segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

30 Dias / 30 Livros



E pronto, Novembro chegou ao fim e, com ele, a nossa evocação de 30 livros pertencentes à memória colectiva do fantástico em Portugal. A ideia foi revisitar alguns dos títulos que contribuíram para que duas gerações de leitores tivessem sido fisgados para a leitura de Ficção Científica, Horror e Fantasia, apesar dos defeitos inerentes às edições portuguesas e ao caos que as caracterizou durante longos anos. Penso que, no geral, foi uma viagem interessante - à parte um lamentável percalço - e gostava de agradecer o apoio de todos aqueles que publicamente, ou por comunicação privada, manifestaram o seu entusiasmo por esta iniciativa, adiantaram sugestões ou aportaram correcções em pontos onde a memória me traiu ou onde as informações não estavam disponíveis, com especial destaque para o Luís Filipe Silva (que escreveu um amável post no seu incontornável Tecnofantasia), ao António de Macedo, ao João Barreiros, ao José Simões, ao Marco Paulo dos Lopes e a todos aqueles que diariamente visitaram o Blade Runner para descobrir qual a escolha do dia.

Pessoalmente a viagem foi extremamente agradável, permitindo-me desenterrar alguns livros dos caixotes onde se encontravam à espera da aquisição de mais prateleiras, descobrir títulos que já há muito não lia ou que nem sabia que tinha na colecção. Sobretudo, permitiu-me rever algumas das capas que me tinham já fascinado ainda eu não sabia ler ou não mostrava interesse pela chamada leitura corrida.

Como este livrinho que escolho para terminar definitivamente a série, número 224 da Colecção Argonauta, tradução de THE HALLOWEEN TREE de Ray Bradbury. Nunca li este livro, o primeiro livro da Argonauta que vi na minha vida e o primeiro livro da minha colecção (quem quiser saber, o primeiro livro da Argonauta que li foi o número 283, O DIA EM QUE O TEMPO PAROU de Philip José Farmer). No entanto, quer a capa, quer a contracapa deste volume exerciam sobre mim um tal fascínio que acho que nunca li o livro por receio de não estar à altura das expectativas geradas pelas imagens. Teria uns nove ou dez anos quando encontrei o livro na prateleira do quarto de arrumos dos meus pais, e pela primeira vez experimentei aquela sensação de Sense of Wonder que ainda hoje, todos nós que lemos FC&F nos esforçamos por reencontrar.

O Blade Runner retoma agora ao seu rumo normal, com actualizações um pouco mais erráticas, mas desta feita sob um banner novinho em folha, cortesia do genial Pedro Marques. Isso não impede que voltemos a mergulhar neste nostálgico baú de memórias, mas pelo menos para já, não com esta periodicidade diária.

Mantenham-se atentos, o futuro ainda reserva algumas surpresas... tantas pelo menos, como o passado que temos vindo a explorar.


domingo, 30 de novembro de 2008

Um livro por dia: 2 FÁBULAS TECNOCRÁTICAS



Quando nos propomos explorar uma série contada de títulos, é sempre difícil escolher com qual terminar. Por um qualquer motivo que se prende com a tentação inata de colocarmos uma ordem onde esta é apenas ilusão, o último é a apoteose... o grand finale. Mas como escolher um entre centenas e dizer que este é de facto superior a todos os outros? É intuito a que me não atrevo. Mas como é preciso escolher um título para terminar, nenhum me parece mais oportuno do que este 2 FÁBULAS TECNOCRÁTICAS de João Barreiros.

Publicado em 1977, em edição de autor, este pequeno volume (apenas 34 páginas) marca de certa forma a estreia pública de João Barreiros enquanto autor de Ficção Científica. Só isso já justificaria a sua inclusão neste carrossel da nostalgia. Mas o mais interessante são as circunstâncias da sua publicação, no ano em que a Ficção Científica tomou de assalto o mundo através das fantasias tecnológicas de George Lucas: vendido na rua, à entrada do metro, por um amigo entusiasta em cadeira de rodas - que teve a iniciativa da publicação - não podia encontrar raízes mais simbólicas para aquela que viria a ser uma das obras mais fascinantes da literatura fantástica portuguesa, espalhada por títulos como O CAÇADOR DE BRINQUEDOS E OUTRAS HISTÓRIAS (1994), TERRARIUM (1995, com Luís Filipe Silva), A VERDADEIRA INVASÃO DOS MARCIANOS (2002), DISNEY NO CÉU ENTRE OS DUMBOS (2006), O PROJECTO CANDYMAN (2007) e uma série de textos avulsos, dos quais me merecem especial destaque os dois artigos que integram o grande volume que acompanhou o CICLO DE CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA da Cinemateca/Gulbenkian (1984).

