terça-feira, 4 de setembro de 2007

CONTAGEM DECRESCENTE III: CONTOS DE TERROR DO HOMEM-PEIXE



Depois de amanhã, dia 5, o David Soares tomar de assalto as livrarias com o seu "A Conspiração dos Antepassados", no dia 6 de Setembro é a vez de a Chimpanzé Intelectual e o Cineclube de Terror de Lisboa darem a conhecer a antologia de contos de horror criada no âmbito do 1º Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, MOTELx: CONTOS DE TERROR DO HOMEM PEIXE.

O volume conta com 11 contos de horror de autores portugueses, entre os quais se incluem o vencedor e a menção especial do júri do 1º Concurso de Contos de Terror do CTLX; os contos são ilustrados pela imaginação indomável do João Maio Pinto, que assina também a capa deste tomo.

A apresentação do livro decorrerá na Sala 2 do histórico cinema S. Jorge, pelas 19:00 e contará com a presença dos autores e do ilustrador; presença essa que de nada valerá sem a vossa, caros leitores.

Se passamos o ano em resmungos e choro amargo pela invisibilidade do género no panorama cultural, esta rentrée está de provocar taquicardia aos nossos coraçõezinhos carentes de horror.

domingo, 2 de setembro de 2007

CONTAGEM DECRESCENTE II: MOTELx



É já daqui a três dias que arranca o MOTELx, Primeiro Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. A mostra, organizada pelo Cineclube de Terror de Lisboa, apresenta-se ambiciosa, buscando assegurar um nicho ao lado de outros festivais como o de Sitges, San Sebastian, o Frightfest de Londres (estes são os meus favoritos, não necessariamente os que a organização elenca no seu site) e mesmo o nosso doméstico Fantasporto.

É claro que, tratando-se de um primeiro esforço, a selecção dos títulos ficará a dever muito às idiossincrasias dos organizadores; e, não sendo uma mostra competitiva, não podemos esperar ante-estreias de nomeada; no entanto, a aposta na série Masters of Horror, e a presença do seu criador, Mick Garris, em Lisboa para os cinco dias do festival (5 a 9 de Setembro) não podem deixar de constituir um excelente presságio para a continuidade do projecto.
Que dizer, então das escolhas?

Antes de mais, saudar a abundância de documentários temáticos; a inclusão de retrospectivas de carreira de dois cineastas, Ivan Cardodo e Guillermo del Toro, cuja obra, pouco conhecida a do primeiro, internacionalmente louvada a do segundo, tem ao mesmo tempo o cunho dos seus países de origem e uma universalidade flagrante, ambas capazes de absorver as estruturas, modas e temáticas do horror comercial e mais mainstream, digerindo-as e regurgitando-as com uma frescura não só bem-vinda como verdadeiramente inovadora; por fim, correndo o risco de ofender os seus fãs, a ausência de títulos de J-Horror, mais um sinal de que o subgénero se aproxima do esgotamento.

De certa forma, é de esgotamento que temos que falar ao abordar a programação deste primeiro festival de cinema de horror de Lisboa, que surge numa altura em que o Fantasporto, festival de referência em Portugal, experimenta um sucesso de tal forma alargado que escancarou as portas à entrada de obras comerciais que apenas marginalmente tocam o Fantástico, deixando na penumbra outros títulos e realizadores que exigiam uma maior exposição.

Esgotamento, também, o das fórmulas do cinema de Horror de ampla distribuição, preso num círculo vicioso de remakes e repetições, que adormecem as faculdades críticas das audiências e potenciam a imbecilização de conteúdos [caso paradigmático o do J-Horror despoletado por Ringu (Hideo Nakata, 1998) que rapidamente degenerou numa repetição de fantasmas de cabelos negros e utensílios electrónicos amaldiçoados, até exalar o bafo final com a série de TV Prayer Beads (Masahiro Okano, 2004)].

Atentemos no facto de que os últimos três anos nos trouxeram remakes de The Texas Chainsaw Massacre (Hooper, 1974, Nispel, 2004), Halloween (Carpenter, 1978, Zombie, 2007-2008), The Hills Have Eyes (Craven, 1977, Aja, 2005), Dawn of the Dead (Romero, 1978, Snyder, 2004), anunciando-se para breve o remake de The Last House on the Left (Craven, 1971).

