domingo, 5 de julho de 2009

E EIS QUE O JOÃO SEIXAS DESCE ÀS CATACUMBAS DO ASCO….


…e sai incólume. Deste asco. Fazem falta posts destes para os leitores se aperceberem de com quem lidam. O Jorge Candeias, como sabem os pobres desgraçados que o lêem, tem uma fixação freudiana comigo. Vá-se lá saber porquê. Se calhar pisei-o sem querer, e o Jorge, como todas as criaturas mais ou menos invertebradas, não esquece durante muito tempo. O teor do post não merece comentários de maior, pois ele fala por si. A eloquência vernácula de quem não consegue articular um pensamento mais elaborado que um twit; a forma despudorada com que diz que disse o que não disse e desdiz o que disse e os outros é que são burros, mas ele compilou dezasseis mil páginas de não sei o quê, mas deve ser papel higiénico para limpar aquela estrumeira toda que espalhou lá pelo blogue. Deixemos, por isso, o asco com quem o produz e quem quiser visitar o buraco onde ele se acolhe que o faça por sua conta e risco. Eu saí indemne, mas...

De qualquer forma, aqui fica o eloquente registo: escroque, vil, criatura do submundo, burro, saltimbanco de feira, crápula, artista português, mentiroso, tipinho, troca-tintas aldrabão, vendedor de banha da cobra e vigarista.

Aqui se esgota, em todo o seu esplendor, o argumentário do Jorge Candeias, a luz que brilha no oco de um crânio capaz de ombrear com o do Homem de Piltdown como a maior farsa da história. E nele se esgota, também, a credibilidade de um nome: Jorge Candeias, já não vale nada…

Mas sê feliz, Jorge, estás a precisar...

Umbiguismo


Isto é o que acontece quando o umbigo domina o cérebro.

Afinal, a culpa agora é do Twitter, que não o deixou desenvolver a sua lógica discursiva. Mas o Twitter tem destas coisas, impõe um verter constante de egolalias sob pena de esquecimento, e o insigne autor não resiste a colocar-se debaixo do holofote. Mas como não lhe podemos negar uma certa capacidade de análise, ele explica tudo neste post.

Mas voltando ao que nos traz aqui: é um post longo, mas tem momentos que justificam a sua leitura. Afinal, até um relógio parado acerta duas vezes por dia. Mas torna-se mais interessante se compaginado com este post do Nuno Fonseca, modestamente nascido como comentário aqui no Blade Runner, mas elevado à sua real dignidade no Inner Space. O Nuno levanta algumas questões pertinentes mas que não deixam de perder parte do seu potencial explicativo ao perfilharem do mesmo erro que anima parte do post do Jorge Candeias. A outra parte é animada pela mais pura má-fé e desonestidade, mas a isso já vamos; a saber: um erro na datação da FC Portuguesa e do fandom nacional.

Escreve o Nuno que “O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios.” O exemplo da Saída de Emergência é legítimo, mas não exclusivo. Efectivamente, para quem tem andado atento a estas coisas, quer a Presença, quer a Gailivro, quer mesmo – em casos contados – a Civilização, têm apostado fortemente em marketing e divulgação. E penso não estar a exagerar quando digo que a Gailivro é, até, das editoras com marketing mais agressivo e com um sentido de comunidade de leitores mais forte (embora limitada a um segmento específico de mercado). É certo que o Fórum BANG! da Saída de Emergência foi nesse aspecto pioneiro e inovador, mas é um aspecto que carece de uma potencialidade explicativa total.

Sobretudo porque o problema que ninguém parece querer abordar é precisamente aquele que transparece da referência aos primórdios da FC. É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa.

O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.

Já o Nuno imagina um eterno recomeço da FC em Portugal – que é real – mas que não pode permitir uma eterna infantilização do género, nem pode permitir escamotear a pergunta a que importa responder. E esta não é como chegar aos potenciais leitores, mas sim para onde foram os leitores que durante anos justificaram a existência dos vastos catálogos da Argonauta, da Europa América, da Caminho, da Panorama, da Bolso Noite, etc, etc.. Para onde foi o público leitor adulto de Ficção Científica, que desapareceu sem deixar rasto? Observe-se que mesmo a colecção VIAJANTES DO TEMPO da Presença arrancou com um público adulto em vista, antes de se ir progressivamente encerrando na sua caixinha juvenil, abdicando mesmo da publicação de um título como o Carbono Alterado (2002) de Richard Morgan, que estava já traduzido.

