quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Um livro por dia: GUERRA NA GALÁXIA



Edmond Hamilton é uma das figuras de proa na História da Ficção Científica, tendo estado presente desde o momento do nascimento do género em 1926 até à sua morte em 1977. Como todos os autores que escreveram na era das revistas pulp deixou-nos um conjunto de obras desiguais, mas imbuídas de um entusiasmo que deixava perceber a grande inteligência do autor. Frequentemente associado às aventuras do Captain Future, de que assinou 24 das 27 publicadas, foi um dos principais contribuidores da célebre Weird Tales, para além de efectuar várias incursões por outros géneros como o policial e o horror.

The Star Kings, publicada originalmente em 1949, é uma das suas space operas mais conhecidas, e recebe em português o título GUERRA NA GALÁXIA aquando da sua publicação (presumo que em 1972) pela Brasília Editora. Ora, no meu post anterior, referi como o título original que a editora fornecia para VIAGEM AO INFINITO de Poul Anderson (afinal, Star Ways) era Star King's. A publicação deste tomo, poderia vir por termo ao caos gerado pelo volume anterior, não fosse por um facto curioso: é que o texto do presente volume corresponde à tradução brasileira (da autoria de Jeronymo Monteiro e T. Monteiro Deutsh) de... Les Rois des Étoiles, edição francesa de The Star Kings de Hamilton.

A influência do panorama editorial francês na Ficção Científica - sobretudo nos anos sessenta e setenta, antes dea França se começar a fechar na sua concha autista - é notória: foram os franceses os primeiros a reconhecer o mérito de Philip K. Dick ou Philip José Farmer, e tiveram em Jacques Saddoul (que escreveu uma interessante hisória da FC entre 1911 e 1984), para além de uma produção própria invejável. Portugal, acometido como sempre foi do francesismo de que já Eça o acusava, não se fez peco em beber da fonte próxima - tão próxima quanto grande parte da nossa população emigrou para lá nesse período. Apesar da recente abolição das fronteiras, nunca a variedade editorial se aproximou anto do que foi nos anos sessenta e setenta, onde (quase) todas as colecções ostentavam pelo menos um par de títulos franceses, checos, polacos, ou russos.

Ignoro qual a relação entre França e o Brasil neste período, e é provável que editoras como a Brasília dividissem o seu mercado com o Brasil, partilhando traduções como forma de diminuir os custos editoriais. Também por esta altura, era frequente encontrarem-se por cá edições brasileiras de ficção científica (recordo-me particularmente da colecção da Bruguera) e mesmo livros de autores brasileiros. O que bem demonstra como desde essa época Portugal tem mantido um retrocesso constante e obstinado em questões culturais.

E pensar que há quem hoje se queixe da globalização...


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um livro por dia: VIAGEM AO INFINITO



Prometi-vos caos. Caos emergente da proliferação de títulos a que começamos a assistir desde meados dos anos sessenta e que se começa a intensificar no início da década de setenta. Abril de 1974 traria consigo a bonança, ainda que maculada pelo desaparecimento súbito de editoras e publicações no final da década, vítima da proibição de saída de divisas e da escassez - e consequente carestia - do papel. Essa súbita e inesperada bonança, que vinha já ganhando ímpeto, permitiu o momento que se estendeu até meados dos anos 80, com o surgimento de novas colecções e uma celebração generalizada da Ficção Científica depois dos sucessos encadeados de 2001: A Space Odyssey (1968), Planet of the Apes (1968), Barbarella (1968), A Clockwork Orange (1971), Silent Running (1971), Phase IV (1974), Star Wars (1977), Close Encounters of the Third Kind (1977), E.T. (1982) e a aproximação de 1984, o ano da FC por excelência.

Para o período em apreço (o breve intervalo 1971-1972, que enquandra este grupo de volumes de que vos quero falar), não há dúvidas de que é o cinema - sobretudo o sucesso estrondoso e inesperado de 2001 - que impulsiona o surto de publicações. Na contra-capa deste VIAGEM AO INFINITO de Poul Anderson, a Ficção Científica chega mesmo a ser referida como um "novo género de literatura que está conquistando cada dia, um maor número de fans" (sic), depois de nos informar que os três primeiros volumes da colecção Cosmonauta "tiveram do público uma aceitação invulgar". O que, além de desnecessário, é falso, pois é este o terceiro volume da colecção.