Sintomaticamente, quatro destes filmes e cineastas são abordados no documentário The American Nightmare (Adam Simon, 2000), que marca o arranque do MOTELx, pelas 21h30 do próximo dia 5 de Setembro, nas salas dos cinemas S. Jorge. Seguindo de perto a tese que Robin Wood expende no seu clássico The American Nightmare: Essays on the Horror Film (1979), Simon analisa de uma perspectiva sócio-cultural aquele seminal período de produção fantástica compreendido entre 1968 e 1977, e que, na opinião de ambos, apenas pôde emergir pela concentração, nesse intervalo, de vários acontecimentos chave do século XX americano: a guerra no Vietnam, o Massacre de Kent State, Woodstock, Altamont, o movimento pelos direitos cívicos e o pico da revolução sexual. Foi um período de intensa e furiosa criatividade por parte de um grupo de jovens realizadores como Romero, Carpenter, Craven, Hooper, Cronemberg (todos eles entrevistados no documentário) e outros mais que, praticamente sozinhos, e sem o auxílio da maquinaria pesada dos grandes estúdios, redefiniu o género do Horror, reduzindo o mal à escala niilista do humano [daí a exclusão do âmbito do documentário, de outros títulos seminais contemporâneos como The Exorcist (Friedkin, 1973) ou Jaws (Spielberg, 1975)], como que procurando reflectir aqueloutro mal (político, económico-ambiental e social) que viam à sua volta.

Neste particular, Simon é certeiro na identificação que faz de imagens de corpos queimados e a serem arrojados para lixeiras em filmes como The Crazies (Romero, 1973) ou Rabid (Cronemberg, 1976), com outras idênticas de massacres no sudeste asiático; ou cenas de zombies a avançar cambaleantes pelas ruas, com jovens que se agitam frenéticos ao ritmo do disco sound.

Foi um período breve, sangrento e brutal, que uma dezena de realizadores resolveu comentar e perpetuar num grupo de obras que sobressaem do plano contínuo do género como picos nevados de um tapete de nuvens… e todos sabemos como a neve ao sol do ocaso, adquire a tonalidade do sangue.

A escolha de The Americam Nightmare para a abertura do festival funcionará – assim espero – como um aliciante manifesto do tipo de cinema de Horror privilegiado pelos organizadores.

sábado, 25 de agosto de 2007

A MORTE DO MANDARIM: EDUARDO PRADO COELHO (1944-2007)


Faleceu hoje Eduardo Prado Coelho.

Li-o pela primeira vez na há muito falecida revista Opção (1976-1978), e depois, apenas quando o tema me interessava.

Recordo, essencialmente, a incapacidade de lidar com a arte e a cultura populares, a postura sectária em defesa de Sob o Signo da Verdade (2006) de Manuel Maria Carrilho e o obscurantismo pós-moderno no ataque à ciência e em defesa de Boaventura Sousa Santos.

Dele escreve Eduardo Pitta que "foi o intelectual português mais influente dos últimos 25 anos", o que diz muito, e que "nada voltará a ser como dantes", o que poderá não dizer o suficiente.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

CONTAGEM DECRESCENTE


Com apenas trinta e um anos, David Soares escavou já um nicho muito confortável no imaginário português, preenchendo-o com fervilhantes pesadelos visuais, literários e até auditivos (o curioso e conseguido DVD Lisboa). Que não tenha conseguido ainda penetrar na atenção crítica do mainstream serve apenas para enriquecer ainda mais o prazer daqueles que procuramos cada novo trabalho seu, saboreando o prazer pecaminoso das pequenas descobertas proibidas.

Tudo isso pode mudar subitamente no próximo dia 5 de Setembro, quando a Saída de Emergência colocar nas prateleiras das livrarias a sua última opus (e seu primeiro romance), A Conspiração dos Antepassados, um tomo de cerca de 400 páginas que reúne Fernando Pessoa, Aleister Crowley e os labirintos da História, numa narrativa de imparável dinamismo e aturada pesquisa.