A verdade é que, como quem passa uma esponja, vamos encarando como natural um renascimento cíclico da FC em Portugal, esquecendo que a primeira tentativa de criação de um Clube de Leitores de Ficção Científica entre nós data já de 1965. Que foi feito do público leitor destes últimos 45 anos? Porque não responderam às iniciativas das inúmeras editoras que tentaram nesta última década fazer renascer o género? Falta de publicidade? Não creio. Porque a falta de publicidade também não explica o afastamento de muitos dos autores nacionais que escreviam nessas colecções e que são os primeiros a acusarem o desinteresse do público.

O Jorge também acredita que parte do problema reside na falta de divulgação, mas acrescenta-lhe a actividade sinistra de uma cáfila de indivíduos que tem estado à frente de algumas das iniciativas editoriais de publicação de FC, e que não tem sensibilidade para compreender o público português. Mas será isso verdade? Ele refere o exemplo da Contacto, uma colecção dirigida pelo João Barreiros que revelou estar à frente do seu tempo, pelo menos uns vinte anos. Culpa do director da Colecção, ou culpa do público leitor? Não referiu que a Livros de Areia, por exemplo, encabeçou em 2005 o regresso ao Livro de Bolso que agora parece ser uma nova (e fracassada) revolução editorial. Culpa da Editora ou do Público Leitor? Também não fala do caso paradigmático da Cavalo de Ferro, que se calhar lhe permitiria testar a tese que pretende fazer passar: um editora (profissional ou não?) com selecção criteriosa de títulos, com público alvo definido, excelente visibilidade, e que desapareceu depois de apostar na promoção de livros comerciais e de alto retorno. Culpa dos Editores, do Público Leitor, ou do Jorge?

Do Jorge não, certamente, porque o Jorge gosta de atirar a pedra e depois lançar-se para o chão a uivar “aqui d’El Rei que me batem, ai ai ai”. A verdade é que o Jorge resolveu soltar uma flatulenta farpa no twitter porque não se deu ao trabalho de ler o que os outros escreveram. Quando lhe foi chamada a atenção para o facto, fez aquilo que lhe é habitual: vitimização e ataque indiscriminado, ventilando frustrações e ódiozinhos de estimação, desta vez alargando-se a todos aqueles que tenham qualquer ligação comigo. Imagina insultos, ameaça com câmaras de vácuo, porque as de gás não quadram bem com ele, que ele é mais gulags e falsificações da história.

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?

Curiosamente, há coisa de um ano, o mesmo Jorge escrevia, aqui, que: “eu tenho sempre sérias dúvidas de que o mercado realmente "exija" seja o que for, especialmente na indústria cultural. O mercado escolhe entre aquilo que tem para escolher, e geralmente nem isso, geralmente são os publicitários e o marketing quem escolhe”.

Aqui chegados, confrontados com a contradição (ou será, apenas, mera evolução do pensamento?) seria o ponto em que o Jorge poderia acrescentar algo de útil, ajudando-nos, a nós, editores, críticos e leitores, a perceber melhor os padrões culturais que possam permitir melhorar esta situação. Mas quanto a isso, o insigne educador mantêm-se mudo e quedo. Porque essa não era a sua intenção, nem era a intenção do seu post. O seu real objectivo – daí a má-fé e a desonestidade – era chegar à conclusão de que aqueles que manifestam uma opinião contrária à sua, perfurando a confortável bolha do seu solipsismo, querem apenas destruir a FC. E acusa-nos de nada fazermos, ou de nada fazermos bem pelo género e, no que concerne especificamente à minha actividade de editor na Livros de Areia, acusa-me de incompetência.

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

Ou será falta de divulgação? Quer o Jorge quer o Nuno encontram potencialidades mágicas no marketing, na publicidade e na divulgação. Na perspectiva de ambos, seria a divulgação que permitiria a confluência do público leitor potencial (evidentemente desprovido da capacidade de iniciativa que os levasse a procurar on-line, a consultar blogues ou páginas de referência) e as obras. Mas será realmente assim? Será essa a resposta e a solução? Ou será apenas mais um meio de potenciar a aquisição acrítica de títulos badalados? Será que é essa a via que nos interessa?