Daí a publicação oportunista, apressada e atabalhoada de títulos e colecções, antecipando de forma surpreendentemente exacta o mercado actual, onde as editoras correm atrás da "imagem", do "nome", do "tie-in", ao invés da qualidade intrínseca das obras. Parece despiciendo observá-lo, mas corram os olhos pelas edições de que já aqui falei, rebusquem nas vossas próprias colecções, em vossas casas, e depressa se aperceberão de que a maioria dos autores de então anuncia a "qualidade" da obra, o arrojado dos temas, a novidade das ideias ou, cedendo ao orgulho, os prémios arrecadados pelos livros ou pelos autores. Menos frequente, como no caso em apreço, apelo ao sucesso de vendas, à recepção do público, ao estatuto (ainda incipiente) de best-seller.

Esta corrida à moda da FC, não deixou de provocar os seus estragos; estragos que encontramos no aproveitamento célere de traduções brasileiras para o mercado nacional - com o brasileiro por vezes intocado, outras transformado de forma apressada em português; nas traduções de fraca qualidade, na confusão de títulos, na confusão de obras...

Exemplo claro de todos eles, este VIAGEM AO INFINITO de Anderson. Desengane-se o leitor que pensar que se trata do mesmo livro de que falei no post anterior. Apesar da quase simultaneidade de publicação - menos de um ano medeará entre ambos, atendendo ao autocolante colocado na contra-capa deste volume, anunciando "1972 - Ano Internacional da Leitura" - um mesmo título cobre duas obras distintas. Imagino a confusão do leitor que em 1972, desconhecedor das obras originais, procurasse identificar este livro.

A par do título, a Brasília Editora, do Porto, informa-nos que o volume que temos em mãos é a tradução portuguesa (da autoria de J. Ferreira de Almeida) da obra STAR KING'S (sic). Ora, Poul Anderson nunca escreveu um livro com esse título, nem antes de 1972, nem depois dessa data. Os leitores mais atentos, reconhecerão o título THE STAR KINGS, como pertencendo ao primeiro volume do díptico das aventuras de John Gordon que Edmond Hamilton esceveu em 1949. Levados pela informação da contra-capa, que anuncia um quarto-volume da série como sendo GUERRA NA GALÁXIA daquele Hamilton, ficará convencido de que se trata desse livro, traduzindo-se a capa e a lombada num erro gráfico que repetiu a capa do número 3 da colecção, que seria então a VIAGEM AO INFINITO de Anderson. Mas também esse leitor estaria enganado.

Também a capa não ajuda, sendo completamente alheia ao tema da obra, pese embora o atractivo da ilustração, tão ao gosto da corrente danikeniana tão em voga nessa altura.

É necessário ler o livro - apesar de não todo - para nos apercebermos de que se trata da tradução de STAR WAYS, primeiro volume do ciclo da Psychotechnic League que Poul Anderson publicou em 1956.

E assim se esclarece o mistério. Fica o leitor curioso em saber se o quarto volume foi realmente GUERRA NA GALÁXIA/THE STAR KINGS de Hamilton? Pois terá que aguardar pelo post de amanhã.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um livro por dia: VIAGEM AO INFINITO



Nestes posts mais próximos quero falar-vos de um punhado de volumes de certa forma "estranhos" nalgumas das colecções que foram surgindo (e logo desaparecendo) concorrencialmente com a Argonauta da Livros do Brasil. Na verdade, são simples exemplos que demonstram que apesar do potencial de sistematização e organização oferecidos por uma colecção temática, o público leitor era frequentemente servido pela habitual desorganização - para não dizer caos - que sempre foi grassando neste tipo de esforços na realidade lusa. Na verdade, espero demonstrar, ainda que de forma enviesada, a origem de algumas das referências que foram informando os nossos directores de colecções e, quiçá, alimentando a entropia que paulatinamente vem impedindo o desenvolvimento de um esforço coerente de divulgação do género.

Para isso, e como ponto de partida, peguemos num exemplar normal da Série ANTECIPAÇÃO. VIAGEM AO INFINITO de Poul Anderson é o número 53 dessa colecção dirigida por Lima Rodrigues. A minha escolha não se prende com qualquer anomalia intrínseca deste volume - embora pudéssemos apontar desde já o erro no grafismo do apelido do autor em plena capa (não no interior, que idenifica correctamente o autor como Anderson). O alcance desta escolha tornar-se-á evidente no próximo post.