Autor de fractura, visto por uns como o melhor autor nacional de FC, por outros como alguém que conta sempre a mesma história (bom, não era isso que Goddard dizia que distinguia os grandes génios?), é pelo menos o único autor actualmente no activo que podemos considerar que escreve uma ficção científica genuinamente portuguesa - esperem, não desembainhem já as facas, vou explorar esta ideia num post a publicar nos próximos dias, à laia de ensaio para posterior desenvolvimento.

Há muitas razões que levam alguém a optar pela edição de autor: tornar público um texto de interesse limitado mas que não queremos deixar na gaveta, escoar algo que ninguém considera digno de publicação, ou simplesmente querer fugir dos sistemas tradicionais de edição e distribuição. O advento de serviços como o que são prestados pela Lulu.com vieram facilitar a tarefa de auto-publicação, removendo algumas das dificuldades que as gráficas tradicionais implicavam (não só custos, como estudos prévios de capa, etc.). No entanto, há ainda algo de pioneiro, de aventureiro no método de auto-publicação em stencil, ou por fotocópia, uma magia amadora que fala bem lá do fundo da vontade individual.

Gosto de pensar que estas duas fábulas, compostas na Tipografia Monarca, na Amadora, contendo ainda em bruto o inconfundível estilo Barreiros, são uma manifestação da vontade de começar sem empurrões de ninguém. Cotoveladas desferidas para abrir lugar, marcar presença e apontar o futuro.

O futuro é, afinal, o nosso domínio...


sábado, 29 de novembro de 2008

Um livro por dia: A LARANJA MECÂNICA



Um tradutor profissional é alguém que vive da escrita... dos outros. Nesse sentido é um parasita que consome os sumos criativos alheios e, qual Humpty Dumpty sobre o muro do debate, balança-se na dicotomia entre plot e linguagem, substância e forma, prestes a quebrar-se ao menor encontrão. Se, de facto, entendemos que há muitas maneiras de contar a mesma história, umas melhores do que outras, mas todas tendo como bitola do sucesso a solidez da trama que lhes empresta o esqueleto que vão vestir com as teias da linguagem, então o tradutor é como uma aranha que vai apenas tentar remendar o máximo possível os rasgões que se abriram, os fios que se quebraram, os sentidos que se rasgaram na passagem de uma língua a outra. Se, pelo contrário consideramos que a forma tem a primazia, sendo a história apenas um pretexto para luzir os artifícios linguísticos, então o tradutor esvazia-se de sentido, pois a sua tradução nada terá a ver com os artifícios linguísticos próprios de quem primeiro escreveu.

É fácil, por isso, sobrevalorizar o trabalho do tradutor... considerar que aquilo que o tradutor faz é escrever uma nova "versão" daquilo que o autor fez na sua língua: mas nenhum engano seria tão vácuo. O século XIX português assistiu a uma febre de traduções: Camilo traduziu - desastrosamente - LE DIABLE AMOUREUX de Cazotte; Eça lançou-se às KING SOLOMON'S MINES de Haggard, assinando uma tradução que ainda hoje é vendida pela Europa-América como sendo superior ao original. Fatal ilusão: se há algo que a tradução não pode ser nunca é superior ao original: o máximo a que pode aspirar, será à máxima fidelidade ao original - a fazer-nos sentir que estamos a ler o livro tal como o leríamos se ele tivesse sido escrito na nossa língua. Aí, todo o mérito é do tradutor.

Por isso, é também fácil subvalorizar o trabalho do tradutor.

A triste realidade, porém, é que o texto original tem que estar à altura das ambições de quem traduz. O mesmo é dizer, só um grande livro permite uma grande tradução; todos os demais não podem ambicionar a mais do que a não trair a fonte.

Mas o que quero dizer com isto de "um grande livro" no presente contexto (e só no presente contexto)? É simples: um livro que, à semelhança de Joyce, peça emprestada uma língua e a enriqueça um pouco. Que lhe torça um pouco a gramática, que lhe verbalize um bocado os substantivos, que lhe negue um pouco da sua rigidez. Os exemplos não são muitos: Eça, sem dúvida, construiu a melhor literatura portuguesa; Dias Gomes fez do brasileiro um prazer inigualável de se ouvir; King emprestou ao inglês o vernáculo da cultura popular. Há outros autores canónicos que tiveram ainda mais impacto - e se calhar mais mérito - Joyce, Proust, Hemingway e até Saramago (que acabou de vez com as regras e convidou a um divórcio com a literatura).