Mas o Jorge tem ao seu dispor inúmeras e efectivas plataformas de divulgação: ele foi o fundador e moderador da lista FICÇÃO CIENTÍFICA (provavelmente, a par da Bibliowiki, a sua maior contribuição para o Fantástico Luso) – hoje infelizmente moribunda ; ele administra o site E-NIGMA, vegetativo desde 2007; ele assegura um post semanal (quando eu não lhe dou azo a mais) no LÂMPADA MÁGICA; ele arrotou quase 5000 twits no Twitter, para além da sua presença incansável no Fórum da Saída de Emergência, no BBDE, inúmeros blogues e listas de discussão.

E seria de perguntar, com toda esta actividade aparente, que tem feito o Jorge nos últimos anos pelo desenvolvimento do Fantástico em Portugal? A resposta? Nada. Tem olhado pelo umbigo. Tem, como todos nós, feito pela vida. Dele procuraremos debalde uma crítica sobre os últimos livros de autores nacionais, uma apreciação dos esforços das editoras que puseram nas livrarias livros como as FICÇÕESCIENTÍFICAS E FANTÁSTICAS, A SOMBRA SOBRE LISBOA, os CONTOS DE TERROR DO HOMEM-PEIXE, A REPÚBLICA NUNCA EXISTIU, ele que sempre afirmou que era preciso apostar na ficção curta. Mas da parte do Jorge, silêncio.

Dir-me-ão que não é obrigado a isso. É certo, mas a lógica que utilizou para justificar o seu refluxo twístico – quem não edita FC não se pode queixar de que não se edite FC – ainda que não corresponda à verdade, é-lhe oponível. Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada. Dir-me-ão que o Jorge pode ter mais o que fazer, que tem que fazer pela vida. Que faça. Mas que não ande, sistematicamente a sabotar o trabalho de quem faz, para satisfazer as suas necessidades de entretenimento no Twitter. É que onde o Jorge se contenta em fazer pela vida – como todos nós – outros que acreditam na FC e na possibilidade de melhorar o panorama, pessoas como eu, o Pedro Marques, o Luís Corte-Real, ou o Miguel Neto, pusemos dinheiro – muito dinheiro – dos nossos bolsos para arriscar publicar autores que ninguém sabia se seriam lidos e que, muitas vezes, sabíamos que não o seriam, mas que deviam ser disponibilizados ao leitor português. E todos nós, através das nossas respectivas editoras, apostamos em vias diferentes e com resultados diferentes. Mas assumimos o risco e estivemos dispostos a arriscar. Quando o Jorge quiser fazer o mesmo, quando quiser arriscar também dinheiro dele, quando estiver disposto a pôr as notas onde tem a língua, então reconheço-lhe o direito de falar, com conhecimento de causa, de uma realidade que vai muito além de receber o chequezinho no fim do mês, e muito além do Twitter. É que o Twitter é como um automóvel: pode ter muitos cavalos debaixo do capot, mas não vai a lado nenhum com um burro ao volante.

E, no fim de tudo isto, Jorge, a boa notícia é que ainda temos lugar para mais um na câmara de vácuo.

Jump in.

sábado, 4 de julho de 2009

Não é nada de espantar


Ainda a propósito deste meu post, voz amiga (como diria o outro dos rabanetes) chamou-me a atenção para um twit do Jorge Candeias, onde este acha "espantoso que o Seixas se queixe da ausência de edição de FC em Portugal. Dir-se-ia que ele não tem uma editora... ". O que, diga-se desde já, seria absolutamente legítimo se fosse esse o teor do meu post. Infelizmente, como pode ser lido aqui, o argumento que defendi - "Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica." - foi precisamente o desaparecimento do público leitor de FC. Coisa de que me convenci a propósito da minha actividade de editor na Livros de Areia, e de colaborador de outras editoras nacionais como a Presença, a Saída de Emergância e a Chimpanzé Intelectual.

Ideia que reforcei em comentário ao mesmo post, referindo a propósito da BANG! que "há aqui uma lógica perversa, que leva a que a BANG! seja objecto de milhares de downloads (que certamente não serão todos lidos, mas enfim) mas não se consiga aguentar em formato impresso, ainda que por um preço módico".

