sábado, 4 de julho de 2009

FC Pura e Dura?


Escrevi, aqui, que "vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género". O Luís Filipe Silva enviou-me um simpático e-mail chamando-me a atenção para o facto de ter sido publicado este ano o clássico Where Late the Sweet Birds Sang (1976), em tradução da Gailivro, com o título Onde os Últimos Pássaros Cantaram (ISBN: 978-989-557-579, 296 páginas). Where Late the Sweet Birds Sang venceu, com toda a justiça o prémio Hugo em 1977, e continua a ser um título de leitura obrigatória para todos os entusiastas do género, pela forma como expandiu o tema de Silent Spring (1962), obra seminal de Rachel Carson para a afirmação do movimento ecologista, e pela representação de um cenário pós-apocalíptico onde uma humanidade esterilizada pelo fall-out da guerra e da poluição aposta a sua existência na criação de clones para assegurar a sua preservação. Foi um livro que me serviu de inspiração quando escrevia o meu próprio Eu, Clone (1998, ainda inédito) e é um dos mais belos - e certamente o mais conhecido - de Kate Wilhelm.

Embora não se trate de um livro de FC pura e dura, inserindo-se mais na veia da ficção científica de carácter sociológico, e mostrando-se pontilhado de aspectos muito pouco científicos - como o surgimento de uma forma de telepatia nos clones - é, no entanto, um título cuja tradução se impunha, sendo obrigatória a parabenização da Gailivro por assumir essa tarefa. E, se me esqueci de o referir aquando da redacção do post em causa, aqui fica a rectificação do lapso e também a recomendação da sua leitura.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Inopinada Surpresa: Prémio Lemniscata


Como inesperado "presente de aniversário", o José Eduardo Lopes teve a amabilidade de atribuir ao Blade Runner o Prémio Lemniscata. De acordo com os criadores deste galardão, ele foi "criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores".

Pelo que só posso, com a devida vénia, agradecer ao José Eduardo Lopes pela distinção.

No entanto, como dizia o outro, com o reconhecimento vem a responsabilidade, e o Prémio Lemniscata não é isento de regras; a saber:

1 - O premiado deverá expôr o selo no seu blog e atribuí-lo a 7 outros blogs que considere merecedores.
2 - O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo sapiens?

A primeira parte é, claramente, a mais difícil, pois cada escolha impõe e implica uma multiplicidade de exclusões, muitas vezes sem que seja possível explicar inteiramente os critérios que construíram a linha demarcadora entre os eleitos e os excluídos. Por outro lado, tratando-se de um prémio que se expande geometricamente (será que infinitamente também?), impõe-se não o duplicar, atribuindo-o a outros galardoados. E assim, feitas estas considerações, o Blade Runner escolhe atraibuir o Prémio Lemniscata aos seguintes blogues:




Pela inteligência e profundidade com que o David Soares aborda os assuntos mais complexos e candentes.


Por ser a melhor escrita sobre cinema de Horror que se pode encontrar on-line.


Não se pode ter um blogue com um nome tão apetitoso e delirante sem apresentar um conteúdo absolutamente cativante. Missão cumprida por Mr. Peel.


A dedicação a um tema e a exploração exaustiva de todas as suas manifestações, quando levada a cabo por alguém com a inteligência de Pierre Fournier, faz mais pela perpetuação da cultura popular do que uma cadeia de museus.


Pela inteligência e profundidade com que o Nuno Fonseca faz a sua abordagem à Ficção Científica - através de títulos criteriosamente escolhidos - e pelo esforço de divulgação da Ficção Científica Portuguesa, tanto a nível nacional como internacional.


Pela especial sensibilidade com que a Safaa Dib aborda alguns livros e filmes. E por ser das poucas em Portugal que gosta de Joseph Losey e Lindsay Anderson.