Se há género literário capaz de fazer brilhar um tradutor é a Ficção Científica, que foi sem dúvida o género que mais contribuiu para engordar os dicionários: robô, robótica, ciberespaço, andróide ou ciborgue são palavras que ou foram criadas por autores de FC, ou foram por eles popularizadas, entrando no falar do quotidiano.

Mas nem todas as obras de FC podem aspirar a ser "um grande livro", no sentido acima proposto. Mas uma é-o certamente: A LARANJA MECÂNICA, um tour de force literário que alia uma proposição fascinante - o método Ludovico - a uma inovação linguística - um novo calão, construído essencialmente a partir do inglês e do russo e que é utilizado pelo personagem principal (e narrador) ao longo de todo o livro. O resultado é fascinante, hipnótico, convincente, genial. É um daqueles livros - FEERSUM ENDJINN de Banks é outro - que realmente necessita de um excelente tradutor para sobreviver numa língua diferente.

A LARANJA MECÂNICA, publicada pelas Edições 70 em 1974 encontrou em José Luandino Vieira, um tradutor à altura da hercúlea tarefa: tanto mais que a tradução foi levada a cabo sob vigilância da P.I.D.E., com o tradutor a contrabandear os capítulos traduzidos para um igreja, onde se encontrava com o seu editor. A edição que ilustra este post (2ª edição de Setembro de 1974, hardback) representou um dos meus primeiros contactos com a literatura de FC a sério (daquela que "trata de assuntos mais profundos", como dizia o outro). Foi no primeiro ano de universidade, por intermédio do Pedro Marques que possuía ele próprio um exemplar, e com quem passava horas a ler em voz alta o texto magnífico da tradução, saboreando os ritmos e cadências da linguagem, o ímpeto da narrativa e - coisa que praticamente não se voltou a repetir - esquecendo que o livro não tinha sido escrito em português.

Por tudo isso, e no que a mim me toca, A LARANJA MECÂNICA é o santo graal da tradução de FC em Portugal, inexcedível e inigualado desde então. Uma fasquia demasiado alta, ou um desafio irrecusável, mas um marco que está no caminho e que devia ser de leitura obrigatória em qualquer curso de tradução.


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS HOMENS-LEÕES DE MONGO



Recordo-me de ver os seriados com as aventuras de Flash Gordon na televisão, lá para finais dos anos 70. Todo aquele visual retro-futurista à anos trinta e quarenta prestava-se maravilhosamente à imitação. Lembro-me de transformar o hall de entrada lá de casa na ponte de comando da nave fusiforme de Gordon, e a partir daí travar batalha com os esbirros do impiedoso Ming (ora o meu irmão, ora eu próprio, numa virtuosa multiplicação imaginária).

Por isso, não é surpresa que um dos meus livros preferidos fosse FLASH GORDON - OS HOMENS-LEÕES DE MONGO, primeira história de Alex Raymond publicada pela Portugal Press na sua Colecção Aventura, um conjunto de títulos fascinantes e claramente destinados ao público juvenil. Para além de Flash Gordon, a Aventura publicou ainda O SINISTRO DR. FU-MANCHU de Sax Rohmer e A FLECHA NEGRA de Robert Louis Stevenson.

Este volume, dado à estampa em 1975, tem capa de Carlos Alberto, ilustrador habitual das edições da Portugal Press e da Agência Portuguesa de Revistas, e que para mim permanecerá para sempre associado às maravilhosas capas e ilustrações que assinou para a revista ZAKARELLA (de Roussado Pinto).

Por seu lado, FLASH GORDON é, e permanecerá, um ícone imperecível da Ficção Científica e do imaginário pulp, tendo vivida uma e outra aventura em praticamente todos os meios de entretenimento - dos comics aos seriados, da rádio ao cinema, da animação à televisão, dos romances aos jogos de computador, renovando-se a cada passo mas nunca ultrapassando a magia das pranchas assinadas por Raymond, de cujo estilo a contra-capa nos oferece um exemplo.

A nostalgia não consegue ser mais agridoce do que isto.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Um livro por dia: A VOZ DE PANOR




No extremo oposto das luxuosas edições da Gradiva, encontravam-se as "revistas pulp" publicadas quinzenalmente pela saudosíssima Agência Portuguesa de Revistas, uma das experiências editoriais mais notáveis do nosso século XX português. A APR publicava de tudo - literalmente de tudo - tendo sido uma das pioneiras na publicação de Banda Desenhada, guias de TV, revistas femininas, e tudo mais que um leitor pudesse querer ler.


