domingo, 2 de novembro de 2008

Uma capa por dia / 30 dias de pulp


À laia de impiedosa ampulheta, marcando a cadência implacável para o final do prazo (prorrogado para 30 de Novembro) do concurso PULP FICTION À PORTUGUESA organizado pela Saída de Emergência, com coordenação de Luís Filipe Silva, o nosso vizinho Tecnofantasia resolveu assumir o desafio de publicar uma capa pulp por dia... acompanhada de um pequeno e delicioso conto que desenvolve a ideia sugerida pela capa, por vezes até conclusões surpreendentes.

Ora, antecipando o desafio, o Blade Runner começou já a publicar uma capa por dia: mas ao invés de recorrer à vasta iconoteca on-line, preferi seleccionar algumas capas da minha própria colecção de título de Ficção Científica, Fantasia e Horror, publicados em Portugal, e há muito desaparecidos dos catálogos e - às vezes - dos próprios alfarrabistas.

Mas, e para fazer o gosto ao dedo, e prosseguindo com a série que comecei a publicar, de forma errática, aqui, cá fica a capa da Science Fiction Adventures de Julho de 1962, que representa de forma exemplar a ideia de tempo a esgotar-se.

sábado, 1 de novembro de 2008

Um livro para o Halloween



O Horror sempre foi um género muito mal tratado entre nós. As poucas colecções que a ele se dedicaram - mormente a saudosa Livro B da Estampa e a menos saudosa Pêndulo da Europa-América - limitavam-se quase exclusivamente à reprodução de textos no domínio público, desde os clássicos (Stoker, Maupassant, Poe, Radcliff), passando por mistos quase indefiníveis de policial e macabro (Edgar Wallace), tie-ins cinematográficos (Carrie, Night of the Living Dead), obras que os próprios autores assinavam sob pseudónimo (o Funhouse de Clive Owen na Pêndulo não foi escrito senão pelo "mestre" Dean Koontz) e a inesperada pérola perdida por entre toda aquela mistela (o Damnation Game de Clive Barker, publicado em dois volumes na Pêndulo). Outras colecções foram inserindo volumes de forma aleatória entre títulos de FC e Policial (com aconteceu com a Bolso Noite da Europress) e títulos avulso foram vendo a luz do dia de quando em quando. No entanto, e sem qualquer exagero, podemos afirmar que o género moderno do Horror é quase totalmente desconhecido do público nacional.

Mas nem sempre foi assim. Ou melhor, houve um período mágico - que decorreu (talvez com alguma subjectividade) entre 1974 e 1985, ou seja, entre o 25 de Abril e a entrada na CEE - em que tudo nos parecia ser permitido. Com a queda da ditadura, gerou-se uma avalancha cultural, onde tudo aquilo de que os anos negros do Salazarismo-Marcelismo nos tiham privado se multiplicava agora de forma imparável: literatura, cinema, comics, revistas políticas, eróticas, pornográficas, fummetti, a New Age, os OVNI, o disco sound, o rock and roll, o despertar dos mágicos, o Satanismo, tudo era absorvido e reproduzido sem progressão, sequência ou critério. E, na ânsia de mostrar que éramos um país capaz de se modernizar, procurávamos mostrar que também éramos capazes de fazer igual. Muitas vezes sinto a necessidade de folhear algumas revistas da época, sobretudo a revista política de esquerda OPÇÃO, de que herdei a colecção quase completa do meu avô, e fico verdadeiramente aparvalhado com a variedade cultural, de oferta e de gostos que era possível satisfazer nesse período. Em 1978, as coisas começaram a mudar quando o governo proibiu a compra de dólares como forma de impedir a saída de divisas nacionais, assim impedindo o pagamento de direitos para publicação de material estrangeiro. Revistas como a saborosa Zakarella (dirigida por Roussado Pinto e publicando banda desenhada de horror da escola da EC Comics) extinguiram-se impossibilitadas de comprar material novo para publicar. Creio que foi nessa altura que se começou a gerar a nossa presente mediocridade.

Mas desse breve período, em que nos foram entreabertos os portões da modernidade e da civilização, muito ficou, não só na nossa memória, mas também nas prateleiras de alguns alfarrabistas. E, por vezes, oriundos de fontes verdadeiramente inesperadas: é o caso destes CONTOS DE TERROR, uma antologia em que José Vilhena (humorista e caricaturista que dispensa apresentações) não só editou e seleccionou os textos, como traduziu e elaborou a ilustração de capa. E uma coisa se pode dizer de Vilhena: ele conhece os seus autores. Desde o clássico A COISA NO HALL de E. F. Benson ao mais que clássico OS RATOS DO CEMITÉRIO de Henry Kuttner, são dezassete os contos muito bem traduzidos que compõe as 194 páginas deste volume.