Porque faz muita falta em Portugal a divulgação da Ciência e da Astronomia. E ninguém melhor do que um entusiasta da Ficção Científica para o fazer. Parabéns, também, ao José Saraiva.

E querem coisa mais fácil do que saltar do blogue do Saraiva para a resposta à pergunta "O que significa para si ser um Homo sapiens?"

Significa poder libertar-me do atavismo e da superstição da Religião por recurso exclusivo à Razão e à Ciência. Compreender melhor o mundo em que vivemos, na sua contingência e efemeridade, é o primeiro passo para o preservar e preservar a memória de uma espécie com prazo de validade.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Blade Runner Ano 3: A Incógnita



E já lá vão dois anos desde que resolvi criar o Blade Runner. Dois anos que ficaram – há que reconhecê-lo – muito abaixo das expectativas, se não dos leitores, pelo menos das minhas. Ser-me-ia confortável observar que o mal foi generalizado. Alguns dos principais blogues da área do Fantástico, Os Cadernos de Daath, o Efeitos Secundários, o Stranger in a Strange Land, diminuíram, também, acentuadamente, o ritmo de publicação, traduzindo aquilo que penso ser um acréscimo de trabalho profissional que impossibilita os seus autores de dedicarem mais tempo à escrita virtual. Isso é visível também no Lâmpada Mágica, com o Jorge Candeias a dedicar-se em exclusivo à tradução. É um factor importante, mas meramente descritivo. No meu caso, um acumular de compromissos profissionais e pessoais (traduções, críticas, redacção de ensaios, escritas um pouco por todo o lado, a par da minha actividade profissional no foro) impuseram o caos na minha capacidade de manter-me a par com lançamentos, eventos, novidades, quanto mais a actualização regular deste blogue.


Por outro lado, não posso deixar de pensar que este estado de coisas reflecte um outro dado essencial: o mercado do Fantástico, apesar de toda a aparente pujança, não existe para os autores nacionais. Pese embora a falta de números “oficiais” (e muitas vezes, mesmo de números oficiosos), parece-me que nenhum autor português na área do Fantástico consegue sobreviver da escrita, vendo-se obrigado a complementar – se não mesmo a assegurar – os seus rendimentos, por outros meios. Para os que escrevem habitualmente, como o David Soares e o Luís Filipe Silva, a tradução parece ser o principal refúgio. Aliás, creio que se fizermos um apanhado de TODOS os autores portugueses da área FC&F, chegaremos à conclusão de que todos eles ganham mais a traduzir a escrita de outros do que com a sua própria. Note-se – sempre é uma forma de estarem próximos daquilo que gostam de fazer, ao mesmo tempo que é um meio para aprimorar as suas próprias técnicas de escrita. Mas não deixa de ser, também, um factor de preocupação, num mercado livreiro que, ao que parece, tem feito fortunas com o género (Rowlings na Presença, Paolini na Gailivro, Tolkien na Europa-América e, em grau menor, Martin na Saída de Emergência), encontrando nesses autores uma espécie de apólice de seguros mais ou menos fiável para um eventual período de vacas magras.


Isso leva-me ainda a uma outra e deprimente observação. Empoleirado desde 2000, como Humpty Dumpty, no muro que divide os fatalistas (João Barreiros et al.) dos optimistas (ainda que moderados – Candeias et al.), não mais me é possível equilibrar entre as duas posições. And not all the king’s horses, nor all the king’s men, can put me back up there again. Verdade seja dita, sempre pendi mais para o lado dos fatalistas, mas creio que agora se trata de um facto inegável: a literatura de FC em Portugal acabou de vez. Já não nos podemos agarrar à ilusão de que uns poucos títulos escamoteados à socapa nos catálogos de algumas das editoras ainda revelam a existência de pulso no cadáver. Não. É apenas o sangue que se move empurrado pela inércia após o coração ter soçobrado. Vamos, estatisticamente, a meio do ano, e nestes seis meses, não foi publicado um único livro de FC pura e dura, assumido como tal e destinado a um público leitor desse género. Isso porque, pura e simplesmente, não existe um público leitor, em números suficientes, para injectar vitalidade ao mercado editorial de Ficção Científica.