No entanto, este exemplar permite-nos desde já efectuar algumas observações menores. Começando pelo facto de que desde o número um a editora mudou de nome de Editorial Panorama para Galeria Panorama; em segundo lugar, que a par da goma que unia a face exterior das folhas garantindo ao leitor o carácter pristinal do seu exemplar, encontramos já o papel azulado, bastante agradável, que referi no post anterior. A própria editora informa-nos: "Este livro é impresso em papel especial, anti-reflexo, opaco e de cor, preparado cientificamente para a leitura nocturna", o que parece traduzir a participação numa campanha de incentivo à leitura. Coincidentalmente - ou não - 1972 viria a ser o "ano nacional da leitura".

VIAGEM AO INFINITO (Tau Zero) foi publicado originalmente em 1970, e embora o livro não identifique a sua data de edição nacional, podemos apontar com alguma segurança para finais de 1971 ou inícios de 1972 (o primeiro número da colecção, de acordo com a nem sempre fiável Bibliowiki foi publicado em 1967, e de acordo com o próprio volume, antes de Julho; admitindo que a colecção manteve uma publicação mensal mais ou menos regular, este volume teria sido publicado quatro anos e quatro meses após o primeiro, ou seja, por volta de Outubro de 1971). Sem estar ao nível do melhor de Anderson, é uma novela que joga de forma fascinante com os efeitos temporais relativisticos experimentados por quem se encontre a bordo de uma nave que viaje a velocidade próxima da da luz.

Embora o título da edição nacional não seja de todo descabido, é curioso notar a obsessão que as edições portuguesas votam ao "infinito", como se o momento histórico que se atravessava - uma ditadura em desintegração não inteiramente aparente, já com mais de quarenta anos - impusesse o sonho de um espaço de liberdade sem fronteiras que é simultaneamente significado de uma sentença (da História?) interminável (espaço infinito - tempo infinito).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um livro por dia: A AMEAÇA DO INFINITO



As colecções de literatura de género agregam em si a promessa de uma uniformidade de conteúdos e temáticas que permitirão simultaneamente fidelizar um grupo alargado de leitores e oferecer (idealmente) uma selecção do que melhor esse género tem para oferecer. Até meados da década de sessenta do século passado, a única colecção de literatura de ficção científica - e para lá dela, só o policial encontrou semelhante acolhimento, sendo todas as demais experiências efémeras - digna desse nome era a Colecção Argonauta da Livros do Brasil. Colecção que manteve a supremacia durante quase quatro décadas, até terem surgido primeiro a FC de Bolso da Europa América (1978) e depois a Colecção Azul da Caminho (1984). Pese embora a repetição de alguns títulos e autores entre a Argonauta e a Europa-América, as três colecções complementavam-se de uma forma impossível de repetir hoje em dia quando todas as editoras competem pelo mesmo e a ideia de colecção parece definitivamente posta de parte.

Nesse período que antecedeu o nascimento das principais concorrentes/companheiras da Argonauta, e pese embora várias tentativas de criar colecções temáticas de ficção científica (e já aqui falamos das Colecções Órbita e Galáxia), apenas a mítica Série ANTECIPAÇÃO (1967) da Editorial Panorama, dirigida por Lima Rodrigues, chegou a ameaçar consolidar-se como concorrente directa. Com uma selecção criteriosa de autores e títulos, pecava por uma tradução desastrosa (frequentemente a cargo do não menos mítico Eduardo Saló) e uma distribuição deficiente (provavelmente aliada a uma tiragem limitada) que faz com que os 69 volumes editados sejam encontrados com menor frequência nos alfarrabistas.

A AMEAÇA DO INFINITO, de Fredric Brown, foi o primeiro título desta colecção que viria a integrar alguns clássicos incontornáveis (e que fica a palavra, mesmo para quem não gosta dela) como The Left Hand of Darkness de Ursula LeGuin, a série World of Tiers de Philip José Farmer, Night Wings de Silverberg e uma generosa selecção de títulos de John Brunner, um dos mais injustiçados autores de FC de todos os tempos.

Um pouco também como Fredric Brown, um autor que viu uma série de títulos seus publicados entre nós, sem nunca ter obtido o reconhecimento que lhe é indubitavelmente devido. Dotado de um verdadeiro estatuto de autor de culto em França e nos Estados Unidos (mais ou menos como Dick), é sobretudo reconhecido pelo humor cortante e cruel das suas histórias curtas, verdadeiras pérolas de concisão e impacto narrativo. Embora as suas novelas não atinjam o mesmo nível de exelência das narrativas mais curtas, não são desprovidas de motivos de interesse, dentre os quais sobressai uma imaginação transbordante, capaz de alegorizar e literalizar as fabulações mais inesperadas. Se existe um equivalente literário de Tim Burton, esse é certamente Brown.