Confesso que não consigo datar a edição, impressa no Centro Gráfico das Beiras (Fundão) e distribuído pela «Specil». Na ilustração de capa, penso conseguir ler a data de 1967 na lápide que se encontra em plano mais próximo, mas é impossível dizer se é essa a data da ilustração ou da própria edição. Seja como for, foi o primeiro livro de Horror que li na minha vida. O livro era do meu pai, e estava "escondido" entre os vários volumes da Biblioteca RTP da Verbo, os clássicos de Júlio Dinis (que tentei ler, sem sucesso), Fernando Namora (idem) e Ferreira de Castro (deste gostei). Isso teria sucedido algures em finais dos anos 70 ou começos dos 80, pois eu estaria a frequentar, ou os últimos anos da escola primária ou o primeiro do ciclo. Era uma altura em que o comboio fantasma que todos os anos visitava Viana nas Festas da Agonia exercia sobre mim um fascínio tal que os meus pais me proibiam de ler o que quer que fosse de horror, convencidos - há boa maneira dos anos 70 - que isso iria perturbar-me o sono. Mas eu li-o. Eu e o meu irmão, quando estávamos sozinhos em casa, eu lendo em voz alta, para assim melhor repartirmos o medo que da leitura pudesse advir. E que leitura! Desde o homem que era submetido a uma autópsia estando ainda consciente (A AUTÓPSIA de G. Heym) ao navio que viajava carregado de caixões (O NAVIO CEMITÉRIO de S. Paintbridge), a descoberta do segredo das estranhas estátuas numa ilha grega (A ILHA DO TERROR de William Sambrot), passando pelo meu favorito de sempre (A BRUXA de Williams Hines, uma história carregada de erotismo sobre uma bruxa que prende o destino de uma mulher ao de um pássaro), foram contos que eu li e reli, uma e outra vez, pois era o único livro de horror que possuía - sim, pois depressa o fiz meu, sonegando-o entre os inúmeros TIO PATINHAS, PATO DONALD e ALMANAQUE DISNEY que compunham a minha incipiente biblioteca. Depressa se lhe foram juntar alguns comics da Vampirella e dos Contos da Crypta (edição Brasileira) que eu conseguia comprar quando ainda se vendiam livros em segunda mão em Viana, graças à conta que o meu pai tinha aberto no Sr. Silva e que me permitia adquirir a minha BD até certo montante (como o montante era escasso, cada revistinha era um tesouro).

Mas, como dizem, não há amor como o primeiro e ao pegar neste pequeno volume esquecido na prateleira, não consigo deixar de sentir aquela magia dos primeiros tempos de contacto com a literatura fantástica. Nunca mais consegui encontrar nada de Williams Hines (um pseudónimo?) e nem a net me consegue ajudar. Mas o esqueleto vampírico e de cabeça rachada que me olha daquela magnífica capa azulada, não deixa nunca de me fazer evocar uma noite de infância, onde os vampiros, os ghouls e os lobisomens se movem entre a neblina de Verão e os morcegos recortam a sua silhueta contra a lua cheia que banha as lápides frias de um cemitério calmo e silencioso.


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Feliz Halloween


Hoje celebra-se a noite de Halloween. Não é festividade que tenha tradição entre nós, pesem embora as patéticas tentativas que se têm levado a cabo para adaptar a véspera de todos os santos (all hallows eve) à nossa primitiva Noite das Bruxas (que afinal, ao que dizem, é a de 30 de Abril para 1 de Maio). Porém, através do cinema e da literatura fantástica, vivemos já milhares de Halloweens, desde os de Carpenter aos de Bradbury, dos de Laymon aos de Chizmar. Halloweens idealizados, todos eles, provavelmente melhores que a verdadeira festa. Projecções de uma infância que nunca vivemos, como nunca vivemos as infâncias que idealizamos. Talvez por isso seja melhor o nunca termos experimentado um verdadeiro Halloween, com mães preocupadas, putos estúpidos e barulhentos, vizinhos mal-encarados e bêbados a vomitar pelos cantos.

Mas ansiamos pelos Halloween dos sonhos e da ficção, e por isso, com um sorriso de falsa nostalgia, vos desejo FELIZ HALLOWEEN.