É certo que o Horror não está melhor. Se descontarmos o surto de publicações comemorativas do bicentenário de Poe, o trabalho cadenciado de David Soares, e a tradução mais ou menos regular dos títulos de Stephen King (pontilhados pela publicação esporádica de um outro tímido título de horror), complementados pelos clássicos em domínio público que a Saída de Emergência e a Presença vão publicando com alguma regularidade, o género está tão desvitalizado como uma múmia privada das folhas de chá de tana. Nota-se-lhe, porém, uma latência que lhe permite algumas esperanças no curto ou médio prazo, mas nada que justifique um grande optimismo, sobretudo quando o género está a ser deturpado no arrasto da irracional febre gerada pelos medíocres pastiches de Stephenie Meyer. Podemos esperar o afloramento de alguns títulos de Laurel K. Hamilton por duas editoras distintas, um punhado de bons títulos que vão surgir na Saída de Emergência (e o irritante que é termos que estar sempre a falar das mesmas editoras, pois são elas que levam aos ombros os géneros do fantástico), mas nada dos milhares de títulos essenciais a qualquer biblioteca do horror publicado após 1950. É um desfasamento inultrapassável.


Da Fantasia mais vale nem falar. Os números traduzem a sua vitalidade, mas escondem a verdade: e a verdade é que também não existe um mercado de Fantasia em Portugal. Existe apenas a exploração exaustiva de um sub-género impuro da Fantasia que, à falta de designação universalmente reconhecida, podemos chamar Imitação Derivativa de Fantasias de Poder Adolescente.


Irónico, por isso, que se cumpram este mês setenta anos sobre o início da chamada Golden Age da Ficção Científica (1938-1946), o período em que a literatura de ficção científica evoluiu ao ritmo da batuta de John W. Campbell ao leme da Astounding Science Fiction. Embora Campbell tenha assumido a direcção da Astounding em Maio de 1938, à falta de uma data “oficial”, e em retrospectiva, o fandom vem reconhecendo como momento fundador o da publicação da edição de Julho de 1939 dessa revista. Nesse número, surgia a noveleta Black Destroyer de Van Vogt, um dos textos mais influentes do cânone da moderna FC (e inspiração directa do filme ALIEN que Ridley Scott realizou em 1979 – lá andamos com os anos terminados em nove), primeira publicação do autor, e também Trends, o primeiro conto que Asimov publicou na revista que o tornaria o mais conhecido autor de FC de sempre. (Nestas coisas das coincidências, Trends foi um dos contos, escrito e publicado 30 anos antes da alunagem da Apollo 11, que escolhi para a antologia comemorativa desse evento que a Saída de Emergência faz chegar às livrarias no próximo dia 10). No número seguinte, o de Agosto, surgiria na mesma revista o conto Life-Line, a estreia literária de Robert A. Heinlein (de que falaremos aqui brevemente), abrindo um período de exclusiva predominância da Astounding de Campbell – período que se estenderia até 1946, data da publicação da célebre antologia de Healy e McComas. A propósito, e de acordo com as memórias do bom doutor (In Memory Yet Green: The Autobiography of Isaac Asimov, 1920-1954, Doubleday, 1979) o número de Julho de 1939 da Astounding chegou aos escaparates no dia 22 de Junho desse ano, permitindo datar de forma ainda mais precisa essa efeméride.

Daí que, por tudo quando acima se deixou dito, para este novo ano de actividade bloguística, não faço planos. Continuarei a falar de pulp fiction, preenchendo a lacuna do que prometi no ano passado, de filmes e de séries de televisão (idem aspas), procurarei levar ritmadamente a série de homenagens ao trabalho de Heinlein, e falar um pouco mais de livros e das suas traduções. Será um ano de incógnitas, de caminhos bifurcados, ao gosto de Borges, com pelo menos dois carreiros a serem explorados no curto/médio prazo.



