segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um livro por dia: A AMEAÇA DO INFINITO



As colecções de literatura de género agregam em si a promessa de uma uniformidade de conteúdos e temáticas que permitirão simultaneamente fidelizar um grupo alargado de leitores e oferecer (idealmente) uma selecção do que melhor esse género tem para oferecer. Até meados da década de sessenta do século passado, a única colecção de literatura de ficção científica - e para lá dela, só o policial encontrou semelhante acolhimento, sendo todas as demais experiências efémeras - digna desse nome era a Colecção Argonauta da Livros do Brasil. Colecção que manteve a supremacia durante quase quatro décadas, até terem surgido primeiro a FC de Bolso da Europa América (1978) e depois a Colecção Azul da Caminho (1984). Pese embora a repetição de alguns títulos e autores entre a Argonauta e a Europa-América, as três colecções complementavam-se de uma forma impossível de repetir hoje em dia quando todas as editoras competem pelo mesmo e a ideia de colecção parece definitivamente posta de parte.

Nesse período que antecedeu o nascimento das principais concorrentes/companheiras da Argonauta, e pese embora várias tentativas de criar colecções temáticas de ficção científica (e já aqui falamos das Colecções Órbita e Galáxia), apenas a mítica Série ANTECIPAÇÃO (1967) da Editorial Panorama, dirigida por Lima Rodrigues, chegou a ameaçar consolidar-se como concorrente directa. Com uma selecção criteriosa de autores e títulos, pecava por uma tradução desastrosa (frequentemente a cargo do não menos mítico Eduardo Saló) e uma distribuição deficiente (provavelmente aliada a uma tiragem limitada) que faz com que os 69 volumes editados sejam encontrados com menor frequência nos alfarrabistas.

A AMEAÇA DO INFINITO, de Fredric Brown, foi o primeiro título desta colecção que viria a integrar alguns clássicos incontornáveis (e que fica a palavra, mesmo para quem não gosta dela) como The Left Hand of Darkness de Ursula LeGuin, a série World of Tiers de Philip José Farmer, Night Wings de Silverberg e uma generosa selecção de títulos de John Brunner, um dos mais injustiçados autores de FC de todos os tempos.

Um pouco também como Fredric Brown, um autor que viu uma série de títulos seus publicados entre nós, sem nunca ter obtido o reconhecimento que lhe é indubitavelmente devido. Dotado de um verdadeiro estatuto de autor de culto em França e nos Estados Unidos (mais ou menos como Dick), é sobretudo reconhecido pelo humor cortante e cruel das suas histórias curtas, verdadeiras pérolas de concisão e impacto narrativo. Embora as suas novelas não atinjam o mesmo nível de exelência das narrativas mais curtas, não são desprovidas de motivos de interesse, dentre os quais sobressai uma imaginação transbordante, capaz de alegorizar e literalizar as fabulações mais inesperadas. Se existe um equivalente literário de Tim Burton, esse é certamente Brown.

AMEAÇA DO INFINITO é a tradução portuguesa (sim, acometida das mesmas falhas de todas as traduçoes de Saló: "Tinham-se apaixonado há um ano, e seis meses depois decidiram casar. Avistaram-se com as respectivas famílias...) de The Mind Thing, a história de um alienígena incorpóreo que se vê "encalhado" no nosso planeta e que pretende regressar ao seu, ocupando sucessivos corpos humanos numa possessão fatal.

Oportunidade também para louvar a excelente capa de Richard Powers, um dos expoentes da ilustração de FC, com motivos que invocam as célebres ilustrações de capa que executou para os 14 volumes de J.G. Ballard publicados pela Berkley Books entre 1962 e 1977.

Um toque distintivo do livro, é a presença de uma gota de goma a unir a face exterior das páginas, garantindo a sua inviolabilidade ao potencial comprador. A Série ANTECIPAÇÃO, que revisitaremos mais vezes, ofereceu aos seus leitores algumas particularidade semelhantes, das quais é de destacar o recurso a um papel azulado, alegadamente para facilitar o esforço de leitura à noite (papel ainda não presente neste volume inicial).


domingo, 9 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS AMANTES



Um olhar, ainda que breve, sobre a realidade cultural portuguesa de hoje, revela um panorama de anódina igualdade. Se Beaudrillard necessita ver vingado o seu conceito de "mínimo denominador comum da cultura", bastemo-nos com exibir o triste panorama das livrarias e do cinema para o confirmar. É certo que o fenómeno não é exclusivo de Portugal. Nem sequer originário de Portugal. No entanto, aquela malfadada ausência de massa crítica de leitores com que sempre vamos justificando o eterno adiar do futuro, faz com que a nossa mesmedidade seja ainda mais igual a si própria, do que as outras.