Com autores portugueses a escreverem sob pseudónimos anglo-saxónicos e um ritmo de publicação alucinante, as várias colecções de "livrinhos" da APR, com o seu inviolável e religiosamente controlado número de páginas, e escrita a condizer com esse limite, foi o mais próximo que alguma vez estivemos da experiência genuinamente pulp dos anos 30 americanos. No entanto, foram nuestros hermanos quem duplicou essa experiência, assinando milhares de títulos que foram publicados nas diversas colecções: FBI, 6 Balas, M. L. Estefânia, ZZ7 (um dos meus favoritos, e com uma ligação muito próxima ao Brasil, onde Benício elaborou capas deslumbrantes para os cerca de 500 títulos assinados por Lou Carrigan/Antonio Vera Ramirez), Kung Fu, e muitas outras.


Efectivamente, eram de autores espanhóis as dezenas de títulos publicados nas colecções Galáxia 2001 e Terror que surgiram nos escaparates em 1980 e desapareceram em 1984. Em 1987, a Agência Portuguesa de Revistas deixou de laborar, antes de ser declarada falida em 1988. Praticamente ao mesmo tempo, ali ao lado em Espanha tombava o gigante editorial Bruguera, "parceira" da APR, o que explicava este tremendo predomínio dos autores castelhanos.


À semelhança dos pulps originais e dos seus predecessores, nenhum dos volumes é particularmente memorável ou facilmente olvidável. Com as suas religiosas 126 páginas de ritmo endiabrado, era fácil ler dois ou três nas pachorrentas tardes de Verão, o que era facilitado pelo preço relativamente acessível (este A VOZ DE PANOR, custava 30$oo). E, no entanto, alguns títulos apresentavam ideias interessantíssimas, diálogos que fariam a inveja de Tarantino e cenários que empalideceriam um Cecil B. DeMille da série B que os quisesse adaptar ao cinema. Literatura popular para leitores pouco exigentes, ou condensado de ideias que pediam para ser melhor exploradas, cumpriam o que deles se esperava e, por vezes, iam muito além do que nos era prometido.


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro por dia: A LONGA TARDE DA TERRA



A última grande tentativa de criar uma colecção de FC capaz de aliar primorosos critérios de selecção dos títulos com uma soberba apresentação de livro-objecto de prazer, foi sem dúvida a malograda Colecção Contacto da Gradiva (1986-1988), que se ficaria pelos quatro volumes [3 publicados em 1986 e o quarto, a primeira tradução a nível mundial de Neuromancer (1984) de William Gibson, em 1988]. Mas que volumes: uma arrojada história alternativa de Harry Harrison, uma magnífica e distópica sátira política de Frederik Pohl, e um olhar glauco sobre uma terra futura e tropical, num sistema solar em fim de vida, assinada por Brian Aldiss. Não é, portanto, de surpreender encontrarmos o bem conhecido nome de João Barreiros ao leme da empreitada.

Aliando a escolha exemplar de títulos correspondentes a pontos altos da carreira dos seus respectivos autores a um cuidado aspecto gráfico, ao qual não falta mesmo um raro (e à data ainda mais do que hoje) recurso à "capa dura", a Contacto devia ter sido o culminar de um percurso incerto na evolução do conceito de "colecção de FC" em Portugal e, a partir daí, o parâmetro a seguir. Claro que não foi assim, e a colecção desapareceu ao fim de pouco tempo, para experimentar uma efémera sobrevivência no circuito das feiras do livro, que foi onde adquiri os meus exemplares, a um preço mais aceitável do que a exorbitância que então era cobrada em livraria, entre os quais se conta este A LONGA TARDE DA TERRA.

Lembro-me de o comprar num fim de tarde de verão, em plena época de exames, depois de o mesmo me ter sido recomendado, uma e outra vez, pelo Pedro Marques que o devorou com verdadeiro deleite de leitura. Comecei a lê-lo no MacDonald's que substituiu o velho Café Imperial na baixa do Porto, eu próprio deliciado por encontrar, para além do prometido livro, um excelente ensaio introdutório de Joseph Milicia, da Universidade do Wisconsin, que me despertaria o interesse e o entusiasmo pelo ensaísmo e pela crítica literária.

A LONGA TARDE DA TERRA, ficaria para sempre associado na minha memória a essa longa tarde de Verão no Porto, a umas horas de abstracção das minúcias do Direito Administrativo e das Finanças Públicas, e ao prazer da descoberta de um autor que então era para mim desconhecido, e que hoje é um dos meus predilectos.