Por um lado, e à laia de celebração do quadragésimo aniversário da Alunagem, proponho-me explorar, num outro blogue, as várias representações dessa viagem à Lua conforme esta foi imaginada pelo cinema e pela televisão entre 1902 e 1969. Será uma viagem com partida prevista para data incerta, algures entre 16 e 20 de Julho (datas, respectivamente, em que a missão Apollo 11 partiu de Cape Canaveral e chegou à Lua), e que se estenderá, lânguida, ao sabor da disponibilidade de tempo e de material. Será, portanto, uma viagem com final em aberto, mas que pretendo tão exaustiva quanto possível.


Já a partir de hoje (bom, convém dar margem de manobra, uma vez que até ao próximo dia 15 tenho ainda imensos prazos pendentes; daí que este hoje deva ser entendido num sentido mais lato do que o habitual) a minha atenção dividir-se-á entre o Blade Runner e um outro blogue dedicado, em exclusivo, ao cinema de Horror. Podem acompanhá-lo, aqui.

Assim, convido-vos desde já a embarcar comigo neste terceiro ano de actividade, e a descobrir onde – e se – nos levará a algum lado. Neste momento, your bet is as good as mine.

A sátira dedicada a Twilight, foi retirada daqui.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rumo à Lua



Já se encontra nas bancas a edição de Julho da revista OS MEUS LIVROS, a qual conta com um breve artigo sobre a forma como a primeira viagem à Lua foi imaginada nas páginas da Ficção Científica. Afinal, é já no próximo dia 20 que se comemoram os 40 anos da alunagem da missão Apollo 11, naquele que foi o maior feito tecnológico de sempre da História da Humanidade.

Haverá, ao longo do próximo mês, muito que dizer sobre isso e várias oportunidades para o fazer, tanto mais que é também em Julho - no dia 10 para ser mais exacto - que chega às livrarias a antologia COM A CABEÇA NA LUA, um volume editado pela Saída de Emergência para assinalar este aniversário histórico, e que tive o prazer de organizar. Trata-se de uma colectãnea de 10 contos escritos entre 1865 e 1969, representando uma amostra das várias formas como a Ficção Científica encarou um feito que sempre teve por certo.

Entretanto, e para abrir o apetite, aqui fica a primeira página do artigo da OS MEUS LIVROS (o atigo encontra-se entre as páginas 26 e 29):

domingo, 21 de junho de 2009

O Círculo de Leibowitz: MINDBRIDGE (1976)


A vida tem destas coisas. Hoje era o dia em que o Círculo de Leibowitz devia analisar e começar a discutir Minbridge, novela de Joe Haldeman publicada em 1976 e que no ano seguinte se viu nomeada simultaneamente para o Hugo e para o Locus. Prova, desnecessária, da qualidade da escrita deste ex-veterano da Guerra do Vietname que cedo se tornou referência obrigatória no universo da FC. Apesar de as suas obras engordarem o catálogo da Europa-América - os seus títulos mais recentes foram publicados quase sequencialmente nos estertores finais da comatosa colecção Nébula, incluindio e o seu clássico THE FOREVER WAR (1974) com o atraso de uns meros 30 anos - a verdade é que muitos dos seus títulos mais fortes, carismáticos e interessantes, nunca assomaram às costas editoriais portuguesas. Muito particularmente dois dos meus favoritos, a trilogia WORLDS (1981-1992) e THE LONG HABIT OF LIVING (1989).