E, perante tal panorama, parece difícil acreditar que há pouco menos de 30 anos, numa outra geração, as coisas foram - por um efémero período de tempo - diferentes. Neste fantástico período que vimos visitando em pequenos mergulhos nostálgicos, a realidade apresentave-se-nos numa policromia ofuscante. A falta de critério ou de método de selecção que referi já por várias vezes foi uma das suas maiores virtudes. É como se necessitássemos de um certo caos não esquematizado, não estruturado, para nos permitirmos uns afloramentos de criatividade.

Nos anos setenta, ao mesmo tempo que se operava a mudança de regime, ao mesmo tempo que perdíamos as aspirações de império, Portugal recebia o mundo de braços abertos... descobria-o, imitava-o, processava-o. Foi também nos anos setenta que Portugal descobriu o sexo. Descobriu que havia outras saias mais interessantes do que a sotaina do sr. vigário. Os cinemas abriram-se à pornografia. Contam-me que na zona de Caminha e Cerveira, em 1974-1975, quando o Espanhóis tinham ainda a sua ditadura, nuestros hermanos afluíam como moscas às sessões porno do cinema dos bombeiros, ajudando a corporação ao mesmo tempo que assistiam ao impensável.

Não sei se foi nesse período de 74/75 que a GALERIA PANORAMA, dirigida por Lima Rodrigues publicava OS AMANTES de Philip José Farmer como primeiro número (e único) da série Antecipação-Extra. Afinal, The Lovers, é o texto canónico que reputadamente introduziu o sexo na moderna ficção científica. Originalmente publicado como uma noveleta na Startling Stories de Agosto de 1952, valeu a Farmer o Hugo de 1953 para o autor mais promissor, tornando-se num clássico instantâneo. Em 1961, Farmer transformá-la-ia numa novela que, apesar de unanimemente considerada como título obrigatório em qualquer colecção de FC que se preze, não encontraria grande circulação até a Ballantine a reeditar em 1972. Creio que essa reedição, comemorativa dos 20 anos da publicação original da história, serviu de catapulta para a sua tradução nacional (que ainda me não foi possível localizar com precisão, mas que encaixa nesta cronologia).

Uma coisa, porém, pode ser dita em abono de Lima Rodrigues: a edição é sóbria, não fazendo o menor apelo à polémica que o livro (ou melhor, a história) causou aquando da sua primeira publicação. Ao invés de sexo, o texto do verso de capa fála-nos de Amor (assim, com mauúsculas). É certo que no período em que (penso que) o livro foi publicado, dificilmente chocaria alguém (já em 1952, logrou chocar apenas os leitores de FC, que encaravam ainda o género como uma divisão da literatura infanto-juvenil); mas a verdade é que o livro não trata de sexo: trata do confronto com a alteridade, com as imposições religiosas, e com as ligações carnais entre fisiologias aparentemente incompatíveis. Quem o ler procurando descrições gráficas de actos sexuais, melhor fará em ler FLESH, BLOWN ou IMAGE OF THE BEAST do mesmo Farmer. O que encontrará em OS AMANTES é um excelente livro de FC que Lima Rodrigues soube reconhecer como um clássico intemporal.

E que necessitados estamos de recordar os clássicos, confrontados com um mercado que parece pensar que a FC nasceu com MATRIX (1999).


sábado, 8 de novembro de 2008

Um livro por dia: O FANTÁSTICO E O MISTERIOSO NO JAPÃO



Em Abril de 1977, a PORTUGAL PRESS dava à estampa O FANTÁSTICO E O MISTERIOSO NO JAPÃO, uma colectânea de nove contos de Edogawa Rampo, traduzida por Raul Correia a partir da tradução inglesa (a tradução canónica, que serviu também para a recente reedição deste volume pela TUTTLE PRESS em finais do ano passado) de James B. Harris. Rampo, de seu nome verdadeiro Hirai Taro, é unanimemente considerado como o pai da moderna literatura policial japonesa, tendo sabido importar de forma perfeita o ritmo e as técnicas ocidentais e aplicando-as em narrativas ricas de um imaginário e de uma tradição cultural tipicamente nipónicos. Na sua escrita, rica numa ironia que se poderia dizer quase borgiana (compare-se Os Gémeos de Rampo, com O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam de Borges), Rampo serve-se de um encadeado lógico, de uma racionalidade aparentemente fria, para arrastar o leitor por uma realidade fantástica, que quase roça os limites do incrível e do sobrenatural, sem nunca quebrar definitivamente as barreiras entre o âmbito do real e do fantástico. A forma documental e muitas vezes na primeira pessoa de que se serve para narrar os acontecimentos, reforçam essa tensão entre o dito e o percebido.

