). E poderá haver outra? Existirá, por exemplo, uma Ficção Científica Francesa que não seja uma Ficção Científica Americana Escrita por Franceses?

A pergunta pode colocar-se, sistematicamente, ao longo da geografia global, procurando sempre uma mesma resposta: se existe, qual é o elemento que faz dela uma Ficção Científica não-Americana? É evidente que não me é possível ensaiar sequer uma tentativa de resposta quanto a uma multiplicidade de universos imaginários que não conheço senão pelo reflexo distorcido do cinema (que, como todos sabemos, se posiciona quase sempre e cada vez mais em oposição ao universo da FC escrita, afastando leitores e distorcendo a sua semântica própria para a adaptar à (uni)dimensão do espectáculo sensorial): a FC Japonesa, ou Checa, por exemplo. Mas vasculhando bem fundo que poderemos encontrar? John Griffiths, no seu pertinente Three Tomorrows – American, British and Soviet Science Fiction (1980), não analisa o trabalho de Lem, mas refere: “I believe its characteristics stem more from his Polishness than from his politics, and since he himself specifically rejects any special role for science fiction and even rejects the Russian Tarkovsky’s treatment of his novel Solaris (…)” mas não aprofunda mais a questão. Mas seria interessante apurar quais os elementos que conformariam aquela “polacidade” de Lem, que considerava a ficção científica como um bando de charlatães rodeando um único verdadeiro profeta, Philip K. Dick... um autor americano.



Interessante, também, neste tactear cego à procura da essencial alteridade regional ou nacional, escarafunchar um pouco numa Ficção Científica que pensaríamos tão essencialmente antagónica ao modelo Americano como o deveria ser a Soviética. Mas esta, começando com Plutonia, uma narrativa iniciada em 1913 mas terminada apenas após a Revolução de 1917, cedo se viu tolhida pelo diktat do seu autor, Obruschev (tão familiar aos nossos ouvidos) de que uma boa história de FC, para além de plausível deveria ser educativa, desprezando o carácter lúdico da FC de Verne e Doyle, que Obruschev deplorava mas em cuja veia escrevia sem o jeito daqueles autores. Após a Revolução, a FC Soviética voltar-se-ia uma vez mais para os autores utópicos do Século XIX, como os Príncipes Mikhaíl Scherbatov e Nikolai Chernishevsky, a par de autores menores mas mais tecnofílicos como Chikolev e Rodnik. Gorki escreveria que “a ciência e a tecnologia não deveriam ser representadas como um armazém de convenções prontas a servir, mas sim como uma arena onde um homem real se sobrepõe à matéria e às tradições”, recomendação que os autores Soviéticos se apressaram a ignorar. Por fim, em 1928 o Partido Comunista começa a controlar as publicações, até suprimir as inúmeras e populares revistas de FC que, nas palavras de Alan Myers (numa carta enviada a Griffiths) eram preenchidas quase totalmente por “plágios de produtos ocidentais ou meras traduções destes, incluindo incontáveis cientistas loucos; após a supressão das revistas em 1930, as pessoas olhavam com nostalgia para aquelas histórias, mesmo já na década de cinquenta, contrastando as suas aventuras cheias de acção com o aborrecidíssimo produto contemporâneo”. A situação mudaria nos anos 70 com autores como os Strugatski, Snegov ou Pukhov, autores manifestamente heterodoxos em relação ao regime e à literatura por este imposta (Efremov e companhia), influenciados pelo crescente influxo de obras de autores ocidentais na União Soviética após a abertura proporcionada pela visita de Nixon à URSS, sobretudo Heinlein, Dick, Asimov, Sheckley, Bester, Simak, et. al.

Ou seja, mesmo uma literatura fantástica como a Soviética, que nos pareceria mais naturalmente dona de uma voz própria, optou ao longo da sua evolução pela imitação, agregação, adopção e adaptação dos temas, linguagem e semântica própria da Literatura de FC Ocidental, dando forma ainda mais consistente à imagem de Malzberg que via os autores de FC apenas como tentáculos de uma única criatura: a Ficção Científica.

Como necessário corolário dessa assunção, Malzberg deixa-nos ainda uma lição que, se seguida, poderia ter sido bastante nestes últimos dias: “We may be less than the sum of our parts but we are far, far more in the aggregate than individually we ever took ourselves to be. None of us can build science fiction, none of us can destroy it. Science fiction gave us voice and the voice, however directed, must be toward its perpetuation.”

É o que permite à Ficção Científica manter-se pujante e coesa há cento e cinquenta anos, essa unidade em torno de um cânone universalmente reconhecido, amado, imitado e enriquecido por cada autor que se estreia no género. É a base da sua perpetuação.

Por isso, e na peugada do trabalho do LFS, penso que seria importante reflectir sobre o tema, procurar descobrir quais seriam os modos de tratamento da FC que permitiriam torná-la genuinamente portuguesa. Que cada um de nós parasse um pouco para pensar nos pontos extremamente válidos que o Luís formulou, e apresentasse, nos seus próprios blogues, ou nas caixas de comentários disponíveis, a sua opinião sobre a possibilidade, necessidade ou utilidade de uma Ficção Científica exclusivamente Portuguesa.

Não posso terminar estas breves notas sem responder à questão obrigatória: por muito que me custasse deixar para trás os trabalhos do João Barreiros, do Luís Filipe Silva, do David Soares, do Macedo, ou do Tércio, não hesitaria um segundo em escolher a primeira pilha. A vantagem é que quem escolhesse a segunda ia ter que gramar o que eu próprio escrevi. A escolha foi vossa.