Ora, parece-me evidente que uma leitura minimamente atenta permitiria apreender isso: as editoras não apostam na FC, porque não existe um público leitor que recompense essa aposta. Mas é claro que o Candeias sempre foi um leitor de viés no que concerne ao que se escreve neste blogue e no que se escreve que seja contrário à perspectiva muito peculiar e subjectiva que tem do mercado. Uma perspectiva que eu gostava de ver confirmada, mas que me convence de que o Candeias tem um reduzida capacidade de interpretação dos gostos do público leitor nacional.

O que seria grave, se ele não se tivesse praticamente desligado do mercado. Quero, por isso, acreditar que este incidente foi apenas um daqueles casos fortuitos de twit for twat. O que não é, evidentemente, é de espantar...

FC Pura e Dura?


Escrevi, aqui, que "vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género". O Luís Filipe Silva enviou-me um simpático e-mail chamando-me a atenção para o facto de ter sido publicado este ano o clássico Where Late the Sweet Birds Sang (1976), em tradução da Gailivro, com o título Onde os Últimos Pássaros Cantaram (ISBN: 978-989-557-579, 296 páginas). Where Late the Sweet Birds Sang venceu, com toda a justiça o prémio Hugo em 1977, e continua a ser um título de leitura obrigatória para todos os entusiastas do género, pela forma como expandiu o tema de Silent Spring (1962), obra seminal de Rachel Carson para a afirmação do movimento ecologista, e pela representação de um cenário pós-apocalíptico onde uma humanidade esterilizada pelo fall-out da guerra e da poluição aposta a sua existência na criação de clones para assegurar a sua preservação. Foi um livro que me serviu de inspiração quando escrevia o meu próprio Eu, Clone (1998, ainda inédito) e é um dos mais belos - e certamente o mais conhecido - de Kate Wilhelm.

Embora não se trate de um livro de FC pura e dura, inserindo-se mais na veia da ficção científica de carácter sociológico, e mostrando-se pontilhado de aspectos muito pouco científicos - como o surgimento de uma forma de telepatia nos clones - é, no entanto, um título cuja tradução se impunha, sendo obrigatória a parabenização da Gailivro por assumir essa tarefa. E, se me esqueci de o referir aquando da redacção do post em causa, aqui fica a rectificação do lapso e também a recomendação da sua leitura.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Inopinada Surpresa: Prémio Lemniscata


Como inesperado "presente de aniversário", o José Eduardo Lopes teve a amabilidade de atribuir ao Blade Runner o Prémio Lemniscata. De acordo com os criadores deste galardão, ele foi "criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores".

Pelo que só posso, com a devida vénia, agradecer ao José Eduardo Lopes pela distinção.

No entanto, como dizia o outro, com o reconhecimento vem a responsabilidade, e o Prémio Lemniscata não é isento de regras; a saber:

1 - O premiado deverá expôr o selo no seu blog e atribuí-lo a 7 outros blogs que considere merecedores.
2 - O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo sapiens?

A primeira parte é, claramente, a mais difícil, pois cada escolha impõe e implica uma multiplicidade de exclusões, muitas vezes sem que seja possível explicar inteiramente os critérios que construíram a linha demarcadora entre os eleitos e os excluídos. Por outro lado, tratando-se de um prémio que se expande geometricamente (será que infinitamente também?), impõe-se não o duplicar, atribuindo-o a outros galardoados. E assim, feitas estas considerações, o Blade Runner escolhe atraibuir o Prémio Lemniscata aos seguintes blogues:




Pela inteligência e profundidade com que o David Soares aborda os assuntos mais complexos e candentes.


Por ser a melhor escrita sobre cinema de Horror que se pode encontrar on-line.


Não se pode ter um blogue com um nome tão apetitoso e delirante sem apresentar um conteúdo absolutamente cativante. Missão cumprida por Mr. Peel.


A dedicação a um tema e a exploração exaustiva de todas as suas manifestações, quando levada a cabo por alguém com a inteligência de Pierre Fournier, faz mais pela perpetuação da cultura popular do que uma cadeia de museus.


Pela inteligência e profundidade com que o Nuno Fonseca faz a sua abordagem à Ficção Científica - através de títulos criteriosamente escolhidos - e pelo esforço de divulgação da Ficção Científica Portuguesa, tanto a nível nacional como internacional.


Pela especial sensibilidade com que a Safaa Dib aborda alguns livros e filmes. E por ser das poucas em Portugal que gosta de Joseph Losey e Lindsay Anderson.