Tal como o próprio pseudónimo de Taro - Edogawa Rampo é uma tradução fonética da pronúncia japonesa de Edgar Allan Poe - a sua escrita é enganadora na sua simplicidade.

Para mim, este livro - traduzido pela primeira vez para o inglês em 1956, exactamente 21 anos antes da sua edição lusa, e descoberto entre os livros do meu avô teria eu uns 12 ou 13 anos de idade, foi uma autêntica revelação. É um daqueles poucos livros - outros são os de Borges, Brown, Barker, Matheson ou Bradbury - que uma vez lidos despertam em nós a vontade imparável de esmiuçar a técnica utilizada para contar as histórias, e a tentativa imediata, repetida, obsessiva, de reproduzir os seus efeitos.

Isto tudo para dizer que é fascinante descobrir um tal título traduzido em português: sobretudo porque é um título solitário. Mesmo após o sucesso do filme Rampo (1994), que granjeou aplausos no Fantasporto e tinha o próprio autor como protagonista principal (interpretado por Naoko Takenaka), nenhuma editora voltou a mergulhar no universo de cerca de trinta volumes, escritos entre 1923 e 1945, que ele nos legou.

Dos nove contos presentes neste tomo, três deles nunca me saíram da cabeça: A Cadeira Humana, a narrativa estranhíssima, quase surrealista, de um fabricante de móveis que contrói uma luxuosa cadeira para poder desfrutar deleitoso das senhoras que nela se sentavam (o final, como sempre, é uma pérola de ironia); O Teste Psicológico, uma das aventuras do seu célebre detective Kogoro Akeshi, mostra como um criminoso especialista em psicologia pode ser apanhado por estar demasiado bem preparado para ultrapassar os testes psicológicos da polícia; e o já referido Os Gémeos, que trata de forma brilhante o tema de Abel e Caim, já para não dizer de Jeckyll e Hyde, através do célebre caso judicial (também explorado por Ellery Queen) do crime cometido por gémeos, sem que seja possível estabelecer com certeza qual dos dois o cometeu (in dubio pro reo, e nenhum pode ser condenado) - neste caso, faz-se justiça (mais uma vez irónica) por via de um erro judicial.

As ilustrações de M. Kuwata, servem de precioso acompanhamento das várias narrativas, reforçando a sensação de estranhamento e familiaridade que este objecto perdido nas correntes do tempo não deixa de suscitar.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS EXPLORADORES DA LUA



Da caixinha de surpresas que foram os loucos anos da viragem de Portugal face à modernidade, nunca deixa de me surpreender o inesperado de algumas "uniões". As várias colecções que se foram estreando - e rapidamente perecendo - misturavam livremente ensaio com ficção, policial com horror, mainstream e os mais inesperados produtos da arte literária. Das uniões mais estranhas com que alguma vez me deparei, este OS EXPLORADORES DA LUA foi para mim durante muito tempo uma incógnita e, por fim, uma brilhante ironia.

Primeiro a estranheza da "união": um livro assumidamente de FC publicado por uma editora com conotações católicas - as EDIÇÕES SALESIANAS do Porto (e é curioso observar, a título de curiosidade, que quase metade dos títulos até agora referidos nesta série de posts, provém de casas editoriais situadas no norte do país). OS EXPLORADORES DA LUA veio-me parar às mãos por volta de 1999-2000, espreitando de uma qualquer banquinha de um alfarrabista do Porto. Achei curioso, não só a ilustração de capa, como o facto de existir um autor de FC português de que eu nunca ouvira falar. Discutindo o livro com o Jorge Candeias e a sua possível autoria, no Verão de 2001, ficamos temporariamente na dúvida sobre a sua nacionalidade, por via da referência no interior do volume ao facto de que este seria um "original distinguido no Concurso de Literatura Juvenil, com o prémio «ALITÁLIA» na modalidade de Aeronáutica e viagens planetárias", o que nos pareceu uma coisa muito pouco portuguesa. O Jorge sugeriu uma possível identidade Italiana (Sagunto, porém, fica em Espanha), sendo então o nome uma transliteração de Pietro de Sagunto. O nome dos filhos, porém, a quem o livro é dedicado não me sugeria uma tal origem e, à falta de mais elementos, a dúvida persistiu durante mais algum tempo.