Os 500 Melhores Filmes de Todos os Tempos


A revista EMPIRE de Novembro (edição nº233) que já está há alguns dias nos escaparates, resolveu organizar uma mega-sondagem entre profissionais do cinema, leitores da revista, críticos e meros entusiastas, para apurar quais os 500 melhores filmes de sempre. O resultado, como não pode deixar de ser nestas coisas, não colherá a unanimidade de todos (por favor, o Indy IV e o Phantom Menace entre os 500 melhores filmes de sempre? Nem nos primeiros cinco mil...). Para além de um claro anglocentrismo na escolha, que abarca apenas alguns clássicos do cinema Italiano, Francês, Alemão, Espanhol e Japonês (os suspeitos do costume), a escolha sofre, como quase sempre sucede, de uma memória muito curta e de um pendor esquizofrénico que engloba apenas os filmes criticamente bem recebidos, alguns filmes culto e grandes sucessos de bilheteira. Mas, como não interessa estar para aqui a questionar uma escolha tão arbitrária como qualquer outra (quase todos os filmes de Lynch, por exemplo, deveriam lá estar, a par de umas quantas pérolas de exploitation cinema que não são sequer referidas), importa reter pelo menos dois números: o primeiro - que mesmo excluindo alguns filmes infantis (pois obedecem a uma lógica fantástica distinta da do Fantástico) e algumas películas que se equilibram periclitantes na fronteira dos géneros, dos 500 filmes escolhidos, um total de 144 pertencem aos géneros da Ficção Científica, Fantasia e Horror (incluindo alguns thrillers macabros).

O segundo: que para celebrar a sua mega-sondagem, a EMPIRE resolveu levar esta edição às bancas com 100 capas alternativas. Dessas cem capas, e com os descontos supra referidos, 40 pertencem a filmes da área do Fantástico. Pela imagem acima, já podem ver qual foi a escolhida do Blade Runner.

sábado, 4 de outubro de 2008

CONVITE

João Seixas e Luís Filipe Silva, têm o prazer de convidar todos os leitores deste blogue, bem como os amantes da literatura fantástica em geral e da Ficção Científica em particular, e muito especialmente todos aqueles que têm aguardado com paciência a 2ª e 3ª parte da BONDADE DOS ESTRANHOS, a desvendar...



...actualizado todas as sextas-feiras, aqui.

E que melhor altura para o fazer, se não durante o Fórum Fantástico?

Hoje, no Fórum Fantástico



Para além do lançamento dos livros de David Soares e Richard Morgan, o programa de hoje do Fórum Fantástico apresenta um motivo de especial interesse: uma justa e merecida homenagem a António de Macedo (n.1931). Macedo assinou, entre 1962 e 1993 uma série de "fitas" (como ele próprio gosta de se lhes referir) próximas dos géneros do fantástico. Duas delas, Os Abismos da Meia Noite (1982) e Os Emissários de Khalôm (1987), entraram desabridamente pelos territórios de uma ficção científica de carácter místico, popularizada pela temática adopatada por grandes produções dos anos 60-70 como o 2001 (1968), o Phase IV (1974), Silent Running (1972) ou Solaris (1972) ou Stalker (1979), ainda que informadas de um estética muito anos 80 e das ficções de horror cosmológico de Lovecraft.



Para aqueles que como eu viveram a sua adolescência ns anos 80, esses filmes ficaram como marcos de uma promessa nunca cumprida do cinema português. Onde o mundo à nossa volta festejava 1984 como o ano da Ficção Científica por excelência, o cinema nacional voltava a fechar-se numa concha de realismo serôdio, oscilando como um pêndulo entre a estética pesada e imóvel de Oliveira e a acção derivativa e oca de Joaquim Leitão. Macedo teve a infelicidade de viver num buraco negro da actualidade, onde a informação penetra, mas não logra jamais transformar-se, libertar-se, desenvolver-se. Onde a Espanha produzia obras primas do fantástico por mãos de Jesus Franco, Ibañez Serrador, Jacinto Molina, Víctor Erice, et. all., e a França nos deslumbrava com um Jean Rollin, Portugal asfixiava Macedo sob a necessidade de subsídios, apoios e aprovações de uma polícia cultural bem-pensante que nunca chegou a ser extinta...



Macedo não gosta que se fale de homenagem... Por isso vou limitar-me a dizer que as estrelas da conversa de amanhã, em torno da vida e da obra de António de Macedo serão o próprio e José Matos-Cruz, amigo pessoal do realizador e autor de uma sua biografia, publicada em 200o pela D. Quixote e prontamente esgotada. Eu sei que o programa refere que eu vou estar também presente, mas essa é uma honra que apenas a generosidade do António me permite.