A Contacto foi o último fôlego no esforço de estabelecer uma tradição de leitura de FC através de uma colecção de volumes de luxo, dignos de figurar em qualquer biblioteca e capazes de ultrapassar o preconceito adverso que parece marcar o género como anátema; foi, também, a última das colecções "extravagantes", das colecções que vicejaram brevemente, procurando demarcar-se do (ou suplantar o) padrão Argonauta, antes de caírem no esquecimento e na morte prematura. Enquanto tal, foi sem dúvida um dos esforços mais dignos e meritórios, que não logrou o apoio da própria editora e do público leitor. O seu desaparecimento poderia ter sido dramático, de tal forma as duas principais colecções de FC (Argonauta e FC Bolso da Europa-América) se estavam a tornar complementares, sem abrirem espaço a autores alternativos, não fora o ter deixado espaço à terceira das colecções de referência do panorama nacional: a Colecção Azul da Caminho.

O resto, como costuma dizer-se, é história, e estes quatro volumes têm o seu lugar obrigatório em qualquer biblioteca do fantástico que se preze, perfilando-se como exemplo e memória de uma época que não mais se repetirá.


terça-feira, 25 de novembro de 2008

Um livro por dia: TRON



Para os jovens de (e menos jovens) de hoje, habituados às sumptuosas criações CGI de qualquer mega-produção hollywoodesca, será difícil imaginar o impacto que teve na minha geração o aparecimento do filme TRON (1982) de Steven Lisberger. Numa altura em que não existiam Playstation nem X-Box, onde os ZX-Spectrum e os MSX eram apenas uma promessa, o filme dos estúdios Disney foi ao mesmo tempo um deslumbrante espectáculo visual e o motor de uma revolução na carreira profissional de muitos colegas meus. O impacto do filme é difícil de avaliar mas é sentido ainda no universo dos hackers, dos video-jogos, dos comics e do cinema. As célebres corridas de Lightcycles (um dos elementos do filme), aquelas motas que erguiam uma parede atrás de si visando a destruição dos adversários, tornou-se um dos jogos arcade e de pc mais memoráveis de sempre, influenciando ainda hoje incontáveis sequências cinematográficas, tal como é possível comprovar no recente Speed Racer (2008) dos irmãos Wachowski.

Quando em 1983 a Europress apresentou a sua colecção Bolso Noite, nada mais natural que escolher TRON, novelização do argumento do filme levada a cabo em 1982 por Brian Daley, afamado autor de tie-ins do universo Star Wars (sobretudo para a rádio), como primeiro título de FC a publicar.

A Bolso Noite, seguindo o exemplo da anterior Colecção Negra do Círculo de Leitores, incluía obras de quatro géneros literários - o policial/thriller (volumes de capa vermelha), Horror (capa preta), Ficção Científica (Capa Azul) e Western (capa amarela) - publicando autores nacionais e estrangeiros e dando a conhecer ao público português alguns autores magníficos como C. J. Cherryh, alguns títulos incontornáveis como Um Caso de Consciência (James Blish, 1958), e vários títulos dos nossos ases do pulp como Luís Campos (que dirigia a colecção), Roussado Pinto, ou o meu conterrâneo e amigo, Fernando Melim (um dos nossos poucos autores a apostar no horror, tendo aí publicado A CRIPTA e UM TÚMULO PARA NICODEMO).

Foi com esta colecção que me estreei na leitura de FC séria, mais concretamente com Héstia de C. J. Cherryh, de quem a Bolso Noite viria ainda a publicar uma extraordinária colecção de contos (O Sol Caiu) e uma novela extremamente interessante (Vaga sem Praia). Li TRON depois de ter visto o filme - numa época em que não existiam gravadores de vídeo nem DVDs, as novelizações eram a única forma de voltarmos a "ver" os filmes que mais nos tinham marcado sem estarmos dependentes da arbitrariedade da programação televisiva - e para um adolescente que acarinhava já aspirações de escrita (como todos os adolescentes, mais dominado pela dimensão visual do que pela dimensão literária), foi um dos primeiros objectos de estudo, através do qual tentava aprender a traduzir imagens por texto. Lembro-me de tentar reproduzir nas minhas próprias histórias desse período (1984) a descrição que o livro apresentava de um dos efeitos especiais que mais me fascinara no filme: a desconstrução das estruturas luminosas dos objectos.

Assim é também a memória nostálgica de quando o mundo era jovem: luminosa e sujeita a desconstrução...