Sucede que Pedro de Sagunto era realmente um autor português. Digo "era" porque, aos 91 anos, Sagunto faleceu na cidade do Pombal a 14 de Janeiro de 2008. Era o pseudónimo do autor Pedro Alves de Carvalho, nascido em Coimbra, mas residente de longa data no Pombal.

Para além deste OS EXPLORADORES DA LUA, um romance alegadamente escrito em 1968 e publicado pelas EDIÇÕES SALESIANAS em 1973, Sagunto deixou mais 16 livros e, de acordo com a sua neta Ana Rita, uma série de trabalhos inéditos ou inacabados. Dentre esses dezasseis livros, contam-se 3 novelas publicadas entre 1958 e 1963 na COLECÇÃO NEGRA da saudosa AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS (1948-1987), a primeira das quais - MATAR OU MORRER - teria sido o primeiro livro publicado com esse pseudónimo no intuito de convencer o leitor de que realmente se tratava de um autor estrangeiro (para reforçar essa ideia, o volume faz saber que o texto "original" foi traduzido por P. Alves de Carvalho, afinal o verdadeiro autor).

OS EXPLORADORES DA LUA é claramente um juvenile, escrito num estilo ligeiro e aventuresco, descrevendo uma Lua outrora coberta de oceanos onde nadavam monstros antediluvianos, mais inspirada pela imaginação de um Burroughs do que pela próxima/recente alunagem da Apolo XI. Diz quem conheceu Sagunto que era um homem que amava os livros e o cinema. Segundo noticiado, na urna em que foi a enterrar seguiu um volume dos NOVE AMANHÃS de Isaac Asimov.

Durante quase dez anos, os dez anos em que tive em meu poder este volume, e em que a amizade do António Marques - pai do Pedro Marques - que reside no Pombal, aí me levou várias vezes, podia ter-me cruzado com o desconhecido que escreveu o livro cuja autoria debatia com o Candeias. Apenas mais um triste exemplo de como o nosso género é negligenciado, e de como muitos autores são esquecidos demasiado cedo, muitas vezes por aqueles que melhor os deviam conhecer e celebrar.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS FILHOS DO DIABO



Os anos setenta - a geração do "eu" - foram ao mesmo tempo o culminar e a antítese das convulsões sociais dos anos do flower power. Estreada com o sangue de Altamont (1969), a década de 70 foi um misto estranhíssimo de (neo)realismo, cinismo, racionalismo científico, sobrenatural, satanismo, catastrofismo e a afirmação do indivíduo. Se isso foi assim em quase todo o mundo ocidental (pelo menos no hemisfério norte e América Latina), que dizer de Portugal, que sensivelmente a meio da década experimentou a última "revolução" militar do século XX na Europa? Como temos vindo a constatar ao longo desta série de posts, a ânsia de descoberta da cultura ocidental (e alguma oriental) - fosse ao nível da produção cinematográfica de Hollywood, da Cinecittá, de Hong Kong, do Japão, fosse ao nível da literatura de género, sobretudo europeia e americana - traduzia-se na tradução, sem qualquer critério ou linha orientadora, de tudo aquilo que estava na moda ou na berra além-fronteiras.

E, se houve um filme que esteve na moda além fronteiras em 1973, foi The Exorcist de William Friedkin, baseado no romance homónimo de Peter Blatty. A par de Rosemary's Baby (1968) de Polanski (baseado na novela de Ira Levin), O Exorcista iria despoletar uma vaga de imitações nos quatro cantos do mundo, colocando a religião e o satanismo no centro da discussão. Os acontecimentos de Jonestown em 1978, vieram apenas sublinhar os extremos a que a irracionalidade religiosa pode chegar.