AMEAÇA DO INFINITO é a tradução portuguesa (sim, acometida das mesmas falhas de todas as traduçoes de Saló: "Tinham-se apaixonado há um ano, e seis meses depois decidiram casar. Avistaram-se com as respectivas famílias...) de The Mind Thing, a história de um alienígena incorpóreo que se vê "encalhado" no nosso planeta e que pretende regressar ao seu, ocupando sucessivos corpos humanos numa possessão fatal.

Oportunidade também para louvar a excelente capa de Richard Powers, um dos expoentes da ilustração de FC, com motivos que invocam as célebres ilustrações de capa que executou para os 14 volumes de J.G. Ballard publicados pela Berkley Books entre 1962 e 1977.

Um toque distintivo do livro, é a presença de uma gota de goma a unir a face exterior das páginas, garantindo a sua inviolabilidade ao potencial comprador. A Série ANTECIPAÇÃO, que revisitaremos mais vezes, ofereceu aos seus leitores algumas particularidade semelhantes, das quais é de destacar o recurso a um papel azulado, alegadamente para facilitar o esforço de leitura à noite (papel ainda não presente neste volume inicial).


domingo, 9 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS AMANTES



Um olhar, ainda que breve, sobre a realidade cultural portuguesa de hoje, revela um panorama de anódina igualdade. Se Beaudrillard necessita ver vingado o seu conceito de "mínimo denominador comum da cultura", bastemo-nos com exibir o triste panorama das livrarias e do cinema para o confirmar. É certo que o fenómeno não é exclusivo de Portugal. Nem sequer originário de Portugal. No entanto, aquela malfadada ausência de massa crítica de leitores com que sempre vamos justificando o eterno adiar do futuro, faz com que a nossa mesmedidade seja ainda mais igual a si própria, do que as outras.

E, perante tal panorama, parece difícil acreditar que há pouco menos de 30 anos, numa outra geração, as coisas foram - por um efémero período de tempo - diferentes. Neste fantástico período que vimos visitando em pequenos mergulhos nostálgicos, a realidade apresentave-se-nos numa policromia ofuscante. A falta de critério ou de método de selecção que referi já por várias vezes foi uma das suas maiores virtudes. É como se necessitássemos de um certo caos não esquematizado, não estruturado, para nos permitirmos uns afloramentos de criatividade.

Nos anos setenta, ao mesmo tempo que se operava a mudança de regime, ao mesmo tempo que perdíamos as aspirações de império, Portugal recebia o mundo de braços abertos... descobria-o, imitava-o, processava-o. Foi também nos anos setenta que Portugal descobriu o sexo. Descobriu que havia outras saias mais interessantes do que a sotaina do sr. vigário. Os cinemas abriram-se à pornografia. Contam-me que na zona de Caminha e Cerveira, em 1974-1975, quando o Espanhóis tinham ainda a sua ditadura, nuestros hermanos afluíam como moscas às sessões porno do cinema dos bombeiros, ajudando a corporação ao mesmo tempo que assistiam ao impensável.

Não sei se foi nesse período de 74/75 que a GALERIA PANORAMA, dirigida por Lima Rodrigues publicava OS AMANTES de Philip José Farmer como primeiro número (e único) da série Antecipação-Extra. Afinal, The Lovers, é o texto canónico que reputadamente introduziu o sexo na moderna ficção científica. Originalmente publicado como uma noveleta na Startling Stories de Agosto de 1952, valeu a Farmer o Hugo de 1953 para o autor mais promissor, tornando-se num clássico instantâneo. Em 1961, Farmer transformá-la-ia numa novela que, apesar de unanimemente considerada como título obrigatório em qualquer colecção de FC que se preze, não encontraria grande circulação até a Ballantine a reeditar em 1972. Creio que essa reedição, comemorativa dos 20 anos da publicação original da história, serviu de catapulta para a sua tradução nacional (que ainda me não foi possível localizar com precisão, mas que encaixa nesta cronologia).