O mesmo é dizer, Joe Haldeman é um dos meus autores preferidos, um paradoxal herdeiro de Heinlein no uso exímio das técnicas da ficção científica, e é-me por isso particularmente penoso confessar que por manifesta falta de tempo não consegui redigir a minha apreciação deste Mindbridge. Felizmente, outras leituras podem ser encontradas no CÍRCULO DE LEIBOWITZ:


Inner Space (em duas partes): 1ª e 2ª


domingo, 14 de junho de 2009

Leituras Aleatórias: THE BODELAN WAY (1974)


DAW Books, 1974
158 Páginas

DAW Science Fiction #86

Louis Trimble (1917-1988) é um nome praticamente desconhecido nos anais da literatura de ficção científica. Autor de várias dezenas de volumes nos mais variados géneros, assinou apenas um punhado de títulos na área da FC, todos eles competentemente escritos mas eminentemente esquecíveis. Este The Bodelan Way (1974) é um dos vastos membros de uma legião de novelas que integram aquilo que podemos designar como a ephemera marginalia da ficção científica: um punhado de ideias interessantes mas não muito estimulantes, personagens divertidos mas não especialmente cativantes, intrigas ambiciosas mas parcamente conseguidas, escrita competente mas sem marcas de distinção. Perfeita literatura de aeroporto, coisa para despachar num par de horas de leitura e fechar depois nas gavetas da memória aguardando que a sua natural erosão abra espaço para leituras mais proveitosas.

O que distingue estes livros da má literatura é o facto de nos permitirem mergulhar na narrativa sem grandes percalços e sem que esta esteja carregada daqueles súbitos solavancos que nos fazem emergir daquele espaço de voluntária suspensão da descrença com perguntas que ficam sem resposta contextuada. Neste caso, Trimble leva-nos a testemunhar a estranha intriga interplanetária que envolve Endo Leduc, agente da bem-intencionada Uni – uma organização que perfilha valores universalistas e multiculturalistas abrangendo todas as espécies inteligentes conhecidas – nas maquinações da sinistra Monarquis League, que pretende instaurar uma monarquia interplanetária submetida a um único Imperador. Interrompido na sua missão como tutor de Margil Vecker, filha do Bodelano mais rico da Galáxia, Haslo Vecker, a qual pretende recrutar para a Uni, pelo inesperado interesse que por ele demonstram a sua anterior instrutora e companheira sentimental Klovka e uma sensual e jovem Cressa – ambas convencidas de que ele é o único Absorvente Inconsciente que existe no Universo (uma espécie de telepata involuntário com a capacidade de captar os pensamentos mais íntimos daqueles com quem entra em contacto, embora apenas os possa processar numa aparência de lógica após sofrer um episódio de inconsciência forçada – regra geral, levando uma traulitada na cabeça), Endo não tarda a ver-se enredado nas conspirações de uns e outros, sem saber em quem poder confiar, e tendo que lidar com os avanços amorosos da própria Margil, uma Bodelana com a corpulência e a aparência de um leão bípede.

O título do livro refere-se aos costumes Bodelanos de Margil, uma alienígena que deve ainda ultrapassar os ritos da segunda puberdade para poder casar e manter todos os consortes trans-específicos que possa querer, mas que acabam por não desempenhar um papel relevante na narrativa, servindo apenas para fornecer um twist final humorístico mas não muito satisfatório (embora admita que uma leitura feminista – talvez dada a época da sua publicação original – possa auferir um certo valor acrescentado a quem se der ao trabalho de a fazer, mas cujo retorno não me parece por demais convincente). Ficando muito aquém da ficção científica sociológica de um Chad Oliver (1928-1993), que lhe serve como claro modelo, as manifestações de costumes culturais não vão muito além do tabu Soldasano de não permitir que apenas os pés ou a mão direita possam em qualquer circunstância tocar no solo. Ao invés de uma exploração da variedade cultural com relevo para a narrativa, os costumes que Margil tem que experimentar no seu processo de aculturação são apenas um catálogo de excentricidades humorísticas que fazem que o livro penda mais para a sátira do que para a ficção científica propriamente dita.