Porque faz muita falta em Portugal a divulgação da Ciência e da Astronomia. E ninguém melhor do que um entusiasta da Ficção Científica para o fazer. Parabéns, também, ao José Saraiva.

E querem coisa mais fácil do que saltar do blogue do Saraiva para a resposta à pergunta "O que significa para si ser um Homo sapiens?"

Significa poder libertar-me do atavismo e da superstição da Religião por recurso exclusivo à Razão e à Ciência. Compreender melhor o mundo em que vivemos, na sua contingência e efemeridade, é o primeiro passo para o preservar e preservar a memória de uma espécie com prazo de validade.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Blade Runner Ano 3: A Incógnita



E já lá vão dois anos desde que resolvi criar o Blade Runner. Dois anos que ficaram – há que reconhecê-lo – muito abaixo das expectativas, se não dos leitores, pelo menos das minhas. Ser-me-ia confortável observar que o mal foi generalizado. Alguns dos principais blogues da área do Fantástico, Os Cadernos de Daath, o Efeitos Secundários, o Stranger in a Strange Land, diminuíram, também, acentuadamente, o ritmo de publicação, traduzindo aquilo que penso ser um acréscimo de trabalho profissional que impossibilita os seus autores de dedicarem mais tempo à escrita virtual. Isso é visível também no Lâmpada Mágica, com o Jorge Candeias a dedicar-se em exclusivo à tradução. É um factor importante, mas meramente descritivo. No meu caso, um acumular de compromissos profissionais e pessoais (traduções, críticas, redacção de ensaios, escritas um pouco por todo o lado, a par da minha actividade profissional no foro) impuseram o caos na minha capacidade de manter-me a par com lançamentos, eventos, novidades, quanto mais a actualização regular deste blogue.


Por outro lado, não posso deixar de pensar que este estado de coisas reflecte um outro dado essencial: o mercado do Fantástico, apesar de toda a aparente pujança, não existe para os autores nacionais. Pese embora a falta de números “oficiais” (e muitas vezes, mesmo de números oficiosos), parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita, vendo-se obrigado a complementar – se não mesmo a assegurar – os seus rendimentos, por outros meios. Para os que escrevem habitualmente, como o David Soares e o Luís Filipe Silva, a tradução parece ser o principal refúgio. Aliás, creio que se fizermos um apanhado de TODOS os autores portugueses da área FC&F, chegaremos à conclusão de que todos eles ganham mais a traduzir a escrita de outros do que com a sua própria. Note-se – sempre é uma forma de estarem próximos daquilo que gostam de fazer, ao mesmo tempo que é um meio para aprimorar as suas próprias técnicas de escrita. Mas não deixa de ser, também, um factor de preocupação, num mercado livreiro que, ao que parece, tem feito fortunas com o género (Rowlings na Presença, Paolini na Gailivro, Tolkien na Europa-América e, em grau menor, Martin na Saída de Emergência), encontrando nesses autores uma espécie de apólice de seguros mais ou menos fiável para um eventual período de vacas magras.


Isso leva-me ainda a uma outra e deprimente observação. Empoleirado desde 2000, como Humpty Dumpty, no muro que divide os fatalistas (João Barreiros et al.) dos optimistas (ainda que moderados – Candeias et al.), não mais me é possível equilibrar entre as duas posições. And not all the king’s horses, nor all the king’s men, can put me back up there again. Verdade seja dita, sempre pendi mais para o lado dos fatalistas, mas creio que agora se trata de um facto inegável: a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica.



É certo que o Horror não está melhor. Se descontarmos o surto de publicações comemorativas do bicentenário de Poe, o trabalho cadenciado de David Soares, e a tradução mais ou menos regular dos títulos de Stephen King (pontilhados pela publicação esporádica de um outro tímido título de horror), complementados pelos clássicos em domínio público que a Saída de Emergência e a Presença vão publicando com alguma regularidade, o género está tão desvitalizado como uma múmia privada das folhas de chá de tana. Nota-se-lhe, porém, uma latência que lhe permite algumas esperanças no curto ou médio prazo, mas nada que justifique um grande optimismo, sobretudo quando o género está a ser deturpado no arrasto da irracional febre gerada pelos medíocres pastiches de Stephenie Meyer. Podemos esperar o afloramento de alguns títulos de Laurel K. Hamilton por duas editoras distintas, um punhado de bons títulos que vão surgir na Saída de Emergência (e o irritante que é termos que estar sempre a falar das mesmas editoras, pois são elas que levam aos ombros os géneros do fantástico), mas nada dos milhares de títulos essenciais a qualquer biblioteca do horror publicado após 1950. É um desfasamento inultrapassável.