Uma coisa, porém, pode ser dita em abono de Lima Rodrigues: a edição é sóbria, não fazendo o menor apelo à polémica que o livro (ou melhor, a história) causou aquando da sua primeira publicação. Ao invés de sexo, o texto do verso de capa fála-nos de Amor (assim, com mauúsculas). É certo que no período em que (penso que) o livro foi publicado, dificilmente chocaria alguém (já em 1952, logrou chocar apenas os leitores de FC, que encaravam ainda o género como uma divisão da literatura infanto-juvenil); mas a verdade é que o livro não trata de sexo: trata do confronto com a alteridade, com as imposições religiosas, e com as ligações carnais entre fisiologias aparentemente incompatíveis. Quem o ler procurando descrições gráficas de actos sexuais, melhor fará em ler FLESH, BLOWN ou IMAGE OF THE BEAST do mesmo Farmer. O que encontrará em OS AMANTES é um excelente livro de FC que Lima Rodrigues soube reconhecer como um clássico intemporal.

E que necessitados estamos de recordar os clássicos, confrontados com um mercado que parece pensar que a FC nasceu com MATRIX (1999).


sábado, 8 de novembro de 2008

Um livro por dia: O FANTÁSTICO E O MISTERIOSO NO JAPÃO



Em Abril de 1977, a PORTUGAL PRESS dava à estampa O FANTÁSTICO E O MISTERIOSO NO JAPÃO, uma colectânea de nove contos de Edogawa Rampo, traduzida por Raul Correia a partir da tradução inglesa (a tradução canónica, que serviu também para a recente reedição deste volume pela TUTTLE PRESS em finais do ano passado) de James B. Harris. Rampo, de seu nome verdadeiro Hirai Taro, é unanimemente considerado como o pai da moderna literatura policial japonesa, tendo sabido importar de forma perfeita o ritmo e as técnicas ocidentais e aplicando-as em narrativas ricas de um imaginário e de uma tradição cultural tipicamente nipónicos. Na sua escrita, rica numa ironia que se poderia dizer quase borgiana (compare-se Os Gémeos de Rampo, com O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam de Borges), Rampo serve-se de um encadeado lógico, de uma racionalidade aparentemente fria, para arrastar o leitor por uma realidade fantástica, que quase roça os limites do incrível e do sobrenatural, sem nunca quebrar definitivamente as barreiras entre o âmbito do real e do fantástico. A forma documental e muitas vezes na primeira pessoa de que se serve para narrar os acontecimentos, reforçam essa tensão entre o dito e o percebido.

Tal como o próprio pseudónimo de Taro - Edogawa Rampo é uma tradução fonética da pronúncia japonesa de Edgar Allan Poe - a sua escrita é enganadora na sua simplicidade.

Para mim, este livro - traduzido pela primeira vez para o inglês em 1956, exactamente 21 anos antes da sua edição lusa, e descoberto entre os livros do meu avô teria eu uns 12 ou 13 anos de idade, foi uma autêntica revelação. É um daqueles poucos livros - outros são os de Borges, Brown, Barker, Matheson ou Bradbury - que uma vez lidos despertam em nós a vontade imparável de esmiuçar a técnica utilizada para contar as histórias, e a tentativa imediata, repetida, obsessiva, de reproduzir os seus efeitos.

Isto tudo para dizer que é fascinante descobrir um tal título traduzido em português: sobretudo porque é um título solitário. Mesmo após o sucesso do filme Rampo (1994), que granjeou aplausos no Fantasporto e tinha o próprio autor como protagonista principal (interpretado por Naoko Takenaka), nenhuma editora voltou a mergulhar no universo de cerca de trinta volumes, escritos entre 1923 e 1945, que ele nos legou.

Dos nove contos presentes neste tomo, três deles nunca me saíram da cabeça: A Cadeira Humana, a narrativa estranhíssima, quase surrealista, de um fabricante de móveis que contrói uma luxuosa cadeira para poder desfrutar deleitoso das senhoras que nela se sentavam (o final, como sempre, é uma pérola de ironia); O Teste Psicológico, uma das aventuras do seu célebre detective Kogoro Akeshi, mostra como um criminoso especialista em psicologia pode ser apanhado por estar demasiado bem preparado para ultrapassar os testes psicológicos da polícia; e o já referido Os Gémeos, que trata de forma brilhante o tema de Abel e Caim, já para não dizer de Jeckyll e Hyde, através do célebre caso judicial (também explorado por Ellery Queen) do crime cometido por gémeos, sem que seja possível estabelecer com certeza qual dos dois o cometeu (in dubio pro reo, e nenhum pode ser condenado) - neste caso, faz-se justiça (mais uma vez irónica) por via de um erro judicial.