Aproveitem por isso para saborear os anteriores títulos do David [Os Ossos do Arco-Íris (2006), As Trevas Fantásticas (2005), Mostra-me a Tua Espinha (2001) e os seus inúmeros álbuns de BD) enquanto não se torna um best-seller.

À laia de aperitivo, podem ler aqui excertos dos três primeiros capítulos desta prometedora Conspiração.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

NO MORE WORRIES FOR A WEEK OR TWO...




O Blade Runner vai de férias.
Férias de quê, dirão vocês, após estes quinze dias sem qualquer actualização?
Pois bem: terminaram-se contos, adiantaram-se ex-trípticos (agora trilogia), prosseguiram-se traduções, criticaram-se livros...

Por tendencioso que seja, o descanso é merecido. Embora curto.

O Blade Runner volta no dia 20, onde espera iniciar uma nova fase de actividade: mais uma entrevista com um dos autores nacionais do fantástico, uma série de textos/críticas sobre alguns dos filmes que se poderão ver no Festival de Cinema de Horror de Lisboa, em Setembro, novas críticas (EIS O HOMEM de Michael Morrcock, AS RUÍNAS de Scott Smith, entre outros títulos) e a publicação espaçada de uma sucinta Breve História da Ficção Científica.

Assim o permita a vontade e a disciplina de um escriba tão preguiçoso quanto eu...

Até lá, boas férias.

E como diz a canção:

We are going on Summer Hollydays...
No more worries for a week or two...

CAPAS DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA







Os mais atentos frequentadores da Blogosfera já se devem ter apercebidode que o Pedro Marques, meu parceiro na Livros de Areia, e companheiro de inúmeras discussões sobre todos os aspectos da criação, produção e comercialização do Fantástico, tem um novo blogue só dele. Ao fim de um par de dias de existência, teve o raro condão de se tornar de indispensável consulta.


Um post em especial merece especial destaque pela temática, que muitas vezes nos envolveu em longas diatribes à mesa do café: as capas da ficção científica e da fantasia. No post em questão, o Pedro manifesta algumas opiniões que já lhe conheço, e com que nem sempre concordo. No entanto, a sua justificação e análise são soberbas.


Em breve abordarei também este tema dentro das minhas limitações (o Pedro é, não só um designer inexcedível, como uma enciclopédia ambulante de informação pertinente to all things visual), mas não quero deixar desde já de chamar a atenção para um post - e um blogue - que sabem tratar tão bem de temas de que muitos ditos "especialistas" fogem como o diabo da cruz.

BOLSO VERÃO


Neste breve período de inactividade bloguística, Portugal parece ter redescoberto uma perdida paixoneta pelo livro de bolso. A novidade, como sempre, só o é para o nativo e para os mais desatentos. Qualquer leitor com mais desembaraço se apercebe que a recente colecção Booket, da D. Quixote, não passa de uma pálida imitação das colecções VIP (Ediciones B) e JET DeBOLS!LLO (da Plaza & Janés), apesar do apregoado design dos ateliers Henrique Cayatte (de que, via colecção azul da Caminho, nunca fui grande apreciador).


Nós, leitores habituais do Fantástico, privados das magníficas edições de luxo em hardback, e dos trade paperback estrangeiros (demasiado caros e demasiado distantes antes do advento da Amazon), sempre tivemos que nos contentar com o formato bolso.


Argonauta, DH Ciência, Panorama, Bolso Noite, FC Europa-América, a saudosa Colecção Azul da Caminho, e tantas, tantas outras, puxavam-nos pela mão e levavam-nos até ao imaginário maravilhso dos futuros que não chegaram a ser.


Recordo-me, entre os quinze e os dezasseis anos, nesses contraditórios anos 80 que não regressarão mais, de entrar senpre nas féria de Verão com uma dieta variada de livros de Ficção Científica e Horror (a fantasia só surgiu depois).


Os livros que aparecem na foto, foram todos comprados durante as férias de Verão, em várias praias do Algarve e em quiosques de Viana do Castelo. De cada rotativa onde os livros amareleciam ao sol, espreitavam capas coloridas de naves espaciais e sinistros crepúsculos, tie-ins e obras primas, todas em formato de bolso e a preço acessível.


Com o verão já a meio, a revolução do bolso 2007, ainda está por começar.