A conversa será acompanhada da projecção de uma curta metragem (23 minutos) assinada por António de Macedo em 1969, de seu nome ALMADA-NEGREIROS VIVO, HOJE. Com a participação de Natália Correia e David Mourão-Ferreira que lê alguns poemas do Mestre, é um precioso documento de uma época que já não volta, e um retrato - fico-me pelo retrato, para não dizer o destilar da essência - do ser Português, exposto através de curiosos diálogos e sessões de pergunta-resposta entre Macedo e Almada-Negreiros, ao mesmo tempo que uma surpreendente montagem de cenas - que vão da matança do porco à guerra do Vietnam e ao Apolo XI (Para quando um astronauta português na Lua?, pergunta Macedo; Almada-Negreiros, como se contemplasse a ideia no luzir das estrelas, afirmando sonhador, diria mesmo, desejoso: talvez um descendente de portugueses e americanos) serve de contra-ponto à realidade; momentos e imagens que são a alma de um povo ao qual só faltam as qualidades...



E a surpresa de ouvir a voz de Macedo, há quarenta anos, tão perfeitamente reconhecível, tão perfeitamente ele... vê-lo a dirigir os autores na adaptação de uma obra do Mestre... e recohecer ali o mesmo jovem de sempre, é uma experiência a não perder por todos os que amanhã nos acompanharem nesta deliciosa visita ao universo de Almada-Negreiros, que Macedo fez seu sem precisar de o roubar.



Macedo: Quando acha que teremos o homem a pisar a superfície de Júpiter?
Almada: É tão aproximado que vou atirar ao calhas... 2184.
Macedo: Acertou!


O meu agradecimento ao António de Macedo por me ter amavelmente cedido uma cópia da sua curta-metragem, de onde retirei os stills que foram ilustrando este post.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Amanhã no Fórum Fantástico 2008...

Da diversificada programação prevista para amanhã, Sábado, dia 04, tenho obrigatoriamente que destacar o lançamento de LISBOA TRIUNFANTE de David Soares e CARBONO ALTERADO de Richard Morgan, ambos publicados pela Saída de Emergência. No evento estarão presentes ambos os autores.




LISBOA TRIUNFANTE é o sugundo romance de David Soares e volta, de certa forma, à temática do seu livro anterior, escavando ainda mais fundo um nicho que começa a ser só seu: contar (um)a história secreta da Lisboa histórica, cultural, literária e artística que escapa aos nossos olhos mas não à nossa imaginação. É uma obra que, à semelhança de A CONSPIRAÇÃO DOS ANTEPASSADOS (Saída de Emergência, 2007), tece uma fascinante teia entre a realidade histórica e elementos de fantasia e horror a que as referências culturais tão típicas de Soares dão corpo e consistência. Talvez por isso, quem melhor do que o cineasta António de Macedo para apresentar este novo volume? É amanhã, às 17h00.



E, meia hora mais tarde, será a minha vez de apresentar Richard Morgan ao público português. Morgan surgiu na cena literária da ficção científica em 2002, com este CARBONO ALTERADO, que de uma só assentada arrebatou críticos, leitores, produtores cinematográficos e até colossos dos comics (Black Widow, anyone?), sendo galardoado em 2003 com o Philip K. Dick Award. CARBONO ALTERADO é um romance na veia do Future Noir, um policial hard-boiled em cenário futurista, escrito com a precisão de um bisturi. No entanto, mais do que a riqueza do cenário (cultural, religioso e tecnológico) que serve de tabuleiro à acção, é a personagem central do livro, o ex-Enviado Takeshi Kovaks (e, por favor, pronunciem correctamente Kova-sh, se querem continuar com a pilha cortical intacta) que permanece na memória depois de o leitor se ter deslumbrado com a mestria na construção do "mistério" que dá vida à história. Kovaks é ao mesmo tempo um duro e um cínico... inevitavelmente, como sempre acontece com os cínicos que falam com as armas, é também um romântico. Uma mistura explosiva, servida com doses saudáveis de violência prática, realista e necessária (por contra-ponto da violência tipo cartoon que é normal encontrar-se nas obras deste género).

Desde 2002, Morgan escreveu já mais cinco livros, Broken Angels, Woken Furies (ambos explorando outras facetas de Kovacs), Market Forces, The Black Man e, mais recentemente, The Steel Remains (uma primeira e peculiar incursão no universo da Fantasia Épica).