Da Fantasia mais vale nem falar. Os números traduzem a sua vitalidade, mas escondem a verdade: e a verdade é que também não existe um mercado de Fantasia em Portugal. Existe apenas a exploração exaustiva de um sub-género impuro da Fantasia que, à falta de designação universalmente reconhecida, podemos chamar Imitação Derivativa de Fantasias de Poder Adolescente.


Irónico, por isso, que se cumpram este mês setenta anos sobre o início da chamada Golden Age da Ficção Científica (1938-1946), o período em que a literatura de ficção científica evoluiu ao ritmo da batuta de John W. Campbell ao leme da Astounding Science Fiction. Embora Campbell tenha assumido a direcção da Astounding em Maio de 1938, à falta de uma data “oficial”, e em retrospectiva, o fandom vem reconhecendo como momento fundador o da publicação da edição de Julho de 1939 dessa revista. Nesse número, surgia a noveleta Black Destroyer de Van Vogt, um dos textos mais influentes do cânone da moderna FC (e inspiração directa do filme ALIEN que Ridley Scott realizou em 1979 – lá andamos com os anos terminados em nove), primeira publicação do autor, e também Trends, o primeiro conto que Asimov publicou na revista que o tornaria o mais conhecido autor de FC de sempre. (Nestas coisas das coincidências, Trends foi um dos contos, escrito e publicado 30 anos antes da alunagem da Apollo 11, que escolhi para a antologia comemorativa desse evento que a Saída de Emergência faz chegar às livrarias no próximo dia 10). No número seguinte, o de Agosto, surgiria na mesma revista o conto Life-Line, a estreia literária de Robert A. Heinlein (de que falaremos aqui brevemente), abrindo um período de exclusiva predominância da Astounding de Campbell – período que se estenderia até 1946, data da publicação da célebre antologia de Healy e McComas. A propósito, e de acordo com as memórias do bom doutor (In Memory Yet Green: The Autobiography of Isaac Asimov, 1920-1954, Doubleday, 1979) o número de Julho de 1939 da Astounding chegou aos escaparates no dia 22 de Junho desse ano, permitindo datar de forma ainda mais precisa essa efeméride.

Daí que, por tudo quando acima se deixou dito, para este novo ano de actividade bloguística, não faço planos. Continuarei a falar de pulp fiction, preenchendo a lacuna do que prometi no ano passado, de filmes e de séries de televisão (idem aspas), procurarei levar ritmadamente a série de homenagens ao trabalho de Heinlein, e falar um pouco mais de livros e das suas traduções. Será um ano de incógnitas, de caminhos bifurcados, ao gosto de Borges, com pelo menos dois carreiros a serem explorados no curto/médio prazo.



Por um lado, e à laia de celebração do quadragésimo aniversário da Alunagem, proponho-me explorar, num outro blogue, as várias representações dessa viagem à Lua conforme esta foi imaginada pelo cinema e pela televisão entre 1902 e 1969. Será uma viagem com partida prevista para data incerta, algures entre 16 e 20 de Julho (datas, respectivamente, em que a missão Apollo 11 partiu de Cape Canaveral e chegou à Lua), e que se estenderá, lânguida, ao sabor da disponibilidade de tempo e de material. Será, portanto, uma viagem com final em aberto, mas que pretendo tão exaustiva quanto possível.


Já a partir de hoje (bom, convém dar margem de manobra, uma vez que até ao próximo dia 15 tenho ainda imensos prazos pendentes; daí que este hoje deva ser entendido num sentido mais lato do que o habitual) a minha atenção dividir-se-á entre o Blade Runner e um outro blogue dedicado, em exclusivo, ao cinema de Horror. Podem acompanhá-lo, aqui.

Assim, convido-vos desde já a embarcar comigo neste terceiro ano de actividade, e a descobrir onde – e se – nos levará a algum lado. Neste momento, your bet is as good as mine.

A sátira dedicada a Twilight, foi retirada daqui.