Os anos setenta, mais do que qualquer outra década, viram aumentar a procura de livros e filmes sobre O Diabo, sobre o Ocultismo (ou melhor, aquele oxímoro que é "as Ciências Ocultas") e sobre os rituais satânicos. É certo que Stephen King veio revolucionar o estagnado género do horror em meados da década, mas as suas ideias encontraram solo fértil numa sociedade que parecia ter absorvido cada nuance das missas negras, dos sacrifícios humanos, da cópula diabólica e das orgias do bode. Em Portugal, dando seguimento ao grande sucesso da publicação de O Despertar dos Mágicos (La Matin des Magiciens) de Bergier e Powells pela Bertrand, surgiram inúmeras coleccções sobre (pseudo)enigmas da história (outro fenómeno paralelo despoletado pelo clássico da pseudo-ciência Eram os Deuses Astronautas? de von Däniken), ocultismo e demais mistérios ovniológicos (Portas do Desconhecido, Enigmas disto e daquilo, etc...)

Perdido no meio desa avalanche que se estendeu até meados dos anos 80, quando os portugueses parecem ter descoberto os livros de auto-ajuda, e a PORTUGAL PRESS traduziu entre nós este OS FILHOS DO DIABO, uma antologia de contos organizada por Peter Haining (1940-2007), misturados com duas breves notícias relacinadas com satanismo e retiradas de jornais ingleses e excertos de obras de Aleister Crowley e Montague Summers. Os filhos do diabo, no dizer de Haining, são os satanistas, aqueles que prestam culto ao Maligno, numa linha de continuidade com os míticos sabbaths de outrora.

Haining foi um insigne antologiador, especialista em literatura de horror e conhecedor profundo da série de televisão Dr. Who (1961-). No entanto, na apresentação que nos é feita do autor neste volume, o ênfase (tal como sucedera também com Dennis Wheatley, que também está representado neste volume) é colocado na impressão de que ele seria alguém profundamente envolvido nas práticas ocultas: "Peter Haining é um escritor e antologista que vive no coração da famosa «região das bruxas» no Essex (...) Possui uma vasta biblioteca de raros e valiosos livros sobre Ocultismo, quer de verdadeiro, quer de ficção, e está presentemente empenhado em editar mais duas antologias e um estudo pormenorizado sobre Bruxaria e Magia Negra".

No interior do volume, para além de uma introdução de August Derleth, encontramos contos clássicos de Lovecraft, E. F. Benson, Algernon Blackwood e Clive Cartmill, criteriosamente seleccionados e precedidos de uma breve introdução histórica e temática. Ecos de um período onde um livro de bolso podia esconder sob a capa lúbrica e ousada - da autoria de Carlos Alberto, que no ano seguinte começaria a ilustrar as histórias e a elaborar as capas dos 28 números da Zakarella de Roussado Pinto), e que aqui retém apenas a cabeça do bode e a disposição cromática da capa original - uma selecção de contos de autores de alto quilate, raramente traduzidos entre nós, antes ou depois.

Publicado em Março de 1975, e abrindo com a advertência AVISO AO LEITOR: FECHE ESTE LIVRO ANTES DO CAIR DA NOITE. O HORROR CRESCENTE DAS SUAS PÁGINAS JAMAIS FOI IGUALADO!, é mais um marco de uma era estranha da história cultural de Portugal... uma era onde tudo era permitido e todas as esperanças eram legítimas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um livro por dia: 11/FC



Em comentário a um dos posts recentes desta série, o João Barreiros referiu um dos mais estranhos fenómenos do mercado editorial do período 1964-1985: as antologias de contos da PALIREX, um conjunto de títulos de referência que mereciam ter permanecido nas prateleiras como (múltipla) porta de entrada na literatura de ficção científica. Delas, talvez a mais estranha tenha sido 11/FC (Onze Grandes Histórias de FC), editada por Groff Conklin, e que sem exagero poderíamos classificar como "o livro que nunca existiu".