As ilustrações de M. Kuwata, servem de precioso acompanhamento das várias narrativas, reforçando a sensação de estranhamento e familiaridade que este objecto perdido nas correntes do tempo não deixa de suscitar.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um livro por dia: OS EXPLORADORES DA LUA



Da caixinha de surpresas que foram os loucos anos da viragem de Portugal face à modernidade, nunca deixa de me surpreender o inesperado de algumas "uniões". As várias colecções que se foram estreando - e rapidamente perecendo - misturavam livremente ensaio com ficção, policial com horror, mainstream e os mais inesperados produtos da arte literária. Das uniões mais estranhas com que alguma vez me deparei, este OS EXPLORADORES DA LUA foi para mim durante muito tempo uma incógnita e, por fim, uma brilhante ironia.

Primeiro a estranheza da "união": um livro assumidamente de FC publicado por uma editora com conotações católicas - as EDIÇÕES SALESIANAS do Porto (e é curioso observar, a título de curiosidade, que quase metade dos títulos até agora referidos nesta série de posts, provém de casas editoriais situadas no norte do país). OS EXPLORADORES DA LUA veio-me parar às mãos por volta de 1999-2000, espreitando de uma qualquer banquinha de um alfarrabista do Porto. Achei curioso, não só a ilustração de capa, como o facto de existir um autor de FC português de que eu nunca ouvira falar. Discutindo o livro com o Jorge Candeias e a sua possível autoria, no Verão de 2001, ficamos temporariamente na dúvida sobre a sua nacionalidade, por via da referência no interior do volume ao facto de que este seria um "original distinguido no Concurso de Literatura Juvenil, com o prémio «ALITÁLIA» na modalidade de Aeronáutica e viagens planetárias", o que nos pareceu uma coisa muito pouco portuguesa. O Jorge sugeriu uma possível identidade Italiana (Sagunto, porém, fica em Espanha), sendo então o nome uma transliteração de Pietro de Sagunto. O nome dos filhos, porém, a quem o livro é dedicado não me sugeria uma tal origem e, à falta de mais elementos, a dúvida persistiu durante mais algum tempo.

Sucede que Pedro de Sagunto era realmente um autor português. Digo "era" porque, aos 91 anos, Sagunto faleceu na cidade do Pombal a 14 de Janeiro de 2008. Era o pseudónimo do autor Pedro Alves de Carvalho, nascido em Coimbra, mas residente de longa data no Pombal.

Para além deste OS EXPLORADORES DA LUA, um romance alegadamente escrito em 1968 e publicado pelas EDIÇÕES SALESIANAS em 1973, Sagunto deixou mais 16 livros e, de acordo com a sua neta Ana Rita, uma série de trabalhos inéditos ou inacabados. Dentre esses dezasseis livros, contam-se 3 novelas publicadas entre 1958 e 1963 na COLECÇÃO NEGRA da saudosa AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS (1948-1987), a primeira das quais - MATAR OU MORRER - teria sido o primeiro livro publicado com esse pseudónimo no intuito de convencer o leitor de que realmente se tratava de um autor estrangeiro (para reforçar essa ideia, o volume faz saber que o texto "original" foi traduzido por P. Alves de Carvalho, afinal o verdadeiro autor).

OS EXPLORADORES DA LUA é claramente um juvenile, escrito num estilo ligeiro e aventuresco, descrevendo uma Lua outrora coberta de oceanos onde nadavam monstros antediluvianos, mais inspirada pela imaginação de um Burroughs do que pela próxima/recente alunagem da Apolo XI. Diz quem conheceu Sagunto que era um homem que amava os livros e o cinema. Segundo noticiado, na urna em que foi a enterrar seguiu um volume dos NOVE AMANHÃS de Isaac Asimov.

Durante quase dez anos, os dez anos em que tive em meu poder este volume, e em que a amizade do António Marques - pai do Pedro Marques - que reside no Pombal, aí me levou várias vezes, podia ter-me cruzado com o desconhecido que escreveu o livro cuja autoria debatia com o Candeias. Apenas mais um triste exemplo de como o nosso género é negligenciado, e de como muitos autores são esquecidos demasiado cedo, muitas vezes por aqueles que melhor os deviam conhecer e celebrar.