Grof Conklin (1904-1968) foi crítico de FC na prestigiada revista GALAXY, e entre 1946 e 1968, colocou o seu extenso saber e paixão pelo género ao serviço dos leitores, dirigindo nada menos que 41 antologias de Ficção Científica e Horror. Várias dessas antologias, tinham um numeral no título (6 Great Short Novels of SF; 12 Great Classics of SF; 50 Short SF Tales) e, ao longo de duas décadas e meia foram responsáveis pela captação de inúmeros leitores, para além de serem um excelente repositório do melhor que se fazia na época. No entanto, consultando a obra de referência 41 Above the Rest: An Index and Checklist for the Anthologies of Groff Conklin (2004) de Bud Webster, debalde procuraremos a antologia com o título "11 Great Stories of Science Fiction". Mas, sejamos honestos, não é esse o título original que nos é dado pela ficha técnica deste volume da PALIREX: IL GREAT STORIES OF SCIENCE-FICTION. Uma "astuciosa" gralha, ou um acaso conveniente? Impossível responder. Tal como é imossível responder à mesma questão quando aplicada à deturpação do nome do compilador que surge na capa (Croff Conklin). É certo que o fantástico mundo literário que se descubria nesse momento, transbordava mais de entusiamo do que profissionalismo, e o desconhecimento quase completo do que se fazia e vinha fazendo era crónico, propiciando erros e conjecturas que por vezes raiavam o ridículo (Roussado Pinto, numa das suas antologias, lendo o nome do proprietário do copyright de um conto de Borges publicado nos Estados Unidos, chegava a aventar a possibilidade de que Jorge Luis Borges fosse o pseudónimo de um autor americano!).

No entanto, consultando o conteúdo da antologia, é fácil apercebermo-nos de que se trata de 13 Great Stories of Science Fiction, editada por Conklin em 1960, e dedicada a todo o tipo de invenções que não as da "era da máquina" (que ele cobrira já em Thinking Machines em 1956), expurgada de dois dos seus contos (provavelmente por os direitos de reprodução em Portugal pertencerem a outras editoras), nomeadamente The Skills of Xanadu de Theodore Sturgeon e Silence Please de A. C. Clarke.

Pese embora essa amputação dê origem a um volume que deve ser prezado sobretudo pelos coleccionadores deste tipo de anomalias, o que resta da amputação é ainda suficientemente sumarento para garantir várias horas de interessante leitura. 11/FC fo uma das primeiras antologias de ficção científica que li quando comecei a interessar-me por este género literário, e se os contos de Damon Knight (Os Análogos), Wyman Guin (Volpla, que quase jurava estar na origem dos vulpis do TERRARIUM), e John Wyndham (Circuito de Compaixão) nunca me saíram da cabeça, foi o conto de Poul Anderson (A Luz), talvez o mais estranho e poético desta antologia, o que mais me marcou, pelo absurdo da situação conjugado com o tratamento literário de Anderson (imaginem um astronauta na Lua, que pensa reconhecer uma certa carcaterística da luminosidade lunar que terá entrevisto num quadro de um famoso pintor, que nunca teria podido visitar o nosso satélite; somem-lhe o facto de que se trata de uma antologia sobre invenções e...).


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um livro por dia: O PLANETA ESPELHO



Mais um exemplo do caos total em que a FC sempre se viu mergulhada no mercado editorial portugês é este O PLANETA ESPELHO, oitavo volume da colecção Galáxia da Editorial Verbo. O PLANETA ESPELHO, tradução do original alemão Der Spiegelplanet (1978), é a décima-sétima aventura de Mark Brandis, que faz aqui as vezes de autor e personagem principal (à semelhança do que sucedia com Alan Burt Akers/Kenneth Bulmer na interminável saga de Dray Prescot).

Mark Brandis é na realidade o pseudónimo sob o qual se acolheu o jornalista e autor alemão Nikolai von Michalewsky para assinar as 31 aventuras do personagem com o mesmo nome, primeiro astronauta e piloto de testes, depois piloto de uma nave de socorro num mundo dividido entre a União da Europa, das Américas e da África e as Repúblicas Orientais Unidas (qualquer um destes topónimos deverá soar melhor em alemão) antes de passar a viver aventuras espaciais à laia de Star Trek, como é o caso do presente volume.

Tanto quanto sei, esta é a única aventura de Mark Brandis publicada entre nós, o que obriga o leitor a mergulhar in media res, sem saber nada do que se passou para trás, e sem perspectivas de acompanhamento das futuras aventuras do personagem, se a tanto se sentir inclinado. Mais uma vez fica a sensação de que os nossos editores vão apenas tacteando os gostos do público e a potencialidade das vendas, sem realmente "conhecerem" o género que pretendem explorar - e sem lhe votarem o menor módico de interesse, que não pelo potencial de receitas absolutas.

O PLANETA ESPELHO foi publicado em Maio de 1980, com capa original de José Antunes e ilustrações interiores a preto e branco de Nuno Amorim, que vão do banal descritivo ao conceptual interessante (num próximo post, reproduzirei as minhas preferidas).